Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

A CERTEZA DA VIDA APÓS A MORTE

Não há nenhuma possibilidade de dúvida sobre a continuação da vida humana após a morte. Tudo quanto sabemos sobre a Natureza, as coisas e os seres mostra-nos que as formas vivas estão sujeitas a morrer, mas não a se extinguirem. A extinção total, absoluta, de qualquer coisa ou ser implica um ilogismo, um contra-senso no campo do conhecimento, uma violação das leis admitidas até hoje em nosso esquema epistemológico. Se, por um lado, nada se acaba nem se perde, tudo se transforma na Natureza, por outro lado, como estabeleceu Kardec com a expressão: “Tudo se encadeia no universo”, a nossa concepção possível da realidade universal é monista, não podendo admitir nada separado ou isolado na estrutura do Universo. Se uma folha de relva se perder em definitivo, com a nadificação total de todos os seus elementos constitutivos, toda a nossa mundividência ruirá, nada mais nos cabendo fazer do que uma revisão total dos nossos conhecimentos.
A Física atual tornou ainda mais inviolável essa estrutura monista, com suas descobertas no campo atômico e subatômico.
Não se trata apenas de teorias, de suposições ou intuições, mas do resultado evidente e suficientemente provado e comprovado das pesquisas científicas. Esse monismo, além disso, não é apenas constatado no macrocosmo, mas também nas estruturas microscópicas, pois cada uma delas, por mais isolada ou estranha que se apresente, é sempre um reflexo do monismo cósmico, dividindo-se em unidades interligadas interiormente e ligadas exteriormente a outros campos de forças estruturados segundo esse mesmo princípio.
Dessa maneira a morte, como frustração e nadificação do ser, simplesmente não pode existir. A impossibilidade, nesse caso, não é apenas lógica ou filosófica, mas também genésica, jurídica e metafísica. Os campos de forças no cosmos e os centros padronizadores das estruturas orgânicas, desde o mineral ao hominal, mostram que a realidade é uma rede de causas e efeitos reciprocamente conjugados, com a determinação específica de jurisdições invioláveis, como, por exemplo, a jurisdição de si mesmo conferida ao homem através da consciência. Genesicamente temos a interdependência das coisas, dos seres, dos fatos, das palavras, dos pensamentos, dos sentimentos e assim por diante, de tal maneira que o cair da folha seca de uma árvore, o desabrochar de uma flor, o canto de um pássaro ou o sussurro do vento está na dependência das leis que ordenam e regem a totalidade do real.
Foi por isso que Espinosa deu à sua doutrina panteísta a inflexibilidade de um fatalismo arábico, tipicamente islâmico. Não obstante, o próprio Espinosa admitiu, na teoria da natura naturans e natura naturata a duplicidade necessária da substância e do modo, em que a jurisdição se infiltra no desenvolvimento livre de suas atividades. Hartmann negaria mais tarde o sentido teleológico da rés como finalidade humana, mas não como finalidade intrínseca do Todo. A impassibilidade de Espinosa em face da morte, confiante no seu retorno a Deus, confirma a tese de Heidegger sobre o diálogo entre o Homem e o Outro como única possibilidade de comunicação, ao mesmo tempo em que explica a negação da comunicabilidade humana por ele alegada, pois em última instância só pode comunicar ao Ser Supremo a sua angústia existencial. Essa posição, aparentemente ilógica e contraditada pelo desenvolvimento mundial dos meios de comunicação no plano sensorial, nada significa ante a única forma válida de comunicação profunda e integral da criatura com o Criador. Remanescia no teólogo Kierkegaard a herança da tradição judaica da comunicação vertical, mais tarde adotada e proclamada por Jaspers como uma realidade ôntica. A intuição de Espinosa captava, apoiada na herança bíblica, a realidade essencial da imortalidade do ser. Encontramos nesse episódio, talvez, a mais lógica explicação da criação do homem à imagem e semelhança de Deus. Não se trata da semelhança modal, baseada na teoria do modo, como pensaram os teólogos cristãos, mas da semelhança platônica proveniente de Sócrates na teoria do conceito. Isso quer dizer que o conceito de Deus, fragmentando-se no sensível, na projeção da imagem real de Deus nas sombras da caverna, deu ao Cristianismo, que não soube reconhecê-la, a única forma possível de identificação da criatura com o Criador. Nessa identificação temos também a única prova realmente ontológica da imortalidade do homem como ser. O ser do homem se define essencialmente como espírito, sem o qual o corpo material sem vida nem consciência seria um abortivo, segundo a clássica expressão do Apóstolo Paulo. Os que não aceitam essa concepção do homem colocam-no e colocam-se abaixo do nível da animalidade. Desclassificam-se a si mesmos na escala ontológica.
