Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

DEUS: O LIVRO DOS ESPÍRITOS

 

I - DEUS E O INFINITO

1 - O que é Deus?

- Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.

2 - O que devemos entender por infinito?

- Aquilo que não tem começo nem fim: o desconhecido; todo o desconhecido é infinito.

3 - Poderíamos dizer que Deus é o infinito?

- Definição incompleta. Pobreza de linguagem dos homens, insuficiente para definir as coisas que estão além da sua inteligência.

Deus é infinito nas suas perfeições, mas o infinito é uma abstração; dizer que Deus é o infinito é tomar o atributo de uma coisa por ela mesma, definir uma coisa, ainda não conhecida, por outra que também não o é.

 

II - PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS

4 - Onde podemos encontrar a prova da existência de Deus?

- Num axioma que aplicais às vossas ciências: Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem, e vossa razão vos responderá.

Para crer em Deus é suficiente lançar os olhos às obras da Criação. O Universo existe; ele tem, portanto, uma causa. Duvidar da existência de Deus seria negar que todo efeito tem uma causa, e avançar que o nada pode fazer alguma coisa.

5 - Que consequência podemos tirar do sentimento intuitivo, que todos os homens trazem consigo, da existência de Deus?

- Que Deus existe; pois de onde lhes viria esse sentimento, se ele não se apoiasse em nada? É uma consequência do princípio de que não há efeito sem causa.

6 - O sentimento íntimo da existência de Deus, que trazemos conosco, não seria o efeito da educação e o produto de idéias adquiridas?

- Se assim fosse, por que os vossos selvagens também teriam esse sentimento?

Se o sentimento da existência de um ser supremo não fosse mais que o produto de um ensinamento, não seria universal nem existiria, como as noções científicas, senão entre os que tivessem podido receber esse sentimento.

7 - Poderíamos encontrar a causa primária da formação das coisas nas propriedades íntimas da matéria?

- Mas, então, qual seria a causa dessas propriedades? É sempre necessária uma causa primária.

Atribuir a formação primária das coisas às propriedades íntimas da matéria, seria tomar o efeito pela causa, pois essas propriedades são em si mesmas um efeito, que deve ter uma causa.

8 - Que pensar da opinião que atribui a formação primária a uma combinação fortuita da matéria, ou seja, ao acaso?

-Outro absurdo ! Que homem de bom senso pode considerar o acaso com um ser inteligente? E, além disso, o que é o acaso?

A harmonia que regula as forças do Universo revela combinações e fins determinados, e por isso mesmo um poder inteligente. Atribuir a formação primária ao acaso, seria uma falta de senso, o acaso é cego e não pode produzir efeitos inteligentes. Um acaso inteligente já não seria acaso.

9. Onde se pode ver, na causa primária, uma inteligência suprema, superior a todas as outras?

- Tendes um provérbio que diz o seguinte: Pela obra se conhece o autor. Pois bem: vede a obra e procurai o autor ! É o orgulho que gera a incredulidade. O homem orgulhoso nada admite acima de si, e é por isso que se considera um espírito forte. Pobre ser, que um sopro de Deus pode abater !

Julga-se o poder de uma inteligência pelas suas obras. Como nenhum ser humano pode criar o que a Natureza produz, a causa primária há de estar numa inteligência superior à Humanidade.

Sejam quais forem os prodígios realizados pela inteligência humana, esta inteligência tem também uma causa primária. É a inteligência superior a causa primária de todas as coisas, qualquer que seja o nome pelo qual o homem a designe.

 

III - ATRIBUTOS DA DIVINDADE

10. O homem pode compreender a natureza íntima de Deus?

- Não. Falta-lhe, para tanto, um sentido.

11. Será um dia permitido ao homem compreender o mistério da Divindade?

- Quando o seu espírito não estiver mais obscurecido pela matéria, e pela sua perfeição tiver se aproximado dela, então a verá e compreenderá.

A inferioridade das faculdades do homem não lhe permite compreender a natureza íntima de Deus. Na infância da humanidade, homem o confunde muitas vezes com a criatura, cujas imperfeições lhe atribui; mas, à medida que o seu senso moral se desenvolve, seu pensamento penetra melhor o fundo das coisas, e ele faz então, a respeito da divindade, uma idéia mais justa e mais conforme com a boa razão, embora sempre incompleta.

12 . Se não podemos compreender a natureza íntima de Deus, podemos ter uma idéia de algumas de suas perfeições?

- Sim, de algumas. O homem as compreende melhor à medida que se eleva sobre a matéria; ele as entrevê pelo pensamento.

13. Quando dizemos que Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, não temos uma idéia completa de seus atributos?

- Do vosso ponto de vista, sim, porque acreditais abranger tudo; mas ficai sabendo que há coisas acima da inteligência do homem mais inteligente, e para as quais a vossa linguagem, limitada às vossas idéias e às vossas sensações, não dispõe de expressões. A razão vos diz que Deus deve ter essas perfeições em grau extremo, pois se tivesse uma de menos, ou que não fosse em grau infinito, não seria superior a tudo e, por conseguinte, não seria Deus. Para estar acima de todas as coisas, Deus não deve estar sujeito a vicissitudes e não pode ter nenhuma das imperfeições que a imaginação é capaz de conceber.

DEUS É ETERNO. Se Ele tivesse tido um começo, teria saído do nada, ou, então, teria sido criado por um ser anterior. É assim que, pouco a pouco, remontamos ao infinito e à eternidade.

DEUS É IMUTÁVEL. Se Ele estivesse sujeito a mudanças, as leis que regem o Universo não teriam nenhuma estabilidade.

DEUS É IMATERIAL. Quer dizer, sua natureza difere de tudo o que chamamos matéria, pois, de outra forma, Ele não seria imutável, estando sujeito às transformaçôes da matéria.

DEUS É ÚNICO. Se houvesse muitos Deuses, não haveria unidade de vistas nem de poder na organização do Universo.

DEUS É TODO-PODEROSO. Porque é único. Se não tivesse o poder soberano, haveria alguma coisa mais poderosa ou tão poderosa quanto Ele, que assim não teria feito todas as coisas. E aquelas que Ele não tivesse feito seriam obra de um outro Deus.

DEUS É SOBERANAMENTE JUSTO E BOM. A sabedoria providencial das leis divinas se revela nas menores como nas maiores coisas, esta sabedoria não nos permite duvidar nem da justiça nem da bondade de Deus.

 

IV - PANTEÍSMO

14. Deus é um ser distinto, ou seria, segundo a opinião de alguns, o resultante de todas as forças e de todas as inteligências do Universo reunidas?

- Se assim fosse, Deus não existiria, porque seria efeito e não causa, ele não pode ser, ao mesmo tempo, uma coisa e outra.

- Deus existe, não o podeis duvidar, e isso é o essencial. Acreditai no que vos digo e não queirais ir além. Não vos percais num labirinto, de onde não poderíeis sair. Isso não vos tornaria melhores, mas talvez um pouco mais orgulhosos, porque acreditaríeis saber, quando na realidade nada saberíeis. Deixai, pois, de lado, todos esses sistemas; tendes de vos desembaraçar de muitas coisas que vos tocam mais diretamente. Isto vos seria mais útil do que querer penetrar o que é impenetrável.

15. Que pensar da opinião segundo a qual todos os corpos da natureza, todos os seres, todos os globos do Universo seriam partes da Divindade e constituiriam, pelo seu conjunto, a própria Divindade, ou seja, que pensar da doutrina panteísta?

- Não podendo ser Deus, o homem quer pelo menos ser uma parte de Deus.

16. Os que professam esta doutrina pretendem nela encontrar a demonstração dos atributos de Deus. Sendo os mundo infinitos. Deus é, por isto mesmo, infinito; o vácuo ou o nada não existindo em parte alguma. Deus está em toda parte; Deus estando em toda parte, pois que tudo é parte integrante de Deus, dá a todos os fenômenos da Natureza uma razão de ser inteligente. O que se pode opor a este raciocínio?

- A razão. Refleti maduramente e não vos será difícil reconhecer-lhe o absurdo.

Esta doutrina faz de Deus um ser material que, embora dotado de inteligência suprema, seria um ponto grande aquilo que somos em ponto pequeno. Ora, a matéria se transformando sem cessar, Deus, nesse caso, não teria nenhuma estabilidade e estaria sujeito a todas as vicissitudes e mesmo a todas as necessidades da humanidade; faltar-lhe-ia um dos atributos essenciais da Divindade: a imutabilidade. As propriedades da matéria não podem ligar-se à idéia de Deus, sem que o rebaixemos em nosso pensamento, e todas as sutilezas do sofisma não conseguirão resolver o problema da sua natureza íntima.

Não sabemos tudo o que ele é, mas sabemos aquilo que não pode ser, e este sistema está em contradição com as suas propriedades mais essenciais, pois confunde o Criador com a criatura, precisamente como se quiséssemos que uma máquina engenhosa fosse parte integrante do mecânico que a concebeu.

A inteligência de Deus se Revela nas suas obras, como a do pintor no seu quadro; mas as obras de Deus não são o próprio como o quadro não é o pintor que o concebeu e executou.

Allan Kardec

PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 01:02

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O UNIVERSO E DEUS

Acima dos problemas da vida e do destino levanta-se a questão de Deus.

