Sábado, 23 de Outubro de 2010

REFLEXÕES SOBE A MORTE

Cidadão da eternidade, o homem convive, simultaneamente, com o mundo físico e o espiritual. Durante o sono, verifica-se a separação provisória entre a alma e o corpo. Enquanto este dorme, o Espírito semiliberto, envolto em seu corpo fluídico, ou perispírito, pode adentrar o mundo invisível, em excursão de aprendizagem ou em tarefa de ajuda aos mais necessitados nos dois planos da vida.

Na morte, porém, a libertação é definitiva: a vida, no corpo espiritual, desabrocha intensa e livre, pois "semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual"(I Cor.15:44). Por outro lado, o nascimento na Terra é como uma morte para o Espírito: este é encerrado em um "túmulo de carne", no dizer de Léon Denis. O mesmo se infere do conselho de Jesus ao homem que queria segui-Lo: "A outro disse: - Segue-me". "Mas ele disse: - Senhor, permite-me que eu vá primeiro sepultar meu pai" - "Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; quanto a ti, vai anunciar o reino de Deus"(Lc, IX:59-60)

É evidente que Jesus não censurava a preocupação piedosa do filho: providenciar o sepultamento de seu pai. A lição que se infere dessa passagem evangélica é que a vida real, intensa e bela, é a vida espiritual, natural ao ser; havia, pois, urgência em proclamá-la.

Toda morte é um renascimento: o despertar da vida em sua plenitude. Assim como morre a feia lagarta para surgir a borboleta multicor, assim também desagrega-se o invólucro material para libertar o Espírito que, em sua roupagem diáfana, flutua rumo ao verdadeiro lar, em busca de novos compromissos.

No dia de Finados, uma multidão de pessoas comparece aos cemitérios, cumprindo a tradição do culto aos mortos. As necrópoles ficam em festa, numa profusão de flores e velas, com direito à cobertura da mídia. Respeitamos aquele que assim o fazem; no entanto somos levados a refletir sobre o fato à luz dos ensinamentos da Doutrina Espírita.

Não é no silêncio frio das sepulturas que vamos encontrar os nossos entes queridos que partiram. Dos tristes despojos, muitas vezes, resta apenas pó. Não raro, os amores por que choramos e vamos procurar no cemitério estão ao nosso lado, velando por nós. Às vezes sofrem e perturbam-se, angustiados com o nosso sofrimento.

Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta : (323) - "A visita ao túmulo proporciona mais satisfação ao Espírito do que uma prece feita em sua intenção? Obtém a seguinte resposta:" A visita ao túmulo é uma maneira de se manifestar que se pensa no Espírito ausente: é a exteriorização desse fato. Eu já vos disse que é a prece que santifica o ato de lembrar; pouco importa o lugar, se a lembrança é ditada pelo coração."

Convocados pelo pensamento, os finados comparecem ao triste local, em atenção aos seus familiares e amigos que lá se encontram. Tal, porém, poderia ser feito no recesso do lar, quando, em demonstração de saudade e carinho, fosse-lhes oferecido um ramalhete de flores envolvidas pela cariciosa vibração de uma prece.

 
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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 13:44

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Sexta-feira, 1 de Outubro de 2010

CANDEIAS NA NOITE ESCURA

 

VENHO DUM TEMPO EM QUE doces babás culturalmente despreparadas mas espiritualmente graduadas nas divinas universidades do amor fraterno, nos contavam histórias - ainda eram histórias e não estórias - singelas, nas quais o bem recebia sempre o seu prêmio e o mal o seu castigo. Em muitas dessas histórias, os heróis anônimos se perdiam pelos caminhos e a noite chegava cheia

de terrores, mas tudo acabava bem quando, a distância, o viajante perdido descobria na escuridão um tímido ponto de luz em torno do qual viviam aqueles que o socorreriam.

Buscamos todos a luz. Mais que uma realidade energética no campo da física, a luz é o símbolo multimilenar do desenvolvimento espiritual. Dela dependemos para ver o mundo que nos cerca e o caminho que pisamos. Em espírito, buscamos as vibrações superiores do amor esse grande gerador de luzes fascinantes. E, a medida em que a luz se realiza em nós, desaparecem as sombras que nos envolvem e se iluminam não apenas as nossas veredas, mas também os caminhos dos que seguem ao nosso lado. Ainda que o desejássemos, não poderíamos guarda-la somente para nós, egoisticamente : ela se irradia por onde andamos e alcança os outros. Tudo no universo é solidário, porque vivemos e nos movemos em Deus, como dizia Paulo.

"Ninguém acende a luz e a coloca debaixo do alqueire", ensinava o Mestre. Quanta sabedoria profunda e intemporal nos seus mais singelos pronunciamentos! Que maravilhoso poder de comunicação na sua capacidade de traduzir em imagens tão nítidas o pensamento mais transcendental...

Vejo ainda, com os olhos da saudade, a lamparina humilde da fazenda, colocada no lugar mais alto para que todos 9,. vissem e nunca debaixo do alqueire.- Pelas paredes - dançavam sombras grotescas, mas nenhuma das sombras chegava perto da luz.

Lembro disso agora, ao verificar' que, mesmo a nossa luzinha humílima de principiantes, quanta gente atrai! São os que vêm buscar consolo, principalmente. Os que "perderam" entes queridos, os que sofrem provações incompreensíveis, os que se consomem no remorso. Mas vêm também os que, sem grandes dores, desejam compreender melhor a vida; que não têm remorsos, mas estão vazios de esperança. Quase todos, senão todos, atrasaram-se pelos caminhos e a noite chegou e se fechou sobre eles. De repente, encontram aqueles que, sem muito brilho, dispõem, no entanto, de uma candeia modesta. São estes os que se iniciaram nas primeiras tarefas do amor, são os que, tendo ainda tão pouco, possuem já o suficiente para dar, têm em si bastante amor para distribuir em nome do Cristo.

É certo que neste crepúsculo dos tempos muitos continuarão extraviados por largo espaço e, infelizmente, não está em nosso poder sacudi-los de sua inconsciência, mas estamos igualmente certos de que não ficarão abandonados à própria sorte, porque Deus vela por todos nós indistintamente. Também a chuva e o sol caem sobre o justo e o pecador, sobre a boa semente e a outra. Que orem por eles os que aprenderam a conversar com Deus, mas aqueles que disponham de uma pequena chama espiritual, ainda que humilde, que cuidem de colocar a candeia sobre o alqueire e não debaixo dele. Não para exibir conhecimentos e alardear virtudes que ainda não temos, mas quem sabe se lá ao longe, na escuridão da noite que nos envolve, algum irmão extraviado não vai enxergar a luzinha e chegar-se exausto e faminto, pedindo pousada, ajuda e carinho. Isso mesmo, daremos na medida das nossas forças e limitações, porque é bom repartir o pouco que temos, "para que a felicidade se multiplique entre nós", como,, diz Agar na sua linda prece. A felicidade aumenta , quando repartida, ao passo que a dor partilhada diminui. Vamos, pois, distribuir a nossa alegria consciente de viver em Deus. Nós sabemos o que somos - espíritos imortais, temporariamente encarcerados num corpo físico. Sabemos de onde viemos - de um longo rosário de vidas que aprofundam suas raízes na escuridão de remotas idades. Sabemos para onde vamos - para os mundos cada vez mais perfeitos que luzem adiante de nós, nas muitas moradas do nosso Pai.

A mensagem que temos a transmitir é, pois, extremamente simples e fácil de entender. Para muitos é ainda difícil aceitá-la, porque se habituaram demais à opressiva aridez da descrença; lembremo-nos, entretanto, daqueles mais desgraçados para os quais não é apenas difícil aceitar a realidade do espírito, mas ainda é impossível.

Que brilhe, então, a nossa luz humilde, alimentada pelo combustível do conhecimento e da caridade que começa a arder em nós. A hora é de dores, muitas e grandes; de desorientação e desespero; de ódios e crueldades. Hora de ajustes aflitivos e desenganos dolorosos. Mas é também uma hora de revelações maravilhosas, de descobertas memoráveis, de conquistas deslumbrantes, de oportunidades raras se, com muito amor e humildade, procurarmos em nosso próprio território íntimo o rastro luminoso que o Mestre de todos nós deixou em nós. Há séculos que ouvimos a sua palavra, repetida insistentemente. Há séculos que muitos de nós a pregamos à nossa maneira, obscurecida pelas paixões e incompreensões que nos toldam a visão. É chegado o tempo de fazê-la florescer e frutificar. É, assim, muito bela a tarefa que temos diante de nós, os que começamos a soletrar o beabá do conhecimento espiritual: incumbe-nos a responsabilidade e a alegria de transmiti-lo, proclamando aos quatro cantos da Terra que somos espíritos sobreviventes a caminho de Deus. E que, por estranho que pareça, Deus está também em nós. "Vós sois deuses!", dizia Jesus. Que brilhe a nossa candeiazinha humilde que não ilumina mais que uns poucos palmos à volta. Há irmãos tão desesperados que anseiam até mesmo por essas migalhas de luz.

Um dia seremos um clarão de amor fraterno, tal como nos quer o Príncipe da Paz.

Revista Reformador – Agosto de 1971

 

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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 00:01

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Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010

O PERISPÍRITO

 

 "Há corpo animal e há corpo espiritual" diz São Paulo (1 Cor. 15:44). Com efeito, esse corpo espiritual de São Paulo é o perispírito dos espíritas de hoje. O perispírito, aliás, não é coisa nova.

No Antigo Egito os sacerdotes ensinavam que além do ka", o Espírito, emanação divina, havia uma forma imaterial "sahu", o fantasma propriamente, que reproduzia exatamente os traços do corpo físico e que se manifestava aos encarnados.

Na Grécia antiga, a doutrina inspirada pelos hinos órficos ensinava: "Amai a luz, e não as trevas. Lembrai-vos da finalidade da vossa viagem. Quando as almas voltam ao mundo espiritual trazem marcadas sobre os seus corpos etéreos, em manchas horrendas, todas as faltas da sua vida e, para as apagar, é necessário voltar à Terra. Mas os puros e os fortes se vão para o sol de Dionísio".

Na Índia se fala também desse corpo espiritual, porque ele próprio se impõe como uma realidade incontestável.

Mas não desejamos deter-nos em detalhes nem em considerações dos antigos filósofos. Preferimos abordar rapidamente as importantes funções do perispírito no plano material, assim como as suas conseqüências no plano espiritual.

O corpo espiritual, isto é, o perispírito está em cada. um de nós intimamente ligado ao corpo físico e é tanto mais sutil quanto mais elevado se acha o ser na escala da perfectibilidade. Vaporoso para nós encarnados é, no entanto, bem grosseiro ainda para os desencarnados; contudo, os Espíritos purificados podem elevar-se com ele na atmosfera e transportar-se aonde queiram.

As suas funções no corpo físico são múltiplas e preside a todos os fenômenos fisiológicos da respiração, da alimentação e assimilação dos alimentos, extraindo toda a matéria aproveitável, afeiçoando-a a cada órgão e eliminando do corpo todos os elementos que lhe sejam inúteis ou nocivos. Com efeito, o nosso organismo é uma complicada máquina que funciona à nossa revelia, sem que, nem de leve, suspeitemos da sua complexidade.

Um elevado Espírito, respondendo numa sessão a um jornalista inglês que lhe perguntara sobre o perispírito, disse: "Tenho um corpo que é uma reprodução do que tive na Terra: as mesmas mãos, pernas e pés, que se movem como o fazem os vossos. Na Terra eu tinha o corpo físico interpenetrado do corpo etéreo que ora tenho. O etéreo é o corpo real e é cópia perfeita do corpo terreno. Por ocasião da morte, emergimos de nossa cobertura de carne e continuamos a nossa vida no mundo etéreo, funcionando aqui por meio do corpo etéreo, exatamente como funcionávamos na Terra, metidos no corpo físico. O corpo etéreo é aqui tão substancial para nós como o era o corpo físico quando vivíamos na Terra. Temos as mesmas sensações. Sentimos e vemos como na Terra. Embora não sejam materiais, conforme entendeis esta palavra, os nossos corpos têm forma, aspecto e expressão".

É ainda no perispírito que ficam registradas as nossas ações e os nossos atos, bons ou maus. De fato, todos os acontecimentos da nossa vida são maravilhosamente registrados em nosso perispírito, nos seus mínimos detalhes; nada se perde.

Segundo recente declaração do Dr. Wilder Penfield, diretor do Instituto de Neurologia de1 Montreal, Canadá, o nosso perispírito grava, como num filme, todos os acontecimentos da nossa vida. A recordação é de tal modo viva que é como se o indivíduo voltasse a reviver as mesmas cenas, os mesmos fatos.

