Terça-feira, 21 de Abril de 2009

SEMEEI MUITO, MAS MAL


Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco

Minguada tem sido a oportunidade de escrever-te, meu amigo, ainda que avantajada tenha sido para isso a vontade minha. Não me tem sido possível; e não sei bem se de ti se pode dizer, com igual verdade, que te haja sobrado o desejo.
Não te acuso, porém.
Se me não tens chamado, não tens chamado outros; e não posso, portanto, magoar-me de preferências, que te não reconheço.
Não tens perdido nada, todavia, com a minha falta.
Outros enveredaram pelo caminho que abri, como sequiosos a quem se mostrasse a vereda que conduzisse à fonte de pura linfa cristalina.
Após esses, outros virão; e louvo a Deus por ter permitido que fosse eu quem iniciasse, por ti, este movimento de expansão de espíritos brilhantes (exceção minha) em benefício dos que ainda se acham incrustados na concha pestilenta da carne.
Carne! Já pensaste, algum dia, em que essa linda carne, rosada, alva ou dourada, acetinada como as pétalas de uma rosa, penujada como a casca odorífera de um pêssego de Amarante, recendendo a desejos, impregnada de volúpia; que tenta santos, perturba e estonteia ascetas; que perde o mundo e obriga a cometer as mais estranhas loucuras, se transforma, pela simples mordedela de um mosquito, em um montão de coisa podre, fedorenta, horrível de ver, impossível de tolerar?
Já pensaste que, horas depois de o Espírito haver abandonado o rosado e roliço corpinho de uma criança, louro modelo de um Rubens precioso, a mãe não poderá beijá-lo, porque lhe inspirará o mesmo asco que o corpo de um cão morto, cheio de livores(1) e vermes?
Que o corpo da mulher mais bela: - escultural obra-prima do Criador, sonho encarnado, visão estonteadora de um sonho de fadas, tentação demoníaca do mais respeitável frade crúzi0(2), é, após a morte, a mais repelente montureira? Que, volvidos anos, depois da eliminação dos tecidos pela desagregação, pela fermentação pútrida, pelo desaparecimento molecular da carne, uma linda cara, rosto divino, que poetas e enamorados comparavam às estrelas, à flor, ao sol; onde havia dentes superiores a todas as pedras finas; olhos mais belos que todos os sóis; cabelos mais ricos que as mais ricas sedas, - tudo coisa de maravilha para que excelsos anjos do Senhor mal semelhavam sombra, só resta a máscara hórrida(3) de uma caveira a fazer caretas; com buracos negros e repulsivos onde iluminaram os sóis; alvéolos vazios e carcomidos onde brilharam as pérolas; superfície lisa, estriada de ramificações negras, o espaço onde floresciam os cabelos que faziam a inveja do outro mais puro, do azeviche mais negro?
Tu já pensaste nisso?
Certamente que não. E creio que ninguém se deu ao trabalho sério de o fazer. Seriam tomados de tal horror que fugiriam uns dos outros, como na Idade Média se fugia dos leprosos e dos excomungados.
Pois apesar de ser assim a matéria de que nesse mundo somos compostos, ainda o homem crê, na sua sabedoria suprema, que essa matéria prima da mais ascorosa(4) podridão, é a coisa única em que se consubstanciam a sua individualidade e a sua grandeza; e tão grande e tanto à vontade dentro dela se sente, que passa a vida em busca de razões para se convencer a si próprio, de que, superior a isso, a essa coisa linda e podre, nada mais há; que as estrelas e os mundos que rolam pelo espaço infinito e que a sua vista não abrange, foram feitos para lhe iluminar o sono e as pândegas devassas em noturnas brigas; o Sol para lhe aquecer a beldade e alumiar os trilhos; as flores para lhe perfumarem o fedor próprio (se as flores se dignam considerar na sua alta prosápia(5). Tudo que a natureza produz vem, em dadivosa mercê, a seu conforto e regalo destinado.
Já é cegueira!
Dir-me-ão que também a tive.
É verdade; a espaços a tive, porém. Na negrura da minha vida tive também muitas clareiras de fé; muitas iluminuras de crença.
O pesar de que toda essa vida não fosse assim, e o preço por que paguei e pago tal pesar, me impõem o dever de procurar destruir agora toda a semente gafada que lancei à terra ruim, que a aceitou e reproduz em basta sementeira quanto de tredo(6) lhe dei, e atrofia e maninha(7) o que de bom lhe pretendi fazer produzir.
Eu fui como o imprevidente lavrador, que não soube escolher a semente para lançar à terra.
Na recolha da sementeira tudo servia. Trigo bom e trigo chocho; azevém(8) e joio.
Não fez seleção; tudo enchia celeiro, tudo alcançava o mesmo preço, tudo acogulava(9) medida.
Vêm as sementeiras, vai à tulha e leva de tudo.
Lavra a terra, semeia, cobre, grada e espera.
Decorre o tempo, o grão germina, lança raízes, que, como pequeníssimos tentáculos, haurem da terra a seiva de que se nutre, e perfura a crosta na ânsia de luz e de calor. Cresce. A lavoura semelha uma colossal esmeralda, onde todas as cambiantes do verde se combinam e brilham. Oferece à vista inexperiente do viandante o aspecto de uma seara rica de promessas; mas o olho esperto de um lavrador solerte não se enganará, e fará mondar(10), por vezes, a seara verdejante.