Se estudamos as leis da Natureza, se procuramos o princípio das verdades morais que a consciência nos revela, se pesquisamos a beleza ideal em que se inspiram todas as artes, em toda parte e sempre, acima e no fundo de tudo, encontramos a idéia de um Ser superior, de um Ser necessário e perfeito, fonte eterna do Bem, do Belo e do Verdadeiro, em que se identificam a Lei, a Justiça e a suprema Razão.
O mundo físico ou moral é governado por leis, e essas leis, estabelecidas segundo um plano, denotam uma inteligência profunda das coisas por elas regidas. Não procedem de uma causa cega: o caos e o acaso não saberiam produzir a ordem e a harmonia. Também não emanam dos homens, pois que, seres passageiros, limitados no tempo e no espaço, não poderiam criar leis permanentes e universais. Para explicá-las logicamente, cumpre remontar ao Ser gerador de todas as coisas. Não se poderia conceber a inteligência sem personificá-la em um ser, mas esse ser não vem adaptar-se à cadeia dos seres. É o Pai de todos e a própria origem da vida.
Personalidade não deve ser entendida aqui no sentido de um ser com uma forma, porém, sim, como sendo o conjunto das faculdades que constituem um todo consciente. A personalidade, na mais alta acepção da palavra, é a consciência. É assim que Deus é antes a personalidade absoluta, e não um ser que tem uma forma e limites. Deus é infinito e não pode ser individualizado, isto é, separado do mundo, nem subsistir à parte.
Quanto a não se cogitar do estudo da causa primária, como inútil e incognoscível, conforme a expressão dos positivistas, perguntaremos se a um espírito sério é realmente possível comprazer-se na ignorância das leis que regulam as condições da sua existência. A indagação de Deus impõe-se, pois que ela é o estudo da grande Alma, do princípio da vida que anima o Universo e reflete-se em cada um de nós. Tudo se torna secundário quando se trata do princípio das coisas. A idéia de Deus é inseparável da idéia da Lei, principalmente da Lei moral, e, sem o conhecimento desta, nenhuma sociedade pode viver ou desenvolver-se. A crença em um ideal superior de justiça fortifica a consciência e sustenta o homem em suas provações. É a consolação, a esperança daqueles que sofrem, o supremo refúgio dos aflitos, dos abandonados. Como uma aurora, ela ilumina com seus brandos raios a alma dos desgraçados.
Sem dúvida, não se pode demonstrar a existência de Deus por provas diretas e sensíveis. Deus não se manifesta aos sentidos. A divindade ocultou-se em um véu misterioso, talvez para nos constranger a procurá-la, o que é o mais nobre e mais fecundo exercício da nossa faculdade de pensar, e também para não deixar o mérito de descobri-la. Porém, existe em nós uma força, um instinto seguro que para ela nos conduz, afirmando-nos sua existência com maior autoridade do que todas as demonstrações e todas as análises.
Em todos os tempos, debaixo de todos os climas - e isto foi a razão de ser de todas as religiões -, sentiu o Espírito humano essa tendência inata que corresponde a uma necessidade do mundo: a propensão de elevar-se acima de todas as coisas móveis, perecíveis, que constituem a vida material, acima de tudo o que é vacilante, transitório e que lhe não pode dar uma completa satisfação, para só inclinar-se ao que é fixo, permanente, imutável no Universo, a alguma coisa de absoluto e de perfeito, em que identifique todas as potências intelectuais e morais, e que seja um ponto de apoio no seu caminhar avante. Acha tudo isso em Deus, pois, fora dEle, nada pode dar-nos essa segurança, essa certeza, essa confiança no futuro, sem as quais flutuamos à mercê da dúvida e da paixão.
Objetar-nos-ão, talvez, com o uso funesto que as religiões fizeram da idéia de Deus. Mas, que importam as formas extravagantes que os homens têm emprestado à Divindade? Para nós, mais não são que deuses quiméricos, criados pela razão débil das sociedades, essas formas poéticas, graciosas ou terríveis, apropriadas às inteligências que as conceberam. O pensamento humano, agora mais amadurecido, afastou-se dessas velhas formas; esqueceu esses fantasmas e os abusos cometidos em seu nome, a fim de se dirigir com impulso poderoso à Razão eterna, para Deus, Foco Universal da vida e do amor, em que nos sentimos viver, como o pássaro no ar ou o peixe no oceano, e por quem nos sentimos ligados a tudo o que existe, foi e será!
A idéia de que as religiões vieram de Deus apoiava-se em uma revelação pretensamente sobrenatural. Ainda hoje admitimos uma revelação das leis superiores, porém racional e progressiva, que ao nosso pensamento se patenteia pela lógica dos fatos e pelo espetáculo do mundo. Essa revelação acha-se escrita em dois livros sempre abertos perante os nossos olhos: o livro do Universo onde, em caracteres grandiosos, aparecem as obras divinas; o livro da Consciência, no qual estão gravados os preceitos da moral. As instruções dos Espíritos, colhidas em todos os pontos do globo por processos simples e naturais, não fazem mais que confirmá-la. É por meio desse duplo ensino que a razão humana se comunica, no seio da Natureza universal, com a razão divina, cujas harmonias e belezas então compreende e aprecia.
Na hora em que se estendem pela Terra o silêncio e a noite, quando tudo repousa nas moradas humanas, se erguemos os nossos olhos para o infinito dos céus, lá veremos inumeráveis luzes disseminadas. Astros radiosos, sóis flamejantes seguidos de seus cortejos de planetas rodopiam aos milhões nas profundezas. Até às mais afastadas regiões, grupos estelares desdobram-se como esteiras luminosas. Em vão, o telescópio sonda os céus, em parte alguma do Universo encontra limites; sempre mundos sucedendo a mundos, e sóis, a sóis; sempre legiões de astros multiplicando-se, a ponto de se confundirem em poeira brilhante nos abismos infindáveis do espaço.
Quais as expressões humana que vos poderiam descrever os maravllhosos diamantes do escrínio celeste? Sírius, vinte vezes maior que o nosso Sol, e este, a seu turno, equivalendo a mais de um milhão de globos terrestres reunidos; Aldebaran, Vega, Prócion, sóis rosados, azuis, escarlates, astros de opala e de safira, sóis que derramais pela extensão os vossos raios multicores, raios que, apesar de uma velocidade de setenta mil léguas por segundo, a nós só chegam depois de centenas e de milhares de anos! E vós, nebulosas longínquas, que produzis sóis, Universos em formação, cintilantes estrelas, apenas perceptíveis, que sois focos gigantescos de calor, luz, eletricidade e vida, mundos brilhantes, esferas imensas, e vós, povos inumeráveis, raças, humanidades siderais que os habitais! Nossa fraca voz tenta, em vão, proclamar a vossa majestade, o vosso esplendor; impotente, ela se cala, enquanto nosso olhar fascinado contempla o desfilar dos astros!
Mas, quando esse olhar abandona os vertiginosos espaços para repousar sobre os mundos vizinhos da Terra, sobre as esferas filhas do Sol, que, como a nossa, gravitam em torno do foco comum, que se observa em sua superfície? Continentes e mares, montes e bancos de gelo acumulados em redor dos pólos. Observamos que esses mundos possuem ar, água, calor, luz, estações, climas, dias, noites, em uma palavra, todas as condições da vida terrestre que nos permitem presumir neles a morada de outras famílias humanas, crer que são habitados, o têm sido, ou o serão em algum dia. Tudo isto, astros resplandecentes, centros de sistemas, planetas secundários, satélites, cometas vagabundos, está suspenso no espaço, agita-se, afasta-se, percorre órbitas determinadas, e é levado em rapidez espantosa através das regiões infinitas da imensidade. Por toda parte, o movimento, a atividade, a vida manifestam-se no espetáculo do Universo, povoado de mundos inumeráveis, rolando sem repouso na profundeza dos céus!
Uma lei regula essa circulação formidável: a lei uniiversal da gravitação. Só por si, sustém e faz mover os corpos celestes; ela, só, dirige em torno dos sóis luminoosos os planetas obedientes. E essa lei rege tudo na Natureza, desde o átomo até o astro. A mesma força que, sob o nome de atração, retém os mundos em suas órbitas, também, sob o de coesão, grupa as moléculas e preside à formação dos corpos químicos.
Se, depois desse rápido olhar lançado sobre os céus, compararmos a Terra em que habitamos aos poderosos sóis que se baloiçam no éter, esta, ao pé deles, apenas nos aparecerá como um grão de areia, como um átomo flutuando no infinito. A Terra é um dos menores astros do céu. Entretanto, que harmonia em sua forma, que variedade em seus ornatos! Vede seus continentes recortados; suas penínsulas esguias e engrinaldadas de ilhas; vede seus mares imponentes, seus lagos, suas florestas e seus vegetais, desde o cedro que coroa o cimo das montanhas até a humilde florzinha oculta na verdura; enumerai os seres vivos que a povoam; aves, insetos e plantas, e reconhecereis que cada uma destas coisas é uma obra admirável, uma maravilha de arte e de precisão.
E o corpo humano não é um laboratório vivo, um instrumento cujo mecanismo chega à perfeição? Estudemos nele a circulação do sangue, esse conjunto de válvulas semelhantes às de uma máquina a vapor. Examinemos a estrutura dos olhos, esse aparelho tão complicado que excede tudo o que a indústria do homem pode sonhar; a construção dos ouvidos, tão admiravelmente dispostos para recolher as ondas sonoras; o cérebro, cujas circunvoluções internas se assemelham ao desabrochamento de uma flor. Consideremos tudo isso; depois, deixando o mundo visível, desçamos mais baixo na escala dos seres, penetremos nesses abismos da vida que o microscópio revela-nos; observemos esse formigar de raças e de espécies que confundem o pensamento. Cada gota dágua, cada grão de poeira é um mundo no qual os infinitamente pequenos são governados por leis tão exatas quanto as dos gigantes do espaço. Milhões de infusórios agitam-se nas gotas do nosso sangue, nas células dos corpos organizados. A asa da mosca, o menor átomo de matéria são povoados por legiões de parasitas. E todos esses animálculos são providos de aparelhos de movimento, de sistemas nervosos e de órgãos de sensibilidade que os fazem seres completos, armados para a luta e para as necessidades da existência. Até no seio do oceano, nas profunndezas de oito mil metros, vivem seres delicados, débeis, fosforescentes, que fabricam luz e têm olhos para vê-la. Assim, em todos os meios imagináveis, uma fecundidade ilimitada preside à formação dos seres. A Natureza está em geração perpétua. Assim como a espiga se acha em germe no grão, o carvalho na bolota, a rosa em seu botão, assim também a gênese dos mundos elabora-se na profundeza dos céus estrelados. Por toda parte a vida engendra a vida. De degrau em degrau, de espécies em espécies, num encadeamento, ela eleva-se dos organismos mais simples, os mais elementares, até ao ser pensante e consciente; em uma palavra, até ao homem.
Uma poderosa unidade rege o mundo. Uma só substância, o éter ou fluido universal, constitui em suas transformações infinitas a inumerável variedade dos corpos. Este elemento vibra sob a ação das forças cósmicas. Conforme a velocidade e o número dessas vibrações, assim se produz o calor, a luz, a eletricidade, ou o fluido magnético. Condensem-se tais vibrações, e logo os corpos aparecerão.
E todas essas formas se ligam, todas essas forças se equilibram, consorciam-se em perpétuas trocas, numa estreita solidariedade. Do mineral à planta, da planta ao animal e ao homem, do homem aos seres superiores, a apuração da matéria, a ascensão da força e do pensamento produzem-se em ritmo harmonioso. Uma lei soberana regula num plano uniforme as manifestações da vida, enquanto um laço invisivel une todos os Universos e todas as almas.
Do trabalho dos seres e das coisas depreende-se uma aspiração para o infinito, para o perfeito. Todos os efeitos divergentes na aparência convergem realmente para um mesmo centro, todos os fins coordenam-se, formam um conjunto, evolutem para um mesmo alvo. E esse alvo é Deus, centro de toda a atividade, fim derradeiro de todo o pensamento e de todo o amor.
O estudo da Natureza mostra-nos, em todos os lugares, a ação de uma vontade oculta. Por toda parte a matéria obedece a uma força que a domina, organiza e dirige. Todas as forças cósmicas reduzem-se ao movimento, e o movimento é o Ser, é a Vida. O materialismo explica a formação do mundo pela dança cega e aproximação fortuita dos átomos. Mas viu-se alguma vez o arremesso ao acaso das letras do alfabeto produzir um poema? E que poema o da vida universal! Já se viu, de alguma sorte, um amálgama de matérias produzir, por si mesmo, um edificio de proporções imponentes, ou um maquinismo de rodas numerosas e complicadas? Entregue a si mesma, nada pode a matéria. Inconscientes e cegos, os átomos não poderiam tender a um fim. Só se explica a harmonia do mundo pela intervenção de uma vontade. É pela ação das forças sobre a matéria, pela existência de leis sábias e profundas, que tal vontade se manifesta na ordem do Universo.
Objetam muitas vezes que nem tudo na Natureza é harmônico. Se produz maravilhas, dizem, cria também monstros. Por toda parte o mal ladeia o bem, se a lenta evolução das coisas parece preparar o mundo para tornar-se o teatro da vida, cumpre não perder de vista o desperdício das existências e a luta ardente dos seres. Cumpre não esquecer que tempestades, tremores de terra, erupções vulcânicas desolam algumas vezes a Terra, e destroem, em poucos momentos, os trabalhos de várias gerações.
Sim, sem dúvida, há acidentes na obra da Natureza, mas tais acidentes não excluem a idéia da ordem e de um desígnio; ao contrário, apóiam a nossa tese, pois poderíamos perguntar por que nem tudo é acidente.
A apropriação das causas aos efeitos, dos meios aos fins, dos órgãos entre si, sua adaptação às circunstâncias, às condições da vida são manifestas. A indústria da Natureza, análoga em bastantes pontos e superior à do homem, prova a existência de um plano, e a atividade dos elementos que concorrem para a sua realização denota uma causa oculta, infinitamente sábia e poderosa.
A objeção sobre o fato de existirem monstros provém de uma falta, de observação. Estes mais não são que germes desviados. Se, ao sair, um homem quebra uma perna, torna-se por isso responsável a Natureza ou Deus? Assim também, em conseqüência de acidente, de desordens sucedidas durante a gestação, os germes podem sofrer desvio no útero materno. Estamos habituados a datar a vida desde o nascimento, desde a aparição à luz, e, entretanto, ela tem o seu ponto de partida muito mais longe.
O argumento arrancado à existência dos flagelos tem por origem uma falsa interpretação do alvo da vida. Não deve esta trazer-nos somente vantagens; é útil é necessário que nos apresente também dificuldades, obstáculos. Todos nós nascemos e devemos morrer, e, no entanto, admiramo-nos de que certos homens morram por acidente! seres passageiros neste mundo, de onde nada levamos para além, lamentamo-nos pela perda de bens materiais, de bens que por si sós se teriam perdido em virtude das leis naturais! Esses acontecimentos espantosos, essas catástrofes, esses flagelos trazem consigo um ensino. Lembram que da Natureza não devemos só esperar coisas agradáveis, mas, principalmente, coisas propícias à nossa educação e ao nosso adiantamento; que não estamos neste mundo para gozar e adormecer na quietação, mas para lutar, trabalhar, combater. Demonstram que o homem não foi feito unicamente para a Terra, que deve olhar mais alto, dar-se às coisas materiais em justos termos, e refletir que seu ser não se destrói com a morte.
A doutrina da evolução não exclui a das causas primárias e das causas finais. A alta idéia que se pode fazer de um ordenador é supô-lo formando um mundo capaz de se desenvolver por suas próprias forças, e não por uma intervenção incessante, por contínuos milagres.
A Ciência, à proporção que se adianta no conhecimento da Natureza, tem conseguido fazer recuar a idéia de Deus, mas esta se engrandece, recuando. O Ser eterno, do ponto de vista teórico, tornou-se tão majestoso como o Deus fantástico da Bíblia. O que a Ciência derruiu para sempre foi a noção de um Deus antropomorfo, feito à imagem do homem, e exterior ao mundo físico. Porém, a essa noção veio substituir uma outra mais elevada, a de Deus, imanente, sempre presente no seio das coisas. Para nós, a idéia de Deus não mais exprime hoje a de um ser qualquer, porém, sim, a do Ser que contém todos os seres.
