Sexta-feira, 31 de Julho de 2009

HÁ DEMÔNIOS NO SENTIDO QUE SE DÁ A ESTA PALAVRA?



“Se houvesse demônios, seriam obra de Deus. Mas, porventura, Deus seria justo e bom se houvera criado seres destinados eternamente ao mal e a permanecerem eternamente desgraçados? Se há demônios, eles se encontram no mundo inferior em que habitais e em outros semelhantes.
São esses homens hipócritas que fazem de um Deus justo, um Deus mau e vingativo e que julgam agradá-lo por meio das abominações que praticam em seu nome.”
A palavra demônio não implica a idéia de Espírito mau, senão na sua acepção moderna, porquanto o termo grego daïmon, donde ela derivou, significa gênio, inteligência e se aplicava aos seres incorpóreos, bons ou maus, indistintamente.
Por demônios, segundo a acepção vulgar da palavra, se entendem seres essencialmente malfazejos. Como todas as coisas, eles teriam sido criados por Deus. Ora, Deus, que é soberanamente justo e bom, não pode ter criado seres prepostos, por sua natureza, ao mal e condenados por toda a eternidade. Se não fossem obra de Deus, existiriam, como ele, desde toda a eternidade, ou então haveria muitas potências soberanas.
A primeira condição de toda doutrina é ser lógica. Ora, à dos demônios, no sentido absoluto, falta esta base essencial. Concebe-se que povos atrasados, os quais, por desconhecerem os atributos de Deus, admitem em suas crenças divindades maléficas, também admitam demônios; mas, é ilógico e contraditório que quem faz da bondade um dos atributos essenciais de Deus suponha haver ele criado seres destinados ao mal e a praticá-lo perpetuamente, porque isso equivale a lhe negar a bondade. Os partidários dos demônios se apóiam nas palavras do Cristo. Não seremos nós quem conteste a autoridade de seus ensinos, que desejáramos ver mais no coração do que na boca dos homens; porém, estarão aqueles partidários certos do sentido que ele dava a esse vocábulo? Não é sabido que a forma alegórica constitui um dos caracteres distintivos da sua linguagem? Dever-se-á tomar ao pé da letra tudo o que o Evangelho contém? Não precisamos de outra prova além da que nos fornece esta passagem:
“Logo após esses dias de aflição, o Sol escurecerá e a Lua não mais dará sua luz, as estrelas cairão do céu e as potências do céu se abalarão. Em verdade vos digo que esta geração não passará, sem que todas estas coisas se tenham cumprido.”
Não temos visto a Ciência contraditar a forma do texto bíblico, no tocante à Criação e ao movimento da Terra? Não se dará o mesmo com algumas figuras de que se serviu o Cristo, que tinha de falar de acordo com os tempos e os lugares? Não é possível que ele haja dito conscientemente uma falsidade. Assim, pois, se nas suas palavras há coisas que parecem chocar a razão, é que não as compreendemos bem, ou as interpretamos mal.
Os homens fizeram com os demônios o que fizeram com os anjos. Como acreditaram na existência de seres perfeitos desde toda a eternidade, tomaram os Espíritos inferiores por seres perpetuamente maus. Por demônios se devem entender os Espíritos impuros, que muitas vezes não valem mais do que as entidades designadas por esse nome, mas com a diferença de ser transitório o estado deles. São Espíritos imperfeitos, que se rebelam contra as provas que lhes tocam e que, por isso, as sofrem mais longamente, porém que, a seu turno, chegarão a sair daquele estado, quando o quiserem. Poder-se-ia, pois, aceitar o termo demônio com esta restrição. Como o entendem atualmente, dando--se-lhe um sentido exclusivo, ele induziria em erro, com o fazer crer na existência de seres especiais criados para o mal.
Satanás é evidentemente a personificação do mal sob forma alegórica, visto não se poder admitir que exista um ser mau a lutar, como de potência a potência, com a Divindade e cuja única preocupação consistisse em lhe contrariar os desígnios. Como precisa de figuras e imagens que lhe impressionem a imaginação, o homem pintou os seres incorpóreos sob uma forma material, com atributos que lembram as qualidades ou os defeitos humanos.
É assim que os antigos, querendo personificar o Tempo, o pintaram com a figura de um velho munido de uma foice e uma ampulheta. Representá-lo pela figura de um mancebo fora contra-senso. O mesmo se verifica com as alegorias da fortuna, da verdade, etc. Os modernos representaram os anjos, os puros Espíritos, por uma figura radiosa, de asas brancas, emblema da pureza; e Satanás com chifres, garras e os atributos da animalidade, emblema das paixões vis. O vulgo, que toma as coisas ao pé da letra, viu nesses emblemas individualidades reais, como vira outrora Saturno na alegoria do Tempo.

Pergunta 131 de "O livro dos Espíritos"
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 20:14

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Quinta-feira, 30 de Julho de 2009

II CONGRESSO ESPÍRITA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO


PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 19:37

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SEMINÁRIO


PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 19:08

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Quarta-feira, 29 de Julho de 2009

A ALMA APÓS A MORTE

A ALMA APÓS A MORTE

I - A VIDA E A MORTE

68. Qual é a causa da morte, nos seres orgânicos? - A exaustão dos órgãos.

68-a. Pode - se comparar a morte à cessação do movimento numa a máquina desarranjada?

- Sim, pois se a máquina estiver mal montada, a sua mola se quebra: se o corpo estiver doente, a vida se esvai.

69. Por que uma lesão do coração, mais que a dos outros órgãos, causa a morte?

- O coração é uma máquina de vida. Mas não é ele o único órgão em que uma lesão causa a morte; ele não é mais do que uma das engrenagens essenciais.

70. Em que se transformam a matéria e o princípio vital dos seres orgânicos, após a morte?

- A matéria inerte se decompõe e vai formar novos seres; o princípio vital retorna à massa.

Após a morte do ser orgânico, os elementos que o formaram passam por novas combinações, constituindo novos seres, que haurem na fonte universal o princípio da vida e da atividade, absorvendo-o e assimilando-o, para novamente o devolverem a essa fonte, logo que deixarem de existir.

Os órgãos estão, por assim dizer, impregnados de fluido vital. Esse fluido dá a todas as partes do organismo uma atividade que lhes permite comunicarem-se entre si, no caso de certas lesões, e restabelecerem funções momentaneamente suspensas. Mas quando os elementos essenciais do funcionamento dos órgãos foram destruídos, ou profundamente alterados, o fluido vital não pode transmitir-lhes o movimento da vida, e o ser morre.

Os órgãos reagem mais ou menos necessariamente uns sobre os outros; é da harmonia do seu conjunto que resulta essa reciprocidade de ação. Quando uma causa qualquer destrói esta harmonia, suas funções cessam, como o movimento de um mecanismo cujas engrenagens essenciais se desarranjaram; como um relógio gasto pelo uso, ou desmontado por um acidente, que a força motriz não pode pôr em movimento.

Temos uma imagem mais exata da vida e da morte num aparelho elétrico. Esse aparelho recebe a eletricidade e a conserva em estado potencial, como todos os corpos da Natureza. Os fenômenos elétricos, porém, não se manifestam enquanto o fluido não for posto em movimento por uma causa especial, e só então se poderá dizer que o aparelho está vivo. Cessando a causa da atividade, o fenômeno cessa: o aparelho volta ao estado de inércia. Os corpos orgânicos seriam, assim, como pilhas ou aparelhos elétricos nos quais a atividade do fluido produz o fenômeno da vida: a cessação dessa atividade ocasiona a morte.