O lavrador desleixado, porém, deixará crescer tudo por igual; e em curto trecho as plantas úteis serão atrofiadas, sobrepujadas, vencidas, pelas plantas maninhas e parasitas, que se desenvolverão à custa do enfezamento(11) e da morte das outras.
Volvidos meses o pobre lavrador segará uma bela seara de feno ruim, em vez de enceleirar uma boa colheita de pão. Haverá, certamente, por entre esse feno algumas pernadas de trigo bom, que soube e pôde resistir; mas o grosso do produto é coisa de baixo preço.
Se a lição aproveitar, o desleixado e inesperto lavrador colherá ainda naquelas pernadas semente sã e útil, que no ano seguinte lançará previdente e cautelosamente à terra; se lhe não aproveitar, ficará mais gafado(12) do que a própria gafa que a seara perdeu.
Semeei muito, mas mal.
A minha lavoura foi grande, verdejante, rica de tons e de palha, mas misérrima e paupérrima do bom grão, que pela minha morte colhi.
Deplorei e chorei a minha inexperiência, quiçá o meu desleixo e a minha ambição; e procuro agora enceleirar o grão amigo e bom que pude apurar, e vou fazendo por lançá-lo à terra de novo, nestas pequenas leiras que tua mão amiga me levanta, esperançado de que, quando Deus permitir que lavre novamente largos tratos de terreno, tenha já boa e limpa semente para proveitosa colheita.
Neste magoado protesto do descuramento(13) do meu passado trabalho, fica advertência amiga aos que me seguirem na esteira. Cuide cada um mais em o que de bom possa produzir, de preferência ao que de muito possa deixar.
A quantidade raras vezes se casa com a qualidade; e quanto ambas não possam caber no mesmo saco em proporção apetecida, que a ele vá só aquela das duas em que a riqueza e a beleza intrínseca se manifeste.
Que colossal seara teria sido a minha, se nela tivesse predominado sempre a fé em Deus, a resignação na dor, a serenidade na adversidade!
Nem teria sentido aí o estridor(14) derrocante(15) das ilusões amadas, nem a vertigem fúnebre do desespero me teria desvairado.
Quando a luz dos meus olhos se apagou pela lufada da desgraça máxima, ter-se-iam iluminado os olhos da minha alma pelo clarão da conformidade e da fé; e eu não haveria arremessado o meu alquebrado e torturado corpo às gemônias(16) do suicídio, ao antro do pavor!
Quem imagina aí, nesse mundo refece e mau, que pavor representa o sossego à dor terrena, ao preço do suicídio conquistado?
Meu amigo. Meu ou teu, isto que aqui fica, merece ler-se. Se não está com primores de estilo, com profundezas de conceito; com torturamento de frase tersa(17) e rebuscada, está com sinceridade e verdade. E a verdade e sinceridade são tudo.
Se a sua leitura não der bom repasto à gulodice de literatura aprimorada e esquisita, há de dar suculenta ração às almas simples, boas e meditativas. Nela os sequiosos da verdade há de ver, confrangidamente, a orla do abismo a que a inópia(18) espiritual e a pretensão desarrazoada podem conduzir; e por cada um irmão nosso a quem estas palavras dêem rebate do perigo que o aguarda, encoberto por enganosas teorias de bragantes(19) negadores e de atrevidos sábios ignorantes, um pedaço de remorso se quitará à minha dor, e santa gota de bálsamo linimentará(20) o meu desespero, pelo mal que semeei e pelo bem que não soube conseguir.
Que te não moleste a negativa a nosso respeito.
Depois de se negar Deus, que importa que me neguem e que neguem a verdade desta minha ação desinteressada?
O que tu não sabes é o que representa para esses, se por desgraça sua os houver, a pergunta que aqui lhes deixo formulada em caracteres proféticos e terríveis, como os das palavras do festim de Baltasar: - E se for bem verdade que seja eu, Camilo, quem isto escreve, renegando a minha obra no que ela tem de impiedade e negação - veneno tredo que corrói as almas. (Espírito Camilo Castelo Branco - Obra: Do País da Luz - tomo 2).
-------------------------------------------------------------------
Notas do compilador
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco: 1825/1890 - Foi o maior e o mais fecundo romancista português, e um dos mais vernáculos mestres da nossa língua. Notável como crítico, arqueólogo, poeta e dramaturgo, ele foi ainda o mais brilhante prosador moderno, e o mais terrível polemista do seu tempo. Foi um torturado. Cegou e suicidou-se em 1890. Joguete de múltiplas paixões amorosas, teve vida boêmia e atormentada, que se reflete nas páginas de seus romances. Foi autor de 262 obras, que versam os mais variados assuntos; a vernaculidade da frase e a riqueza do vocabulário alçaram-no à figura de primeiro plano entre os mestres do idioma, como podemos constatar na mensagem acima: grandiosa, pura, cheia de ensinamentos.