Pelos fatos registrados nas obras espíritas já sabíamos que em momentos críticos, como nos acidentes graves, nas quedas perigosas, na asfixia por afogamento, etc., o indivíduo pode rever, com incrível nitidez, a sua vida até aquele momento, como se assistisse a um filme no qual ele próprio tomasse parte.

Naturalmente os seus atos bons são motivos de satisfação para o seu Espírito, enquanto os atos maus são motivo de tristeza e arrependimento. Por aí se pode avaliar a situação dolorosa de certos Espíritos libertos da carne, tendo diante de si, permanentemente, os acontecimentos deploráveis que desejariam esquecer.

Eis um fato significativo que comprova as afirmações do Dr. Penfield. O almirante Beaufort, quando ainda jovem, caiu de um navio à água do porto de Portsmouth. Antes que fosse possível ir em seu socorro, desapareceu; ia morrer afogado.

Depois de algumas considerações sobre a angústia do primeiro momento, diz ele:

"Com o enfraquecimento dos sentidos coincidiu uma superexcitação extraordinária da atividade intelectual; as idéias sucediam-se com rapidez prodigiosa. O acidente que acabara de dar-se, o descuido que o motivara, o tumulto que se lhe deveria ter seguido, a dor que iria alcançar meu pai e outras circunstâncias intimamente ligadas ao lar doméstico, foram o objeto das minhas primeiras reflexões. Depois, veio-me à memória o último cruzeiro, viagem acidentada por um naufrágio; a seguir, a escola, os progressos que nela fizera e também o tempo perdido, finalmente, as minhas ocupações e aventuras de criança. Em suma, a subida de todo o rio da vida, e quão pormenorizada e precisa"! E acrescenta: "Cada incidente da minha vida atravessava-me sucessivamente a memória, não como simples esboço, mas com as particularidades e acessórios de um quadro completo! Por outras palavras, toda a minha existência desfilava diante de mim numa espécie de vista panorâmica, cada fato com a sua apreciação moral ou reflexões sobre suas causas e efeitos. Pequenos acontecimentos sem conseqüências, há muito tempo esquecidos, se acumulavam em minha imaginação como se tivessem passado na véspera. E tudo isso sucedeu em dois minutos"

(Léon Denis, "O Problema do Ser", pág. 173)

Com efeito, todos os atos da nossa vida e são maravilhosamente registrados em nosso perispírito. Os menores detalhes são cuidadosamente guardados para, no momento preciso, na aflorarem nítidos, inconfundíveis - Eis porque Jesus, estabelecendo a nossa responsabilidade diante da vida, diz: "Até os cabelos da vossa da cabeça estão contados."

Fonte: Reformador - julho/1970 - pg. 161

 

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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 00:17

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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010

GAVETA DE PAPÉIS

Acho que as idéias, como os seres, os bichos e as plantas, também envelhecem e também morrem quando se aferram à sua condição transitória, esquecidas do apoio eterno da verdade. Isso é natural e explicável, pois que, se assim não fosse, a lei evolutiva, que evidentemente governa o Universo inteiro, seria impossível. De vez em quando temos de fazer uma revisão em nossas idéias, a fim de abandonar as que não servem mais e examinar com cuidado as que se incorporaram aos nossos arquivos psíquicos. E’ assim que evoluímos espiritualmente, pois, afinal de contas, o Espírito tem uma vocação irresistível para o aperfeiçoamento moral e o esclarecimento intelectual.

 

Mais ainda: é preciso desenvolver harmoniosamente os dois termos da equação humana: moral e intelecto. Nem tudo pode fazer uma criatura moralizada, quando reduzidos lhe são os recursos intelectuais, não lhe permitindo uma atividade esclarecedora em benefício próprio e alheio. Em todo o caso, é infinitamente melhor sermos bem evolvidos moralmente e acanhados do ponto de vista intelectual, do que sermos grandes sábios, pejados de conhecimentos, sem uma estrutura moral suficientemente desenvolvida. Deficiências morais e intelectuais são transitórias; essas faculdades tendem a se ajustarem, de vez que o Espírito às vezes se detém na sua caminhada, mas nunca recua, como ensina Allan Kardec. Acabará o Espírito por encontrar em si mesmo o justo equilíbrio, tornando-se moral e intelectualmente evoluído, o que, de resto, constitui seu objetivo e seu passaporte para o mundo maior. Em suma: é muito melhor ser bom e inculto do que sábio e imoral, mas o ideal só começamos a alcançar quando nos tornamos bons e sábios.

 

Enquanto não nos bafejamos com a brisa da bondade e da sabedoria, em doses equilibra­das e justas, precisamos, não obstante, viver, aqui e no mundo espiritual, à medida que vamos e voltamos, em sucessivas encarnações. Ora, vi­ver é escolher. A vida é uma série infinita de escolhas, de decisões e resoluções. Temos de as tomar, no livre exercício do nosso arbítrio. Ninguém pode, em sã consciência, pegar-nos pela mão e nos conduzir ao nosso destino; temos de ir com as nossas próprias forças e recursos. Quanto mais alta a hierarquia espiritual daqueles que se incumbem da espinhosa missão de nos guiar, mais cuidadosos se mostram em não to­mar por nós decisão que nos compete. O que fazem esses orientadores é nos mostrar as alternativas. Se resolvermos pelo caminho do bem, dizem-nos, teremos o mérito das nossas vitórias; se nos decidirmos pelo mal, ficaremos com a responsabilidade e os ônus dos nossos erros. O Espírito, portanto, é deixado livre na sua escolha e iniciativa. Nessas contínuas e repetidas decisões é que vamos renovando nossas idéias e treinando a nossa vontade. O que ontem nos parecia certo, hoje pode parecer duvidoso e amanhã inteiramente inaceitável. De outro lado, muito do que considerávamos há pouco completamente errôneo, pode, de repente, assumir aspectos menos hostis, até que acabamos por incorporar as novas idéias à nossa bagagem intelectual.

 

Há, porém, a considerar, aqui, um ponto da mais alta importância: é que tanto podemos caminhar na direção da luz como permanecer nas trevas, tateando, ou nelas afundando cada vez mais, conforme esteja ou não alertada aquela condição básica a que o Mestre chamou vigilância. Se nos faltar esta que, ainda segundo o Cristo, se fortalece com a oração (orai e vigiai), vamos aceitando idéias indignas e dissolventes que antes nos repugnavam, mas que passamos a achar muito naturais. Se estamos atentos, se guardamos em nós a singeleza de coração que nos leva a receber, com humildade, não apenas as alegrias, mas principalmente as tristezas, então as idéias que começamos a considerar são as que constroem e educam, que aperfeiçoam e moralizam cada vez mais. E’ aí, pois, que entra em ação a nossa capacidade de escolha e decisão. E surge a pergunta: a idéia que se nos oferece é digna de ser incorporada à estrutura do nosso espírito ou é uma dessas que só vão contribuir para nos dificultar a marcha? Será que não es­taremos trocando uma idéia nova, que à primei­ra vista nos seduz a imaginação, por uma outra que, embora velha, está escorada na Verdade? Ou, examinando a medalha do outro lado: será que não estamos desprezando uma idéia magnífica, apenas porque não desejamos, por comodismo ou temor, abandonar a ilusória segurança das nossas velhas e desgastadas noções?

 

Essas coisas todas me ocorrem quando me lembro da dificuldade que temos para nos livrar­mos de idéias que somente nos prejudicam. Algumas delas têm sido mesmo responsáveis por muitas das nossas aflições e, em acentuada pro­porção, pelo próprio retardamento da marcha evolutiva da Humanidade. Estão neste caso alguns dos dogmas mais caros e mais irredutíveis da teologia ortodoxa. E aqui não se distingue a teologia católica da teologia protestante. Esta última, a despeito de todo o seu ímpeto reformista, conservou certos princípios que ainda prevalecem, como a questão da salvação.

 

Espero que o leitor fique bem certo de que não pretendo atacar o Catolicismo nem o Protestantismo. Reencarnacionistas convictos, como somos os espíritas kardequianos, podemos estar razoavelmente certos de já havermos trilhado os caminhos da ortodoxia religiosa. E’ bem provável que muitos de nós tenhamos até trabalhado ativamente para propagar essas idéias dogmáticas que agora não mais podemos aceitar. No entanto, temos de pensar sem que nisso vá nenhuma pitada de superioridade — que aqueles caminhos ainda servem a muitos e muitos ir­mãos nossos.

 

Mas, voltando ao fio da conversa, em que consiste a salvação? Salvamos a nossa alma, diz o teólogo, das penas do inferno e vamos para o Céu, se agirmos de acordo com os preceitos da lei moral e se praticarmos fielmente os sacra­mentos, observando os ritos, conforme a prescrição canônica. Para a teologia ortodoxa não basta que o homem seja altamente moralizado, bom e puro; é preciso também que pratique os sacramentos e se conforme com a estrita orientação espiritual da sua Igreja. O desvio, por menor que seja, é logo tido por heresia e o seu iniciador é proscrito do meio, depois de esgotados os re­cursos habituais de persuasão, com o objetivo de reconduzir ao seio da comunidade a ovelha desgarrada.

 

Convém examinar bem essa idéia da salvação, pois esta é uma das que têm trazido bastante dano à evolução do espírito humano. No fundo, é um conceito egoístico: o Espírito se salva pela fé e pelas obras, diz o católico. Não, diz o protestante, basta a fé, porque o homem é intrinsecamente pecador e sem a graça vai para o inferno irremediavelmente. E, assim, muitos se encerraram em claustros, passaram a viver isolados do mundo para que nele não contaminas­sem suas almas destinadas ao Senhor, logo após a libertação da morte. Outros, empenhados não apenas em salvar as suas próprias almas, como a dos outros, saíram pregando aquilo que lhes parecia ser a doutrina final, a última palavra em matéria teológica. Ainda outros, mais zelo­sos e exaltados, achavam que não bastava sal­var suas próprias almas e convocar as de seus irmãos a fim de lhes mostrar o caminho; era necessário obrigá-los a se salvarem, porque nem todos estariam em condições de decidir acerca dessas coisas tão importantes. E, por isso, aqueles que estudavam Teologia e se diziam em íntimo contacto com Deus e agiam em nome do Senhor, se sentiam não apenas no dever, mas na obrigação de salvar a massa ignara que nada entendia disso. “Creia porque eu creio e eu mais do que você” — parecia pensarem estes mais agressivos salvadores de almas. Quando o irmão recalcitrava, era preciso corrigi-lo, aplicando pe­nas que iam desde a advertência amiga e verdadeiramente cristã, até o extremo da tortura e, finalmente, do inacreditável assassínio frio e calculado, em masmorras infectas ou nas fogueiras purificadoras. Disso não se eximiu nem mesmo o nascente Protestantismo, cuja intolerância religiosa conduziu a crimes lamentáveis. Era melhor queimar um corpo físico — pensavam todos — do que permitir que aquela alma “rebelde” contaminasse outros seres incautos, com as suas doutrinas, e acabasse pelos arrastar às fornalhas do inferno.

 

  Vemos, então, que a idéia da salvação se prende solidamente a duas outras: a do céu e a do inferno. A questão é que também estas precisam de um reexame muito sério.

 

  Aqueles de nós que têm tido oportunidade de entrar em contacto com Espíritos desencarnados, ficam abismados com a quantidade imensa de pobres seres desarvorados que não conseguem entender o estado em que se encontram e a vida no Além, ficando numa confusão dolo­rosa por um lapso de tempo imprevisível. O Espírito que levou uma ou mais existências ouvindo a pregação dogmática, sem cuidar de examiná-la, praticando as mais nobres virtudes, frequentando religiosamente todos os sacramentos e assistindo a todas as cerimônias do ritual, sente-se, com certa razão, com direitos inalienáveis ao prêmio que lhe foi prometido, isto é, subir para Deus imediatamente após a morte do corpo físico. No entanto, não é isso que acontece. Quem somos nós, Senhor, já não digo para sermos acolhidos no seio de Deus, mas para suportar com nossos pobres olhos o brilho de um Espírito mais elevado? Que mérito temos nós, ainda tão imperfeitos, para exigir o chamado céu, após uma vida (uma só, como crêem os ortodoxos) em que tanto erramos, por melhores que tenham sido nos­sas intenções? Como poderemos ambicionar chegar a Deus se nem ainda tivemos tolerância suficiente para admitir a coexistência de outras crenças?

 

  Daí o desapontamento daquele que morreu em pleno seio da sua Igreja amada, protegido por todos os sacramentos, recomendado por tantas missas e serviços religiosos, mas que, a despeito de tudo isto, ainda não viu a Deus.