II - A ALMA APÓS A MORTE

149. Em que se transforma a alma no instante da morte?

- Volta a ser Espírito, ou seja, retoma ao mundo dos Espíritos, que ela havia deixado temporariamente.

150. A alma conserva a sua individualidade após a morte?

- Sim, não a perde jamais. O que seria ela, se não a conservasse?

150-a. Como a alma constata a sua individualidade, se não tem mais o corpo material?

- Tem um fluido que lhe é próprio, que tira da atmosfera do seu planeta e que representa a aparência da sua última encarnação: seu perispírito.

150-b. A alma não leva nada deste mundo?

- Nada mais que a lembrança e o desejo de ir para um mundo melhor. Essa lembrança é cheia de doçura ou de amargor, segundo o emprego que tenha dado à vida. Quanto mais pura ela for, mais compreenderá a futilidade daquilo que deixou na Terra.

- 151. Que pensar da opinião de que a alma, após a morte, retorna ao todo universal?

- O conjunto dos Espíritos não constitui um todo? Quando estás numa assembléia, fazes parte integrante da mesma, e não obstante conservas a tua individualidade.

152. Que prova podemos ter da individualidade da alma após a morte?

- Não tendes esta prova pelas comunicações que obtendes? Se não estiverdes cegos, vereis; e se não estiverdes surdos, ouvireis; pois freqüentemente uma voz vos fala e vos revela a existência de um ser que está ao vosso redor.

Os que pensam que a alma, com a morte, volta ao todo universal estarão errados, se por isso entendem que ela perde a sua individualidade como uma gota d'água que caísse no oceano. Estarão certos, entretanto, se entenderem pelo todo universal o conjunto dos seres incorpóreos de que cada alma ou Espírito é um elemento.

Se as almas se confundissem no todo, não teriam senão as qualidades do conjunto, e nada as distinguiria entre si; não teriam inteligência nem qualidades próprias. Entretanto, em todas as comunicações elas revelam a consciência do eu e uma vontade distinta. A diversidade infinita que apresentam, sob todos os aspectos, é a conseqüência da sua individualização. Se não houvesse, após a morte, senão o que se chama o Grande Todo, absorvendo todas as individualidades, esse todo seria homogêneo, e então as comunicações recebidas do mundo invisível seriam todas idênticas. Desde que encontramos seres bons e maus, sábios e ignorantes, felizes e desgraçados, desde que há de todos os caracteres: alegres e tristes, levianos e sérios, etc., é evidente que se trata de seres distintos.

A individualização ainda se evidencia quando estes seres provam a sua identidade por meio de sinais incontestáveis, de detalhes pessoais relativos à vida terrena, e que podem ser constatados; ela não pode ser posta em dúvida quando eles se manifestam por meio das aparições. A individualidade da alma foi teoricamente ensinada como um artigo de fé, mas o Espiritismo a torna patente e, de certa maneira, material. (As teorias psicológicas, metapsíquicas e outras, sobre as aparições são hipóteses pessoais e parciais, que não abrangem a totalidade dos fatos e bastaria isso para provar a sua fragilidade e insustentabilidade científicas. (N. do T.))

153. Em que sentido se deve entender a vida eterna?

- É a vida do Espírito que é eterna: a do corpo é transitória, passageira. Quando o corpo morre, a alma retorna à vida eterna.

153-a. Não seria mais exato chamar vida eterna a dos Espíritos puros, que tendo atingido o grau de perfeição, não têm mais provas a sofrer?

- Essa é a felicidade eterna. Mas tudo isto é uma questão de palavras: chamai as coisas como quiserdes, desde que vos entendais.

II - SEPARAÇÃO DA ALMA E DO CORPO

154. A separação da alma e do corpo é dolorosa?

- Não; o corpo, freqüentemente, sofre mais durante a vida que no momento da morte; neste, a alma nada sente. Os sofrimentos que às vezes se provam no momento da morte são um prazer para o Espírito, que vê chegar o fim do seu exílio.

Na morte natural, que se verifica pelo esgotamento da vitalidade orgânica, em conseqüência da idade, o homem deixa a vida sem o perceber: é uma lâmpada que se apaga por falta de energia.

155. Como se opera a separação da alma e do corpo ?

- Desligando-se os liames que a retinham, ela se desprende.

155-a. A separação se verifica instantaneamente, numa transição brusca? Há uma linha divisória bem marcada entre a vida e a morte?

- Não; a alma se desprende gradualmente e não escapa como um pássaro cativo que fosse libertado. Os dois estados se tocam e se confundem, de maneira que o Espírito se desprende pouco a pouco dos seus liames; estes se soltam e não se rompem.

Durante a vida, o Espírito está ligado ao corpo pelo seu envoltório material ou perispírito; a morte é apenas a destruição do corpo, e não desse envoltório, que se separa do corpo quando cessa a vida orgânica. A observação prova que no instante da morte o desprendimento do Espírito não se completa subitamente; ele se opera gradualmente, com lentidão variável, segundo os indivíduos. Para uns é bastante rápido e pode dizer-se que o momento da morte é também o da libertação, que se verifica logo após. Noutros, porém, sobretudo naqueles cuja vida foi toda material e sensual, o desprendimento é muito mais demorado, e dura às vezes alguns dias, semanas e até mesmo meses, o que não implica a existência no corpo de nenhuma vitalidade, nem a possibilidade de retorno à vida, mas a simples persistência de uma afinidade entre o corpo e o Espírito, afinidade que está sempre na razão da preponderância que, durante a vida, o Espírito deu à matéria. É lógico admitir que quanto mais o Espírito estiver identificado com a matéria, mais sofrerá para separar-se dela. Por outro lado, a atividade intelectual e moral e a elevação dos pensamentos operam um começo de desprendimento, mesmo durante a vida corpórea, e quando a morte chega é quase instantânea. Este é o resultado dos estudos efetuados sobre os indivíduos observados no momento da morte. Essas observações provam ainda que a afinidade que persiste, em alguns indivíduos, entre a alma e o corpo, é às vezes muito penosa, porque o Espírito pode experimentar o horror da decomposição. Este caso é excepcional e peculiar a certos gêneros de morte, verificando-se em alguns suicidas.

156. A separação definitiva entre a alma e o corpo pode verificar-se antes da cessação completa da vida orgânica?

-Na agonia, às vezes, a alma já deixou o corpo, que nada mais tem do que a vida orgânica. O homem não tem mais consciência de si mesmo, e não obstante ainda lhe resta um sopro de vida. O corpo é uma máquina que o coração põe em movimento. Ele se mantém enquanto o coração lhe fizer circular o sangue pelas veias e, para isso, não necessita da alma.

157. No momento da morte a alma tem às vezes uma aspiração ou êxtase que lhe faz entrever o mundo para o qual regressa?

- A alma sente, muitas vezes, que se desatam os liames que a prendem ao corpo e então emprega todos os seus esforços para os desligar de uma vez. Já parcialmente separada da matéria, vê o futuro desenrolar-se ante ela e goza por antecipação do estado de Espírito.

158. O exemplo da larva que primeiro se arrasta pela terra, depois se fecha na crisálida, numa morte aparente, para renascer numa existência brilhante, pode dar -nos uma idéia da vida terrena, seguida do túmulo e por fim de uma nova existência?

- Uma pálida idéia. A imagem é boa, mas é necessário não tomá-la ao pé da letra, como sempre fazeis.

159. Que sensação experimenta a alma no momento em que se reconhece no mundo dos Espíritos?

- Depende. Se fizeste o mal com o desejo de fazê-lo, estarás, no primeiro momento, envergonhado de o haver feito. Para o justo, é muito diferente: ele se sente aliviado de um grande peso, porque não receia nenhum olhar perquiridor.

