Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

A VISÃO DE DEUS


Desde que Deus está em toda a parte, porque não o vemos? Vê-lo-emos ao deixar a Terra? Estas são também perguntas feitas diariamente. A primeira é fácil de resolver: nossos órgãos materiais têm percepções limitadas, que os tornam impróprios à visão de certas coisas, mesmo materiais. É assim que certos fluidos escapam totalmente à nossa vista e aos nossos instrumentos de análise. Vemos os efeitos da peste e não vemos o fluido que a transporta; vemos os corpos mover-se sob a influência da força da gravitação, e não vemos esta força.
As coisas de essência espiritual não podem ser percebidas pelos órgãos materiais; só pela visão espiritual é que podemos ver os Espíritos e as coisas do mundo imaterial; assim, só a nossa alma pode ter a percepção de Deus. Ela o vê imediatamente após a morte? É o que só as comunicações de além-túmulo nos podem ensinar. Por elas, sabemos que a visão de Deus só é privilégio das almas as mais depuradas e que, assim, muito poucas ao deixar o invólucro terreno, possuem o grau de desmaterialização necessário. Algumas comparações vulgares o darão facilmente a compreender.
Aquele que está no fundo de um vale, cercado de espessa bruma, não vê o sol; contudo, à luz difusa, ele julga da presença do sol. Se subir a montanha, à medida que se eleva dissipa-se o nevoeiro, a luz se torna cada vez mais viva, mas ainda não vê o sol. Quando começa a percebê-lo ainda está velado, porque o mínimo de vapor basta para lhe enfraquecer o brilho. Só depois de se haver elevado completamente acima da camada brumosa é que, achando-se num ar perfeitamente puro, ele o vê em todo o seu esplendor.
Dá-se o mesmo com quem tivesse a cabeça envolta por diversos véus. De começo, não vê absolutamente nada; a cada véu que se retira, distingue um clarão cada vez maior; só quando desaparece o último véu é que vê as coisas nitidamente.
Também se dá o mesmo que comum licor carregado de matéria estranha: a princípio fica turvo; a cada destilação sua transparência aumenta até que, estando completamente purificado, adquire uma limpidez perfeita e não apresenta nenhum obstáculo à visão.
Assim é com a alma. O envoltório perispirital, posto que invisível e impalpável para nós, é para ela uma verdadeira matéria, ainda muito grosseira para certas percepções. Esse envoltório se espiritualiza à medida que a alma se eleva em moralidade. As imperfeições da alma são como véus que obscurecem sua visão; cada imperfeição de que se desfaz é um véu a menos, mas só depois de ser depurado completamente é que goza da plenitude de suas faculdades.
Sendo Deus a essência divina por excelência, não pode ser percebido em todo o seu brilho senão pelos Espíritos chegados ao mais alto grau de desmaterialização. Se os Espíritos imperfeitos não o vêem, não é porque estejam mais afastados que os outros; como eles, como todos os seres da natureza, estão mergulhados no fluido divino; como nós estamos na luz, os cegos também estão na luz e, contudo, não a vêem. As imperfeições são véus que ocultam Deus à visão dos Espíritos inferiores; quando a cerração se dissipar, eles o verão resplandecer: para isto nem precisarão de subir, nem de ir procurá-lo nas profundezas do infinito; estando a vida espiritual desembaraçada das manchas morais que a obscurecem, eles o verão em qualquer lugar onde se encontrarem, ainda que na Terra, desde que está em toda a parte.
O Espírito só se depura lentamente, e as diversas encarnações são os alambiques, no fundo dos quais deixa, de cada vez, algumas impurezas. Deixando seu envoltório corporal, não se despoja instantaneamente de suas imperfeições; é por isso que alguns, após a morte, não vêem mais Deus do que em vida; mas, à medida que se depura, dele têm uma intuição mais distinta; se não o vêem, compreendem-no melhor; a luz é menos difusa. Assim, quando Espíritos dizem que Deus lhes proíbe de responder a determinada pergunta, não é que Deus lhes apareça ou lhes dirija a palavra para prescrever ou interditar isto ou aquilo. Não; mas eles o sentem, recebem os eflúvios de seu pensamento, como nos acontece com relação aos Espíritos que nos envolvem com seu fluido, posto não os vejamos.
Nenhum homem pode, pois, ver a Deus com os olhos da carne. Se esse favor fosse concedido a alguns, só o seria no estado de êxtase, quando a alma está tão desprendida dos laços da matéria quanto é possível durante a encarnação.
Um tal privilégio aliás seria apenas das almas de escol, encarnadas em missão e não em expiação. Mas como os Espíritos da mais elevada ordem resplandecem com um brilho deslumbrante, pode ser que Espíritos menos elevados, encarnados ou desencarnados, feridos pelo esplendor que os cerca, julgassem ter visto o próprio Deus. Tal como se vê, por vezes, um ministro tomado por seu soberano.
Sob qual aparência Deus se apresenta aos que se tornaram dignos desse favor? Sob uma forma qualquer? Sob uma figura humana ou como um foco resplendente de luz? É o que a linguagem humana é incapaz de descrever, porque para nós não existe nenhum ponto de referência que possa dar uma idéia. Somos como cegos a quem em vão procurassem fazer compreender o brilho do Sol. Nosso vocabulário é limitado às nossas necessidades e ao círculo de nossas idéias; o dos povos mais civilizados é muito pobre para descrever os esplendores dos céus, nossa inteligência muito limitada para os compreender, e nossa vista muito fraca ficaria por eles deslumbrada. (Allan Kardec - R. E. 1866).
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 16:24

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