O Universo não é mais essa criação, essa obra tirada do nada de que falam as religiões. É um organismo imenso animado de vida eterna. Assim como o nosso corpo é dirigido por uma vontade central que governa os seus atos e regula os seus movimentos, do mesmo modo que através das modificações da carne nos sentimos viver em uma unidade permanente a que chamamos Alma, Consciência, Eu, assim também o Universo, debaixo de suas formas cambiantes, variadas, múltiplas, reflete-se, conhece-se, possui-se em uma Unidade viva, em uma Razão consciente, que é Deus.
O Ser supremo não existe fora do mundo, porque este é a sua parte integrante e essencial. Ele é a Unidade central onde vão desabrochar e harmonizar-se todas as relações. É o princípio de solidariedade e de amor, pelo qual todos os seres são irmãos. É o foco de onde se irradiam e se espalham no infinito todas as potências morais: a Sabedoria, a Justiça e a Bondade!
Não há, portanto, criação espontânea, miraculosa; a criação é continua, sem começo nem fim. O Universo sempre existiu; possui em si o seu princípio de força, de movimento. Traz consigo seu fito. O Universo renova-se incessantemente em suas partes; no conjunto, é eterno. Tudo se transforma, tudo evolute pelo jogo contínuo da vida e da morte, mas nada perece. Enquanto, nos céus, se obscurecem e se extinguem sóis, enquanto mundos envelhecidos desagregam-se e desfazem-se, em outros pontos, sistemas novos elaboram-se, astros se acendem e mundos vêm à luz. De par com a decrepitude e com a morte, humanidades novas desabrocham em eterno renovar.
E, através dos tempos sem-fim e dos espaços sem limites, a obra grandiosa prossegue pelo trabalho de todos os seres, solidários uns com os outros, e em proveito de cada um. O Universo oferece-nos o espetáculo de uma evolução incessante, para a qual todos concorrem, da qual todos participam. A essa obra gigantesca preside um principio imutável. É a Unidade universal, unidade divina, que abraça, liga, dirige todas as individualidades, todas as atividades particulares, fazendo-as convergir para um fim comum, que é a Perfeição na plenitude da existência. (Ele é UM, criação de si próprio, donde todas as coisas sairam; ele está nelas e as desenvolve; nenhum mortal jamais o viu, mas ele a todos observa.Hinos Órficos)
Ao mesmo tempo que as leis do mundo físico mostram-nos a ação de um sublime ordenador, as leis morais, por intermédio da consciência e da razão, falam-nos eloqüentemente de um princípio de justiça, de uma providência universal.
O espetáculo da Natureza, o aspecto dos céus, das montanhas, dos mares, apresentam ao nosso espírito a idéia de um Deus oculto no Universo.
A consciência mostra-o em nós, ou, antes, dá-nos alguma coisa dele, que é o sentimento do Dever e do Bem; é um ideal moral para onde tendem as faculdades do espírito e do coração. O dever ordena imperiosamente, impõe-se; sua voz domina todas as potências da alma. Possui uma força que impele os homens até ao sacrifício, até à morte. Por si só, dá à existência sua grandeza e sua dignidade. A voz da consciência é a manifestação em nós de uma Potência superior à matéria, de uma Realidade viva e ativa.
A razão igualmente nos fala de Deus. Os sentidos fazem-nos conhecer o mundo material, o mundo dos efeitos; a razão revela-nos o mundo das causas. A razão é superior à experiência. Esta verifica os fatos, a razão agrupa-os e deduz as suas leis. Por si só, demonstra que, na origem do movimento e da vida, se acha a Inteligência; que o menor não pode conter o maior, nem o inconsciente produzir o consciente, fato este que, entretanto, resultaria da concepção de um universo que se ignorasse a si mesmo. A razão descobriu as leis universais antes da experiência; o que esta fez foi tão-somente confirmar as suas previsões e fornecer as provas. Porém, há graus na razão; ela não é igualmente desenvolvida em todos os homens. Daí a desproporção e a variedade de opiniões.
Se o homem soubesse recolher-se e estudar a si próprio, se sua alma desviasse toda a sombra que as paixões acumulam, se, rasgando o espesso véu em que o envolvem os preconceitos, a ignorância, os sofismas, descesse ao fundo da sua consciência e da sua razão, acharia aí o princípio de uma vida interior oposta inteiramente à vida externa. Poderia, então, entrar em relação com a Natureza inteira, com o Universo e Deus, e essa vida lhe daria um antegozo daquela que lhe reservam o futuro de além-túmulo e os mundos Superiores. Aí também está o registro misterioso em que todos os seus atos, bons ou maus, ficam inscritos, em que todos os fatos de sua vida se gravam em caracteres indeléveis, para reaparecerem à hora da morte, como brilhante clarão.
Algumas vezes, uma voz poderosa, um canto grave e severo ergue-se dessas profundezas do ser, retumba no meio das ocupações frívolas e dos cuidados da nossa vida, a fim de chamar-nos ao dever. Infeliz daquele que recusa ouvi-la! Chegará o tempo em que o remorso ardente lhe ensinará que não se repelem impunemente as advertências da consciência.
Sim, há em cada um de nós fontes ocultas de onde podem brotar ondas de vida e de amor, virtudes, potências inumeráveis. É aí, é nesse santuário íntimo que cumpre procurar Deus. Deus está em nós, ou, pelo menos, há em nós um reflexo dEle. Ora, o que não existe não poderia ser refletido. As almas refletem Deus como as gotas do orvalho da manhã refletem os fogos do Sol, cada qual segundo o seu brilho e grau de pureza.
É por essa refração, por essa percepção interna, e não pela experiência dos sentidos, que os homens de gênio, os grandes missionários, os profetas conheceram Deus e suas leis, e revelaram-nas aos povos da Terra.
Pode-se levar mais longe do que temos feito a definição de Deus? Definir é limitar. Em face deste grande problema, a fraqueza humana aparece. Deus impõe ao nosso espírito, porém escapa a toda análise. O Ser que enche o tempo e o espaço não será jamais medido por seres limitados pelo tempo e pelo espaço. Querer definir Deus seria circunscrevê-lo e quase negá-lo.
As causas secundárias da vida se explicam, mas a causa primária permanece inacessível em sua imensidaade. Só chegaremos a compreendê-la depois de termos atravessado a morte bastantes vezes.
Para resumir, tanto quanto podemos, tudo o que pensamos referente a Deus, diremos que Ele é a Vida, a Razão, a Consciência em sua plenitude. É a causa eternamente operante de tudo o que existe. É a comunhão universal onde cada ser vai sorver a existência, a fim de, em seguida, concorrer, na medida de suas faculdades crescentes e de sua elevação, para a harmonia do conjunto.
Eis-nos bem longe do Deus das religiões, do Deus "forte e cioso" que se cerca de coriscos, reclama vítimas sangrentas e pune os réprobos por toda a eternidade. Os deuses antropomórficos passaram. Fala-se ainda muito de um Deus a quem são atribuídas as fraquezas e as paixões humanas, porém esse Deus vê todos os dias diminuir o seu império.
Até aqui o homem só viu Deus através de seu próprio ser, e a idéia que dele fez variava segundo o contemplava por uma ou outra de suas faculdades. Considerado pelo prisma dos sentidos, Deus é múltiplo; todas as forças da Natureza são deuses; assim nasceu o Politeísmo. Visto pela inteligência, Deus é duplo: espírito e matéria; daí o Dualismo. A razão esclarecida ele aparece triplo: alma, espírito e corpo. Esta concepção deu nascimento às religiões trinitárias da índia e ao Cristianismo. Percebido pela vontade, faculdade soberana que resume todas as outras, compreendido pela intuição íntima, que é uma propriedade adquirida lentamente, assim como todas as faculdades do gênio, Deus é Uno e Absoluto. Nele se ligam os três princípios constitutivos do Universo para formarem uma Unidade viva.
Assim se explica a diversidade das religiões e dos sistemas, tanto mais elevados quanto têm sido concebidos por espíritos mais puros e mais esclarecidos. Quando se consideram as coisas por cima, as oposições de idéias, as religiões e os fatos históricos se explicam e se reconciliam numa síntese superior.
A idéia de Deus, debaixo das formas diversas em que o têm revestido, evolve entre dois escolhos nos quais esbarraram numerosos sistemas. Um é o Panteísmo, que conclui pela absorção final dos seres no grande Todo. Outro é a noção do infinito, que do homem afasta Deus, e por tal sorte que até parece suprimir toda a relação entre ambos.
A noção do infinito foi combatida por certos filósofos. Embora incompreensível, não se poderia abandoná-la, porque reaparece em todas as coisas. Por exemplo: que há de mais sólido do que o edifício das ciências exatas? O número é a sua base. Sem o número não há matemáticas. Ora, é impossível, decorressem mesmo séculos, encontrar o número que exprima a infinidade dos números cuja existência o pensamento nos demonstra. O número é infinito; o mesmo sucede com o tempo e com o espaço. Além dos limites do mundo invisível, o pensamento procura outros limites que incessantemente se furtam à sua apreensão.
Uma só filosofia parece ter evitado esse duplo escolho e conseguido aliar princípios opostos na aparência. É a dos druidas gauleses. Assim se exprimiam na tríade 48:
"Três necessidades de Deus: ser infinito em si mesmo, ser finito para com o finito, e estar em relação com cada estado das existências no círculo dos mundos."
Assim, conforme este ensino, ao mesmo tempo simples e racional, o Ser infinito e Absoluto, por si próprio, faz-se relativo e flnito com as suas criaturas, desvendando-se sem cessar sob aspectos novos, na medida do adiantamento e elevação das almas. Deus está em relação com todos os seres. Penetra-os com o seu espírito, abraça-os com o seu amor, para uni-los em um laço comum, e assim auxiliá-los a realizar seus intentos nobres.
Sua revelação, ou, antes, a educação que Ele dá às humanidades faz-se gradual e progressivamente pelo ministério dos grandes Espíritos. A intervenção providencial está registrada na História por aparições em tempos prescritos, no seio dessas humanidades, pelas manifestações de almas eleitas, encarregadas de introduzirem nelas as inovações, as descobertas que acelerarão os seus progressos, ou de ensinar os princípios de ordem moral necessários à regeneração das sociedades.
O druidismo, em vez da teoria da absorção final dos seres em Deus, tinha a do "ceugant", círculo superior que encerrava todos os outros, morada exclusiva do Ser divino. A evolução e o progresso das almas, prosseguindo inflnitamente, não podiam ter fim.
Voltemos ao problema do mal, de que só incidentemente tratamos, e que a tantos pensadores tem preocupado.
Por que Deus, causa primária de tudo quanto existe, perguntam os cépticos, permite que no Universo subsista o mal? Vimos que o mal físico, ou o que é considerado tal, em realidade não é mais que uma ordem de fenômenos naturais. O caráter maléfico destes ficou explicado desde que foi conhecida a verdadeira origem das coisas. A erupção de um vulcão não é mais extraordinária que a ebulição de um vaso cheio dágua. O raio que derriba edifícios e árvores é da mesma natureza que a centelha elétrica, veiculo do nosso pensamento. Outro tanto sucede com qualquer fenômeno violento. Resta a dor fisica. Mas sabe-se que ela é a conseqüência da sensibilidade, e isso é já um magnífico conhecimento conquistado pelo ser depois de longos períodos que passou nas formas inferiores da vida. A dor é uma advertência necessária, um estimulante à vontade do homem, pois nos obriga a concentrarmos para refletir, e força-nos a domar as paixões. A dor é o caminho do aperfeiçoamento.
Porém, o mal moral, dirão, o vício, o crime, a ignorância, a vitória do mau e o infortúnio do justo, como explicá-los?
Primeiramente, em que ponto de vista se coloca quem pretende julgar estas coisas? Se o homem não vê senão uma partícula do mundo em que habita, se só considera a sua curta passagem pela Terra, como poderá conhecer a ordem eterna e universal? Para avaliar o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, o justo e o injusto cumpre nos elevarmos acima dos estreitos limites da vida atual, e considerar o conjunto dos nossos destinos. Então o mal aparece tal como é, como um estado transitório inerente ao nosso mundo, como uma das fases inferiores da evolução dos seres para o Bem. Não é em nosso mundo nem em nossa época que se deve procurar o ideal perfeito, mas na imensidade dos mundos e na eternidade dos tempos.
Entretanto, se seguirmos o aperfeiçoamento contínuo das condições vitais do planeta, a lenta evolução das espécies e das raças através das idades; se considerarmos o homem dos tempos pré-históricos, o antropóide das cavernas, com instintos ferozes, e as condições de sua vida miserável, e, se compararmos depois esse ponto de partida com os resultados obtidos pela civilização atual, veremos claramente a tendência constante dos seres e das coisas para um ideal de perfeição. A própria evidência, mostrando-nos que a vida sempre se melhora, se transforma e se enriquece, que o montante do bem aumenta sem cessar e que o dos males diminui, obriga-nos a reconhecer esse encaminhamento gradual das humanidades para o melhor.
Mesmo pondo em linha de conta os tempos de parada e, algumas vezes, até os retrocessos nesse grande movimento, ninguém deve esquecer que o homem é livre e pode dirigir-se à vontade num sentido ou em outro, não sendo possível o seu aperfeiçoamento senão quando a vontade está de acordo com a lei.
O mal, oposição à lei divina, não pode ser obra de Deus; é, portanto, obra do homem, a conseqüência da sua liberdade. Porém o mal, como a sombra, não tem existência real; é, antes, um efeito de contraste. As trevas se dissipam diante da luz; assim também o mal se evapora logo que o bem aparece. Em uma palavra, o mal é a ausência do bem.
Diz-se algumas vezes que Deus bem poderia ter criado as almas perfeitas, para assim lhes poupar as vicissitudes e os males da vida terrestre. Sem nos ocuparmos de saber se Deus poderia formar seres semelhantes a si, responderemos que, se assim fosse, a vida e a atividade universais, a variedade, o trabalho, o progresso não mais teriam um fito, e o mundo ficaria preso em sua imóvel perfeição. Ora, a magnífica evolução dos seres através dos tempos, a atividade das almas e dos mundos, elevando-se para o Absoluto, não é preferível a um repouso insípido e eterno? Um bem que não se tem merecido nem conquistado será mesmo um bem? E aquele que o obtivesse sem esforço poderia ao menos apreciar o seu valor?
Diante da vasta perspectiva de nossas existências, cada uma das quais é um combate para a luz, diante dessa ascensão prodigiosa do ser, elevando-se de círculos em círculos para o Perfeito, o problema do mal desaparece.
Sair das baixas regiões da matéria e ascender todos os degraus da imensa hierarquia dos Espíritos, libertar-se do jugo das paixões e conquistar uma a uma todas as virtudes, todas as ciências tal é o fim para o qual a Providência formou as almas e dispôs os mundos, teatros predestinados a lutas e trabalhos.
Acreditemos nela e bendigamo-la! Acreditemos nessa Providência generosa, que tudo fez para o nosso bem; lembremo-nos de que, se parecem existir lacunas em sua obra, essas só provêm da nossa ignorância e da insuficiência da nossa razão. Acreditemos em Deus, grande espírito da Justiça no Universo. Tenhamos confiança em sua sabedoria, que reserva compensações a todos os sofrimentos, alegria a todas as dores, e avancemos de coração firme para os destinos que Ele nos escolheu.
É belo, é consolador e doce poder caminhar na vida com a fronte levantada para os céus, sabendo que, mesmo nas tempestades, no seio das mais cruéis provas, no fundo dos cárceres, como à beira dos abismos, uma Providência, uma lei divina paira sobre nós, rege os nossos atos, e que, de nossas lutas, de nossas torturas, de nossas lágrimas, fez sair a nossa própria glória e a nossa felicidade. É aí, nesses pensamentos, que está toda a força do homem de bem!