160. O Espírito encontra imediatamente aqueles que conheceu na Terra e que morreram antes dele?

- Sim, segundo a afeição que tenham mantido reciprocamente. Quase sempre eles o vêm receber na sua volta ao mundo dos Espíritos e o ajudam a libertar-se das faixas da matéria. Vê também a muitos que havia perdido de vista durante a passagem pela Terra; vê os que estão na erraticidade, bem como os que se encontram encarnados, que vai visitar.

161. Na morte violenta ou acidental, quando os órgãos ainda não se debilitaram pela idade ou pelas doenças, a separação da alma e a cessação da vida se verificam simultaneamente ?

- Geralmente é assim; mas, em todos os casos, o instante que os separa é muito curto.

162. Após a decapitação, por exemplo, o homem conserva por alguns instantes a consciência de si mesmo?

- Freqüentemente ele a conserva por alguns minutos, até que vida orgânica se extinga de uma vez. Mas muitas vezes a preocupação da morte lhe faz perder a consciência antes do instante do suplício.

Não se trata, aqui, senão da consciência que o supliciado pode ter de si mesmo como homem, por meio do corpo, e não como Espírito. Se não perdeu essa consciência antes do suplício, ele pode conservá-la por alguns instantes, mas de duração muito curta, e a perde necessariamente com a vida orgânica do cérebro. Isso não quer dizer que o perispírito esteja inteiramente desligado do corpo, mas, pelo contrário, pois em todos os casos de morte violenta, quando esta não resultada da extinção gradual das forças vitais, os liames que unem o corpo ao perispírito são mais tenazes, e o desprendimento completo é mais lento.

A quantidade de fluído vital não é a mesma em todos os seres orgânicos: varia segundo as espécies e não é constante no mesmo indivíduo, nem nos vários indivíduos de uma mesma espécie. Há os que estão, por assim dizer, saturado de fluído vital, enquanto outros o possuem apenas em quantidade suficiente. É por isso que uns são mais ativos, mais enérgicos e, de certa maneira, de vida superabundamente.

A quantidade de fluído vital se esgota. Pode tornar-se incapaz de entreter a vida, se não for renovada pela absorção e assimilação de substâncias que o contém. O fluído vital se transmite de um indivíduo a outro. Aquele que o tem em maior quantidade pode dá-lo ao que tem menos, e em certos casos fazer voltar uma vida prestes a extinguir-se.

Allan Kardec - O Livro dos Espíritos

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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 22:48

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ANTES MORRER DO QUE MATAR !


Desde pequena, as grandes livrarias atraíam poderosamente minha atenção, e nelas entrava com respeito religioso. Recordo-me que, há muitos anos, estando em Deva, visitei o palácio de Dom Leopoldo Augusto de Cueto e, ao entrar em sua biblioteca, verdadeira maravilha em todos os sentidos, ao ver as estantes artísticas que continham o que de melhor se escreveu entre os povos civilizados, confesso ingenuamente que não me prostrei de joelhos temendo que rissem de mim; mas se a alma pudesse tomar alguma postura, indubitavelmente a minha teria se reclinado, orando fervorosamente naquele magnífico santuário da sabedoria humana.
Nunca me esqueci daquele salão, no qual tudo falava; ali se respirava uma atmosfera diferente e, em nenhuma das catedrais que vi, senti aquela religiosidade e admiração que experimentei na biblioteca de Augusto de Cueto.
Refiro-me e estas recordações do meu passado para demonstrar que sou amante fervorosa da leitura. Mas, uma vez que para ler com proveito se necessita de tempo, que sempre me falta por diversos motivos, eis o motivo porque aproveito, em muitas ocasiões, as histórias que uns e outros vêm me contar, e até a opinião e o parecer dos seres mais humildes e ignorantes, seguindo nisto o conselho amigo que me deu, em Madri, O inolvidável escritor Roque Barcia que, com seu modo particular de gracejar, disse-me:
- Minha amiga, você riria se conhecesse alguns críticos das minhas obras. Não costumo consultar meus mais íntimos amigos, por duas razões muito poderosas: a primeira, porque o carinho cega a alguns; a segunda, porque a outros o verme da inveja lhes rói as entranhas, e o voto de nenhum deles tem valor para mim.
Minha mulher observou, durante algum tempo, que quando o carvoeiro vinha à minha casa, ao sair, parava diante do meu escritório e escutava com deleite o que eu lia em voz alta, fazendo sinais de aprovação, nos pontos mais culminantes dos meus escritos. Tenho o costume de escrever e ler cada parágrafo que traço no papel.
Certa manhã, fiz o carvoeiro entrar no meu escritório, dizendo-lhe:
- Vamos homem, minha mulher disse-me que és inteligente, e vou ler-te um capítulo de uma obra que estou escrevendo, para ouvir o teu parecer.
O moço sentou-se muito sério e voltou-se, todo ouvidos, para escutar minha leitura. Quando concluí, olhei-o e vi que em seu semblante se retratavam o desgosto e a contrariedade.
- O que te parece? Não gostou do que li?
- Não, senhor.
- Por que?
- Porque você ficou muito satisfeito insultando, mas não estarão assim os insultados. Você fere com esse escrito; mas não ensina, como em muitos outros, da sua autoria, que li.
O carvoeiro se foi, e voltei a ler o capítulo censurado, rasgando imediatamente as páginas porque, na realidade, nunca havia escrito nada pior em minha vida. Levei muitas vezes em conta as advertências daquele ser tão humilde, veja você, atendente de uma carvoaria: teria sido um cítico admirável.
Mas vejo que, entregue às minhas recordações, distanciei-me algum tempo do objetivo principal deste artigo, que é o de tributar uma homenagem de profunda admiração a dois homens que nunca vi, que não sei como se chamaram e que, todavia, se me fosse possível, faria uma viagem para deixar em sua tumba um ramo de flores.
Falando, há alguns dias, com um guarda civil, espírito muito adiantado, muito estudioso e muito observador, disse-me o seguinte:
- Amália, já que te fixas tanto nas coisas, contar-te-ei um fato raríssimo, que um companheiro meu presenciou, merecendo ele toda a minha confiança, e que, além disso, ouvi vários outros se referirem ao mesmo fato. Mas meu amigo, sobretudo, é para mim a melhor garantia da sua autenticidade, porque quanto à forma e à verdade não há quem o supere.
A província de Extremadura, há muitos anos, viu-se invadida por foragidos, de tal forma que a guarda civil não tinha descanso nem sossego, sempre na perseguição dos salteadores que roubavam, matavam, incendiavam, e eram o terror e o espanto dos pobres lavradores que perdiam suas economias, suas casas e até a vida. A tanto chegou o descaramento e a ousadia dos malfeitores, que o general que comandava a guarda civil ordenou que, sem formação de processo, se fuzilasse os bandidos onde fossem encontrados, pois só arrancando a erva má pela raiz, poderiam viver tranqüilas centenas de famílias consagradas aos trabalhos mais rudes.
A ordem foi obedecida e, nos bosques daquela pequena Ìndia da Espanha, pagaram com a vida, por muitas ações más, uma grande parte daqueles facínoras sem coração.
Uma tarde, um pelotão de guardas civis, comandados por um sargento, prendeu nove salteadores. Amarraram-nos fortemente, e empreenderam caminhada até chegar a um lugar apropriado para despachá-los para o outro mundo.
Entre os guardas, havia dois indivíduos que fazia pouco tempo que haviam se incorporado à força que perseguia, sem quartel, os bandoleiros; inteiraram-se, como os demais, do que tinham a fazer com os amigos do alheio e calaram, porque quem manda manda, e nada se pode fazer.
O sargento fez alto em uma taberna, esperando que o sol se pusesse. Os presos, bem custodiados, estavam sentados ao pé de alguns arbustos, e os guardas, uns passeavam esperando a ordem de marchar, e outros permaneciam sentados. Entre estes, estavam os dois indivíduos que tinham chegado ultimamente. Ninguém estava contente, porque matar a sangue-frio não é tarefa agradável. Mas, como na milícia quem não obedece paga com a vida, ninguém dizia uma palavra, nem má nem boa.
Afinal, disse o sargento: marchem! e os bandidos foram os primeiros a se porem de pé, rodeados pelos guardas, empreendendo, todos, o caminho; mas, depois de poucos passos, disse o sargento, com estranheza:
- Aqui falta gente. Voltou o rosto, e viu dois guardas sentados, mais distante, ao pé de pequena elevação. Estranhou tanto a desobediência que, ele mesmo, retrocedeu e, chegando até os dois, tocando bruscamennte no ombro de um deles, exclamou: Até quando durará esse sono? Ao tocar-lhe, o guarda se inclinou sobre seu companheiro e os dois caíram, rodando pelo solo como massas inertes. O sargento retrocedeu, assombrado; aqueles dois homens estavam mortos... !
O chefe das forças cumpriu sua tarefa e, em dois carros, foram conduzidos os cadáveres ao cemitério de povoado vizinho. Fizeram autópsia nos dois guardas mortos, e os médicos que a realizaram, disseram que não tinham lesão alguma; que eram, ao contrário, dois corpos sãos e robustos; que haviam morrido de angústia!
Os outros guardas recordaram, então, inclusive o sargento, a repugnância, o nojo que haviam mostrado ao saber que deviam matar os salteadores. Conforme viram que se aproximava a hora, que sensação tão dolorosa deveriam sentir, que angústia tão extraordinária experimentariam aqueles dois espíritos, para separar-se do seu organismo forte, são, vigoroso, no esplendor da juventude! Para romper tais laços, deveriam sentir todos os horrores da mais cruenta agonia, dizendo com a fortaleza dos mártires: Antes morrer do que matar!
Que dois espíritos tão elevados! Que almas tão desprendidas das misérias terrenas! Eis aí dois heróis, dois redentores, que preferiram morrer a destruir a sangue frio a vida dos outros! Como me seria agradável receber uma comunicação desses espíritos! Quem diria, ao vê-los de uniformes, que eram dois espíritos que odiavam os procedimentos da força? Tomaram por expiação tão nojenta carreira, e não puderam dobrar-se às suas horríveis exigências? Quem sabe ... ! Há tanto o que estudar na vida eterna do espírito ... !
Às vezes, no lodo, se encontram pérolas e, entre flores perfumadas, répteis repugnantes que se ocultam entre suas matizadas folhas.
Quantos dos que passam por filantropos e por homens de coração, dão de ombros quando estão na intimidade da família, se ouvem o relato de uma desdita horrível !
Por outro lado, outros, que querem uma nivelação social, quando vêem uma dessas cenas dolorosas, estremecem e, se não têm o que dar, pedem uma esmola para socorrer os que choram.
Quão poucos espíritos vivem no seu meio! Que nos ensina isto? Que esta vida é um capítulo da nossa história; não pode ser de outra maneira, deve-se admiitir a sobrevivência da alma.
Muito me fez pensar a morte dos dois guardas civis que viveram fora do seu meio. Por que elegeram a carreira das armas? Por que estiveram tão em contato com os vingadores de ofício de ações ilegais?
Almas generosas. Eu as admiro e lhes consagro minha recordação crendo que, ao chegar ao espaço minha primeira pergunta será: "Onde estão aqueles dois espíritos que disseram na Terra: Antes morrer do que matar'? Talves uma voz amiga me responda: "Vês aqueles dois sóis, cujos raios não podes fitar por sua refulgência deslumbrante? Pois é a nuvem fluídica que envolve esses dois espíritos, cuja luz ainda não podes contemplar sem cegar-te com seus vivos resplendores".
Amália D.Soler
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 18:22