 

  Conhecemos também a angústia daqueles que, conscientes dos seus erros e crimes, ou mesmo ainda indiferentes a eles, mergulham num clima de angústia que lhes parece irremediável e sem fim, tal como lhes diziam que era o inferno. Hipnotizados à idéia do sofrimento eterno, nem sequer sabem que estão “mortos” na carne nem suspeitam que podem recuperar-se pela oração e pelo arrependimento. Figuras sinistras passeiam à sua volta e deles escarnecem e os fazem sofrer. São os demônios, pensa a criatura aterrada e desalentada. No entanto, são seres como ele próprio, também desarvorados e infelizes, todos inconscientes das forças libertadoras que trazem em si próprios e que podem ser despertadas pelo poder da lágrima e da prece.

 

  Tanto num caso como noutro, não há como negar, estamos diante de vítimas do dogmatismo cego que proíbe o livre exame das questões. Enquanto na carne, aceitavam aquelas idéias ou seriam forçados a abandonar as igrejas a que pertenciam, se não excomungados, pelo menos proscritos do meio. E se de um lado estão os que não se dispuseram a deixar as idéias erradas por indiferença ou comodismo, de outro vemos os que não as deixaram por receio de não se sal­varem, pois que uma das doutrinas prediletas das organizações dogmáticas é a de que fora delas não há salvação. Assim, vai a criatura inteiramente despreparada para enfrentar o mo­mento supremo da sua vida terrena, isto é, aquele em que, mais uma vez, se encontra diante do trágico balanço da sua existência.

 

Por isso o Espiritismo mudou o conceito da salvação. Não dizemos que fora do Espiritismo não há salvação, e sim que fora da caridade não há salvação. Mas completamos esse nobre conceito explicando que céu e inferno são figuras de ficção que já perderam sua razão de ser e, ainda, que nunca essas idéias se conciliaram com a de um Deus justo e bom, puro e perfeito. Esse Deus, imenso de caridade e amor, não iria criar filhos seus para as chamas do inferno irremediável e eterno, como também não ficaria como um potentado, rodeado de multidões a Lhe cantarem loas eternas. O que Deus quer de nós é o trabalho fraterno e a conquista da nossa própria paz interior, palmo a palmo, com o nosso próprio esforço, se bem que muito ajudados pelo infinito amor que Ele derrama tão generosamente por todo esse grandioso Universo, fervilhante de vida.

 

Salvar-se, para o Espiritismo, não é escapar às penas de um inferno mitológico, para subir às glórias de um céu de contemplação extática. Salvamo-nos caminhando sempre para a luz divina, aos pouquinhos, vencendo nossas fraquezas, caindo aqui, levantando ali, ajudando e sendo ajudados, distribuindo as alegrias que nos sobram e recebendo um pouco da mágoa que aos outros aflige, pois que já disse alguém que a felicidade aumenta com o dar-se e o sofrimento alivia quando partilhado.

 

Salvar-se, para a Doutrina Espírita, não é escapar ao inferno que não existe, é aperfeiçoar-se espiritualmente, a fim de não cairmos em estados de angústia e depressão após o transe da morte, em suma, libertar-se dos erros, das paixões insanas e da ignorância. Salvamo-nos do mal e nos liberamos para o bem, eis tudo.

 

Examine o leitor as suas idéias, como quem remexe uma gaveta de papéis. Aqui e acolá vai encontrando alguns que não servem mais e precisam ser postos fora, como também encontrará alguns conceitos novos que, sem se saber ao certo, juntaram-se à nossa bagagem. Estes também precisam de ser examinados com atenção. Talvez nos sejam úteis, mas tenha cuidado com eles. Uma idéia pode ser nova e boa e pode ser apenas nova. Pode ser velha e excelente e pode ser não mais que uma velharia que já teve seu tempo e desgastou-se. A pedra de toque de todas as idéias é a Verdade e esta somente nos ajuda a selecionar o nosso mobiliário mental e espiritual quando vamos adquirindo serenidade e humildade no aprendizado constante que é a vida, aqui e no Espaço.

 

Fonte: Reformador – agosto, 1964

 

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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 05:07

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Sábado, 28 de Agosto de 2010

PARA MUITOS, O INDECIFRÁVEL PROBLEMA DA MORTE

 

 “Para desassombrar a impenetrabilidade da morte, não há nada como a bondade.”

(Ruy Barbosa, discurso pronunciado na Academia Brasileira de Letras, em 1o de outubro de 1908.)

Num enfoque panorâmico apenas, diremos algo, tangenciando o problema da morte – tema da mais alta magnitude, pelo que representa para todas as criaturas humanas. Problema, aliás, que se constitui um tabu para muitos e um doloroso enigma para outros; problema, para a maioria, sombrio e angustioso, diante do qual até muitos espiritualistas não ousam olhar vis-à-vis, tal a educação manipuladora do medo irracional, abrigado nos desvãos do subconsciente.

Nós, os espiritualistas – queremos nos referir a todos os que adotam uma religião ou, simplesmente, intitulados como livres-pensadores, aceitam a sobrevivência do Espírito –, não podemos, às portas do Terceiro Milênio, em face das conquistas do pensamento contemporâneo, alimentar vacilações quanto à continuidade da vida, após nossa jornada pelos caminhos, por vezes, acidentados, da existência terrena. Quem se diz espiritualista ou se rotula como tal, e vacila quanto à realidade da sobrevivência do Espírito, é um incrédulo disfarçado com a roupagem cinzenta da dúvida. Esta é uma forma sofrível de espiritualidade vazia, que não enxerga na morte mais que um silêncio indecifrável, uma interrogação angustiante.

A morte, para nós espiritualistas de todos os matizes, “domiciliados na esfera física”, deve significar uma lei que se cumpre; um marco, entre duas fases, na eternidade de nossas vidas; uma simples mudança de estado; um eclipse momentâneo; uma transição da vida física para a vida espiritual; um indispensável episódio; o abandono necessário de um veículo em decadência – o nosso corpo; veste por vezes imprestável, que cumpriu o seu papel, nos labores evolutivo do nosso Espírito; fardo por demais pesado, sob os anos, para ser carregado, e que não mais corresponde às exigências da vida física, que deve ser devolvido ao laboratório da Natureza.

Para a maioria dos homens, voltamos a repetir, a morte continua a ser um pesadelo, uma indecifrável, enigmática e sombria interrogação, que não ousam olhar com olhos de ver, quando a maior parte das religiões literalistas da Crosta, que deveriam instruir seus adeptos, ficam apenas na periferia do problema, sem quase nada a oferecer aos seus profitentes.

Todavia, ao invés de repelirmos a ideia da morte dos nossos pensamentos, encaremo-la com tranquilidade, lembrando, com o grande vulto do pensamento científico da França, Charles Robert Richet, que “a morte é a porta da vida”, como escreveu em carta a Cairbar Schutel. Esforcemo-nos, sim, por desmistificála, por desembaraçá-la dos preconceitos que a envolvem, da roupagem angustiosa com que, em geral, é cercada por nossa incapacidade de entendê-la.

O medo da morte, a tanatofobia, gera verdadeira crise, verdadeiro tormento, chegando a tal demasia, a tal desespero para certas pessoas, “que morrem do medo de morrer”. (1) São criaturas, como afirmam nossos Benfeitores espirituais, que fazem da morte uma deusa sinistra, vendo no fenômeno natural da renovação as mais negras cores, transformando-o numa terrível noite de amarguroso e definitivo adeus.

As solenidades fúnebres, ritos ou cerimônias, engendrados por certos costumes ou por cultos religiosos, concorrem para dar à morte esse aspecto lúgubre, sombrio, chorado, sofrido, num verdadeiro culto a cadáveres, com esquecimento do culto devido ao Espírito.

É costume de mau gosto, que vem desde a nossa infância, apresentar-nos a morte, ainda que com fundo alegórico para o bom compreendedor, de forma esquelética, com a destra empunhando a foice inclemente, fatídica, inexorável. E de tal modo, que essa ideia excêntrica e esdrúxula provoca verdadeira afecção mental, desde a inexperiência de nossa infância. Cria tal psicose, vendo nela um asqueroso vampiro, buscando vítimas a imolar, sequiosa de lágrimas e desesperos; a todos ceifando sem hesitação e sem clemência; vulto hirto e frio como um “cipreste, que, ainda, mesmo florido, sombra da morte no ramal encerra”, no dizer de Castro Alves, poeta genial de “Espumas Flutuantes”. É preciso despir a morte desse aspecto mórbido, nascido de condicionamento milenar.(2)                    

Sabemos que não é fácil assistirmos impassíveis, quando o corpo de um ente querido baixa ao silêncio, para muitos indecifrável, do sepulcro, deixando nos mergulhados numa saudade infinita, amargurada em lágrimas sofridas, como se nos amputasse, dolorido, um pedaço de nossa alma. “Não permitamos, assim, que a saudade se converta em motivo de angústia e opressão.” (3)

Não é insensibilidade que as circunstâncias nos pedem, porém uma compreensão equilibrada, racional, ainda que banhada com pranto, certo que uma folha não se move no Universo senão pela vontade de Deus, sempre para o nosso bem, como tudo que nos vem do Criador; situação tão difícil de suportar e entender, em nossa visão limitada da vida e da morte.

Procuremos compreender, tanto quanto possível, a sabedoria Divina, sem dimensioná-la, ou tentar dimensioná-la com a bitola estreita da nossa visão limitadíssima das coisas e dos fatos, coerentes com a posição de meros aprendizes, que todos nós somos, das lições de imortalidade, que a escola da vida nos oferece, com vistas aos nossos esforços evolutivos; certo que Deus não nos criou, simplesmente, para ali, mais adiante, nos aniquilar, brincando com os nossos destinos. Deus não joga dados, como afirmava Einstein.

Para o materialista, que nada vê além da vida física; para o agnóstico, que declara o absoluto, o espiritual inacessíveis ao espírito humano; para o niilista, hóspede de profunda letargia espiritual – para todos eles, aferrados à dimensão física, refocilados nas transitoriedades do mundo –, a morte é o mergulho do ser no nada ou no mistério indecifrável, ainda que, no íntimo, procurem disfarçar suas dúvidas, seus pesadelos irrevelados. O materialista, principalmente, para efeito externo, para manifestação de fachada, se diz suficientemente esclarecido e inteligente para não aceitar crendice, como essa da sobrevivência do ser após a morte; colocando-se, assim, numa posição impertinente, vendo-se dono intransigente e irreverente da sua pseudoverdade, para si inquestionável; olhando de cima de um pedestal de soberba os que não lhe comungam das ideias, gesto que, por vez, toca à arrogância, num “flagrante delito de ignorância”. (4)

Todavia, para este ou para aquele, quer acreditem ou não acreditem na realidade da sobrevivência do ser – todos nós, na linguagem popular, na sua maneira de dizer e conceber –, chegado o momento decisivo, daremos de cara com nós mesmos. E, então, transferidos todos, pela morte, aos pórticos impassíveis do território cósmico da vida espiritual, que a nós todos espera, ali teremos, ante os olhos da alma, a inarredável e irrecorrível realidade. E vê-se cumprida, assim, a sentença inapelável, que nos diz que não há morte, senão para o corpo físico, certo que a individualidade permanece eterna, incorruptível, perfectível pelos caminhos inquestionáveis da sua destinação espiritual.

Na vida espiritual é que, a cada giro da Terra sobre si mesma, são despejadas multidões de criaturas; a grande maioria totalmente despreparada para o culminante evento, que a todos espera, porém, com perspectiva sombria para aqueles que acreditam apenas no império do NADA depois desta vida: os piores cegos, a exemplo dos que dizem que mesmo que vissem não acreditariam.

A indispensável preparação, que devemos diligenciar, enquanto por aqui nos encontrarmos, é tarefa de todos nós; o que não depende do rótulo religioso, do rótulo filosófico, ou mesmo não depende de rótulo nenhum, que daqui levarmos; depende, e muito, da compostura com que nos conduzirmos na vida de relação; da observância de uma linha de conduta, não apenas para efeito externo, porém da vivência de uma legítima dignidade moral, de uma nobreza de sentimentos, de uma ética indiscutível, de uma solidariedade efetiva, que venha espontânea de dentro dos nossos corações; certo que, na vida extrafísica, perante a Consciência Cósmica do Bem Eterno, da Justiça Infinita, responderemos, não apenas pelo mal que houvermos praticado, mas, também, pelo bem que deixamos de fazer. (5)

Este ensino serve a todos os matizes religiosos e a todas as filosofias positivas de vida.