Léon Denis - Depois da morte
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 00:02

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Sábado, 27 de Fevereiro de 2010

A EXPERIÊNCIA DE DEUS

 

 

Sacerdotes e pastores, homens de fé, sinceros e bons procuraram demonstrar-me que as religiões não estão em crise. Sustentaram que a crise é do homem e não das instituições religiosas. As religiões continuam vivas e atuantes no coração dos crentes - disseram mas os homens mundanos, que se entregam à loucura do século, conturbam a paisagem terrena. É necessário que os homens busquem a Deus, que tenham a experiência de Deus. E essa experiência só é possível quando o homem se desliga do mundo para ligar-se a Deus através da oração e da meditação. Falaram de milhares de pessoas que, no torvelinho da vida contemporânea, procuram todos os dias, a horas certas, o refúgio dos templos ou de um quarto solitário para tentar um encontro pessoal com Deus. Muitas dessas pessoas já conseguiram a audiência secreta com o Todo Poderoso. São criaturas felizes, iluminadas pela graça divina, que sustentam com sua fé inabalável a continuidade das religiões e garantem a sua expansão.

É bom que existam pessoas assim, dedicadas vestais que zelam pelo fogo sagrado. São os últimos abencerrages do formalismo religioso, flores de estufa cultivadas na penumbra das naves sagradas. Cuidam da fé como jardineiros especializados que cultivam uma espécie vegetal extremamente delicada. Acreditam que os seus canteiros floridos darão sementes para semeaduras ilimitadas por toda a superfície da Terra. Não percebem essas almas eleitas que cultivam exclusivamente a si mesmas, ocultam na aparência piedosa seus conflitos profundos e nada mais fazem do que fugir da realidade escaldante da vida. Não escondem a cabeça na areia, pois mergulham de corpo inteiro no sonho egoísta da salvação pessoal.

As práticas místicas do passado provaram mal a sua eficácia. Do Oriente ao Ocidente, multidões de gerações de crentes desfilaram sem cessar, através dos milênios, pelos templos de todas as religiões, convictas de haverem alcançado a salvação pessoal, enquanto hordas ferozes e exércitos em guerras de extermínio brutal cobriam o mundo de ruínas, cadáveres inocentes, sangue e lágrimas. Os que ouviram Deus em audiência particular não se recusaram a pegar em armas para estraçalhar seus irmãos considerados como réprobos e infiéis. Santos Bispos e Padres, pastores calvinistas, crentes populares, fidelíssimos e humildes, não acenderam suas lâmpadas votivas para iluminar as noites trevosas. Preferiram acender fogueiras inquisitórias e, quando o sol raiava, submeter piedosamente os hereges à morte redentora do garrote vil, réplica religiosa à guilhotina profana.

Lembro-me do episódio histórico de Jerônimo de Praga. Depois de haver assistido, pelas grades da prisão, seu mestre João Huss ser queimado vivo em praça pública, foi também glorificado com a graça especial de uma fogueira semelhante. No momento em que as chamas começavam a iluminar a sua figura estranha, caridosamente amarrada ao palanque do suplício (para salvação de sua alma rebelde) viu uma pobre velhinha aproximar-se da fogueira com uma acha de lenha e atirá-la ao fogo. Era a sua contribuição piedosa para a salvação do ímpio. Jerônimo exclamou apenas:

"Santa simplicidade!" Pouco depois estava reduzido a cinzas, para glória de Deus, e suas cinzas foram lançadas ritualmente nas águas do Reno.

Todas as formas de culto, todos os ritos, todos os sacramentos, todas as cerimônias religiosas, todos os cilícios foram empregados nos milênios sombrios do fanatismo religioso, para a salvação da Humanidade. E eis que agora chegamos a um tempo de descrença generalizada, de materialismo e ateísmo oficializados, de hipocrisia pragmática erigida em sustentáculo das religiões fracassadas. Deus falava diretamente com seu servo Moisés no deserto, falava-lhe cara a cara, ordenando matanças coletivas, genocídios tenebrosos, destruição total dos povos que impediam o acesso dos hebreus à terra dos cananeus, que seria tomada a fio de espada. Deus continua falando em particular a seus servos em nossos dias, para a sustentação das igrejas, enquanto o Diabo não perde tempo e alicia milhões de almas perdidas para as práticas do terrorismo, para a matança de crianças e criaturas inocentes, para assaltos e estupros em toda a face da Terra.

A experiência de Deus sustenta os crentes privilegiados e sustenta suas igrejas salvacionistas. E enquanto não chega a salvação, católicos e protestantes matam-se gloriosamente nas lutas fraticidas da Irlanda, em plena era das mais brilhantes conquistas da inteligência humana. Que estranha experiência é essa, que não revela os seus frutos, que não prova a sua eficácia? Deus estaria, acaso, demasiado velho para não perceber a inutilidade dos seus métodos de salvação pessoal em audiências privadas? E os seus servidores, os clérigos investidos de autoridade divina para implantar na Terra o Reino do Céu, porque não avisam o velho monarca da inutilidade milenarmente provada de sua técnica de conta-gotas?

Não seria mais certo tentarmos a revisão dos conceitos religiosos que nos deram a herança de tantos fracassos e tão espantosa expansão do materialismo e do ateísmo no mundo? Todas as grandes religiões afirmam a onipresença de Deus no Universo. Não obstante, todas consideram o mundo (criado por Deus) como profano, região em que as trevas dominam e o Diabo faz a incessante caçada das almas de Deus. É curioso lembrar que nos tempos mitológicos o mundo era considerado sagrado, a vida uma bênção, os prazeres naturais e as leis da procriação eram graças concedidas pelos deuses aos homens. O monoteísmo judaico, desenvolvido pelo Cristianismo, impregnou o mundo com a onipresença de Deus e o mundo tornou-se profano. Se Deus está presente num grão de areia, numa, folha de relva, num fio dos nossos cabelos e numa pena das asas de um pássaro, como, apesar dessa impregnação divina, o homem se defronta com a impureza do mundo? Por que estranho motivo necessitamos de ritos especiais para purificar a inocência de uma criança, se Deus está presente no seu olhar puro e límpido, no seu choro, na meiguice do seu rostinho ainda não marcado pelo fogo das paixões terrenas? E porque precisa o cadáver de recomendação, com aspersão de água benta, se a ressurreição dos mortos se faz, como ensina o Apóstolo Paulo na I Epístola aos Coríntios e como Jesus exemplificou na sua própria morte, no corpo espiritual e não no corpo material?

São esses e outros muitos problemas acumulados nos erros milenares dos teólogos que levam o homem contemporâneo à descrença e ao materialismo, ao ateísmo e ao niilismo. São todos esses erros que colocam as religiões em crise e as levarão à morte sem ressurreição. Considerando-se, porém, esse estranho panorama religioso da Terra numa perspectiva histórica, à luz da razão, compreende-se facilmente que os erros de ontem, até hoje sustentados pelas religiões, foram úteis e necessários nos tempos de ignôrancia, em que os problemas espirituais não podiam ser colocados em termos racionais. Há justificativas válidas para o passado religioso, mas não justificativas possíveis para o seu presente contraditório e absurdo. A tese, mais do que absurda, do Cristianismo Ateu, com que teólogos rebeldes procuram hoje remendar as vestes esfarrapadas das igrejas, só vem acrescentar maior confusão ao momento de agonia das religiões envelhecidas.

O problema da experiência de Deus poderia ser resolvido com um mínimo de reflexão. Se Deus está em nós, e por isso somos deuses em potência, segundo a própria expressão evangélica, porque necessitamos de uma busca artificial de Deus para termos a experiência da sua realidade? Se fomos criados por Deus e se Deus pôs em nós a sua marca, como afirmou Descartes - a idéia de Deus em nós, que é inata - já não trazemos, ao nascer, a experiência de Deus? E se, no desenvolver da vida humana, o homem nada mais faz do que cumprir um desígnio de Deus, assistido pelos Anjos Guardiães, porque tem ele de buscar a Deus através de uma prática artificial e egoísta, procurando preservar-se sozinho num mundo em que a maioria se perde irremediavelmente? Moisés supunha ter ouvido o próprio Deus no Sinai, mas o Apóstolo Paulo explicou que Deus lhe falara através de mensageiros, que são anjos. As pessoas que buscam hoje a experiência de Deus em audiência privada serão mais dignas do que Moisés, não estarão sujeitas a ouvir a voz de um anjo, que tanto pode ser bom quanto mau, pois as próprias igrejas admitem que os anjos decaídos andam à solta pela Terra procurando roubar para o Inferno as almas de Deus? Quem estará livre, na sua piedosa tarefa de salvar-se a si mesmo, de ser tentado pelo Diabo, que tentou o próprio Jesus nas suas meditações solitárias no Deserto?

As práticas místicas do passado não servem para a era da razão, em que nos encontramos na antevéspera da era do espírito. Orar e meditar é evidentemente um exercício religoso respeitável e necessário em todos os tempos. A oração nos liga aos planos superiores do espírito e a meditação sobre questôes elevadas desenvolve a nossa capacidade de compreensão espiritual. Mas o dogma da experiência de Deus através de um pretensioso colóquio direto e pessoal com a Divindade é uma proposição egoísta e vaidosa. Se Deus é o Absoluto e nós somos relativos, a humildade não nos aconselha a ter mais cautela em nossas relaçôes pessoais com a Divindade? São muitos os casos de perturbaçôes mentais, de obsessôes perigosas, de lamentáveis desequilíbrios psíquicos decorrentes de exageradas pretensôes das criaturas humanas no campo das práticas religiosas. A História das Religiões é marcada por terríveis experiências nesse sentido. Basta lembrarmos os casos de perturbações coletivas em conventos e mosteiros da Idade Média, onde os excessos de misticismo transformaram criaturas piedosas em vítimas de si mesmas, sujeitando-as não raro à própria condenação da igreja a que pertenciam e a que procuravam servir.

Os dogmas de fé, que formam a estrutura conceptual das igrejas, são as pedras de tropeço do seu caminho evolutivo. Partindo do princípio de que a Revelação Divina é a própria palavra de Deus dirigida aos homens, as igrejas se anquilosaram em seus dogmas intocáveis, pois a exegese humana não poderia alterar as ordenaçôes ao próprio Deus. Na verdade, a alteração se verificou em vários casos, apesar disso, mas decisões conciliares puseram a última pá de cimento nos erros cometidos. As estruturas eclesiásticas tornaram-se rígidas e as igrejas confirmaram, no seu espírito, a ossatura de pedra de suas catedrais. Vangloriam-se ainda hoje da sua imutabilidade, num mundo em que tudo evolui sem cessar. Os resultados dessa atitude ilusória e pretensiosa só poderiam ser nefastos, como vemos atualmente no lento e doloroso processo de agonia das religiões. Incidiram assim no pecado do apego, contra o qual os Evangelhos advertiram os homens. Apegaram-se de tal maneira à própria vida, que perderam a vida em abundância que Jesus prometeu aos que se desapegassem. As liberalidades atuais chegaram demasiado tarde.

A palavra dogma é grega e seu sentido original é opinião. Adquiriu em filosofia e religião o sentido de princípio doutrinário. Nas Escrituras religiosas aparece algumas vezes com o sentido de édito ou decreto de autoridades judaicas ou romanas. Entre o dogma religioso e o filosófico há uma diferença fundamental. O dogma religoso é de fé, princípio de fé que não pode ser contraditado, pois provém da Revelação de Deus. O dogma filosófico é racional, dogma de razão, ou seja, princípio de uma doutrina racionalmente estruturada. O sentido religioso superou os demais por motivo das conseqüências muitas vezes desastrosas da sua rigidez e imutabilidade. Se falarmos, por exemplo, em dogmática, esse termo é geralmente entendido como designando a estrutura dos dogmas fundamentais de uma religião. Por isso, a adjetivação de dogmática, que implica também o masculino, como nas expressões: pessoa dogmática, posição dogmática ou homem dogmático, significa intransigência de opiniões. O mesmo acontece com o substantivo dogmatismo, que designa um sistema de opiniões intransigentes.

Estas influências religiosas na semântica revelam a intensidade da rigidez a que as igrejas se entregaram, através dos séculos e dos milênios, na defesa da suposta eternidade de seus princípios básicos. Temos, portanto, no dogma de fé, um dos motivos fundamentais da crise das religiões em nossos dias. No Espiritismo, como em todas as doutrinas filosóficas, existem dogmas de razão, como o da existência de Deus, o da reencarnação, o da comunicabilidade dos espíritos após a morte. Muitos adeptos estranham a presença dessa palavra nos textos de uma doutrina que se afirma antidogmática, aberta ao livre exame de todos os seus princípios. São pessoas ainda apegadas ao sentido religioso da palavra. Não há nenhuma razão para essa estranheza, como já vimos, do ponto de vista cultural.

O problema da religião no Espiritismo tem provocado discussões e controvérsias infindáveis, porque essa doutrina não se apresenta como religião no sentido comum do termo. Allan Kardec, discípulo de Pestalozzi, adotava a posição de seu mestre no tocante à classificação das religiões. Pestalozzi admitia a existência de três tipos de religião: a animal ou primitiva, a social e a espiritual. Mas recusava-se a chamar esta última de religião, dando-lhe a designação de moralidade. lsso porque a religião superior ou espiritual, segundo ele, só era professada individualmente pela criatura que superava o ser social e desenvolvia em si o ser moral. Kardec recusou-se a falar em Religião Espírita, sustentando que o Espiritismo é doutrina científica e filosófica, de conseqüências morais. Mas deu a essas conseqüências enorme importância ao considerar o Espiritismo como desenvolvimento histórico do Cristianismo, destinado a restabelecer a verdade dos princípios cristãos, deformados pelo processo natural de sincretismo-religioso que originou as igrejas cristãs.

Essa posição espírita manteve a doutrina e o movimento doutrinário em posição marginal no campo religioso. Para os espíritas, entretanto, a posição da doutrina não é marginal, mas superior, pois o Espiritismo representaria o cumprimento da profecia evangélica da Religião em espírito e verdade, que se desenvolveria sob a égide do próprio Cristo. A religião espírita não se organizou em forma de igreja, não admite sacramentos nem admitiu nenhuma forma de autoridade religiosa de tipo sacerdotal. Não há batismo, nem casamento religioso no Espiritismo, nem confissões ou indulgências. Todos esses formalismos são considerados como de origem pagã e judaica. Entende-se o batismo como rito de iniciação, que , Jesus substituiu pelo batismo do espírito, sendo este considerado como a iniciação no conhecimento doutrinário, feita naturalmente pelo estudo da doutrina, sem nenhum ato ritual. Admite-se também que o batismo do espírito, segundo o texto do Livro de Atos dos Apóstolos sobre a visita de Pedro a casa do centurião Cornélius, no porto de Jope, pode completar-se, nos médiuns, quando se verifica espontaneamente, com o desenvolvimento da mediunidade.

Essa posição espírita no campo religioso causou numerosas dificuldades aos espíritas no tocante às relações de instituições doutrinárias com os poderes oficiais, particularmente para a declaração de religião em documentos oficiais, para o resguardo dos direitos escolares em face do ensino religioso, para a declaração de religião nos recenseamentos da população, até que medidas oficiais reconheceram esses direitos.

Em compensação, o Espiritismo ficou livre das conseqüências da crise religiosa, que não o atingiram. Sua contribuição para a racionalização dos princípios religiosos, para a reintegração da Religião no plano cultural, particularmente no tocante aos problemas científicos da atualidade, é realmente substancial. No campo filosófico a posição espírita é também vanguardeira, pois desde o século passado sua filosofia se apresenta como livre dos prejuízos do espírito de sistema, conservando-se aberta a todas as renovações que decorrem de descobertas cientificamente comprovadas. Livre da dogmática religiosa e da sistemática filosófica, apoiada inteiramente na pesquisa científica, a doutrina está de fato a cavaleiro nas crises da atualidade.

J. Herculano Pires - Agonia das Religiões

PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 19:09

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FRANCISCO DE MENEZES DIAS DA CRUZ

EM HOMENAGEM AOS 157 ANOS DE NASCIMENTO DE DIAS DA CRUZ.

Francisco de Menezes Dias da Cruz, natural da cidade do Rio de Janeiro, filho de antecedente de igual nome (chefe do Partido Liberal no Rio e professor da Faculdade de Medicina) e de D. Rosa de Lima Dias da Cruz, nasceu a 27 de Fevereiro de 1853. Foi professor de Matemática no Colégio Pinheiro, no qual concluíra o curso de humanidades. Era, nessa época, aluno da Escola de Medicina, durante a qual contraiu núpcias com a Exma. Sra. D. Adelaide Pinheiro Dias da Cruz. Ao formar-se em Medicina, perdeu o pai, que havia sido ferido à baioneta na Igreja do Sacramento. Foi bibliotecário durante dez anos da Câmara Municipal, sendo demitido ao ser proclamada a República, sob a falsa imputação de monarquista. Presidiu o Curso Hahnemaniano e o Instituto Hahnemaniano do Brasil.
Possuidor de enorme clínica, o Dr. Dias da Cruz não fugia aos deveres da caridade, dando, assim expansão aos seus sentimentos humanitários. Homem de grande e invulgar cultura, deixou riquíssima biblioteca. Estudioso desde a infância, preocupou-se com a ciência homeopática e, mais tarde, diante de provas irrefutáveis tornou-se espírita dos mais caridosos e evangélicos. É interessante relatar, ainda que superficialmente, a maneira por que se verificou sua conversão. Tendo chegado ao seu conhecimento que o espírito de seu genitor desenvolvia largo programa de caridade, através de médiuns receitistas, decidiu ele, homem austero e cultor da verdade, ir à Federação Espírita Brasileira para observar e apurar quanto de real pudesse haver em torno da informação recebida.
Iniciada a reunião com a prece habitual, passou-se ao estudo doutrinário. Até então nada ocorrera suscetível de lhe permitir aceitar a sessão das manifestações atribuídas ao espírito de seu pai. Já estava propenso a acreditar em mistificação, quando, à mesa que dirigia os trabalhos, um médium demonstrou haver caído em transe. Era, afinal, a tão desejada manifestação que inesperadamente se realizava. Através do médium, o Espírito do primeiro Dr. Dias da Cruz pediu que chamassem seu filho, que ali se encontrava no meio dos assistentes. Surpreso, este se aproximou, incrédulo. A um dado momento, porém, seu genitor disse-lhe:
- Você se lembra daquele fato que ocorreu conosco, na praça tal?
E, a seguir, revelou uma ocorrência só de ambos conhecida, Diante disso, o Doutor Dias da Cruz (filho) sentiu chegada a hora de se render à inelutável evidência. Ninguém o conhecia naquela assembléia e o fato referido pelo espírito era absolutamente desconhecido de toda a sua família, pois somente os dois dele haviam tido o conhecimento.
Percebeu, então, que ao seu caráter íntegro e probo só havia um caminho: aceitar a veracidade da manifestação espirítica de seu genitor. E fê-lo sem constrangimento, com a simpleza natural das almas puras. Pôs-se a estudar o Espiritismo, enfronhou-se na interpretação dos textos doutrinários e passou a ser, daí por diante, um novo e valoroso servidor do Cristo nas fileiras dos seguidores de Kardec.
Em 1885, pronuncia na Federação Espírita Brasileira a sua primeira conferência, e desde então participou de várias comissões importantes de defesa do Espiritismo (1890, 1892 e 1893).
Em 1890, em substituição ao Dr. Bezerra de Menezes, foi, então, o Dr. Francisco de Menezes Dias da Cruz, que anteriormente ocupava a vice-presidência, eleito presidente da Federação Espírita Brasileira, cargo que exerceu com devotamento até os primeiros dias de 1895, quando foi substituído, temporariamente, por Júlio César de Menezes, o "Kardec brasileiro", seu colega de profissão e amigo.
Sob a sua presidência foram iniciados os trabalhos de socorro material e espiritual da Assistência aos Necessitados, que até hoje constituem o cerne dos serviços cristãos prestados pela Federação Espírita Brasileira . Muitos foram os delicados companheiros que o ajudaram nessa obra grandiosa, mantida e desenvolvida com o maior carinho pela Casa de Ismael, sendo justo salientarmos, de passagem, o nome do confrade Bernardino Cardoso, o qual lhe entregava mensalmente a quantia de um conto de réis. Elevada importância para aqueles tempos (mais de 300 dólares), a fim de que fosse distribuída com os pobres de sua clinica, sob a condição de lhe não revelar o nome.
Em 1896, por proposta de Bezerra de Menezes, e em atenção aos abnegados serviços prestados à Federação Espírita Brasileira, foi Dias da Cruz aclamado presidente honorário da mesma.
Dirigiu o Reformador durante o período da sua presidência e escreveu inúmeros artigos doutrinários e de polêmica com assinatura modesta de " Um espírita ". É também autor do livro "O Professor Lombroso e o Espiritismo ".
Foi quem primeiro tentou, em 1891, adquirir um prédio próprio par a FEB e montar oficina tipográfica para a impressão do "Reformador" e de obras espíritas em geral.
Este segundo Dias da Cruz foi, portanto, vice-presidente e presidente da Federação durante muitos anos, desencarnando na cidade do Rio de Janeiro, em 30 de Setembro de 1937, na avançada idade de 84 anos. Gloriosa ancianidade essa, atingida após proveitoso dispêndio de energias em favor do próximo.
Em 1900, o Dr. Dias da Cruz reorganiza, ressuscita o "Instituto Hahnemaniano do Brasil ", que havia sido criado em 1878 pelo mais afamado médico homeopatia do Império, o Dr. Saturnino Soares de Meireles, seu primeiro presidente. Dias da Cruz alugou no centro da cidade, à rua da Quitanda n.º 59, uma casa para seu consultório, e neste reinstalou o Instituto Hahnemaniano do Brasil. Por Alguns anos os membros do Instituto ali se reuniram, datando dessa época um novo ciclo de grandes atividades e realizações.
Após a morte do Dr. Joaquim Murtinho, subiu à presidência do Instituto, por um ano, o Dr. Teodoro Gomes. Substituiu-o o Dr. Licínio Cardoso, sob a vice-presidência do Dr. Dias da Cruz. Esse foi o período áureo da Homeopatia no Brasil, e frisa um historiador que ao Dr. Dias da Cruz cabe grande parcela das glórias que o Instituto conquistou durante a presidência do Dr. Licínio Cardoso.
Os "Anais de Medicina Homeopática", cuja publicação fora interrompida em 1884, reapareceram em Janeiro de 1901, devido aos esforços do "mais puro dos homeopatas brasileiros", o Dr. Dias da Cruz, que arrancou a revista do Instituto do túmulo onde jazia, dando-lhe lugar honroso entre as publicações periódicas sobre Medicina. Dela foi ele redator de 1901 a 1902, e de 1906 a 1910.
Ficou célebre a polêmica (1900-1901) entre o doutor Dias da Cruz e o Dr. Nuno de Andrade, Diretor Geral de Saúde Pública, médico alopata e acirrado inimigo da Homeopatia, o qual acabou por ser exonerado do cargo que ocupava.
Fundada em 1912, a Faculdade Hahnemaniana (posteriormente denominada Escola de Medicina e Cirurgia, com sede atual à rua Frei Caneca), Dias da Cruz colaborou na organização dos programas de ensino do novel estabelecimento, no qual lecionou a cadeira da Farmacologia e, mais tarde, a 1ª cadeira de Matéria Médica, constituindo-se em verdadeiro mestre de toda uma nova geração.
Dias da Cruz foi por muitos anos o orador oficial do Instituto. Sua eloquência e seu saber impressionavam a todos. Quando da inauguração do Hospital Hahnemaniano, em 1916, discursou brilhantemente em nome do Instituto, ante numerosa e ilustrada assistência, presentes Licínio Cardoso, Carlos Maximiliano, Ministro da Justiça, o Barão de Brasílio Machado, Presidente do Conselho Superior do Ensino, o Dr. Paulo de Frontin, Diretor da Escola Politécnica, e representantes do Presidente da República e de Ministérios em geral.
Em 1926, o Dr. Licínio Cardoso pede demissão da presidência do Instituto, sendo eleito, para substituí-lo, o Dr. Fransisco de Menezes Dias da Cruz. Este exerceu o cargo de Presidente efetivo até 29 de Janeiro de 1930. Nesse dia, reunido o Instituto em sessão extraordinária, foi aclamado presidente-perpétuo o Dr. Dias da Cruz, após este haver renunciado, por motivo de saúde, ao cargo de Presidente para o qual acabava de ser reeleito. "Sua aclamação" - escreveu um historiador - "foi um direito conquistado por seu valor mora, sua capacidade intelectual e, sobretudo, por firmeza de suas convicções homeopáticas".
De 25 a 30 de Setembro de 1926 foi realizado o 1º Congresso Brasileiro de Homeopatia, sob a presidência do Dr. Dias da Cruz.
Propagandista dos mais convictos e autorizados, possuidor de excelente cultura médica, mestre reconhecido pela sua proficiência, com vasta clínica em que abundaram notabilíssimas curas, constituiu ele, por mais um século, "um dos grandes marcos no progresso da Homeopatia no Brasil". "Não erramos afirmando"- escreveu o Dr. José Emígdio Rodrigues Galhardo - "ser o Dr. Dias da Cruz, entre os homeopatas brasileiros, aquele que maiores e mais perfeitos conhecimentos tem da doutrina hahnemaniana".
Dizem os seus contemporâneos que o cumprimento do dever era quase que sagrado para o Dr. Dias da Cruz. Como professor, jamais deixou de comparecer à hora certa em suas aulas. Como clínico no Hospital Hahnemaniano, não se fazia esperar pelos doentes .
Eis em síntese, a brilhante personalidade daquele que dignificou o Espiritismo e a Homeopatia no Brasil.

WANTUIL, Zêus. Grandes Espíritas do Brasil. FEB, 1ª edição. RJ
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 15:56

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O MOÇO DO LENÇOL

"MAS ELE, LARGANDO O LENÇOL, FUGIU NU". (MARCOS, 14:52)

Jesus Cristo havia sido preso e os apóstolos dispersados. Um cortejo de soldados romanos, fariseus e emissários dos rabinos do Templo, levava o Mestre para a cidade, onde teriam lugar a sua flagelação, condenação e crucificação. Narra o evangelista Marcos (14:51:52) que atrás de todos seguia um mancebo envolto num lençol. Ao ser notado pelos presentes, estes tentaram agarrá-lo, entretanto, abandonando o lençol, o moço fugiu nu.
Essa passagem evangélica, aparentemente destituída de qualquer profundidade, nos oferece um ensinamento de relevante importância: o moço nu simboliza a verdade, que naquela altura dos acontecimentos não poderia mais ser apregoada diretamente pelo Mestre. Haviam na realidade aprisionado o enunciador da Verdade, mas a Verdade em si jamais poderia ser tolhida ou aniquilada.
Os detratares de Jesus Cristo ficaram apenas com o lençol, que foi usado durante vinte séculos no propósito de acobertar todas as mentiras que têm sido apregoadas em nome dos Evangelhos por aqueles que deturpam os seus ensinamentos, com o propósito de atenderem a interesses inconfessáveis de pessoas e de grupos. Na sombra desse lençol foram instituídos numerosos dogmas, foram praticadas várias mutilações e atentados contra a pureza doutrinária do Cristianismo, foram perpetradas várias perseguições e praticados crimes hediondos.
Os enviados do Sinédrio haviam conseguido prender Jesus Cristo, levando-o perante os poderosos da época, para ser acusado e condenado. Parte do plano de fazer silenciar a Verdade havia sido colimado, porém, isso não significava que a Boa Nova seria abafada em seu nascedouro. O Senhor havia sido preso, mas o mesmo não havia acontecido com a sua Doutrina, que dali saiu ilesa e mais robustecida, sem arranhões e sem qualquer aparato que a obscurecesse, sem deturpações e sem qualquer acessório que empanasse o seu brilho, a fim de ser apregoada a todas as nações.
O moço nu, da passagem evangélica, é o paradigma da Verdade, em sua mais lídima expressão, sem qualquer agregado exterior, sem encenações e sem algemas, atestado eloquente da grandiosidade da Doutrina Cristã, em todo o seu esplendor e magnitude.
— Sem simbolismos e sem fórmulas convencionais;
— Destituída de demonstrações exteriores do culto;
— Sem interesses políticos;
— Sem os conluios com os poderes transitórios da Terra;
— Sem dogmas e sem preconceitos.
Somente agora, quando se cumpre a promessa formulada por Jesus Cristo sobre o advento do Espírito de Verdade, o Espiritismo vem lançar novas luzes nos horizontes obscurecidos do mundo. A Verdade passará então a ser o apanágio da Doutrina do Cristo, pois ela agora será restabelecida na Terra em toda a sua plenitude. A verdade nua, como o moço do ensinamento evangélico, continuará a prevalecer na Terra, enquanto o lençol que foi abandonado há quase vinte séculos, que tem servido para acobertar tantas inverdades, será definitivamente relegado para o rol das coisas que já fizeram a sua época.