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Segunda-feira, 27 de Julho de 2009

MISSÃO DOS ESPÍRITAS


“Em nossa reunião pública, no início das tarefas em pauta, O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XX, item 4, nos ofereceu a preleção sobre a “Missão dos Espíritas”. Vários comentaristas expuseram o assunto com muita elevação, salientando os valores e as facilidades da civilização moderna que traçara mais amplos caminhos de evolução para a vida planetár1a em que nos achamos.
No término dos estudos o nosso caro Emmanuel escreveu os apontamentos que lhe passo às mãos.
É uma página que nos leva a refletir profundamente quanto à necessidade das lições de Jesus em nossas experiências.”
NOTA – Como vemos nessa rápida explicação de Chico Xavier, o tema de estudo fornecido pelo Evangelho, sempre aberto ao acaso, não aparece ligado a conversações anteriores como habitualmente temos observado. É possível que Chico não tenha sido informado a respeito, pois há sempre
muitos problemas que lhe tornam a atenção antes do inicio dos trabalhos. Mas a verdade é que o assunto corresponde a uma das necessidades mais prementes do momento espírita que estamos vivendo, numa fase de transição da vida terrena em que as perturbações psíquicas se alastram de maneira alarmante.

PROGRESSO E VIDA

Emmanuel

Quem lance na Terra ligeiro olhar para a retaguarda de oito lustros se espantará certamente em verificando o progresso dentro do qual a vida planetária vai marchando aceleradamente, para o futuro melhor.
Ainda assim reconhecerá que as exigências de ordem espiritual não se alteraram muito no curso do tempo.
O homem de hoje dispõe fartamente da televisão pela qual consegue, se o deseja, contemplar de perto as ocorrências do mundo, no entanto, não possui autoconhecimento bastante para analisar-se de modo construtivo.
Inventa computadores que o auxiliam efetuando prodígios de informação e de cálculo, mas ainda não conhece, nas engrenagens perfeitas em que se expressam, as leis de causa e efeito que lhe presidem a experiência e o destino.
Utiliza a energia nuclear, todavia, ignora ainda toda a extensão dos poderes do espírito.
Realiza vôos espaciais aplicando os princípios da Astronáutica, entretanto, é compelido a receber aulas de relacionamento humano a fim de harmonizar-se com os vizinhos que não lhe adotem o modo de pensar ou de crer.
Vacina-se contra a poliomielite, mas não consegue, por enquanto, imunizar-se contra os perigos do ódio e do ressentimento, da discórdia e do desespero.
Desfruta os recursos do subsolo, até mesmo do próprio mar, e descobre minas de nitrogênio nos céus que o rodeiam, no entanto, não sabe manejar, senão muito imperfeitamente, os valores da alma.
Compreendamos que a Humanidade atual efetua proezas admiráveis em todos os domínios da natureza física, mas é necessário que os nossos corações se adaptem às leis do bem que Jesus nos legou, de modo a irmanar-nos e a respeitar-nos uns aos outros, sem o que o lazer na Terra ser-nos-á fator desencadeante de tédio e delinqüência e a grandeza exterior se nos erguerá em soberbo palácio – onde prosseguiremos sofrendo à míngua de amor.