Entre a alma, que conhece a Doutrina, mas não lhe vive a sua substancialidade no coração, e aquela que, desconhecendo-a, vive, porém, o Evangelho, espontaneamente, em sua vida de relação, é flagrante o contraste, transpostos os umbrais da eternidade. Enquanto esta desperta tranquila ao abrigo de paz indefectível, a primeira vê entorpecida, quando não frustrada a ascensão de quem “conhecendo a verdade, almejava a realização divina sem esforço humano, o trigo da verdade sem participar da semeadura, a tranquilidade sem dar-se ao trabalho das obras, a ciência sem a consciência, as facilidades sem as responsabilidades”, diremos inspirados na beleza estilística da linguagem luizínia.

Independentes dos fatores apontados, que dificultam o momento de regresso, e a vivência no plano espiritual, outros existem que o próprio homem cria, como duendes alucinados das confusões do seu mundo mental: são as inibições interiores, isto é, as vacilações, as deficiências de fé, o apego inútil e prejudicial às circunstâncias e aos circunstantes, o desespero sem razão e o pânico de quem, segundo dizem alhures, “faz da morte uma deusa sinistra, apresentando o fenômeno natural da renovação com as mais negras cores, e transformando a separação provisória numa terrível noite de amarguroso adeus”.

No século XX, às portas do Terceiro Milênio, é urgente que revisemos a nossa atitude mental diante da morte; que rejeitemos essa visão arcaica, paranoica até, de desespero em face do problema da morte, certo que morrer é tão importante quanto viver ou mais, pelas perspectivas que abre à nossa frente.

Aceitemos ou não aceitemos a lei das vidas sucessivas, todos nós já morremos e renascemos inúmeras vezes, na vivência desse projeto divino, impositivo cósmico da vida, no interesse de nossa ascensão espiritual, até que não precisemos mais envergar a libré da carne.

Há livros que ensinam como nascer ou como viver, poucos ensinam como morrer. A propósito escreve Emmanuel, ao prefaciar o livro “Obreiros da Vida Eterna”: “O homem moderno (...) esbarra, ante os pórticos do sepulcro, com a mesma aflição dos egípcios, dos gregos e dos romanos de épocas recuadas. Os séculos que varreram civilizações e refundiram povos, não transformaram a misteriosa fisionomia da sepultura. Milenário ponto de interrogação, a morte continua ferindo sentimentos e torturando inteligências.” Afirma, ainda, Emmanuel em outra oportunidade: “A morte já liberta de sua clássica significação macabra, é, precisamente, o ponto de partida do Espírito para a vida irradiante, infinita e luminosa, nos mundos ultraterrestres, vibrantes de Luz e Fraternidade, de Verdade e Amor.” Para quem fez por merecer, acrescentamos nós.

Quanto à duração de nossa vida na Terra, todos nós temos o nosso momento de regresso ao lar espiritual, marcado no relógio da eternidade, com certa flexibilidade; cada qual tem o seu relógio invisível, que toca no momento certo, convocando-o para a viagem de volta, assinalada por um Poder Maior, que supervisiona com sabedoria, justiça, misericórdia e amor os nossos destinos; evidente que não vivemos ao sabor do acaso. Todavia, existem aqueles que adulteram sua máquina física nos desatinos dos desregramentos de toda ordem, antecipando, irresponsavelmente, esse evento, com graves e dolorosas conseqüências.

Escrevendo sobre o problema da morte, no seu magnífico livro “Da Alma Humana”, o doutor Antônio Joaquim Freire, uma das culturas mais brilhantes do Espiritismo português, refere-se à morte como “a polarização máxima da ignorância da ciência contemporânea”. Entretanto, a Ciência caminha, ainda que com passos lentos e vacilantes para comprovar, definitivamente, a sobrevivência do ser.

Psiquiatras começam a fazer regressões às vidas passadas, para cura de certas moléstias com raízes nas vidas pretéritas, ainda que esse procedimento seja questionável para alguns profissionais da área, que se negam a examinar os fatos.

Essas conquistas liberam, para a parcela refratária da comunidade científica, uma nova e revolucionária visão da vida e da morte, queira ou não queira, comprovando, mais uma vez, a tese milenária da existência e sobrevivência do Espírito, após a morte do corpo somático.

Esses acontecimentos representam uma clarinada de alerta à ciência e às filosofias casuísticas e ortodoxas do nosso tempo, empedernidas na negação sistemática, pura e simples, quando não fogem pela evasiva estreita de não querer ver os fatos, temendo comprometer pseudoverdades, cristalizadas em velhos tabus. Ignoram que estamos sujeitos a uma lei de evolução, força cósmica, que se processa inquestionável e coercitiva, desde o microcosmo ao macrocosmo, na execução do pensamento Divino.

Diligenciamos por derrubar as bastilhas milenares dos preconceitos que envolvem o problema, oferecendo uma visão mais justa, mais consoladora, mais enobrecedora e mais racional do fenômeno da morte, quando o sabemos um determinismo irrevogável, sentença inapelável da sabedoria Divina; verdade incontestável, pela qual seguiremos “um a um no caminho de todos”, como disse Ruy Barbosa, sobre o túmulo, ainda aberto, de Joaquim Maria Machado de Assis.

Sócrates, uma das celebrações mais extraordinárias do pensamento filosófico da Humanidade, dizia aos seus amigos, que se entristeciam com os seus últimos momentos: “Mostrai-vos alegres, e dizei-vos que ides unicamente sepultar meu corpo.”

Goethe, uma das mais notáveis expressões da civilização ocidental, passeando com seu amigo Eckermann pelo bosque de Weimar, disse: “Quando se tem setenta e cinco anos, não há como fugir de pensar algumas vezes na morte. Esta idéia, porém, me deixa numa calma perfeita, porque nutro a firme convicção de que o nosso Espírito é uma essência de natureza absolutamente indestrutível, e continua ativo, de eternidade em eternidade.”

O eminente brasileiro José Bento Monteiro Lobato, em carta a Godofredo Rangel, afirma: “Eu não me desespero com mortes porque tenho a morte como um alvará de soltura.” (6)

Emmanuel, o eminente pensador do Cristianismo redivivo – o Espiritismo – advertia alhures: “Ao invés de temeres a morte, faze da existência a lavoura sublime de bondade e trabalho, auxílio e compreensão, em favor dos que te rodeiam; e para o homem que, a cada dia, transforma a solidariedade em fartura de bênçãos, o ocaso da vida chega sempre por sombra esmaltada de estrelas, acalentando-lhe o sono e garantindo-lhe o despertar, em novo e glorioso dia, dourado de sol.”

 

NEY DA SILVA PINHEIRO

REFORMADOR SET2000

 

Referências Bibliográficas:

1 KARDEC, Allan. Revista Espírita, 1869, março, p. 64., EDICEL, São Paulo-SP.

2 SIMONETTI, Richard. Quem tem medo da morte, p. 15 e 110. Editado por Gráfica São João Ltda., Bauru-SP, 1987.

3 Idem, ibidem.

4 KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Ed. FEB.

5 Idem. O Livro dos Espíritos, questão 636, 80. ed. FEB.

6 GRANJA, Pedro de Carvalho. Os Simples e os Sábios, p. 166, Edição Calvário, São Paulo, 1971.

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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 01:36

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Sábado, 21 de Agosto de 2010

QUEM SE ELEVAR SERÁ REBAIXADO

Naquela hora, chegaram-se a Jesus os seus discípulos, dizendo: Quem é o maior no Reino dos Céus? E Jesus, chamando um menino, o pôs no meio deles e disse: Na verdade vos digo que, se não fizerdes como meninos, não entrareis no Reino dos Céus. Todo aquele, pois,que se humilhar e se fizer pequeno como este menino, esse será o maior no Reino dos Céus. E o que receber em meu nome um menino como este, a mim é que recebe. (Mateus, XVIII: 1-5).

 

Então se chegou a ele a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, adorando-o e pedindo-lhe alguma coisa. Ele lhe disse: Que queres? Respondeu ela: Dize a estes meus dois filhos que se assentem no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda. E respondendo Jesus, disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber? Disseram-lhe eles: Podemos. Ele lhes disse: É verdade que haveis de beber o meu cálice; mas, pelo que toca a terdes assento à minha direita ou à minha esquerda, não me pertence conceder-vos, mas isso é para aqueles a quem meu Pai o tem preparado. E quando os dez ouviram isto, indignaram-se contra os dois irmãos. Mas Jesus os chamou a si e lhes disse: Sabeis que os príncipes das nações dominam os seus vassalos, e que os maiores exercitam sobre eles o seu poder. Não será assim entre vós; mas aquele que quiser ser o maior, esse seja o vosso servidor, e o que entre vós quiser ser o primeiro, seja o vosso escravo; assim como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em redenção de muitos. (Mateus, XX: 20-28).

 

E aconteceu que, entrando Jesus num sábado em casa de um dos principais fariseus, a tomar a sua refeição, ainda eles o estavam observando. E notando como os convidados escolhiam os primeiros assentos à mesa, propôs-lhes esta parábola: Quando fores convidado a alguma boda, não te assentes no primeiro lugar, porque pode ser que esteja ali outra pessoa, mais autorizada que tu, convidada pelo dono da casa, e que, vindo este, que te convidou a ti e a ele, te diga: dá o teu lugar a este; e tu, envergonhado, irás buscar o último lugar. Mas quando fores convidado, vai tomar o último lugar, para que, quando vier o que te convidou, te diga: amigo, senta-te mais para cima, servir-te-á isto então de glória, na presença dos que estiverem juntamente sentados à mesa. Porque todo o que se exalta será humilhado; e todo o que se humilha será exaltado. (Lucas, XIV: 1, 7-11)

 

Estas máximas são conseqüências do princípio de humildade, que Jesus põe incessantemente como condição essencial da felicidade prometida aos eleitos do Senhor, nas seguintes palavras: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”. Ele toma um menino como exemplo da simplicidade de coração, e diz: “Todo aquele, pois, que se fizer pequeno como este menino, será o maior no Reino dos Céus”;  ou seja, aquele que não tiver pretensões à superioridade ou à infalibilidade.

  

O mesmo pensamento fundamental se encontra nesta outra máxima: “Aquele que quiser ser o maior, seja o que vos sirva”, e ainda nesta: “Porque quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado”.

 

O Espiritismo vem confirmar a teoria pelo exemplo, ao mostrar que os grandes no mundo dos Espíritos são os que foram pequenos na Terra, e que freqüentemente são bem pequenos os que foram grandes e poderosos. É que os primeiro levaram consigo, ao morrer, aquilo que unicamente constitui a verdadeira grandeza no céu, e que nunca se perde: as virtudes; enquanto os outros tiveram de deixar aquilo que os fazia grandes na Terra, e que não se pode levar: a fortuna, os títulos, a glória, a linhagem. Não tendo nada mais, chegam ao outro mundo desprovidos de tudo, como náufragos que tudo perderam, até as roupas. Conservam apenas o orgulho, que torna ainda mais humilhante a sua nova posição, porque vêem acima deles, e resplandecentes de glória, aqueles que espezinharam na Terra.

                O Espiritismo nos mostra outra aplicação desse princípio nas encarnações sucessivas, onde aqueles que mais se elevaram numa existência, são abaixados até o último lugar na existência seguinte,  se se deixaram dominar pelo orgulho e a ambição. Não procureis, pois, o primeiro lugar na Terra, nem queirais sobrepor-vos aos outros, se não quiserdes ser obrigado a descer. Procurai, pelo contrário, o mais humilde e o mais modesto, porque Deus saberá vos dar um mais elevado no céu, se o merecerdes.

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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 04:43

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Domingo, 4 de Julho de 2010

ENCARNAÇÃO DOS ESPÍRITOS

 

Livro “A GÊNESE” cap. XI

 

  1. - O Espiritismo ensina de que maneira se opera a união do Espírito com o corpo, na encarnação.

Pela sua essência espiritual, o Espírito é um ser indefinido, abstrato, que não pode ter ação direta sobre a matéria, sendo-lhe indispensável um intermediário, que é o envoltório fluídico, o qual, de certo modo, faz parte integrante dele. É semimaterial esse envoltório, isto é, pertence à matéria pela sua origem e à espiritualidade pela sua natureza etérea. Como toda matéria, ele é extraído do fluido cósmico universal que, nessa circunstância, sofre unia modificação especial. Esse envoltório, denominado perispírito, faz de um ser abstrato, do Espírito, um ser concreto, definido, apreensível pelo pensamento. Torna-o apto a atuar sobre a matéria tangível, conforme se dá com todos os fluidos imponderáveis, que são, como se sabe, os mais poderosos motores.

O fluido perispirítico constitui, pois, o traço de união entre o Espírito e a matéria. Enquanto aquele se acha unido ao corpo, serve-lhe ele de veículo ao pensamento, para transmitir o movimento às diversas partes do organismo, as quais atuam sob a impulsão da sua vontade e para fazer que repercutam no Espírito as sensações que os agentes exteriores produzam. Servem-lhe de fios condutores os nervos como, no telégrafo, ao fluido elétrico serve de condutor o fio metálico.

Quando o Espírito tem de encarnar num corpo humano em vias de formação, um laço fluídico, que mais não é do que uma expansão do seu perispírito, o liga ao gérmen que o atraí por uma força irresistível, desde o momento da concepção. A medida que o gérmen se desenvolve, o laço se encurta. Sob a influência do princípio vito-material do gérmen, o perispírito, que possui certas propriedades da matéria, se une, molécula a molécula, ao corpo em formação, donde o poder dizer-se que o Espírito, por intermédio do seu perispírito, se enraíza, de certa maneira, nesse gérmen, como uma planta na terra. Quando o gérmen chega ao seu pleno desenvolvimento, completa é a união; nasce então o ser para a vida exterior.

Por um efeito contrário, a união do perispírito e da matéria carnal, que se efetuara sob a influência do princípio vital do gérmen, cessa, desde que esse princípio deixa de atuar, em conseqüência da desorganização do corpo. Mantida que era por uma força atuante, tal união se desfaz, logo que essa força deixa de atuar. Então, o perispírito se desprende, molécula a molécula, conforme se unira, e ao Espírito é restituída a liberdade. Assim, não é a partida do Espírito que causa a morte do corpo; esta é que determina a partida do Espírito.

Dado que, um instante após a morte, completa é a integração do Espírito; que suas faculdades adquirem até maior poder de penetração, ao passo que o princípio de vida se acha extinto no corpo, provado evidentemente fica que são distintos o princípio vital e o princípio espiritual.

2. - O Espiritismo, pelos fatos cuja observação ele faculta, dá a conhecer os fenômenos que acompanham essa separação, que, às vezes, é rápida, fácil, suave e insensível, ao passo que doutras é lenta, laboriosa, horrivelmente penosa, conforme o estado moral do Espírito, e pode durar meses inteiros.

3. - Um fenômeno particular, que a observação igualmente assinala, acompanha sempre a encarnação do Espírito. Desde que este é apanhado no laço fluídico que o prende ao gérmen, entra cm estado de perturbação, que aumenta, à medida que o laço se aperta, perdendo o Espírito, nos últimos momentos, toda a consciência de si próprio, de sorte que jamais presencia o seu nascimento. Quando a criança respira, começa o Espírito a recobrar as faculdades, que se desenvolvem à proporção que se formam e consolidam os órgãos que lhes hão de servir às manifestações.

4. - Mas, ao mesmo tempo que o Espírito recobra a consciência de si mesmo, perde a lembrança do seu passado, sem perder as faculdades, as qualidades e as aptidões anteriormente adquiridas, que haviam ficado temporariamente em estado de latência e que, voltando à atividade, vão ajudá-lo a fazer mais e melhor do que antes. Ele renasce qual se fizera pelo seu trabalho anterior; o seu renascimento lhe é um novo ponto de partida, um novo degrau a subir. Ainda aí a bondade do Criador se manifesta, porquanto, adicionada aos amargores de uma nova existência, a lembrança, muitas vezes aflitiva e humilhante, do passado, poderia turbá-lo e lhe criar embaraços. Ele apenas se lembra do que aprendeu, por lhe ser isso útil. Se às vezes lhe é dado ter uma intuição dos acontecimentos passados, essa intuição é como a lembrança de um sonho fugitivo. Ei-lo, pois, novo homem por mais antigo que seja como Espírito. Adota novos processos, auxiliado pelas suas aquisições precedentes. Quando retorna à vida espiritual, seu passado se lhe desdobra diante dos olhos e ele julga de como empregou o tempo, se bem ou mal.

5. - Não há, portanto, solução de continuidade na vida espiritual, sem embargo do esquecimento do passado. Cada Espírito é sempre o mesmo eu, antes, durante e depois da encarnação, sendo esta, apenas, uma fase da sua existência. O próprio esquecimento se dá tão-só no curso da vida exterior de relação. Durante o sono, desprendido, em parte, dos liames carnais, restituído à liberdade e à vida espiritual, o Espírito se lembra, pois que, então, já não tem a visão tão obscurecida pela matéria.

6. - Tomando-se a Humanidade no grau mais ínfimo da escala espiritual, como se encontra entre os mais atrasados selvagens, perguntar-se-á se é aí o ponto inicial da alma humana.

Na opinião de alguns filósofos espiritualistas, o princípio inteligente, distinto do princípio material, se individualiza e elabora, passando pelos diversos graus da animalidade. É aí que a alma se ensaia para a vida e desenvolve, pelo exercício, suas primeiras faculdades. Esse seria para ela, por assim dizer, o período de incubação. Chegada ao grau de desenvolvimento que esse estado comporta, ela recebe as faculdades especiais que constituem a alma humana. Haveria assim filiação espiritual do animal para o homem, como há filiação corporal.

Este sistema, fundado na grande lei de unidade que preside à criação, corresponde, forçoso é convir, à justiça e à bondade do Criador; dá uma saída, uma finalidade, um destino aos animais, que deixam então de formar uma categoria de seres deserdados, para terem, no futuro que lhes está reservado, uma compensação a seus sofrimentos. O que constitui o homem espiritual não é a sua origem: são os atributos especiais de que ele se apresenta dotado ao entrar na humanidade, atributos que o transformam, tornando-o um ser distinto, como o fruto saboroso é distinto da raiz amarga que lhe deu origem. Por haver passado pela fieira da animalidade, o homem não deixaria de ser homem; já não seria animal, como o fruto não é a raiz, como o sábio não é o feto informe que o pôs no mundo.

Mas, este sistema levanta múltiplas questões, cujos prós e contras não é oportuno discutir aqui, como não o é o exame das diferentes hipóteses que se têm formulado sobre este assunto. Sem, pois, pesquisarmos a origem do Espírito, sem procurarmos conhecer as fieiras pelas quais haja ele, porventura, passado, tomamo-lo ao entrar na humanidade, no ponto em que, dotado de senso moral e de livre-arbítrio, começa a pesar-lhe a responsabilidade dos seus atos.

7. - A obrigação que tem o Espírito encarnado de prover ao alimento do corpo, à sua segurança, ao seu bem-estar, o força a empregar suas faculdades em investigações, a exercitá-las e desenvolvê-las. Útil, portanto, ao seu adiantamento é a sua união com a matéria. Daí o constituir uma necessidade a encarnação. Além disso, pelo trabalho inteligente que ele executa em seu proveito, sobre a matéria, auxilia a transformação e o progresso material do globo que lhe serve de habitação. É assim que, progredindo, colabora na obra do Criador, da qual se torna fator inconsciente.

8. - Todavia, a encarnação do Espírito não é constante, nem perpétua: é transitória. Deixando um corpo, ele não retoma imediatamente outro. Durante mais ou menos considerável lapso de tempo, vive da vida espiritual, que é sua vida normal, de tal sorte que insignificante vem a ser o tempo que lhe duram as encarnações, se comparado ao que passa no estado de Espírito livre.

No intervalo de suas encarnações, o Espírito progride igualmente, no sentido de que aplica ao seu adiantamento os conhecimentos e a experiência que alcançou no decorrer da vida corporal; examina o que fez enquanto habitou a Terra, passa em revista o que aprendeu, reconhece suas faltas, traça planos e toma resoluções pelas quais conta guiar-se em nova existência, com a idéia de melhor se conduzir. Desse jeito, cada existência representa um passo para a frente no caminho do progresso, um a espécie de escola de aplicação.

9. - Normalmente, a encarnação não é uma punição para o Espírito, conforme pensam alguns, mas uma condição inerente à inferioridade do Espírito e um meio de ele progredir. (O Céu e o Inferno, cap. III, nos 8 e seguintes.)

À medida que progride moralmente, o Espírito se desmaterializa, isto é, depura-se, com o subtrair-se à influência da matéria; sua vida se espiritualiza, suas faculdades e percepções se ampliam; sua felicidade se torna proporcional ao progresso realizado. Entretanto, como atua em virtude do seu livre-arbítrio, pode ele, por negligência ou má-vontade, retardar o seu avanço; prolonga, consequentemente, a duração de suas encarnações materiais, que, então, se lhe tornam uma punição, pois que, por falta sua, ele permanece nas categorias inferiores, obrigado a recomeçar a mesma tarefa. Depende, pois, do Espírito abreviar, pelo trabalho de depuração executado sobre si mesmo, a extensão do período das encarnações.

10. - O progresso material de um planeta acompanha o progresso moral de seus habitantes. Ora, sendo incessante, como é, a criação dos mundos e dos Espíritos e progredindo estes mais ou menos rapidamente, conforme o uso que façam do livre-arbítrio, segue-se que há mundos mais ou menos antigos, em graus diversos de adiantamento físico e moral, onde é mais ou menos material a encarnação e onde, por conseguinte, o trabalho, para os Espíritos, é mais ou menos rude. Deste ponto de vista, a Terra é um dos menos adiantados. Povoada de Espíritos relativamente inferiores, a vida corpórea é aí mais penosa do que noutros orbes, havendo-os também mais atrasados, onde a existência é ainda mais penosa do que na Terra e em confronto com os quais esta seria, relativamente, um mundo ditoso.

11. - Quando, em um mundo, os Espíritos hão realizado a soma de progresso que o estado desse mundo comporta, deixam-no para encarnar em outro mais adiantado, onde adquiram novos conhecimentos e assim por diante, até que, não lhes sendo mais de proveito algum a encarnação cm corpos materiais, passam a viver exclusivamente da vida espiritual, em a qual continuam a progredir, mas noutro sentido e por outros meios. Chegados ao ponto culminante do progresso, gozam da suprema felicidade. Admitidos nos conselhos do Onipotente, conhecem-lhe o pensamento e se tornam seus mensageiros, seus ministros diretos no governo dos mundos, tendo sob suas ordens os Espíritos de todos os graus de adiantamento.

Assim, qualquer que seja o grau em que se achem na hierarquia espiritual, do mais ínfimo ao mais elevado, têm eles suas atribuições no grande mecanismo do Universo; todos são úteis ao conjunto, ao mesmo tempo que a si próprios. Aos menos adiantados, como a simples serviçais, incumbe o desempenho, a princípio inconsciente, depois, cada vez mais inteligente, de tarefas materiais. Por toda parte, no mundo espiritual, atividade, em nenhum ponto a ociosidade inútil.

A coletividade dos Espíritos constitui, de certo modo, a alma do Universo. Por toda parte, o elemento espiritual é que atua em tudo, sob o influxo do pensamento divino. Sem esse elemento, só há matéria inerte, carente de finalidade, de inteligência, tendo por único motor as forças materiais, cuja exclusividade deixa insolúveis uma imensidade de problemas. Com a ação do elemento espiritual individualizado, tudo tem uma finalidade, uma razão de ser, tudo se explica. Prescindindo da espiritualidade, o homem esbarra em dificuldades insuperáveis.

12. - Quando a Terra se encontrou em condições climáticas apropriadas à existência da espécie humana, encarnaram nela Espíritos humanos. Donde vinham? Quer eles tenham sido criados naquele momento; quer tenham procedido, completamente formados, do espaço, de outros mundos, ou da própria Terra, a presença deles nesta, a partir de certa época, ê um fato, pois que antes deles só animais havia. Revestiram-se de corpos adequados às suas necessidades especiais, às suas aptidões, e que, fisionomicamente, tinham as características da animalidade. Sob a influência deles e por meio do exercício de suas faculdades, esses corpos se modificaram e aperfeiçoaram é o que a observação comprova. Deixemos então de lado a questão da origem, insolúvel por enquanto; consideremos o Espírito, não em seu ponto de partida, mas no momento em que, manifestando-se nele os primeiros germens do livre-arbítrio e do senso moral o vemos a desempenhar o seu papel humanitário, sem cogitarmos do meio onde haja transcorrido o período de sua infância, ou, se o preferirem, de sua incubação. Mau grado a analogia do seu envoltório com o dos animais, poderemos diferençá-lo destes últimos pelas faculdades intelectuais e morais que o caracterizam. como, debaixo das mesmas vestes grosseiras, distinguimos o rústico do homem civilizado.

13. - Conquanto devessem ser pouco adiantados os primeiros que vieram, pela razão mesma de terem de encarnar em corpos muito imperfeitos, diferenças sensíveis haveria decerto entre seus caracteres e aptidões. Os que se assemelhavam, naturalmente se agruparam por analogia e simpatia. Achou-se a Terra, assim, povoada de Espíritos de diversas categorias, mais ou menos aptos ou rebeldes ao progresso. Recebendo os corpos a impressão do caráter do Espírito e procriando-se esses corpos na conformidade dos respectivos tipos, resultaram daí diferentes raças, quer quanto ao físico, quer quanto ao moral (n.º 11). Continuando a encarnar entre os que se lhes assemelhavam, os Espíritos similares perpetuaram o caráter distintivo, físico e moral, das raças e dos povos, caráter que só com o tempo desaparece, mediante a fusão e o progresso deles. (Revue Spirite, julho de 1860, página 198: «Frenologia e fisiognomia».)