1= extremamente pálidos - 2= o que pertence à Congregação de Santa Cruz de Coimbra - 3= medonha - 4= nojenta, repugnante - 5= orgulho, fanfarrice - 6= traiçoeiro - 7= estéril, inculto - 8= gramínea vulgar - 9= enchia - 10= arrancar as ervas daninhas que crescem entre as plantas cultivadas - 11= impedir o crescimento - 12= contaminado - 13= desleixo - 14= ruído forte e desagradável - 15= humilhante - 16= escadas do monte Aventino que davam para o Tibre e pelas quais na Roma antiga, eram arrastados e lançados ao rio os corpos dos supliciados; desonra pública - 17= polida, pura, correta - 18= gramínea vulgar - 19= velhacos, libertinos - 20= medicará.

- A obra "Do País da Luz" editada pela FEB (febrasil.org.Br) em 4 volumes, foi recebida pelo médium Fernando de Lacerda no início deste século. Nela o internauta poderá constatar que se trata de uma obra-prima da literatura espírita.

PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 02:39

LINK DO POST | COMENTAR | favorito
|

.MAIS SOBRE MIM

.PESQUISAR NESTE BLOG

 

.Abril 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27

.POSTS RECENTES

. FÉ RACIOCINADA

. COISAS TERRÍVEIS E INGÊNU...

. CAIM FUNDOU UMA CIDADE SE...

. OS HERÓIS DA ERA NOVA

. CONFLITOS E PERFEIÇOAMENT...

. GRATIDÃO: UM NOVO OLHAR S...

. PERDÃO DE DEUS

. A FÉ: MÃE DA ESPERANÇA E ...

. NO CRISTIANISMO RENASCENT...

. EM PAUTA – A TRISTE FESTA

.arquivos

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Outubro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds