Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

NO REINO DOMÉSTICO

Você, meu amigo, pergunta que papel desempenhará o Espiritismo, na ciência das relações sociais, e, muito simplesmente, responderei que, aliado ao Cristo, o nosso movimento renovador é a chave da paz, entre as criaturas.
Já terá refletido, porventura, na importância da compreensão generalizada, com respeito à justiça que nos rege a vida, e à fraternidade que nos cabe construir na Terra?
A sociologia não é a realização de gabinete. É obra viva que interessa o cerne do homem, de modo a plasmar-lhe o clima de progresso substancial.
Reporta-se você ao amargo problema dos casamentos infelizes, como se o matrimônio fosse o único enigma na peregrinação humana, mas se esquece de que a alma encarnada é surpreendida, a cada passo, por escuros labirintos na vida de associação.
Habitualmente, renascem juntos, sob os elos da consangüinidade, aqueles que ainda não acertaram as rodas do entendimento, no carro da evolução, a fim de trabalharem com o abençoado buril da dificuldade sobre as arestas que lhes impedem a harmonia. Jungidos à máquina das convenções respeitáveis, no instituto familiar, caminham, lado a lado, sob os aguilhões da responsabilidade e da traição, sorvendo o remédio amargoso da convivência compulsória para sanarem velhas feridas imanifestas.
E nesse vastíssimo roteiro de Espíritos em desajuste, não identificaremos tão somente os cônjuges infortunados. Além deles, há fenômenos sentimentais mais complexos. Existem pais que não toleram os filhos e mães que se voltam, impassíveis, contra os próprios descendentes. Há filhos que se revelam inimigos dos progenitores e irmãos que se exterminam dentro do magnetismo degenerado da antipatia congênita, dilacerando-se uns aos outros, com raios mortíferos e invisíveis do ódio e do ciúme, da inveja e do despeito, apaixonadamente cultivados no solo mental.
Os hospitais e principalmente os manicômios apresentam significativo número de enfermos, que não passam de mutilados espirituais dessa guerra terrível e incruenta na trincheira mascarada sob o nome de lar. Batizam-nos os médicos com rotulagens diversas, na esfera da diagnose complicada; entretanto, na profundez das causas, reside a influência maligna da parentela consangüínea que, não raro, copia as atitudes da tribo selvagem e enfurecida. Todos os dias, semelhantes farrapos humanos atravessam os pórticos das casas de saúde ou da caridade, à maneira de restos indefiníveis de náufragos, perdidos em mar tormentoso, procurando a terra firme da costa, através da onda móvel.
Não tenha dúvida.
O homicídio, nas mais variadas formas, é intensamente praticado sem armas visíveis, em todos os quadrantes do Planeta.
Em quase toda a parte, vemos pais e mães que expressam ternura, ante os filhos desventurados, e que se revoltam contra eles toda vez que se mostrem prósperos e felizes. Há irmãos que não suportam a superioridade daqueles que lhes partilham o nome e a experiência, e companheiros que apenas se alegram com a camaradagem nas horas de necessidade e infortúnio.
Ninguém pode negar a existência do amor no fundo das multiformes uniões a que nos referimos. Mas esse amor ainda se encontra, à maneira do ouro inculto, incrustado no cascalho duro e contundente do egoísmo e da ignorância que às vezes, matam sem a intenção de destruir e ferem sem perceber a inocência ou a grandeza de suas vítimas.
Por isso mesmo, o Espiritismo com Jesus, convidando-nos ao sacrifício e à bondade, ao conhecimento e ao perdão, aclarando a origem de nossos antagonismos e reportando-nos aos dramas por nós todos já vividos no pretérito, acenderá um facho de luz em cada coração, inclinando as almas rebeldes ou enfermiças à justa compreensão do programa sublime de melhoria individual, em favor da tranqüilidade coletiva e da ascensão de todos.
Desvelando os horizontes largos da vida, a Nova Revelação dilatará a esperança, o estímulo à virtude e a educação em todas as inteligências amadurecidas na boa vontade, que passarão a entender nas piores situações familiares pequenos cursos regenerativos, dando-se pressa em aceitá-los com serenidade e paciência, de vez que a dor e a morte são invariavelmente os oficiais da Divina Justiça, funcionando com absoluto equilíbrio, em todas as direções, unindo ou separando almas, com vistas à prosperidade do Infinito Bem.
Assim, pois, meu caro, dispense-me da obrigação de maiores comentários, que se fariam tediosos em nossa época de esclarecimento rápido, através da condensação dos assuntos que dizem respeito ao soerguimento da Terra.
Observe e medite.
E, quando perceber a imensa força iluminativa do Espiritismo Cristão, você identificará Jesus como sendo o Sociólogo Divino do Mundo, e verá no Evangelho o Código de Ouro e Luz, em cuja aplicação pura e simples reside a verdadeira redenção da Humanidade.
Irmão X
Psicografia : Francisco Cândido Xavier - Livro : Cartas e Crônicas
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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 06:38

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NO REINO DOMÉSTICO

Você, meu amigo, pergunta que papel desempenhará o Espiritismo, na ciência das relações sociais, e, muito simplesmente, responderei que, aliado ao Cristo, o nosso movimento renovador é a chave da paz, entre as criaturas.
Já terá refletido, porventura, na importância da compreensão generalizada, com respeito à justiça que nos rege a vida, e à fraternidade que nos cabe construir na Terra?
A sociologia não é a realização de gabinete. É obra viva que interessa o cerne do homem, de modo a plasmar-lhe o clima de progresso substancial.
Reporta-se você ao amargo problema dos casamentos infelizes, como se o matrimônio fosse o único enigma na peregrinação humana, mas se esquece de que a alma encarnada é surpreendida, a cada passo, por escuros labirintos na vida de associação.
Habitualmente, renascem juntos, sob os elos da consangüinidade, aqueles que ainda não acertaram as rodas do entendimento, no carro da evolução, a fim de trabalharem com o abençoado buril da dificuldade sobre as arestas que lhes impedem a harmonia. Jungidos à máquina das convenções respeitáveis, no instituto familiar, caminham, lado a lado, sob os aguilhões da responsabilidade e da traição, sorvendo o remédio amargoso da convivência compulsória para sanarem velhas feridas imanifestas.
E nesse vastíssimo roteiro de Espíritos em desajuste, não identificaremos tão somente os cônjuges infortunados. Além deles, há fenômenos sentimentais mais complexos. Existem pais que não toleram os filhos e mães que se voltam, impassíveis, contra os próprios descendentes. Há filhos que se revelam inimigos dos progenitores e irmãos que se exterminam dentro do magnetismo degenerado da antipatia congênita, dilacerando-se uns aos outros, com raios mortíferos e invisíveis do ódio e do ciúme, da inveja e do despeito, apaixonadamente cultivados no solo mental.
Os hospitais e principalmente os manicômios apresentam significativo número de enfermos, que não passam de mutilados espirituais dessa guerra terrível e incruenta na trincheira mascarada sob o nome de lar. Batizam-nos os médicos com rotulagens diversas, na esfera da diagnose complicada; entretanto, na profundez das causas, reside a influência maligna da parentela consangüínea que, não raro, copia as atitudes da tribo selvagem e enfurecida. Todos os dias, semelhantes farrapos humanos atravessam os pórticos das casas de saúde ou da caridade, à maneira de restos indefiníveis de náufragos, perdidos em mar tormentoso, procurando a terra firme da costa, através da onda móvel.
Não tenha dúvida.
O homicídio, nas mais variadas formas, é intensamente praticado sem armas visíveis, em todos os quadrantes do Planeta.
Em quase toda a parte, vemos pais e mães que expressam ternura, ante os filhos desventurados, e que se revoltam contra eles toda vez que se mostrem prósperos e felizes. Há irmãos que não suportam a superioridade daqueles que lhes partilham o nome e a experiência, e companheiros que apenas se alegram com a camaradagem nas horas de necessidade e infortúnio.
Ninguém pode negar a existência do amor no fundo das multiformes uniões a que nos referimos. Mas esse amor ainda se encontra, à maneira do ouro inculto, incrustado no cascalho duro e contundente do egoísmo e da ignorância que às vezes, matam sem a intenção de destruir e ferem sem perceber a inocência ou a grandeza de suas vítimas.
Por isso mesmo, o Espiritismo com Jesus, convidando-nos ao sacrifício e à bondade, ao conhecimento e ao perdão, aclarando a origem de nossos antagonismos e reportando-nos aos dramas por nós todos já vividos no pretérito, acenderá um facho de luz em cada coração, inclinando as almas rebeldes ou enfermiças à justa compreensão do programa sublime de melhoria individual, em favor da tranqüilidade coletiva e da ascensão de todos.
Desvelando os horizontes largos da vida, a Nova Revelação dilatará a esperança, o estímulo à virtude e a educação em todas as inteligências amadurecidas na boa vontade, que passarão a entender nas piores situações familiares pequenos cursos regenerativos, dando-se pressa em aceitá-los com serenidade e paciência, de vez que a dor e a morte são invariavelmente os oficiais da Divina Justiça, funcionando com absoluto equilíbrio, em todas as direções, unindo ou separando almas, com vistas à prosperidade do Infinito Bem.
Assim, pois, meu caro, dispense-me da obrigação de maiores comentários, que se fariam tediosos em nossa época de esclarecimento rápido, através da condensação dos assuntos que dizem respeito ao soerguimento da Terra.
Observe e medite.
E, quando perceber a imensa força iluminativa do Espiritismo Cristão, você identificará Jesus como sendo o Sociólogo Divino do Mundo, e verá no Evangelho o Código de Ouro e Luz, em cuja aplicação pura e simples reside a verdadeira redenção da Humanidade.
Irmão X
Psicografia : Francisco Cândido Xavier - Livro : Cartas e Crônicas
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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

A NEGAÇÃO DE PEDRO

O ato do Messias, lavando os pés de seus discípulos, encontrou certa incompreensão da parte de Simão Pedro. O velho pescador não concordava com semelhante ato de extrema submissão. E, chegada a sua vez, obtemperou, resoluto:
– Nunca me lavareis os pés, Mestre; meus companheiros estão sendo ingratos e duros neste instante, deixando-vos praticar êsse gesto, como se fôsseis um escravo vulgar.
Em seguida a essas palavras, lançou à assembléia um olhar de reprovação e desprezo, enquanto Jesus lhe respondia:
– Simão, não queiras ser melhor que os teus irmãos de apostolado, em nenhuma circunstância da vida. Em verdade, assevero-te que, sem o meu auxílio, não participarás com o meu espírito das alegrias supremas da redenção.
O antigo pescador de Cafarnaum aquietou-se um pouco, fazendo calar a voz de sua generosidade quase infantil.
Terminada a lição e retomando o seu lugar à mesa, o Mestre parecia meditar gravemente. Logo após, todavia, dando a entender que sua visão espiritual devassava os acontecimentos do futuro, sentenciou :
– Aproxima-se a hora do meu derradeiro testemunho! Sei, por antecipação, que todos vós estareis dispersados nesse instante supremo.É natural, porquanto ainda não estais preparados senão para aprender. Antes, porém, que eu parta, quero deixar-vos um novo mandamento, o de amar-vos uns aos outros como eu vos tenho amado ; que sejais conhecidos como meus discípulos, não pela superioridade no mundo, pela demonstração de poderes espirituais, ou pelas vestes que envergueis na vida, mas pela revelação do amor com que voa amo, pela humildade que deverá ornar as vossas almas, pela boa disposição no sacrifício próprio.
Vendo que Jesus repetia uma vez mais aquelas recomendações de despedida, Pedro, dando expansão ao seu temperamento irrequieto,
adiantou-se, indagando :
– Afinal, Senhor, para onde ides?
O Mestre lhe lançou um olhar sereno, fazendo-lhe sentir o interesse que lhe causava a sua curiosidade e redargüiu :
– Ainda não te encontras preparado para seguir-me. O testemunho é de sacrifício e de extrema abnegação e somente mais tarde entrarás na posse da fortaleza indispensável.
Simão, no entanto, desejando provar por palavras aos companheiros o valor da sua dedicação, acrescentou, com certa ênfase, ao propósito de se impor à confiança do Messias :
– Não posso seguir-vos? Acaso, Mestre, podereis duvidar de minha coragem? Então, não sou um homem? Por vós darei a minha própria vida.
O Cristo sorriu e ponderou :
– Pedro, a tua inquietação se faz credora de novos ensinamentos. A experiência te ensinará melhores conclusões, porque, em verdade, te afirmo que esta noite o galo não cantará, sem que me tenhas negado por três vezes.
– Julgais-me, então, um espírito mau e endurecido a êsse ponto? – Indagou o pescador, sentindo-se ofendido.
– Não, Pedro – adiantou o Mestre, com doçura – não te suponho ingrato ou indiferente aos meus ensinos. Mas, vais aprender, ainda hoje, que o homem do mundo é mais frágil do que perverso.