A densidade da matéria em nosso mundo terreno é suficiente para mostrar às criaturas capazes de raciocínio que vivemos numa condição inferior. Friedrich Zöllner, em suas experiências físicas, na Universidade de Leipzig, sobre as dimensões da matéria, obteve resultados positivos e explicou os fenômenos paranormais como produzidos por entidades espirituais da quarta dimensão.
Elaborou a teoria dessa nova dimensão da realidade, dando início ao que chamou de Física Transcendental. A possibilidade dessas pesquisas parecia absurda naquele tempo, em meados do século XIX. Zöllner demonstrou que essa possibilidade decorria da estrutura hierárquica do universo em sua totalidade unitária. Como Kardec, provou que a passagem de seres e objetos de uma dimensão para outra dava origem a uma fenomenologia que sempre existira, mas para a qual somente alguns cientistas se interessavam.
A Física Transcendental não era uma ciência abstrata, mas concreta, assentada em bases fenomênicas. Conseguiu mesmo verificar que certos objetos – como nos fenômenos de apport (passagem de um objeto material através de paredes e tampas de madeira ou de metal) – produziam calor ao serem transportados de uma dimensão para outra. Mas os seus colegas o consideraram perturbado e não levaram a sério as suas pesquisas. Hoje as pesquisas da Física avançaram além dessa descoberta, provando que Zöllner tinha razão. Mas os preconceitos religiosos, a dogmática asfixiante das igrejas e os próprios preconceitos científicos impediram até hoje que a memória de Zöllner fosse restabelecida em nossa cultura incipiente e medrosa, comodista e interesseira, na sua dignidade de pioneiro. Se os objetos podem passar de uma dimensão da matéria para outra, em que permanecem ocultos ao nosso sensório, e isso pode ser provado cientificamente de maneira irrefutável, qual a impossibilidade existente para que os seres possam também, e com mais razão, transitar de um plano para outro?
No livro O Cosmos e seus Sete Estados, de M. Vasiliev e K. Staniukovich, lançado pela Editorial Paz, de Moscou – baseado em resultados das pesquisas astronáuticas –, dizem os autores:
“Universo, ilimitado no espaço, sem começo nem fim no tempo, infinitamente diverso, que não se repete no espaço e no tempo, o que sabe o homem atual a teu respeito? Habitando num sistema de astro pouco luminoso, colocado num arrabalde provinciano da Galáxia, longe do luminoso núcleo central da mesma, densamente povoado. Vive sobre um dos planetas mais modestos, que é um grão de areia entre os milhares de milhões que compõem somente a nossa ilha estelar, morando no fundo de uma nuvem pouco transparente de gás que rodeia o planeta. O que pode esse homem saber de ti, Universo, desde este rincão perdido? Não passaram ainda quinhentos anos do momento em que ele descobriu pela primeira vez o teu planeta, viajou ao teu redor e só recentemente ele conheceu, a princípio de modo especulativo, as primeiras leis que o ligam e abrangem o espaço, a velocidade e o tempo. Faz pouco tempo que ele tocou o segredo da constituição da tua substância.”
Esta confissão dos materialistas soviéticos sobre a nossa condição e posição no Cosmos bastaria para acordar as mentes que se congelaram numa concepção estupidamente dogmática do Universo e do Homem. Vivemos num planetinho minúsculo de um sistema solar cosmicamente insignificante e nos atrevemos a dogmatizar, religiosa e cientificamente, sobre questões que desafiam as nossas possibilidades de pesquisas eficazes. Somos praticamente – como dizia o Lobo do Mar de Jack London – minúsculos pedacinhos de fermento que se arrogam o domínio do saber universal. Teólogos modernos chegaram a anunciar a Morte de Deus em nosso tempo, suicidando-se sem o perceber ante a cova que o louco de Nietzsche abriu para enterrar o cadáver divino.
Não seria sensato pingarmos umas gotas de humildade na ácida e ridícula pretensão desse fermento?
A rejeição das ciências ao Espiritismo decorre dessa pretensão humana que denuncia o infantilismo da nossa Humanidade, apegada aos tabus e superstições da selva. As pesquisas de Kardec, louvadas e repetidas pelos grandes cientistas da época, que comprovaram o seu acerto, serviram para a avaliação da nossa imaturidade. Kardec mesmo denunciou esse resultado, lamentando que os homens aparentemente mais sérios revelassem uma leviandade assustadora quando se pronunciavam sobre o problema espírita.
As ciências do século passado condenaram uma doutrina eminentemente científica para se defenderem das superstições.
Eram ciências medrosas, porque incipientes, que se apegavam às suas descobertas como o avarento ao seu cofre. Tendo lutado contra o dogmatismo e a violência eclesiástica, essas ciências adotaram os mesmos métodos e a mesma posição de seus algozes, passando a condenar, ridicularizar e caluniar os que avançavam além dela, embora usando todo o rigor científico em suas pesquisas.
Ridicularizaram Kardec por se interessar pela dança das mesas, e Kardec perguntou-lhes se isso era mais ridículo do que o interesse de Galvani pela dança das rãs. Quando Flammarion declarou, corajosamente, que a teoria da reencarnação era o corolário necessário da teoria da pluralidade dos mundos habitados, acusaram-no de visionário. Hoje os cientistas mais esclarecidos não recusam a hipótese, que cada vez mais se impõe nos meios científicos, da existência de mundos habitados em todo o Cosmos e a reencarnação deixou de ser uma questão religiosa para se transformar em objeto de graves e insistentes pesquisas científicas.
Com o pouco que avançamos nesse meio século de pesquisas cósmicas, como acentuaram Vasiliev e Staniukovich, já nos vemos lançados na rota de Flammarion. A posição espírita foi mais científica do que a das ciências do século passado, porque inteiramente aberta, antidogmática e confiante no valor da pesquisa.
Richet chegou a louvar o espírito científico de Kardec e a reconhecer que Kardec nunca fizera uma só afirmação que não se baseasse em resultados de pesquisas. Os retrógrados quiseram então invalidar as pesquisas de Kardec, ao que o mestre respondeu convidando-os a pesquisar. Não houve jamais uma contraprova científica das pesquisas de Kardec, mas apenas encenações, muitas vezes teatrais, como no caso das materializações de Vila Carmem, na Argélia, com um cocheiro do General Noel, residente francês despedido pelo general por ser mentiroso e ladrão, que levaram ao palco para mostrar como burlara os cientistas presentes.
Interrogado a respeito por jornalistas, Richet respondeu que se tratava de uma questão de opção. “Quem quiser – disse ele – pode ficar com o cocheiro.” Hoje podemos dizer o mesmo, no tocante aos padres e frades que tentam transformar a Parapsicologia em nova forma de negação do Espiritismo: Quem quiser, fique com esses padres e frades pelotiqueiros, exibidores de falsos fenômenos de magia teatral em palcos e televisões. Mas quem preferir os cientistas, que leiam e estudem os seus livros, antes de se atreverem a dar palpites sobre o que não conhecem.