14. - Podem comparar-se os Espíritos que vieram povoar a Terra a esses bandos de emigrantes de origens diversas, que vão estabelecer-se numa terra virgem, onde encontram madeira e pedra para erguerem habitações, cada um dando à sua um cunho especial, de acordo com o grau do seu saber e com o seu gênio particular. Grupam-se então por analogia de origens e de gostos, acabando os grupos por formar tribos, em seguida povos, cada qual com costumes e caracteres próprios.

15. - Não foi, portanto, uniforme o progresso em toda a espécie humana. Como era natural, as raças mais inteligentes adiantaram-se às outras, mesmo sem se levar em conta que muitos Espíritos recém-nascidos para a vida espiritual, vindo encarnar na Terra juntamente com os primeiros aí chegados, tornaram ainda mais sensível a diferença em matéria de progresso. Fora, com efeito, impossível atribuir-se a mesma ancianidade de criação aos selvagens, que mal se distinguem do macaco, e aos chineses, nem, ainda menos, aos europeus civilizados.

Entretanto, os Espíritos dos selvagens também fazem parte da Humanidade e alcançarão um dia o nível em que se acham seus irmãos mais velhos. Mas, sem dúvida, não será em corpos da mesma raça física, impróprios a um certo desenvolvimento intelectual e moral. Quando o instrumento já não estiver em correspondência com o progresso que hajam alcançado, eles emigrarão daquele meio, para encarnar noutro mais elevado e assim por diante, até que tenham conquistado todas as graduações terrestres, ponto em que deixarão a Terra, para passar a mundos mais avançados. (Revue Spirite, abril de 1862, pág. 97: «Perfectibilidade da raça negra».)

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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 01:19

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Quinta-feira, 20 de Maio de 2010

OS DOIS FILHOS

Mat. 21:28-32

28. "Mas que vos parece? Um homem tinha dois filhos; chegando ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje no vinha.

29. Respondendo, ele disse: Não quero. Depois, porém, tendo mudado a mente, foi.

30. Foi ao outro e disse o mesmo. Respondendo, disse ele: Eu, senhor! E não foi.

31. Qual dos dois fez a vontade do pai"? Disseram: O primeiro. Disse-lhes Jesus: "Em verdade vos digo, que os cobradores de impostos e as meretrizes vos precederão no reino de Deus.

32. Porque João veio a vós no caminho da perfeição e não lhe fostes fiéis; mas os cobradores de impostos e as meretrizes lhe foram fiéis; vós, porém, vendo(o), não mudastes vossa mente depois, para lhe serdes fiéis".

 

Parábola privativa de Mateus, em cujo texto os manuscritos se dividem, o que provoca sérios embaraços aos exegetas. Esquematizemos, para melhor compreensão:

A - O 1.º diz: SIM - e não vai (desobedece)

O 2.º diz: NÃO - e vai (obedece)

 

Códices: B (Vaticano), D, theta, it.: a, aur, b, d, e, ff1, 2, g1, h1; versões: siríaca, copta boaírica; armênia, etiópica (mss.): pais: Efren, Jerônimo, Isidoro, Pseudo-Atanásio; edições críticas: Hort. Nestle, von Soden, Vogels, Merk, Pirot.

B - O 1.º diz: NÃO - e vai (obedece)

O 2.º diz: SIM - e não vai (desobedece)

 

Códices: Sinaítico (mss. original), C (idem), K, L, W, X, delta, pi, 0138, f. 1, 28, 33, 565, 892, 1009,

1010, 1071, 1079, 1195, 1216 (hypágô), 1230, 1241, 1242, 1253, 1341, 1546, 1646, 2148, 2174; versões: bizantina; it. c, f, q; vulgata (IV séc.); siríacas peschita, curetoniana, harcleense; copta saídica (mss); etiópica de Roma e Pell-Plat; pais: Crisóstomo, Ireneo, Orígenes, Eusébio, Hilário, Cirilo de Alexandria.

 

Os que preferem a primeira versão acima citada, embora apresentada em menor número de testemunhas, baseiam-se em razões diplomáticas, ou seja:

 

1.ª - A parábola refere-se aos fariseus (mais antigos, primeiros e aos publicanos (mais recentes, "os outros"); ora, os fariseus responderam SIM, mas ludibriaram o chamamento com sua hipocrisia, obedecendo apenas externamente; ao passo que os publicanos, chamados depois por Jesus, inicialmente não tinham atendido ao chamado mosaico da lei, mas reagiram aos apelos do Batista e de Jesus, cuja atração possuía irresistível magnetismo, no dizer de Jerônimo (Patrol. Lat. v. 26, col. 56): sicut in magnete lápide haec esse vis dícitur; portanto, o desobediente foi o primeiro, logicamente o mais velho, que sem dúvida devia ser chamado primeiro.

2.ª - Nas outras parábolas, sempre o mais velho ou os primeiros chamados são os "desobedientes" e rebeldes, e os mais moços ou segundos chamados são os melhores, como:

a) no "Filho pródigo" (Luc. 15:12ss);

b) no "Banquete de núpcias" (Mat. 22:1ss);

c) nos "Trabalhadores da vinha" (Mat. 20:1ss) .

 

3.ª - Paulo diz o mesmo, quando afirma que os judeus foram chamados primeiro, e, depois que não vieram, apesar de terem dito "sim", o chamado foi feito aos gentios.

 

4.ª - Já no Antigo Testamento o mais moço esta acima do mais velho (cfr. "Esaú servirá a Jacó", Gên.25:23).

 

5.ª - No próprio texto, Jesus diz que "os cobradores de impostos e as prostitutas entrarão primeiro que vós no reino de Deus" (vers. 31).

 

E concluem: a presunção é em favor da regra, e não da exceção; logo, o primeiro é que diz SIM e não vai; o segundo, mais moço, é que diz NÃO, mas vai.

Outra questão discutida é se o pai chamou os dois a um tempo, ou se só chamou o segundo depois que viu que o primeiro não foi. Ora, o chamamento é feito a todos igualmente, nas mesmas épocas e circunstâncias.

Uns dizem sim, e não vão; outros dizem não e vão, ou seja, uns aderem externamente à ordem do pai, outros primeiro recusam, depois, mudando a mente (metamelêtheís) mergulham no reino de Deus.

A parábola realmente não diz que só foi chamado o segundo depois de o primeiro não ter ido. Ao contrário, parece que se dirigiu a um e depois, sem esperar o resultado, dirigiu-se ao outro. Pode até compreender-se melhor , seguindo a lição apresentada pelo maior número de testemunhas: uma vez que o primeiro havia dito NÃO, o pai vai ao segundo e o convoca ao trabalho na vinha. Logo, as razões diplomáticas, neste caso, deixariam de existir, cedendo lugar a razões lógicas.

Entretanto, e como à lição não importa muito a ordem dos fatores, mantivemos em nossa tradução a ordem do maior número, seguindo Aland (ed. 1968). O essencial é sentir a oposição entre o que diz SIM e não faz, e o que diz NÃO e faz.

Note-se que no vers. 30, as traduções correntes trazem: "irei, senhor", e nós traduzimos apenas: "Eu, senhor"! Assim está no original, quase unanimente (1). Pode interpretar-se como omitido o verbo "irei"; o egô, entretanto, não pode ser substituto de "sim". Não poderíamos, observar, que essa resposta já significava certa má vontade, como seja: "logo eu"!? Não podendo ter certeza absoluta do sentido, mantivemos a tradução literal: "Eu, senhor".

(1)                           Só trazem hypágô, "vou", os códices theta (séc. IX), 700 e 1216 (séc. XI); a fam. 13 (séc. XI); o lecionário 547 (séc. XIII); e as versões copta saídica (séc. III, mas de leitura duvidosa), armênia (séc. IV-V) e geórgias 1 e 2 (séc. IX-X). Como vemos, emendas recentes ou interpretações em línguas diferentes.

 

Depois de narrada a parábola, vem a pergunta sutil: "Qual dos dois fez a vontade do pai"?

Os fariseus, que tantas vezes haviam feito perguntas cuja resposta esperavam embaraçasse e prendesse Jesus em armadilha - das quais, porém, Ele sempre se saiu galhardamente - desta vez não perceberam a emboscada que lhes armara Jesus e caíram redondamente. O Rabbi Nazareno não os poupa e, aproveitando a própria resposta, volta-se contra eles, que são os que não fazem a vontade do pai, embora digam SIM com a boca, hipocritamente.

Logo a seguir, Jesus cita o que ocorreu com o Batista. Quando este chegou, aqueles que haviam dito SIM a Moisés, não atenderam à "voz que clamava no deserto"; enquanto isso, os exatores de impostos e as prostitutas que tinham dito NÃO à lei mosaica, atenderam à pregação joanina e mudaram seu comportamento. E nem sequer diante desse exemplo os fariseus abriram os olhos ... E nem souberam responder, na véspera, se o mergulho do Batista era do "céu" ou dos homens ... Jesus pode aceitar que eles digam que "não sabem"; mas, para que não tenham desculpa de seu dolo, faz questão de dizer-lhes que, a recusa de atender a João o Batista, correspondia a uma rejeição ao chamado divino do Pai.

A lição consiste numa parábola (comparação) que apresenta um fato, e numa previsão do que sucederá em consequência no futuro.

O que ocorre é que pode a humanidade ser considerada dividida em duas facções principais: os que dizem SIM e não fazem e os que dizem NÃO e fazem.

Não importa saber se os primeiros são os fariseus e os segundos os publicanos; ou se temos oposição entre judeus e gentios: a aplicação é do todos os tempos, como já escreveu antigamente o autor (desconhecido) do Opus Imperfectum: "O sim é dito por todos os pretensos justos, e o não por todos os pecadores que, mais tarde, se convertem à senda do bem" (citado em Pirot).

Esta é, com efeito, a chave para interpretar a lição, em relação às personagens terrenas. Não importa quando é feito o chamado, se antes ou depois; o essencial é que TODOS são chamados, e muitos se apressam a dizer o SIM, exteriormente, com os lábios, e a entrar para as religiões, as ordens e fraternidades, seguindo os preceitos externos com todo o rigor, executando os ritos e rituais, observando as regras e regulamentos, vestindo-se e paramentando-se impecavelmente.

Não obstante, afirma o Mestre que "pecadores e meretrizes entrarão primeiro que eles no reino de Deus".

A interpretação das igrejas ortodoxas, de que o "reino de Deus" exprime aquele "céu" em que os anjinhos ficam a tocar harpas eólias e ao qual se vai depois da morte, faz o ensino no Cristo tornar-se absurdo. Mesmo que consideremos "conversões" ou até mudanças de mente espetaculares.

Se, todavia, entendermos seu ensino no sentido verdadeiro, a compreensão é clara; no reino de Deus entra-se por meio do mergulho interno. Ora, todos os que se julgam justos, estão fiados na personagem que cumpre os preceitos humanos externos, voltando-se para fora. Por dentro deles, existe a vaidade e o convencimento de que são bons e superiores às demais criaturas, porque eles estão no caminho certo e os outros são "errados" (Hamartoloí).

Enquanto isso, os pecadores e as prostitutas encontram em seu âmago, a humildade que reconhece suas fraquezas, suas deficiências, seus erros. Isso faz que se voltem para dentro de si mesmos, mergulhando no íntimo onde - ao ver seus desregramentos - mais humildes se tornam.

Eis que, então, têm facilitado o caminho para o reino de DEUS que está dentro deles e que só se conquista através da humildade e do amor.

O que mais tem chocado nessa frase dura mas verdadeira - e a verdade dói - é verificarmos que ela esvazia toda a prosopopéia de homens e mulheres religiosos, que colocam a "virtude" acima de tudo.

Jesus agiu de modo diverso. Apesar da sagrada maternidade e da santidade reconhecida por todos em  Maria de Nazaré, Sua mãe, Ele concede as primícias de Seu contato, após a ressurreição, à pecadora de Magdala. Não que não houvesse merecimento da parte de Sua mãe: mas quis ensinar-nos que o parentesco é coisa secundária na vida espiritual, mesma em se tratando de mãe (quanto mais de outros parentes e amigos!); e segundo, que as meretrizes merecem tanto quanto qualquer outro Espírito, em nada devendo ser sacrificados no processo evolutivo.