Paulo A.Godoy
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 00:08

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Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010

O SERMÃO DA MONTANHA

"SERMÃO DO MONTE" ou "SERMÃO DA MONTANHA"

Difundidas as primeiras claridades da Boa Nova, todos os enfermos e derrotados da sorte, habitantes de Corazim, Magdala, Betsaida, Dalmanuta e outras aldeias importantes do lago enchiam as ruas de Cafarnaum em turbas ansiosas. Os discípulos eram os mais visados pela multidão, por motivo do permanente contacto em que viviam com o seu Mestre. De vez em quando, Filipe era assaltado, em caminho, por uma onda de doentes; Pedro tinha a casa rodeada de criaturas desalentadas e tristes. Todos queriam o auxílio de Jesus, o benefício imediato de sua poderosa virtude.

Aos primeiros dias do apostolado, um pequeno grupo de infelizes procurou Levi na sua confortável residência. Desejavam explicações sobre o Evangelho do Reino, de modo a trabalharem com mais acerto na observância dos ensinamentos do Cristo. O coletor da cidade manifestou certa estranheza. — Afinal — disse ele aos infortunados que o procuravam —, o novo reino congregará todos os corações sin­ceros e de boa-vontade, que desejem irmanar-se como filhos de Deus. Mas, que podeis fazer na situação em que vos encontrais?
E dirigindo-se a três deles, seus conhecidos pessoais, falou convicto:

— Que poderás realizar, Lisandro, aleijado como és?! E tu, Áquila, não foste abandonado pela própria família, sob o peso de sérias acusações? E tu, Pafos? Acaso edificarias alguma coisa com as tuas atuais aflições? Os interpelados entreolharam-se cabisbaixos, humilhados. Somente então chegavam a reconhecer as suas penosas deficiências. A palavra rude de Levi os despertara. Tomara-os uma dor sem limites. Jesus dissera, nas suas pregações carinhosas, que seu amor viera buscar todos os que se encontrassem em tristeza e em angústias do coração. Quando o Mestre chegara, haviam experimentado a restauração de todas as energias.

Jubilosos, guardavam as suas promessas, relativamente ao Pai justo e bom, que amava os filhos mais infelizes, renovando nos corações as esperanças mais puras. Achavam-se exaustos; mas, a lição de Jesus lhes trouxera novo consolo às almas desamparadas de qualquer conforto material. Queriam ser de Deus, vibrar com a exaltação das promessas do Cristo, porém, a palavra de Levi novamente os arrojara à condição desditosa.

O grupo de pobres e infortunados retirou-se em desalento; no entanto, o Mestre pregaria no monte, àquela tarde, e, quem sabe, ministraria os ensinamentos de que necessitavam?!... Decorridos alguns instantes, Jesus, em companhia de André, deu entrada em casa de Levi, onde se puseram os três em animada palestra. O coletor, a certa altura da conversação, a sorrir ingenuamente, relatou a ocorrência, terminando alegremente a sua exposição, com estas palavras:

— Que conseguiria o Evangelho do Reino, com esses aleijados e mendigos? — Mas, lembrando-se de súbito que os demais companheiros eram criaturas pobres e humildes, acrescentou: — É justo esperemos alguma coisa dos pescadores de Cafarnaum; são homens fortes e desassombrados e o bom trabalho lhes cabe. Não vejo, porém, como aceitar a contribuição desses desafortunados e vencidos que nos procuram.

Jesus fixou o olhar no discípulo com profundo desvelo e falou com bondade, batendo-lhe levemente no ombro: — No entanto, Levi, precisamos amar e aceitar a pre­ciosa colaboração dos vencidos do mundo!... Se o Evangelho é a Boa Nova, como não há de ser a mensagem divina para eles, tristes e deserdados na imensa família humana? Os vencedores da Terra não necessitam de boas notícias. Nas derrotas da sorte, as criaturas ouvem mais alto a voz de Deus. Buscando os oprimidos, os aflitos e os caluniados, sentimo-los tão unidos ao céu, nas suas esperanças, que reconhecemos, na coragem tranquila que revelam, um sublime reflexo da presença de Nosso Pai em seus espíritos. Já observaste algum vencedor do mundo com mais alta preocupação do que a de defender o fruto de sua vitória material?

Levi sentia-se comovido e, aproveitando a pequena pausa que se fizera, exclamou, algo desapontado:— Senhor, minhas observações partiram tão-só do meu intenso desejo de apressar a supremacia do Evangelho entre os que governam no mundo!... — Quem governa o mundo é Deus — afirmou o Mestre, convictamente — e o amor não age com inquietação. Agora, imaginemos, Levi, que os triunfadores da Terra viessem até nós, ensarilhando suas armas exteriores. Fi
guremos alguns generais romanos chegando a Carfarnaum, com os seus trofeus numerosos e sangrentos, afirmando-se desejosos de aceitar o Evangelho do Reino de Deus e oferecendo-se para cooperar em nosso esforço.

Certamente trariam consigo legiões de guardas e soldados, funcionários e escribas, carros de triunfos, espadas e prisioneiros. .. Começariam protestando contra as nossas pregações pelas estradas desataviadas da natureza. Por não estarem, no íntimo, desarmados das vaidades das vitórias, edificariam suntuosos templos de pedra, em cuja construção lutariam duramente por hegemonias inferiores; uns desejariam palácios soberbos, outros empreenderiam a construção de jardins maravilhosos. Recordando a ação das espadas mortíferas, talvez pretendessem disputar a ferro e fogo o estabelecimento do Reino de Deus, exterminando-se reciprocamente, por não cederem uns aos outros, em seus pontos de vista, desde que cada vencedor se julga, no mundo, com maior soma de direitos e de importância.

A pretexto de lutarem em nome do céu, espalhariam possivelmente incêndios e devastações em toda a Terra. E seria justo, Levi, trabalhássemos por cumprir a vontade do Nosso Pai, aniquilando seus filhos, nossos irmãos? O apóstolo o ouvia assombrado, em face da profundeza de sua argumentação. O Mestre continuou: — Até que a esponja do Tempo absorva as imperfeições terrestres, através de séculos de experiência necessária, os triunfadores do mundo são pobres seres que caminham por entre tenebrosos abismos. É imprescindível, pois, atentemos na alma branda e humilde dos vencidos.

Para os seus corações Deus carreia bênçãos de infinita bondade. Esses quebraram os elos mais fortes que os acorrentavam às ilusões e marcham para o Infinito do amor e da sabedoria. O leito de dor, a exclusão de todas as facilidades da vida, a incompreensão dos mais amados, as chagas e as cicatrizes do espírito são luzes que Deus acende na noite sombria das criaturas. Levi, é necessário amemos intensamente os desafortunados do mundo. Suas almas são a terra fecundada pelo adubo das lágrimas e das esperanças mais ardentes, onde as sementes do Evangelho desabrocharão para a luz da vida.

Eles saíram das convenções nefastas e dos enganos do caminho terrestre e bendizem do Nosso Pai, como sentenciados que experimentassem, no primeiro dia de liberdade, o clarão reconfortante do sol amigo e radioso que os seus corações haviam perdido! É também sobre os vencidos da sorte, sobre os que suspiram por um ideal mais santo e mais puro do que as vitórias fáceis da Terra, que o Evangelho assentará suas bases divinas!...

André e Levi escutavam de olhos úmidos os conceitos do Senhor, cheios de sublimada emoção. Nesse ínterim, chegaram Tiago, João e Pedro e todo o grupo se dirigiu, alegre, para um dos montes próximos. O crepúsculo descia num deslumbramento de ouro e brisas caridosas. Ao longo de toda a encosta, acotovelava-se a turba imensa. Muitas centenas de criaturas se aglomeravam ali, a fim de ouvirem a palavra do Senhor, dentro da paisagem que se aureolava dos brilhos singulares de todo o horizonte pincelado de luz. Eram velhinhos trêmulos, lavradores simples e generosos, mulheres do povo agarradas aos filhinhos. Entre os mais fortes e sadios, viam-se cegos e crianças doentes, homens maltrapilhos, exibindo as verminas que lhes corroíam as mãos e os pés.

Todos se comprimiam ofegantes. Ante os seus olhares felizes, a figura do Mestre surgiu na eminência enfeitada de verdura, onde perpassavam brandamente os ventos amigos da tarde. Deixando perceber que se dirigia aos vencidos e sofredores do mundo inteiro e como que esclarecendo o espírito de Levi, que representava a aristocracia intelectual entre os seus discípulos, na sua qualidade de cobrador dos tributos populares, Jesus, pela primeira vez, pregou as bem-aventuranças celestiais. Sua voz caía como bálsamo eterno, sobre os corações desditosos.

Bem-aventurados os pobres e os aflitos!
Bem-aventurados os sedentos de justiça e misericórdia!. ..
Bem-aventurados os pacíficos e os simples de coração!. ..

Por muito tempo falou do Reino de Deus, onde o amor edificaria maravilhas perenes e sublimadas. Suas promessas pareciam dirigidas ao incomensurável futuro humano. Do alto do monte, soprava um vento leve, em deliciosas vagas de perfume. As brisas da Galiléia se haviam impregnado da virtude poderosa e indestrutível daquelas palavras e, obedecendo a uma determinação superior, iam espalhar-se entre todos os aflitos da Terra.

Quando Jesus terminou a sua alocução, algumas estrelas já brilhavam no firmamento, como radiosas bênçãos divinas. Muitas mães sofredoras e oprimidas, com suave fulgor nos olhos, lhe trouxeram os filhinhos para que ele os abençoasse. Anciães de frontes nevadas pelos invernos da vida lhe beijavam as mãos. Cegos e leprosos rodeavam-no com semblante sorridente e diziam: — Bendito seja o filho de Deus! Jesus acolhia-os satisfeito, enviando a todos o sorriso de sua afeição.

Levi sentiu que, naquele crepúsculo inolvidável, uma emoção diferente lhe dominava a alma. Havia compreendido os que abandonam as ilusões do mundo para se elevarem a Deus. Observando as filas dos humildes populares que se retiravam, tomados de imenso conforto, o discípulo percebeu que os pobres amigos que o visitaram à tarde desciam o monte, abraçados, com uma expressão de grande ventura, como se os animasse um júbilo sem limite.

O coletor de Cafarnaum aproximou-se e os saudou transbordante de alegria, compreendendo que o ensino do Mestre, em toda a sua luz, abrangia o porvir infinito do mundo. Grande esperança e indefinível paz lhe haviam penetrado o âmago do ser. No dia imediato, o ex-publicano abriu suas portas a todos os convivas daquele crepúsculo memorável. Jesus participou da festa, partiu o pão e se alegrou com eles. E quando Levi abraçou o aleijado Lisandro, com a sinceridade de sua alma fiel, o Mestre o contemplou enternecido e disse: — "Levi, meu coração se rejubila hoje contigo, porque são também bem-aventurados todos os que ouvem e compreendem a palavra de Deus!..."