RESPEITO PELOS OUTROS

Irmão Saulo

Todos somos naturalmente egocêntricos, pois o egocentrismo é a base da individualidade e conseqüentemente da personalidade. A pessoa humana é um ego conscientemente definido. E é necessário que seja assim, pois do contrário não seríamos um ser, uma consciência estruturada e capaz de agir. Mas o egoísmo é uma deformação do egocentrismo, uma doença do ego. Essa doença se manifesta por vários sintomas bem conhecidos: a arrogância, a avareza, o comodismo, a ganância e sobretudo a falta de respeito pelos outros.
A facilidade com que interferimos na vida alheia, com que xingamos, insultamos, caluniamos, julgamos os outros — é o maior flagelo que assola o mundo. Essa falta de respeito pelos outros é o fruto espinhento do egoísmo que gera os conflitos no lar, na sociedade, nas nações e na vida internacional.
Os espíritas, incumbidos da missão de restabelecer o Cristianismo na Terra, são os que mais necessitam de compreender esse problema. O primeiro dever dos espíritas, no tocante ao respeito pelo próximo, refere-se à própria doutrina que nos foi dada pelos Espíritos Superiores através do trabalho missionário de Allan Kardec.No entanto, a todo momento vemos espíritas que pretendem, sem o mínimo de conhecimento doutrinário exigível, reformar a doutrina e superar Kardec.
No item 4 do capítulo XX de O Evangelho Segundo o Espiritismo temos a bela mensagem de Erasto, discípulo do apóstolo Paulo, intitulada "Missão dos Espíritas" que devia ser lida e comentada constantemente nas reuniões doutrinárias. Erasto nos adverte: "Cuidado, que entre os chamados para o Espiritismo muitos se desviaram da senda! Atentai, pois, no vosso caminho — e buscai a verdade!"
Emmanuel, em sua mensagem, nos conclama ao amor e ao respeito mútuos, segundo "as leis do bem que Jesus nos legou". Amor a respeito não querem dizer anulação do discernimento e da personalidade, querem dizer compreensão. Precisamos amar, compreender e respeitar os outros, mas sempre nos lembrando do respeito que devemos ao Espírito da Verdade e à doutrina que ele nos legou. O primeiro sinal de obsessão num espírita, num adepto da doutrina, é a sua leviandade na aceitação das fábulas que desfiguram o ensino dos Espíritos do Senhor, a falta de respeito para com o Espírito da Verdade.

Do livro “Na Era do Espírito”. Psicografia de Francisco C. Xavier e Herculano Pires. Espíritos Diversos
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 22:04

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Domingo, 26 de Julho de 2009

A GRANDEZA DO INFINITO

O infinito, como que desconhecido para todos nós, é a casa de Deus, cujas divisões escapam aos nossos sentidos, mesmo os mais apurados. O Pai Celestial está, por assim dizer, no centro de todas as coisas que existem e, ainda mais, se encontra onde achamos a permanência do nada.
Se acreditamos somente naquilo que vemos e que tocamos, somos os mais infortunados dos seres, pois, desta forma agem também os animais. A razão nos diz, e a ciência confirma pelas inúmeras experiências dos próprios homens, que o desconhecido tem maior realidade. O que as almas encarnadas não vêem e não podem tocar definem a existência de força energética, senão inteligência exuberante, capaz de nos mostrar a verdadeira grandeza do infinito em todas as direções do macro e do microcosmo.
Se sentimos dificuldade para definir o que é a vida, certamente não sabemos explicar o que é o infinito, que está configurado na ordem dos mistérios de Deus. Compete a nós outros darmos as mãos em todas as faixas da existência e alistarmo-nos na escola do Senhor sem perda de tempo, sem desprezar o espaço a nós oferecido, por misericórdia do Criador.
Estamos situados em baixa escala, no pentagrama evolutivo. Falta-nos a capacidade de discernir certas leis que regem o universo, como as leis menores que nos sustentam todos em plena harmonia, como microvidas nos céus da Divindade. Devemos estudar constantemente, cada vez mais, no grande livro da natureza, cujas páginas somente encontraremos abertas, pela visão do amor. Nada errado existe na lavoura universal, o erro está em quem o encontra.
Basta pensarmos que o perfeito nada faz sem o timbre da sua perfeição, para crermos que tudo se encontra onde deve estar e onde a vontade do Senhor desejar.
Vivemos em um mundo de duras provas, de reajustes em busca da harmonia. O Cristo é a porta dessa felicidade, nos ensinando a conquistar este estado dalma com as nossas próprias forças, porque Deus sempre faz primeiro a sua parte em nosso favor, em favor de todos os seus filhos. Ninguém é órfão da Bondade Suprema.
O infinito é infinito para nós; para Deus é o seu Lar, onde vibra o amor e onde o perfume exalante é a alegria na sua pureza singular. É de ordem comum nos planos superiores, que devemos começar pelas lições mais elementares, que nos despertam o coração, primeiramente, para a luz do entendimento.
Querer buscar entender o profundamente desconhecido, sem se iniciar nos rudimentos da educação espiritual, é perder tempo e andar nas perigosas e escuras estradas da ignorância.
Se queremos conhecer alguma coisa, no que se refere ao infinito, principiemos na auto-educação dos costumes, observando quem já fez este trabalho, e copiemos suas lutas, que os céus da nossa mente abrir-se-ão e as claridades da sabedoria universal nos banharão com o esplendor da conscientização da Verdade.
Quem deixa para depois o conhecimento de si mesmo e tenta a sabedoria exterior, desconhece a verdadeira porta da felicidade. Cada Espírito é um mundo, um universo em miniatura, onde mora Deus e vibram todas as suas leis, em ação compatível com o tamanho da individualidade. Assim, para entender o infinito da Criação, necessário se faz começar a entender o infinito da alma.
pelo espírito Miramez
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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 20:28

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Quarta-feira, 22 de Julho de 2009

QUEREMOS VER DEUS

 

Narra João, no capítulo quatorze do Evangelho, que Jesus falava aos discípulos, no sermão do Cenáculo, preparando-os para sua partida, em breve, procurando solidificar-lhes a fé pela maior compreensão da vida espiritual, quando Filipe o interrompeu:
__ Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.
Talvez tenhamos pensado também, um dia, com a objetividade do apóstolo: Em vez de muitas palavras, longos discursos, extensas explicações, se Deus existe, que Ele nos apareça, que no-lo mostrem, e não perguntaremos mais nada.
Deus, porém, é Espírito, como o esclareceu Jesus à mulher samaritana (João 4, vs. 24), e o que é de natureza espiritual não pode ser visto com os olhos da carne.
Os olhos do corpo não permitem enxerguemos diretamente os espíritos. A não ser que estes estejam temporariamente materializados, quando, então, todos que não sejam cegos os poderão ver. Ou quando causam efeitos em nosso meio ambiente, como o resplendor que assinalou para Paulo, na estrada de Damasco, a presença de Jesus.
Os que vêem Espíritos enxergam-nos com os olhos da alma, pelas faculdades do seu perispírito, modernamente estudadas como percepção extrasensorial.
Quando Felipe pediu “Mostra-nos o Pai”, Jesus redargüiu:
__ Estou convosco há tanto tempo e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim, vê o Pai; como é que tu dizes; Mostra-nos o Pai?
Quem tivesse “olhos de ver”, quem soubesse observar, analisar e sentir, reconheceria em Jesus a mais alta expressão de espiritualidade que a Terra já pode receber. Uma natureza espiritual encarnada a revelar a sabedoria e o amor de Deus, seu divino Criador.
Filipe convivia com Jesus há anos, ouvira seus ensinamentos, presenciara seus admiráveis feitos. Se não se dera conta da realidade espiritual, que em Jesus atuava através de um corpo de carne, de modo visível para os olhos de todos, como poderia, então, “ver” Deus, puramente espírito?
Não será com os olhos da carne que veremos Deus. Nem ao desencarnar o enxergaremos, se não tivermos desenvolvida a sensibilidade para tanto.
Os véus que nos encobrem a visão de Deus não estão sobre a face divina mas em nós mesmos e chamam-se ignorância, orgulho, materialismo.
Mas desde já, exercitando a inteligência e a sensibilidade para acima e além da matéria, poderemos perceber Deus na vida universal, no micro e no macrocosmo. E quanto mais desenvolvermos e apurarmos nossas faculdades espirituais, mais veremos a Deus e o sentiremos. Em nós, em tudo e em todos.
Tribuna Espírita, Maio/Junho De 2001.
 
 
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 03:57

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Terça-feira, 21 de Julho de 2009

MEDITAÇÃO



Quando nas horas de íntimo desgosto, o desalento de invadir a alma e as lágrimas te aflorarem aos olhos, busca-ME; eu sou Aquele que sabe suforcar-te as lágrimas;
Quando te julgares incompreendido pelos que te circundam e vires que em torno a indiferença recrudesce, acerca-TE de Mim; eu sou a LUZ, sob cujos raios se aclaram a pureza de tuas intenções e a nobreza de teus sentimentos;
Quando se te extinguir o ânimo para arrastares as vicissitudes da vida e te achares na iminência de desfalecer, chama-ME; eu sou a FORÇA capaz de remover-te as pedras dos caminhos e sobrepor-te às adversidades do mundo;
Quando inclementes te açoitarem os vendavais da sorte e já não souberes onde reclinar a cabeça, corre para junto de MIM; eu sou o Refúgio, em cujo seio encontrarás guarida para o teu corpo e tranqüilidade para o teu espírito;
Quando te faltar a calma, nos momentos de maior aflição, e te julgares incapaz de conservar a serenidade de espírito, invoca-ME; eu sou a Paciência que te faz vencer os transes mais dolorosos e triunfas nas situações mais difíceis;
Quando te debateres nos paroxismos da dor e tiveres a alma ulcerada pelos abrolhos dos caminhos, grita por MIM; eu sou o Bálsamo que te cicatriza as chagas e te minora os padecimentos;
Quando o mundo te iludir com suas promessas falazes e perceberes que já ninguém pode inspirar-te confiança, vem a MIM; eu sou a Sinceridade, que sabe corresponder à franqueza de tuas atitudes e à excelsitude de teus ideais;
Quando a tristeza e a melancolia te povoarem o coração e tudo te causas aborrecimento, clama por MIM; eu sou a Alegria que te insufla um alento novo e te faz conhecer os encantos de teu mundo interior;
Quando um a um, te fenecerem os ideais mais belos e te sentires no auge do desespero, apela para MIM;
Quando a impiedade se recusar a revelar-te as faltas e experimentares a dureza do coração humano, procura-ME; eu sou o Perdão que te levanta o ânimo e promove a reabilitação de teu espírito;
Quando duvidares de tudo, até de tuas próprias convicções, e o ceticismo te avassalar a alma, recorre a MIM; eu sou a Crença, que te inunda de luz o entendimento e te reabilita para a conquista da felicidade;
Quando já não provares a sublimidade de uma afeição sincera e te desiludires do sentimento de teu semelhante, aproxima-te de MIM; eu sou a Renúncia que te ensina a olvidar a ingratidão dos homens e a esquecer a incompreensão do mundo;
Quando, enfim, quiseres saber quem Sou, pergunta ao riacho que murmura e ao pássaro que canta, à flor que desabrocha e à estrela que cintila, ao moço que espera e ao velho que recorda. Eu sou a dinâmica da Vida e a harmonia da Natureza; chama-ME Amor, o remédio para todos os males que te atormentam o espírito.
Estende-ME, pois, a tua mão, ó alma filha de minh’alma, que eu te conduzirei, numa seqüência de êxtases e deslumbramentos, às serenas mansões do infinito, sob a luz brilhante da Eternidade.
O Velador - Outubro e Novembro de 2000
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 19:57

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Domingo, 19 de Julho de 2009

RESGATES COLETIVOS




Entendíamo-nos com Silas, acerca de variados problemas, quando expressivo chamamento de Druso nos reuniu ao diretor da casa, em seu gabinete particular de serviço.
O chefe da Mansão foi breve e claro.
Apelo urgente da Terra pedia auxílio para as vítimas de um desastre aviatório.
Sem alongar-se em minúcias, informou que a solicitação se repetiria, dentro de alguns instantes, e conviria esperar a fim de examinarmos o assunto com a eficiência precisa.
Com efeito, mal terminara o apontamento e sinais algo semelhantes aos do telégrafo de Morse se fizeram notados em curioso aparelho. Druso ligou tomada próxima e vimos um pequeno televisor em ação, sob vigorosa lente, projetando imagens movimentadas em tela próxima, cuidadosamente encaixada na parede, a pequena distância. Qual se acompanhássemos curta notícia em cinema sonoro, contemplamos, surpreendidos, a paisagem terrestre.
Sob a crista de serra alcantilada e selvagem, destroços de grande aeronave guardavam consigo as vítimas do acidente. Adivinhava-se que o piloto, certamente enganado pelo traiçoeiro oceano de espessa bruma, não pudera evitar o choque com os picos graníticos que se salientavam na montanha, silenciosos e implacáveis, à maneira de medonhos torreões de fortaleza agressiva.
Em pleno quadro inquietante, um ancião desencarnado, de semblante nobre e digno, formulava requerimento comovedor, rogando à Mansão a remessa de equipe adestrada para a remoção de seis das catorze entidades desencarnadas no doloroso sinistro.
Enquanto Druso e Silas combinavam medidas para a tarefa assistencial, Hilário e eu olhávamos, espantados, o espetáculo inédito para nós ambos.
A cena aflitiva parecia desenrolar-se ali mesmo.
Oito dos desencarnados no acidente jaziam em posição de chague, algemados aos corpos, mutilados ou não; quatro gemiam, jungidos aos próprios restos, e dois deles, não obstante ainda enfaixados às formas rígidas, gritavam desesperados, em crises de inconsciência.
Contudo, amigos espirituais, abnegados e valorosos, velavam ali, calmos e atentos.
Figurando-se cascata de luz vertendo do Céu, o auxílio do Alto vinha, solícito, em abençoada torrente de amor.
O quadro patético era tão real à nossa observação, que podíamos ouvir os gemidos daqueles que despertavam desfalecentes, as preces dos socorristas e as conversações dos enfermeiros que concertavam providências à pressa...
De alma confrangida, vimos desaparecer a notícia televisada, enquanto Silas cumpria as ordens do comandante da instituição com admirável eficiência.
Em poucos instantes, diversos operários da casa puseram-se em marcha, na direção do local minuciosamente descrito.
Voltando ao gabinete em que lhe aguardávamos o retorno, Silas ainda se entendeu com o orientador, por alguns minutos, com respeito ao serviço em foco.
Foi então que Hilário e eu indagamos se não nos seria possível a participação na obra assistencial que se processava, no que Druso, paternalmente, não concordou, explicando que o trabalho era de natureza especialíssima, requisitando colaboradores rigorosamente treinados.
Cientes de que o generoso mentor poderia dispensar-nos mais tempo, aproveitamos o ensejo para versar a questão das provas coletivas.
Hilário abriu campo livre ao debate, perguntando, respeitoso, por que motivo era rogado o auxílio para a remoção de seis dos desencarnados, quando as vítimas eram catorze.
Druso, no entanto, replicou em tom sereno e firme:
- O socorro no avião sinistrado é distribuído indistintamente, contudo, não podemos esquecer que se o desastre é o mesmo para todos os que tombaram, a morte é diferente para cada um. No momento serão retirados da carne tão-somente aqueles cuja vida interior lhes outorga a imediata liberação. Quanto aos outros, cuja situação presente não lhes favorece o afastamento rápido da armadura física, permanecerão ligados, por mais tempo, aos despojos que lhes dizem respeito.
- Quantos dias? - clamou meu colega, incapaz de conter a emoção de que se via possuído.
- Depende do grau de animalização dos fluidos que lhes retêm o Espírito à atividade corpórea - respondeu-nos o mentor. - Alguns serão detidos por algumas horas, outros, talvez, por longos dias... Quem sabe? Corpo inerte nem sempre significa libertação da alma. O gênero de vida que alimentamos no estágio físico dita as verdadeiras condições de nossa morte. Quanto mais chafurdamos o ser nas correntes de baixas ilusões, mais tempo gastamos para esgotar as energias vitais que nos aprisionam à matéria pesada e primitiva de que se nos constitui a instrumentação fisiológica, demorando-nos nas criações mentais inferiores a que nos ajustamos, nelas encontrando combustível para dilatados enganos nas sombras do campo carnal, propriamente considerado. E quanto mais nos submetamos às disciplinas do espírito, que nos aconselham equilíbrio e sublimação, mais amplas facilidades conquistaremos para a exoneração da carne em quaisquer emergências de que não possamos fugir por força dos débitos contraídos perante a Lei. Assim é que "morte física" não é o mesmo que "emancipação espiritual".
- Isso, no entanto - considerei -, não quer dizer que os demais companheiros acidentados estarão sem assistência, embora coagidos a temporária detenção nos próprios restos.
- De modo algum - ajuntou o amigo generoso -, ninguém vive desamparado. O amor infinito de Deus abrange o Universo. Os irmãos que se demoram enredados em mais baixo teor de experiência física compreenderão, gradativamente, o socorro que se mostram capazes de receber.
- Todavia - reparou Hilário -, não serão atraídos por criaturas desencarnadas, de inteligência perversa, já que não podem ser resguardados de imediato?
Druso estampou significativa expressão facial e ponderou:
- Sim, na hipótese de serem surdos ao bem, é possível se rendam às sugestões do mal, a fim de que, pelos tormentos do mal, se voltem para o bem. No assunto, entretanto, é preciso considerar que a tentação é sempre uma sombra a atormentar-nos a vida, de dentro para fora. A junção de nossas almas com os poderes infernais verifica-se em relação com o inferno que já trazemos dentro de nós.
A explicação não poderia ser mais clara.
Talvez por isso, algo desconcertado pelo esclarecimento direto, meu companheiro que, tanto quanto eu, não desejava perder a oportunidade de mais ampla conversação, acentuou, humilde:
- Nobre instrutor, decerto não temos o direito de questionar qualquer determinação que lhe dimane da autoridade; ainda assim, estimaria conhecer mais profundamente as razões pelas quais nos é defeso o trabalho de colaboração nos serviços pertinentes ao socorro nos resgates de conjunto. Não poderíamos, acaso, cooperar com os obreiros desta casa, nas expedições de auxílio às vítimas de acidentes diversos, de modo a pesquisar as causas que os determinaram? Indiscutivelmente a Mansão, com as responsabilidades de que se encontra investida, desincumbir-se-á de trabalhos dessa espécie todos os dias...
- Quase todos os dias - corrigiu Druso, sem pestanejar.
E, fitando Hilário de estranha maneira, aduziu:
- É imperioso observar, porém, que vocês coletam material didático para despertamento de nossos irmãos encarnados, quase todos eles em fase importante de luta, no acerto de contas com a Justiça Divina. Analisando os resgates dessa ordem, vocês fatalmente seriam compelidos à autópsia de situações e problemas suscetíveis de plasmar imagens destrutivas no ânimo de muitos daqueles que ambos se propõem auxiliar.
Esboçando leve sorriso em que deixava transparecer a humildade que lhe adornava o espírito de escol, aditou:
- Parece-me que não seríamos capazes de comentar um desastre de grandes proporções, no campo dos homens, sem lhes insuflar o vírus do medo, tanta vez portador do desânimo e da morte.
A palavra do orientador, serena e evangélica, reajustava-nos os impulsos menos edificantes.
Inegavelmente, a Terra jaz repleta de criaturas, tanto quanto nós, algemadas a escabrosos compromissos, carentes de ação contínua para o necessário reequilíbrio. Não seria justo atormentá-las com pensamentos de temor e flagelação, quando através do bem, sentido e praticado, podemos cada hora arredar de nossos horizontes as nuvens de sofrimentos prováveis.
Assinalando-nos a atitude inequívoca de compreensão e de obediência, como não podia deixar de ser, o chefe da instituição continuou em tom afável, depois de ligeira pausa:
- Imaginemos que fossem analisar as origens da provação a que se acolheram os acidentados de hoje... Surpreenderiam, decerto, delinqüentes que, em outras épocas, atiraram irmãos indefesos do cimo de torres altíssimas, para que seus corpos se espatifassem no chão; companheiros que, em outro tempo, cometeram hediondos crimes sobre o dorso do mar, pondo a pique existências preciosas, ou suicidas que se despenharam de arrojados edifícios ou de picos agrestes, em supremo atestado de rebeldia, perante a Lei, os quais, por enquanto, somente encontraram recurso em tão angustioso episódio para transformarem a própria situação. Quantos milhares de irmãos encarnados possuímos nós, em cujas contas com os Tribunais Divinos figuram débitos desse jaca? Entretanto, não desconhecemos que nós, consciências endividadas, podemos melhorar nossos créditos, todos os dias. Quantos romeiros terrenos, em cujos mapas de viagem constam surpresas terríveis, são amparados devidamente para que a morte forçada não lhes assalte o corpo, em razão dos atos louváveis a que se afeiçoam!...
Quantas intercessões da prece ardente conquistam moratórias oportunas para pessoas cujo passo já resvala no cairel do sepulcro?!... quantos deveres sacrificiais granjeiam, para a alma que os aceita de boamente, preciosas vantagens na Vida Superior, onde providências se improvisam para que se lhes amenizem os rigores da provação necessária?! Bem sabemos que, se uma onda sonora encontra outra, de tal modo que as "cristas" de uma ocorram nos mesmos pontos dos "vales" da outra, esse meio, em conseqüência aí não vibra, tendo-se como resultado o silêncio. Assim é que, gerando novas causas com o bem, praticado hoje, podemos interferir nas causas do mal, praticado ontem, neutralizando-as e reconquistando, com isso, o nosso equilíbrio.
Desse modo, creio mais justo incentivarmos o serviço do bem, através de todos os recursos ao nosso alcance. A caridade e o estudo nobre, a fé e o bom ânimo, o otimismo e o trabalho, a arte e a meditação construtiva constituem temas renovadores, cujo mérito não será lícito esquecer, na reabilitação de nossas idéias e, conseqüentemente, de nossos destinos.
Entregara-se o chefe a mais longa pausa e, movido pelo propósito de aprender, indaguei de Druso se ele mesmo não teria acompanhado algum processo de resgate coletivo, em que os Espíritos interessados não teriam outro recurso senão a morte violenta, como remate aos dias do corpo denso, ao que o instrutor respondeu, presto:
- Guardo em minha experiência alguns casos expressivos que seria justo relacionar, no entanto, reportar-nos-emos simplesmente a um deles, pois nossas obrigações são inadiáveis.
Depois de momentos rápidos em que naturalmente apelava para a memória, comentou, benevolente:
- Há trinta anos, desfrutei o convívio de dois benfeitores, a cuja abnegação muito devo neste pouso de luz. Ascânio e Lucas, Assistentes respeitados na Esfera Superior, integravam-nos a equipe de mentores valorosos e amigos... Quando os conheci em pessoa, já haviam despendido vários lustros no amparo aos irmãos transviados e sofredores. Cultos e enobrecidos, eram companheiros infatigáveis em nossas melhores realizações. Acontece, porém, que depois de largos decênios de luta, nos prélios da fraternidade santificante, suspirando pelo ingresso nas esferas mais elevadas, para que se lhes expandissem os ideais de santidade e beleza, não demonstravam a necessária condição específica para o vôo anelado. Totalmente absortos no entusiasmo de ensinar o caminho do bem aos semelhantes, não cogitavam de qualquer mergulho no pretérito, por isso que, muitas vezes, quando nos fascinamos pelo esplendor dos cimos, nem sempre nos sobra disposição para qualquer vistoria aos nevoeiros do vale... Dessa forma, passaram a desejar ardentemente a ascensão, sentindose algo desencantados pela ausência de apoio das autoridades que lhes não reconheciam o mérito imprescindível. Dilatava-se o impasse, quando um deles solicitou o pronunciamento da Direção Geral a que nos achamos submissos. O requerimento encontrou curso normal até que, em determinada fase, ambos foram chamados a exame devido. A posição imprópria que lhes era característica foi carinhosamente analisada por técnicos do Plano Superior, que lhes reconduziram a memória a períodos mais recuados no tempo. Diversas fichas de observação foram extraídas do campo mnemônico, à maneira das radioscopias dos atuais serviços médicos no mundo e, através delas, importantes conclusões surgiram à tona... Em verdade, Ascânio e Lucas possuíam créditos extensos, adquiridos em quase cinco séculos sucessivos de aprendizado digno, somando as cinco existências últimas nos círculos da carne e as estações de serviço espiritual, nas vizinhanças da arena física; no entanto, quando a gradativa auscultação lhes alcançou as atividades do século XV, algo surgiu que lhes impôs dolorosa meditação... Arrebatadas ao arquivo da memória e a doer-lhes profundamente no espírito, depois da operação magnética a que nos referimos, reapareceram nas fichas mencionadas as cenas de ominoso delito por ambos cometido, em 1429, logo após a libertação de Orleães, quando formavam no exército de Joana d'Arc... Famintos de influência junto aos irmãos de armas, não hesitaram em assassinar dois companheiros, precipitando-os do alto de uma fortaleza no território de Gâtinais, sobre fossos imundos, embriagando-se nas honrarias que lhes valeram, mais tarde, torturantes remorsos além do sepulcro. Chegados a esse ponto da inquietante investigação, pela respeitabilidade de que se revestiam foram inquiridos pelos poderes competentes se desejavam ou não, prosseguir na sondagem singular, ao que responderam negativamente, preferindo liquidar a dívida, antes de novas imersões nos depósitos da subconsciência. Desse modo, em vez de continuarem insistindo na elevação a níveis mais altos, suplicaram, ao revés, o retorno ao campo dos homens, no qual acabam de pagar o débito a que aludimos.
- Como? - indagou Hilário, intrigado.
- Já que podiam escolher o gênero de provação, em vista dos recursos morais amealhados no mundo íntimo - informou o orientador -, optaram por tarefas no campo da aeronáutica, a cuja evolução ofereceram as suas vidas. Há dois meses regressaram às nossas linhas de ação, depois de haverem sofrido a mesma queda mortal que infligiram aos companheiros de luta no século XV.
- E o nosso caro instrutor visitou-os nos preparativos da reencarnação agora terminada? - inquiri com respeito.
- Sim, por várias vezes os avistei, antes da partida. Associavam-se a grande comunidade de Espíritos amigos, em departamento específico de reencarnação, no qual centenas de entidades, com dívidas mais ou menos semelhantes às deles, também se preparavam para o retorno á carne, abraçando, assim, trabalho redentor em resgates coletivos.
- E todos podiam selecionar o gênero de luta em que saldariam as suas contas? -perguntei, ainda, com natural interesse.
- Nem todos - disse Druso, convicto. – Aqueles que possuíam grandes créditos morais, qual acontecia aos benfeitores a que me reporto, dispunham desse direito.
Assim é que a muitos vi, habilitando-se para sofrer a morte violenta, em favor do progresso da aeronáutica e da engenharia, da navegação marítima e dos transportes terrestres, da ciência médica e da indústria em geral, verificando, no entanto, que a maioria, por força dos débitos contraídos e consoante os ditames da própria consciência, não alcançava semelhante prerrogativa, cabendo-lhe aceitar sem discutir amargas provas, na infância, na mocidade ou na velhice, através de acidentes diversos, desde a mutilação primária até a morte, de modo a redimir-se de faltas graves.
- E os pais? - inquiriu meu colega, alarmado. Em que situação surpreenderemos os pais dos que devem ser imolados ao progresso ou à justiça, na regeneração de si mesmos? a dor deles não será devidamente considerada pelos poderes que nos controlam a vida?
- Como não? - respondeu o orientador - as entidades que necessitam de tais lutas expiatórias são encaminhadas aos corações que se acumpliciaram com elas em delitos lamentáveis, no pretérito distante ou recente ou, ainda, aos pais que faliram junto dos filhos, em outras épocas, a fim de que aprendam na saudade cruel e na angústia inominável o respeito e o devotamento, a honorabilidade e o carinho que todos devemos na Terra ao instituto da família. A dor coletiva é o remédio que nos corrige as falhas mútuas.
Estabelecera-se longa pausa.
A lição como que nos impelia a rápidos mergulhos no mundo de nós mesmos.
Hilário, contudo, insatisfeito como sempre, perguntou, irrequieto:
- Instrutor amigo, imaginemos que Ascânio e Lucas, após a vitória de que nos dá notícia, continuem anelando a subida aos planos mais altos... Precisarão, para isso, de nova consulta ao passado?
- Caso não demonstrem a condição específica indispensável, serão novamente
submetidos à justa auscultação para o exame e seleção de novos resgates que se façam
precisos.
- Isso quer dizer que ninguém se eleva ao Céu sem quitação com a Terra?
O interlocutor sorriu e completou:
- Será mais lícito afirmar que ninguém se eleva a pleno Céu, sem plena quitação com a Terra, porquanto a ascensão gradativa pode verificar-se, não obstante invariavelmente condicionada aos nossos merecimentos nas conquistas já feitas. Os princípios de relatividade são perfeitamente cabíveis no assunto. Quanto mais céu interior na alma, através da sublimação da vida, mais ampla incursão da alma nos céus exteriores, até que se realize a suprema comunhão dela com Deus, Nosso Pai. Para isso, como reconhecemos, é indispensável atender à justiça, e a Justiça Divina está inelutavelmente ligada a nós, de vez que nenhuma felicidade ambiente será verdadeira felicidade em nós, sem a implícita aprovação de nossa consciência.
O ensinamento era profundo.
Cessamos a inquirição e, como serviço urgente requeria a presença de Druso, em outra parte, retiramo-nos em demanda do Templo da Mansão, com o objetivo de orar e pensar.


Texto integral do capitulo 18 do livro "Açao e Reação"de André Luiz
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 16:52

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