O convencionalismo tradicional que vem de épocas remotas, sobretudo do domínio masculino judaico e cristão (patriarcalismo) - em que os homens são senhores absolutos de qualquer situação, sendo-lhe tudo permitido condena ao opróbrio público as mulheres que se entregam à prostituição, a isso forçadas pelos próprios homens incontinentes e inconscientes do que fazem e inconsequentes. Nenhuma mulher se torna meretriz sem o concurso do homem que a leve a esse caminho: são eles os primeiros a pretender o uso do corpo da mulher, para após condená-la, pois não assumem a responsabilidade de lhes dar um lar.

Profundamente compassivo e percebendo a injustiça dessa condenação hipócrita (pois o homem, quando sem testemunhas, mesmo condenando-as, delas se serve com diabólico empenho e supremo prazer), o Cristo manifesta a compreensão da realidade: trata-se de criaturas vilmente exploradas pelos que as condenam, mas tão filhas de Deus quanto qualquer santo, e dignas de toda compaixão e ajuda. E como são humildes e sempre cultivam o AMOR - embora nos degraus mais baixos, animalizados e degradados, mas amor - estão em mais próxima sintonia com a Divindade (que é AMOR), que aqueles que só pensam em guerras, em matanças, em odiar inimigos, e para isso se preparam em escolas "especializadas", aprendendo a manejar armas cada vez mais aperfeiçoadas, que matem melhor e mais gente ao mesmo tempo.

Quem cultiva o amor sintoniza com Deus que é Amor. Quem cultiva sede de domínio, de desforra ou vingança, quem alimenta orgulhos e vaidades de raça superior, e ódios de vizinhos, sintoniza com o Adversário (satanás) e se dirige ao pólo oposto de Deus: encaminha-se em sentido contrário, erra "contra o Espírito-Santo".

Por isso as prostitutas e os pecadores, os "errados perante o mundo", entrarão no reino de Deus antes dos grandes do mundo, cheios de empáfia e maldade, julgando-se justos, virtuosos e bons, mas caminhando para o pólo negativo.

Lição dura de ouvir, porque todos nós nos acreditamos escolhidos e evoluídos! Sejamos humildes: somos piores que pecadores e prostitutas, pois a vaidade nossa nos afasta do pólo positivo, e a humildade real deles, os aproxima de Deus e com Ele sintoniza. Não são nossas palavras que definem nossa sintonização: é o sentimento íntimo de cada um que faz afinar ou desafinar com a tônica do amor.

* * *

Quanto à individualidade, somos levados a meditar que não são as exterioridades da personagem que valem, mas exatamente a sintonia interna. Não é o que uma pessoa faz, nem o que diz, mas o que É intimamente. Por fora, pode tratar-se de uma prostituta, mas a vibração interna ser mais elevada que a da que apresenta comportamento socialmente irrepreensível, embora em seu intimo cultive ódios e ressentimentos. Por que o mundo acha natural e nada diz, quando uma criatura fala mal de outra, e no entanto não perdoa se essa mesma criatura se una a outra pessoa por amor? Se um dirigente de instituição passa os dias a criticar seus "concorrentes", o povo acha que nada de mal existe. Mas se demonstra preferência e amor por alguém, acha que "decaiu de seu pedestal". Por aí, vemos que o pólo negativo só admite desavenças, críticas, separatismos, mas não aceita união, afeto, amor. Entretanto, o Mestre ensinou que o AMOR é tudo, pois Deus é AMOR, e só no amor e através do amor chegaremos a sintonizar com Deus. Mas quando alguém critica e fala mal, está com a razão; e quando ama, é "pouca vergonha" ... Com quem ficaremos? Com o pólo negativo do Anti-Sistema, ou com o Mestre? A escolha da estrada é livre, mas Ele disse, sem ambages nem possíveis interpretações diferentes: "os publicanos e as prostitutas (pórnai) entrarão no reino de Deus primeiro que vós"!

 

Sabedoria do Evangelho

Carlos Pastorino

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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 01:24

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Quarta-feira, 19 de Maio de 2010

PARA QUEM QUISER APRENDER QUE JESUS NÃO É DEUS.

UM COM O PAI

(Fim de dezembro do ano 30)

João, 10:22-39

22. E aconteceu a festa da dedicação em Jerusalém; era inverno.

23. E Jesus passeava no templo, no pórtico de Salomão.

24. Cercaram-no os judeus e diziam-lhe: "Até quando suspendes nossa alma? Se és o Cristo, fala-nos abertamente".

25. Respondeu-lhes Jesus: "Eu vo-lo disse e não credes; as ações que eu faço em nome de meu Pai testificam a meu respeito.

26. Mas não credes, porque não sois de minhas ovelhas.

27. As minhas ovelhas ouvem minha voz, e eu as conheço e elas me seguem.

28. e eu lhes dou a vida imanente, e nunca jamais se perderão, e ninguém as arrebatará de minha mão:

29. o Pai, que as deu a mim, é maior que tudo, e ninguém pode arrebotar da mão do Pai:

30. eu e o Pai somos um".

31. Os judeus outra vez buscaram pedras para apedrejá-lo.

32. Retrucou-lhes Jesus: "Mostrei-vos muitas belas ações da parte do Pai; por causa de qual ação me apedrejais"?

33. Responderam-lhe os judeus: "Não te apedrejaremos por uma bela ação, mas por blasfêmia, porque, sendo tu homem, te fazes um deus".

34. Retrucou-lhes Jesus: "Não está escrito na lei: "Eu disse, vós sois deuses"?

35. Se ele chamou deuses aqueles nos quais se manifestou o ensino de Deus - e a Escritura não pode ser ab-rogada

36. a quem o Pai consagrou e enviou ao mundo, dizeis "blasfemas", porque eu disse: "sou filho de Deus"?

37. Se não faço as ações de meu Pai, não me creiais,

38. mas se faço, embora não me creiais, crede nas ações, para que conheçais e tenhais a gnose de que o Pai está em mim e eu estou no Pai".

39. E de novo procuravam prendê-lo, mas ele saiu das mãos deles.

 

Este é mais um dos trechos de importância capital; nas declarações do Mestre. Analisemo-lo cuidadosamente.

O evangelista anota com simplicidade, mas com precisão, a ocasião em que foram prestadas essas declarações de Jesus: a festa da "dedicação" (hebraico: hanukâh, grego: egkainía) era uma festa litúrgica, instituída por Judas Macabeu, em 164 A.C., em comemoração à purificação do templo, da profanação de Antíoco IV Epifânio (cfr. 1.º Mac. 1:20-24, 39 e 4:59; 2.º Mac. 10:1-8; Fl. josefo, Ant. Jud. 12, 5, 4). Começava no dia 25 de kislev (2.ª metade de dezembro, solstício do inverno) e durava oito dias. Em solenidade, equivalia às festas da Páscoa, de Pentecostes e dos Tabernáculos.

Por ser inverno, Jesus passeava (com Seus discípulos?) no pórtico de Salomão, que ficava do lado do oriente, protegido dos ventos frios do deserto de Judá. Um grupo de judeus aproxima-se, cerca-O, e pede que se pronuncie abertamente: era o Messias, ou não?

Ora, essa resposta não podia ser dada: declarar-se "messias" seria confessar oposição frontal ao domínio romano, segundo a crença geral (o messias deveria libertar o povo israelita); essa declaração traria duas consequências, ambas indesejáveis: atrair a si a malta de políticos ambiciosos e descontentes, ávidos de luta; e, ao mesmo tempo, o ódio dos "acomodados" que usufruíam o favor dos dominadores, e que logo O denunciariam a Pilatos como agitador das massas (e dessa acusação não escapou), para que fosse condenado à morte, como os anteriores pretensos messias. Mas, de outro lado, se negasse a si mesmo o título, não só estaria mentindo, como decepcionaria o povo humilde, que Nele confiava.

Com Sua sábia prudência, no entanto, saiu-se galhardamente da dificuldade, citando fatos concretos, dos quais se poderia facilmente deduzir a resposta; e chegou, por fim, a declarar Sua unificação com a Pai. Portanto, Sua resposta foi muito além da pergunta formulada, para os que tivessem capacidade de entender.

Baseia-se, para responder, em Suas anteriores afirmativas e nas ações (érga) que sempre fez "em nome do Pai". Tanto uma coisa como outra foram suficientes para fazê-Lo compreendido por "Suas ovelhas", que “O seguem fielmente". E a todas elas é dada a Vida Imanente, de forma que elas "não se perderão" (apóllysai, "perder-se", em oposição a sôizô, "salvar-se”, e não "morrer", sentido absurdo).

A. razão da segurança é que elas estão "em Sua mão" e, portanto, “na mão do Pai, que é maior que tudo".

Mais uma vez salientamos que zôê aiônios não pode traduzir-se por “vida eterna" (cfr. vol. 2), já que a vida é ETERNA para todos, inclusive na interpretação daqueles que acreditam erroneamente num inferno eterno ... Logo, seria uma promessa vã e irrisória. Já a Vida imanente, com o Espírito desperto e consciente, unido a Deus-dentro-de-si, constitui o maior privilégio, a aspiração máxima. que nossa ambicionar um homem na Terra.

 

O versículo 29 apresenta três variantes principais, das quais adotamos a primeira, pelo melhor e mais numeroso testemunho:

1 - “O Pai, que as deu a mim, é maior que tudo" (hós, masc. e meizôn, masc.) - papiro 66 (ano 200, que traz édôken, aoristo, em vez de dédôken, perfeito, como os códices M e U); K, delta e pi, os minúsculos

1, 118, 131, 209, 28, 33, 565; 700; 892; 1.009 ; 1.010; 1.071 1.071; 1.079; 1.195, 1.230, 1.230, 1.241, 1.242, 1.365, 1.546, 1.646, 2.148; os unciais bizantinos (maioria), as versões siríacas sinaítica, peschita e harclense, os Pais Adamâncio, Basílio, Diodoro (4.º séc.), Crisóstomo, Nono e Cirilo de Alexandria (5.º séc.); e aparece com o acréscimo do objeto direto neutro autá na família 13, em 1216, 1344 (que tem o mac. oús), e 2174, nas versões coptas boaírica (no manuscrito), saídica, achmimiana, nas armênias e georgianas.

 

2 - "O que o Pai me deu é maior que tudo" (, neutro e meízon, neutro) no códice vaticano (com correção antiga para hós), nas versões latinas ítala e vulgata, na boaírica e gótica, nos Pais Ambrósio e Jerônimo (5.º século).

 

3 - "O Pai é quem deu a mim o maior que tudo" (hós, masc, e meízon, neutro), nos códices A, X, theta e na versão siríaca palestiniana.

A quarta variante (, neutro e meizôn, masc) parece confirmar a primeira, já que não faz sentido em si; talvez distração do copista, esquecendo o "s". Aparece nos códices sinaítico, D, L, W e psi.

A segunda variante, aceita pela Vulgata, é bastante encontradiça nas traduções correntes: "O que o Pai me deu é maior (mais precioso) que tudo". Realmente, esse pensamento do cuidado de Jesus pelo que o Pai Lhe deu, é expresso em João 6:37-39 e 17:24; mas a idéia, que reconhecemos como do texto original, além de caber muito melhor no raciocínio do contexto (estão as ovelhas "na mão do Pai" e nada poderá arrebatá-las, porque Ele é maior que tudo), também é confirmado por João 14:28.

A seguir explica por que, estando "em Sua mão", automaticamente, estão na mão do Pai: "Eu e o Pai somos UM".

A expressão "estar nas mãos de alguém" é usual no Antigo Testamento. Sendo a mão um dos principais instrumentos físicos da ação, no homem, a mão exprime o "poder de agir" (Ez. 38:35), a "potência" (Josué, 8:20; Juízes, 6:13; 1.º Crôn. 18:3; Salmo 75:6; Isaías 28:2; Jer. 12:7; 1.º Sam. 4:3; 2.º Sam. 14:16, etc.). Assim, estar na mão de alguém" exprime "estar com alguém" (Gên. 32:14; 35:4; Núm, 31:49; Deut. 33:3; Jer. 38:10, etc.) ou “estar sob sua proteção ou seu poder" (Gên. 9:2; 14:20; 32:17; 43:37; Ex. 4:21; 2.º Sam, 18:2; 1.º Reis 14:27; 2.º Reis 10:24; 2.º Crôn. 25;20; Job 8:4; Sab. 3:1). Simbolicamente fala-se na "mão de Deus", que é “poderosa" (Deut 9:26; 26:8; Josué 4:25; l.ª Pe. 5:6) e garante sua ajuda (Luc. 1:66); ou, quando está sobre alguém o protege (2.º Crôn, 30:12; 1.º Esd, 7:6, 9, 28; 8:18, 22, 31; 2.º Esd. 2:8, 18; Is. 1:25; Zac. 13:7. etc,).