Humberto de Campos

PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 02:22

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REVELAÇÕES AOS PEQUENINOS

"GRAÇAS TE DOU, Ó PAI, SENHOR DO CÉU E DA TERRA, QUE OCULTASTE ESTAS COISAS AOS SÁBIOS E ENTENDIDOS E AS REVELASTES AOS PEQUENINOS". (MATEUS, 11:25)

Registram os Evangelhos de Mateus e de Lucas que, diante da euforia dos setenta discípulos, que haviam saído de dois em dois, a fim de difundirem as palavras da Boa Nova, Jesus Cristo rendeu graças a Deus por ter revelado tanta grandiosidade aos pequeninos da Terra, ocultando-as aos orgulhosos, aos sábios e aos potentados.
O objetivo do Mestre foi pôr em evidência que a revelação das grandes verdades, provindas de Deus, não guarda relação com as posições de maior ou menor destaque exercidas pelos homens. Os cargos mundanos representam tremendas responsabilidades e chegam mesmo a ser perigosos instrumentos nas mãos de muitos. Pôncio Pilatos, por exemplo, não desempenhou a sua missão com equilíbrio, pois, embora reconhecendo a inocência de Jesus, consentiu na sua crucificação apenas porque alguém no seio do povo insinuou que ele não poderia ser considerado amigo do Imperador César, se porventura libertasse aquele homem.
Dada a circunstância de ter descido à Terra a fim de legar à Humanidade uma mensagem de vida eterna, e essa mensagem ter sido dirigida particularmente ao simples de coração, isso fez com que o Mestre escolhesse para formar o seu corpo de assessores — os apóstolos, um pugilo de homens simples que mourejava pelo pão de cada dia, uma vez que quase todos eles eram humildes pescadores do Mar da Galiléia. Ninguém dentre os orgulhosos fariseus ou dos homens que exerciam cargos de mando foi incluído naquele ministério.
Quando alguns homens de notória influência na cidade ou personagens de destaque procuraram o Mestre para que fizesse produzir um sinal dos Céus, julgando que o Senhor teria imenso interesse em suas conversões, receberam dele as célebres palavras: Nenhum sinal será dado a esta geração adúltera e infiel.
Afirmam os Evangelhos que, quando Jesus Cristo, ainda menino, foi levado ao Templo para que com ele se procedesse de acordo com a lei, ali compareceu Simeão. Vendo o menino, o velho médium, erguendo-o em seus braços, dentre outras coisas disse: Eis que este é posto para queda e elevação de muitos em Israel.
Na realidade o Senhor exaltou os pequeninos, garantindo-lhes que deles era o Reino dos Céus, mas não hesitou em condenar a atitude de muitos homens poderosos, prevendo-lhes a derrocada espiritual por não saberem se conduzir como condutores de povos, esquecidos que o poder na Terra é um legado transitório, que Deus dá, mas também pode tirar. Por isso a presença de Jesus Cristo na Terra representou o soerguimento de muitos homens, mas também foi a causa da queda de muitos deles.
A missão desempenhada por ele teve por objetivo legar aos homens de todas as categorias sociais a dádiva suprema do conhecimento de uma nova Doutrina, entretanto, dada a circunstância de existirem na Terra criaturas dos mais variados níveis morais e intelectuais, a Revelação foi dividida em duas partes distintas, mas complementares entre si.
A primeira parte, desempenhada com a participação direta de João Batista, de Jesus Cristo e dos Apóstolos, representou uma viva demonstração do valor da fé e das obras. Foi uma mensagem de amor e de paz dirigida aos corações aflitos. Foi uma semeadura de ensinamentos misericordiosos que falavam diretamente aos corações. Foi uma promessa viva dirigida aos pequeninos, aos humildes e aos desprotegidos.
A segunda parte foi executada por Paulo de Tarso, O Vaso Escolhido. Sob a inspiração do Espírito generoso de Jesus, e com base nos ensinamentos por ele legados, o Converso de Damasco dirigiu suas Epístolas, nas quais procurou consolidar os ensinamentos do Mestre, aos intelectuais de Roma, aos filósofos de Atenas e aos eruditos de todos os centros culturais da época.
Paulo de Tarso não teve necessidade de falar por meio da linguagem singela das parábolas; falou de modo mais direto e mais incisivo. O apelo dirigido aos corações foi parcialmente substituído pelo verbo dirigido ao cérebro. Os cegos que não queriam ver e os surdos que não queriam ouvir, segundo o judicioso dizer de Jesus Cristo, puderam sentir nas Epístolas de Paulo, o falso pedestal em que estavam colocados, vendo que a sabedoria dos homens é loucura perante Deus, contribuindo assim para a derrota do império do obscurantismo e da mentira.
As Parábolas de Jesus e os seus singelos ensinamentos impressionaram os pequeninos e tiveram o mérito de tocar nas convicções de homens que estavam amadurecidos para o conhecimento da verdade, como foram os casos de Nicodemos e de Gamaliel; falaram aos corações de Madalena, de Maria de Betânia, de Zaqueu e de muitos outros. As Epístolas de Paulo, no entanto, solaparam a fé de muitos que julgavam poder existir um mundo sem Deus, ou que julgavam ser os Céus a habitação de deuses eivados de profundos vícios materiais, vícios esses muito semelhantes àqueles imperantes no seio da Humanidade.
Tudo isso levou o Mestre a proclamar: Graças te dou, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, que ocultastes estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelastes aos pequeninos. Desta forma, as duas etapas se complementaram grande mensagem aí está viva e atuante como sempre, a convidar os homens à conquista do Reino dos Céus, que não é outra coisa senão a conquista da reforma interior, da reforma íntima.

Paulo A. Godoy
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 00:05

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Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

AO ENCONTRO DA PAZ

Não te escravizes às farpas magnéticas do nervosismo!
Comum ouvir-se a declaração: - Quando leio o Evangelho não consigo concentrar-me na leitura!
No entanto, Cristo é o leme nas tempestades emocionais, o ponto de segurança em toda crise da alma.
Para espíritos enfermos não vale tão-só a necessária assistência ao corpo.
Indubitavelmente, a terapêutica tem lugar certo na indicação exata.
Respeita, pois, os notáveis avanços da medicina moderna em todas as nuanças de suas conquistas científicas; contudo, valoríza a farmácia espiritual que te enriquece as mãos.
Não dispenses o auxílio medicamentoso no momento devido, mas não permitas que xaropes e comprimidos te subjuguem a existência.
Antes prevenir que remediar.
Não cultives sintomas de perturbações ou doenças. Deixa que a oração te regenere todas as forças. Recorre ao passe curativo que asserena e restaura. Sedativos aliviam, mas não reajustam. A prece, em razão disso, será sempre calmante eficaz.
Diversões auxiliam, mas não curam; entretanto, a reunião de estudos espíritas é valiosa psicoterapia aplicada em conjunto.
O copo dágua fluida, gratuito e simples, é mais prático de ser usado que a injeção intravenosa.
O culto do Evangelho no lar substitui, muitas vezes, com vantagem, a mais laboriosa sessão de psicanálise.
Perdão e esquecimento de todo mal avantajam-se indiscutivelmente ao relaxe por barbitúricos.
Intimação à própria vontade, para entregar-se ao bem, em muitos casos supera o choque insulínico quanto ao efeito benéfico.
Serviço desinteressado aos semelhantes é a melhor terapia ocupacional.
Disciplina no prato, freqüentemente, ainda é a receita ideal para perder peso.
Estudo edificante costuma remover a necessidade das internações de repouso.
Em muitas ocasiões, trabalho maciço é pronto-socorro à extinção da insônia.
No labirinto de temores difusos, evita o bloqueio dos próprios pensamentos. Abre o coração à fraternidade.
Comunica-te com alguém e ora convictamente. A fé raciocinada é o primeiro recurso no rumo de toda restauração, mas, quase sempre, é procurada em último lugar.
Ainda assim, controlar a mente, sustentando-se em atitude rígida, não basta por si só; carecemos de pensar no bem, fazendo o bem, para manter a própria harmonia.
É interessante lembrar que Jesus nunca esteve enfermo. Isso nos induz a verificar que ninguém jamais adoece por raciocinar, sentir e agir com o Evangelho, em espírito e verdade.

DIAS DA CRUZ
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 01:04

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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010

SÊ UM REFLEXO DO CRISTO

O espírita verdadeiro parte da carne com os ombros tatuados pelas marcas da cruz do serviço desinteressado. Já pensaste que podes desencarnar esta noite? Ao término de nossa última reencarnação, formamos entre os sequazes do Espiritismo, despejados do corpo às pressas, pela intimação irrecorrível da morte.

Vive pródigo no socorro aos outros e ecônomo no que te respeita. Ninguém se arrepende por ter parcimônia na fala, temperança no apetite, sobriedade na veste, moderação nos gestos e comedimento nas distrações.

Não te entibies por ser menor, trabalha, trabalha.

Todo começo é diminuto e, aparentemente, insignificante. Pequenos são o ovo, a semente ... Com o tempo mostram o que podem e o que fazem.

Percorre o mundo de teu espírito. Cada criatura traz em si, traiçoeira região de ciladas e armadilhas. Ao atravessá-la, sob justos impositivos da evolução, vê onde pisas, como te exprimes e pensas.

Amizade - eis o pêndulo da fraternidade ! Liberta os teus sorrisos prisioneiros. Não te escondas na furna do pessimismo.

Aflição, na essência, é reflexo intangível do mal forrjado pela criatura que a experimenta, e todo mal representa vírus da alma: suscetível de alastrar-se ao modo de epidemia mental devastadora.

Abre a bolsa e revolve teus guardados, assegurando o conforto e a alegria do próximo. A vida que te presenteou com dádivas preciosas pode arrebatar-te tudo. Avalia, de quando em quando, o assombro e a surpresa dos que tudo perderam, num átimo, sem a menor consulta prévia.

Consideras monótono o esforço a prol dos semelhanntes. Desfaze a monotonia, aumentando o que dás de ti e ampliando as oportunidades de melhoria em louvor de todos os que te cercam.

Tu, sejas quem for, tens compromissos com o Mundo Espiritual. Os Espíritos falam desses compromissos pelo conhecimento que te faz responsável e pela consciência que te adverte. O Senhor te iluminou para que ilumines, te auxiliou a fim de que auxilies.

Sê de Jesus um eco em cada ouvido, um reflexo em cada olhar.

Camilo Chaves

PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 23:11

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AO IMPACTO DA VERDADE

As muralhas da morte já se romperam em portais para a Vida Eterna !
A Religião Espírita não sonha, raciocina.
Dois laços são necessários para que a criatura se integre realmente no Espiritismo: engrandecimento do coração e serviço do cérebro, veiculando emoções e pensamentos que a entrosem com as inspirações que vertem, incessantes, das Esferas Superiores.
Toda revelação espiritual vem a seu tempo; contudo, na marcha natural dos eventos, o Espiritismo, para inúmeras consciências vinculadas à Terra, ainda traz sementes de glorificações precoces que apenas germinarão pelas décadas adiante.
Só lhe resistem aos impactos de realidade radiosa os Espíritos cuja fé se expande da mente, porquanto ele destaca o ângulo de luz de cada criatura, de cada coisa, de cada acontecimento.
Nos procênios sociais mantém os olhos indenes de lágrimas destrutivas.
De instintos faz intuições. Extirpa os focos das contradições. Proscreve a burocracia religiosa. Assegura a vida abundante. Descobre o amor puro.
Envolve a paisagem terrestre em ondas de fraternidade irradiante.
Portanto, espíritas, evitai demandar a Espiritualidade com muletas inseguras ...
Mantende-vos, de pé, nas obrigações que vos honram as existências.
Ação de entendimento e de amparo a favor do próximo é a longa véspera da felicidade absoluta.
Distinguindo o seixo da pérola, o vidro do diamante, diligenciai a própria renovação, analisando e estudando, construindo e amando, do alvorecer ao crepúsculo e do crepúsculo ao alvorecer de cada dia.
Meditai o roteiro daqueles que deixaram nomes na memória terrestre por letreiros indicativos do Reino do Senhor.
Se as palavras deles ainda ecoam na História quais vozes libertadoras, o túmulo, por sua vez, não lhes selou os lábios eloqüentes; redivivos, metamorfoseados pela morte, ei-los a cantar a imortalidade mundo afora, estalando lápides, rasgando fronteiras, elevando monumentos de progresso e estimulando a solidariedade humana ...
Almas estuantes de júbilo e esperança, sede igualmente os semeadores das idéias de redenção.
Ninguém permanece no Espiritismo por força de rituais e de tradições. Nos templos e círculos que lhes definem atividades e objetivos, ficam simplesmente os Espíritos encarnados e desencarnados que já despertaram para a Verdade e que se afinizam no excelso binômio: servir e pensar.

Júlio César Leal
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 19:54

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