Nos trechos do livro soviético que reproduzimos acima transparece a lei de adoração, quando vemos os cientistas se dirigirem ao Universo como a uma entidade cósmica. Basta trocarmos a palavra Universo pela palavra Deus para termos uma imprecação religiosa à divindade. É uma nova demonstração de que, como afirmou Descartes, a idéia de Deus está no homem como a marca do obreiro na sua obra. Ante o esplendor e a grandeza das constelações no Infinito, os físicos materialistas soviéticos se curvam reverentes. Em outro trecho, em seguida, ameaçam o Deus Universo com o poder do homem que pouco a pouco vai aprendendo a dominá-lo. Voltamos à imagem do pedacinho de fermento que cresce no navio pirata do Lobo do Mar. O fermentinho atrevido não se sente humilde, tornando-se ainda mais arrogante para ameaçar o Universo. Não há dúvida que a epopéia cósmica do nosso tempo é empolgante, mas usá-la como bravata não fica bem a cientistas. Porque estes sabem, ou devem saber, por obrigação profissional, que o homem só consegue fazer alguma coisa na Natureza depois de interrogá-la sobre as suas leis e submeter-se a obedecê-las. Frances Bacon já advertira, quando se estabeleciam as leis do método científico, que a Ciência é um ato de obediência a Deus. Quando os cientistas deixam de obedecer rigorosamente a essas leis, seus foguetes explodem e suas sondas espaciais não enviam informações à Terra. O trágico regresso da cápsula da nave espacial soviética Sayoz à Terra, com seus tripulantes mortos sem tempo de piscar, por causa de um defeito de calefação na nave, mostra a necessidade da obediência rigorosíssima aos poderes superiores que o fermentinho atrevido pretende ignorar. Eça de Queiroz, em A Cidade, põe um estudante materialista de Coimbra a fazer uma demonstração da inexistência de Deus. Tirando um patacão português do bolso, o estudante dá o prazo de cinco minutos a Deus para fulminá-lo com um raio. Passado o tempo, ele guarda o relógio dizendo: “Está provado que Deus não existe”.
Essas fanfarronadas acadêmicas ainda se repetem na abertura da Era Cósmica.
A Ciência Espírita, fundada por Kardec, revela a sua inteireza em todos os sentidos: nasceu de pesquisas rigorosas de fenômenos materiais, sujeitas a confrontos e repetições, aplicando o método indutivo, não aceitando coisa alguma que não pudesse ser provada dessa maneira. Entendendo que o método de pesquisa deve corresponder à natureza do objeto, Kardec formulou a metodologia necessária e a divulgou amplamente. Aberta a todas as possibilidades do conhecimento cientifico, não deixou dogmas, declarando que conquista científica provinda de outras fontes, mas realmente comprovada, poderia modificar a estrutura doutrinária flexível.
Criaturas inscientes e levianas tomaram essa franquia como um convite à mixórdia e ao sincretismo, lançando teorias absurdas e até mesmo ridículas em nome da doutrina. Kardec sempre as repeliu através de exames e verificação experimental. Nenhuma ciência se mostrou tão científica como essa, nem tão sólida na inteireza dos seus princípios. Há dogmas no Espiritismo, afirmam criaturas desavisadas. Kardec mesmo falou no dogma da reencarnação, mas não como dogma de fé e sim como dogma de razão, princípio doutrinário enquanto válido.
Por mais estranho que pareça aos que desconhecem o Espiritismo, o dogma da existência de Deus é também de razão e não de fé, fundando-se no princípio seguinte: “Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente, e a grandeza do efeito nos prova a grandeza da causa”. Assim, a prova de existência de Deus está em nós mesmos e na Natureza, pois a nossa inteligência e toda a estrutura inteligente do Universo provam a existência de uma Inteligência Suprema. Querem uma prova mais objetiva do que a Natureza terrena somada à grandeza do Cosmos?
Podem tranqüilizar-se os que perderam seres amados na voragem da morte. Nada se perde, tudo se transforma. O homem deixa o corpo na Terra e passa naturalmente para outra dimensão da matéria, que se refina e aprimora na escalada gloriosa das hipóstases de Plotino. A imortalidade do ser humano foi provada sempre nas pesquisas espíritas mais rigorosas e continua a provar-se nas investigações atuais em todo o mundo. Há sempre um reencontro à nossa espera, nas dimensões infinitas do Cosmos. A morte do corpo não é a morte do ser. Este apenas se liberta da prisão material para prosseguir sua evolução no tempo e no espaço.
Os mortos não morreram, são almas viajoras que partiram para mundos mais belos e livres.
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 23:17

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