A frase “Eu e o Pai somos UM" foi bem compreendida em seu sentido teológico pelos ouvintes, que tentam apedrejá-Lo novamente (cfr. João, 8:59) e "buscavam" (ebástasan) pedras fora do templo, já que não nas havia no pórtico de Salomão.

Mas diferentemente da outra ocasião, Jesus não "se esconde". Ao contrário, enfrenta-os com argumentação lógica, para tentar chamá-los à razão. Eis os argumentos:

 

1.º - Ele lhes mostrou "muitas belas ações" (pollá érga kalá) vindas do Pai. As traduções correntes transformaram o "belas" em "boas". Por qual delas querem apedrejá-Lo?

A resposta esclarece que não é disso que se trata: é porque “sendo Ele um homem, se faz (poieís seautón) um deus", o que constitui blasfêmia.

 

2.º - Baseado na "lei", texto preferível (por encontrar-se no papiro 45, em aleph, D e theta) a "na vossa lei" ( A, B, L e versões Latinas e Vulgata). O termo genérico "lei" (toráh) englobava as três partes de que eram compostas as Escrituras (toráh, neviim e ketubim). A frase é citada textualmente de um salmo, mas também se encontra no Êxodo uma atribuição dela.

Diz o Salmo (82:6): ani omareti elohim atem, vabeni hheleion kulekem (em grego: egô eípa: theoí éste, kaì hyioì hypsístou pántes), ou seja: "eu disse: vós sois deuses, e filhos, todos, do Altíssimo". Jesus estende a todos os homens o epíteto de elohim (deuses) que, no Salmo (composto por Asaph, no tempo de Josafá, cerca de 890 A.C.) era dirigido aos juízes, que recebiam esse título porque faziam justiça em nome de Deus. Nos trechos do Êxodo (21:6 e 22:8 e 28), a lei manda que o culpado "se apresente ao elohim", isto é, ao juiz.

Tudo isso sabia Jesus, e deviam conhecê-lo os ouvintes, tanto que é esclarecida e justificada a comparação: lá foram chamados deuses "aqueles nos quais o ensino de Deus se manifestava" (os juízes) - e a Escritura (graphê) "não pode ser ab-rogada" (ou dynastai lysthênai). É o sentido de lyô dado por Heródoto (3, 82) e por Demóstenes (31, 12) quando empregam esse verbo com referência à lei.

 

3.º - Ora, se eles, simples juízes, eram chamados deuses na lei, por que seria Ele acusado de blasfêmia só por dizer-se "filho de Deus" se Ele fora “separado" (hêgíasen, verbo derivado de hágios que, literalmente tem esse significado) ou "consagrado" pelo Pai, e "enviado" ao mundo? E tanto só se dizia "filho", que se referia a Deus dando-Lhe o nome de Pai.

 

4.º - As ações. Pode dividir-se em dois casos:

a) se não as fizesse, não era digno de crédito:

b) fazendo-as, devia ser acreditado.

Todavia, mesmo que, por absurdo, não acreditassem em Sua palavra, pelo menos as ações praticadas deviam servir para alertá-los, não só a "conhecer" (gnôte) mas até mesmo' a ter a gnose plena (ginôskête, papiro 45, e não pisteuête, "creiais") de que, para fazê-las, era indispensável "que o Pai estivesse Nele e Ele no Pai".

De nada adiantaram os argumentos. Eles preferiam as trevas à luz (João, 3:19-21), pertenciam ao Anti-Sistema (João, 8:23), porque eram filhos do Adversário" (João, 8:47), logo, não tinham condições espirituais de perceber as palavras nem de analisar as ações "do Alto". Daí quererem passar à violência física, prendendo-O (cfr. João, 7:1, 30, 32 e 44, e 8:20). Mas, uma vez mais, Ele escapa de suas mãos e sai de Jerusalém (como em João 4:3 e 7:1).

 

Lição prenhe de ensinamentos.

Jesus passeava no pórtico de Salomão (que significa "pacífico" ou "perfeito") na festa da "dedicação" do templo (corpo) a Deus. Eis a primeira interpretação.

Jesus, o Grande Iniciado, Hierofante da "Assembléia do Caminho", é abordado pelos "religiosos ortodoxos" (judeus), que desejam aberta declaração Sua a respeito de Sua missão. Mas o "homem" Jesus, que já vive permanentemente unificado com o Cristo Interno, responde às perguntas na qualidade de intérprete desse mesmo Cristo.

Cita as ações que são inspiradas e realizadas pelas forças do Alto (cfr. João, 8:23), suficientes para testificar quem é Ele; mas infelizmente os ouvintes "não são do seu rebanho", e por isso não Lhe ouvem nem reconhecem a voz (cfr. João 10:14,16 ). A estas suas ovelhas é dada a vida imanente e elas não se perderão (cfr. João 8:51), porque ninguém terá força de arrebatá-las de Seu poder, que é o próprio poder do Pai, já que Ele e o Pai são UM.

O testemunho não é aceito. Antes, é julgado "blasfêmia", pois Ele, simples homem, "se faz um deus".

Jesus (o Cristo) retruca que, se todo homem é um deus, segundo o que está na própria Escritura, Ele não está usurpando direitos falsos, quando se diz "filho de Deus", em Quem reconhece "o PAI". Contudo, se não quisessem acreditar Nele, não importava: pelo menos reconhecessem as ações divinas realizadas pelo Pai através Dele, e compreendessem que o Pai está Nele e Ele no Pai, já que, sem essa união, nada teria sido possível fazer.

Inútil tudo: o fanatismo constitui os antolhos do espírito.

Transportemos o ensino para o âmbito da criatura encarnada, e observemos o ceticismo do intelecto, ainda mesmo quando já iluminado pelas religiões ortodoxas ("judeus"), mas ainda moldado pelos dogmas estreitos de peco fanatismo.

A Individualidade (Jesus) é solicitada a manifestar-se ao intelecto, à compreensão racional e lógica do homem. Como resposta, cita as ações espirituais que ele mesmo vem sentindo em sua vida religiosa: o conforto das preces, a consolação nos sofrimentos, a coragem nas lutas contra os defeitos, a energia que o não deixa desanimar, a doçura das contemplações. Mas, sendo o intelecto um produto do Anti-Sistema, não consegue "ouvir-lhe a voz" (akoúein tòn lógon, vol. 4) nem segui-lo, porque não o conhece. Mas se resolver entregar-se totalmente, anulando seu eu pequeno, ninguém poderá derrotá-lo, porque "o Pai é maior que tudo" e Ele se unificará ao Pai quando se unificar à Individualidade, que já é UNA com o Pai.

O intelecto recusa: julga ser "blasfema" essa declaração, já que o dogma dualista de sua religião lhe ensinou que o homem está "fora de Deus" e, por sua própria natureza, em oposição a Ele: logo, jamais poderá ele ser divino. Politeísmo! Panteísmo! Blasfêmia! ...

O argumento de que todo homem é divino, e que isto consta das próprias Escrituras que servem de base à sua fé, também não abala o intelecto cético, que raciocina teologicamente sobre "unidade de essência e de natureza", sobre "uniões hipostáticas", sobre "ordens naturais e sobrenaturais", sobre "filho por natureza stricto sensu e filhos por adoção", sobre o "pecado de Adão, que passou a todos", etc. etc. E continua sua descrença a respeito da sublimidade do Encontro, só conhecido e experimentado pelos místicos não-teólogos. E, como resultante dessa negação, a recusa do Cristo Interno que, por ver inúteis seus amorosos esforços, "se afasta e sai de Jerusalém".

No campo iniciático, observamos o ensino profundo, em mais um capítulo, manifestado de maneira velada sob as aparências de uma discussão. Eis alguns dos ensinos:

Para distinção entre o verdadeiro Eu Profundo e os enganos tão fáceis nesse âmbito, há um modo simples de reconhecimento: as belas ações que vêm do Pai.

Entretanto, uma vez que foi feita a íntegra doação e a entrega confiante, ingressando-se no "rebanho do Cristo", nenhum perigo mais correremos de perder-nos: estamos na mão do Cristo e na mão do Pai. Não há forças, nem do físico nem do astral que nos possam arrebatar de lá. Nada atingirá nosso Eu verdadeiro. As dores e tentações poderão atuar na personagem, mas não atingem a Individualidade.

Já existe a união: nós e o Pai somos UM, indistintamente.

Não há objeções que valham. A própria Escritura confirma que todo homem é um deus, embora temporariamente decaído na matéria. Não obstante, o Pai continua DENTRO DO homem, e o homem DENTRO DO Pai.

Aqui vemos mais uma confirmação da onipresença concomitante de Deus, através de seu aspecto terceiro, de Cristo Cósmico.

O CRISTO CÓSMICO é a força inteligente NA QUAL reside tudo: átomos, corpos, planetas, sistemas estelares, universos sem conta nem limite que nessa mesma Força inteligente, nessa LUZ incriada, nesse SOM inaudível, têm a base de sua existência, e dela recolhem para si mesmos a Vida, captando aquilo que podem, de acordo com a própria capacidade receptiva. Oceano de Luz, de Som, de Força, de Inteligência, de Bondade, QUE É, onde tudo flutua e de onde tudo EXISTE.

Mas esse mesmo Oceano penetra tudo, permeia tudo, tudo impregna com Sua vida, com Sua força, com Sua inteligência, com Seu amor.

Nesse Infinito está tudo, e esse Infinito está em tudo: nós estamos no Pai, e o Pai está em nós.

E é Pai (no oriente denominado Pai-Mãe) porque dá origem a tudo, Dele tudo parte e Nele tudo tem a meta última da existência. Partindo desse TODO, vem o movimento, a vibração, a vida, o psiquismo, o espírito, nomes diferentes da mesma força atuante, denominações diversas que exprimem a mesma coisa, e que Só se diferencia pelo grau que conseguiu atingir na evolução de suas manifestações corpóreas nos planos mais densos: é movimento vorticoso no átomo, é vibração no éter, é vida nos vegetais, é psiquismo nos animais, é espírito nos homens. E chegará, um dia, a ser chamado o próprio Cristo, quando atingirmos o ponto culminante da evolução dentro do reino animal: "até que todos cheguemos à unificada fidelidade, à gnose do Filho de Deus, ao estado de Homem Perfeito, à dimensão da plena evolução de Cristo" (Ef. 4:13).

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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 00:01

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Terça-feira, 18 de Maio de 2010

DESAPEGO

 

Um dos maiores obstáculos à nossa evolução tem sido, sem dúvida alguma, o apego às coisas materiais. Se queremos a perfeição, temos que nos desvencilhar de toda carga externa, de todas as posses, pois “todo aquele que, dentre vós não renunciar a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo” (Lc 14:33).

Sabemos que na fase evolutiva que nos encontramos é difícil desapegarmos totalmente de todas as coisas da terra. Entretanto, é bom que nos conscientizemos o mais rápido possível que temos que aos poucos ir nos desvencilhando de todas as posses sejam elas grandes ou pequenas. É lógico que Jesus ao dizer: “desfazei-vos de todos os vossos bens e segui-me” (Mt 19:21), não pretendia estabelecer como princípio absoluto que cada um devesse despojar-se daquilo que possui e que a salvação só tem esse preço, mas mostrar que o apego aos bens terrenos é um obstáculo à salvação.

A conseqüência dessas palavras proferidas por Jesus e tomadas em sua acepção rigorosa seria a abolição da fortuna por ser nociva à felicidade futura, e até mesmo a condenação do trabalho que leva a ela.

Essas palavras tomadas, portanto, ao pé da letra, teriam uma acepção absurda que conduziriam o homem à vida selvagem e que por isso mesmo estariam em contradição com a lei do progresso, que é lei divina. O desapego proposto por Jesus é possuir sem ser possuído. Podemos e devemos trabalhar muito, procurando sempre a melhoria econômica, na certeza, no entanto, de que nosso verdadeiro tesouro será o que advém de nossos atos e ações. Podemos possuir muitos bens e não sermos possuídos por eles e ainda podemos, com o que nos sobrar, ajudar o progresso do país e às pessoas que nos cercam. Se estamos sinceramente imbuídos com o progresso e com nosso crescimento interno, é bom que desde já desvencilhamos de todos os bens externos que vão nos atrapalhar na viagem que breve haveremos de fazer ao mundo espiritual. O excesso do querer vem desequilibrando muita gente que não entende que a verdadeira felicidade não está em decorrência da maior ou menor quantidade de bens materiais que acumulamos.

O homem não deve possuir de seu, senão o que puder levar deste mundo. O que encontra ao chegar e o que deixa ao partir, goza de sua permanência na terra; mas, uma vez que é forçado a abandoná-lo dele não tem senão o gozo e não a posse real. Portanto, a felicidade não consiste em possuir ou não possuir bem externos, mas sim na atitude interna de não ser por eles, possuído.

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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 01:17

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