***
Pedro não quis acreditar nas afirmações do Messias e tão logo se verificara a sua prisão, no pressuposto de demonstrar o seu desassombro e boa disposição para a defesa do Evangelho do Reino, atacou com a espada um dos servos do sumo sacerdote de Jerusalém, compelindo o Mestre a mais severas observações. Consoante as afirmativas de Jesus, o colégio dos apóstolos se dispersara, naquele momento de supremas resoluções. A humildade com que o Cristo se entregava desapontara a alguns deles, que não conseguiam compreender a transcendência daquele Reino de Deus, sublimado e distante.
Pedro e João, observando que a detenção do Mestre pelos emissários do templo era fato consumado, combinaram, entre si, acompanhar, de longe, o grupo que se afastava, conduzindo o Messias. Debalde, procuraram os demais companheiros que, receosos da perseguição, haviam debandado.
Ambos, no entanto, desejavam prestar a Jesus o auxílio necessário. Quem sabe poderiam encontrar um recurso de salvá-lo? Era mister certificar-se de tôdas as ocorrências. Mobilizariam suas humildes relações em Jerusalém, a favor do Mestre querido. Compreendiam a extensão do perigo e as ameaças que lhes s pesavam sobre a fronte. De incitante a instante, eram surpreendidos por homens do povo que, em palestra de caminho, acusavam a Jesus de feiticeiro e herético.
A noite caíra sobre a cidade ..
Os dois discípulos observaram que a expedição de servos e soldados chegava à residência de Caifaz, onde o Cristo foi recolhido a uma cela úmida, cujas grades davam para um pátio extenso.
O prisioneiro fora trancafiado, por entre zombarias e impropérios. Ao grupo reduzido, juntava-se agora a massa popular, então em pleno alvoroço festivo, nas comemorações da Páscoa. O pátio amplo foi invadido por uma aluvião de pessoas alegres.
Pedro e João compreenderam que as autoridades do Templo imprimiam caráter popular ao movimento de perseguição ao Messias, vingando-se de sua vitória na entrada triunfal em Jerusalém, como uma nova esperança para o coração dos desalentados e oprimidos.
Depois de ligeiro entendimento, o filho de Zebedeu voltou a Betânia, afim de colocar a mãe de Jesus ao corrente dos fatos, enquanto Pedro se misturava à aglomeração, de maneira a observar em que poderia ser útil ao Messias.
O ambiente estava já preparado pelo farisaísmo para os tristes acontecimentos do dia imediato. Em tôdas as rodas, falava-se do Cristo como de um traidor ou revolucionário vulgar. Alguns comentadores mais exaltados o denunciavam como ladrão. Ridicularizava-se o seu ensinamento, zombava-se de sua exemplificação e não faltavam os que diziam, em voz alta, que o Profeta Nazareno havia chegado à cidade chefiando um bando de salteadores.
O velho pescador de Cafarnaum sentiu a hostilidade com que teria de lutar, afim de socorrer o Messias, e experimentou um frio angustioso no coração. Sua resolução parecia vencida. A alma ansiosa se deixava dominar por dúvidas e aflições. Começou a pensar nos seus familiares, em suas necessidades comuns, nas convenções de Jerusalém que ele não poderia afrontar sem pesados castigos. Com o cérebro fervilhando de expectativas e cogitações de defesa própria, penetrou no pátio extenso, onde se adensava a multidão.
Para logo, uma das servas da casa se aproximou dele e exclamou, surpreendida:
– Não és tu um dos companheiros deste homem? – Indagou, designando a cela onde Jesus se achava encarcerado.
O pescador refletiu um momento e, reconhecendo que o instante era decisivo, respondeu, dissimulando a própria emoção :
– Estás enganada. Não sou.
O apóstolo ponderou aquela primeira negativa e pôs-se a considerar que semelhante procedimento, aos seus olhos, era o mais razoável, porquanto tinha de empregar tôdas as possibilidades ao seu alcance, a favor de Jesus.
Fingindo despreocupação, o irmão de André se dirigiu a uma pequena aglomeração de populares, onde cada qual procurava esquivar-se ao frio intenso da noite, aquentando-se junto de um braseiro.
Novamente um dos circunstantes, reconhecendo-o, o interpelou nestes termos :
– Então, vieste socorrer o teu Mestre?
– Que Mestre? – perguntou o pescador de Cafarnaum, entre receoso e assustado – Nunca fui discípulo desse homem. Fornecida essa explicação, todo o grupo se sentiu à vontade para comentar a situação do prisioneiro. Longas horas passaram-se para Simão Pedro, que tinha o coração a duelar-se com a própria consciência, naqueles instantes penosos em que fora chamado ao testemunho. A noite ia adiantada, quando alguns servidores vieram servir bilhas de vinho. Um deles encarando o discípulo com certo espanto, exclamou de súbito:
– É este!... É bem aquele discípulo que nos atacou à espada, entre as árvores do horto!...
– Simão ergueu-se pálido e protestou :
– Estás enganado, amigo! Vê que isso não seria possível!...
Logo que pronunciou sua derradeira negativa, os galos da vizinhança cantaram em vozes estridentes, anunciando a madrugada.
Pedro recordou as palavras do Mestre e sentiu-se perturbado por infinita angústia. Levantou-se cambaleante e, voltando-se instintivamente para a cela em que o Mestre se achava prisioneiro, viu o semblante sereno de Deus a contemplá-lo através das grades singelas.

***
Presa de indizível remorso, o apóstolo retirou-se envergonhado de si mesmo. Dando alguns passos, alcançou os muros exteriores, onde se deteve a chorar amargamente. Ele, que fora sempre homem ríspido e resoluto, que condenara invariàvelmente os transviados da verdade e do bem, que nunca conseguira perdoar as mulheres mais infelizes, ali se encontrava, abatido como uma criança, em face de sua própria falta. Começava a entender a razão de certas experiências dolorosas de seus irmãos em humanidade. Em seu espírito como que desabrochava uma fonte de novas considerações pelos infortunados da vida. Desejava, ansiosamente, ajoelhar-se ante o Messias e suplicar-lhe perdão para a sua queda dolorosa.
Através do véu de lágrimas que lhe obscurecia os olhos, Simão Pedro experimentou uma visão controladora e generosa. Figurou-se-lhe que o Mestre vinha vê-lo, em espírito, na solidão da noite, trazendo nos lábios aquele mesmo sorriso sereno de todos os dias. Ante a emoção confortadora e divina, Pedro ajoelhou-se e murmurou:
– Senhor, perdoai-me!
Mas, nesse instante, não mais viu, na confusão de seus angustiados pensamentos. Luar alvíssimo enfeitava de luz as vielas desoladas. Foi ai que o antigo pescador refletiu mais austeramente, lembrando as advertências amigas de Jesus, quando lhe dizia : – “Pedro, o homem do mundo é mais frágil do que perverso!...”
Irmão X - Humberto de Campos
Do livro “Boa Nova”. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.




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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 03:07

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A NEGAÇÃO DE PEDRO

O ato do Messias, lavando os pés de seus discípulos, encontrou certa incompreensão da parte de Simão Pedro. O velho pescador não concordava com semelhante ato de extrema submissão. E, chegada a sua vez, obtemperou, resoluto:
– Nunca me lavareis os pés, Mestre; meus companheiros estão sendo ingratos e duros neste instante, deixando-vos praticar êsse gesto, como se fôsseis um escravo vulgar.
Em seguida a essas palavras, lançou à assembléia um olhar de reprovação e desprezo, enquanto Jesus lhe respondia:
– Simão, não queiras ser melhor que os teus irmãos de apostolado, em nenhuma circunstância da vida. Em verdade, assevero-te que, sem o meu auxílio, não participarás com o meu espírito das alegrias supremas da redenção.
O antigo pescador de Cafarnaum aquietou-se um pouco, fazendo calar a voz de sua generosidade quase infantil.
Terminada a lição e retomando o seu lugar à mesa, o Mestre parecia meditar gravemente. Logo após, todavia, dando a entender que sua visão espiritual devassava os acontecimentos do futuro, sentenciou :
– Aproxima-se a hora do meu derradeiro testemunho! Sei, por antecipação, que todos vós estareis dispersados nesse instante supremo.É natural, porquanto ainda não estais preparados senão para aprender. Antes, porém, que eu parta, quero deixar-vos um novo mandamento, o de amar-vos uns aos outros como eu vos tenho amado ; que sejais conhecidos como meus discípulos, não pela superioridade no mundo, pela demonstração de poderes espirituais, ou pelas vestes que envergueis na vida, mas pela revelação do amor com que voa amo, pela humildade que deverá ornar as vossas almas, pela boa disposição no sacrifício próprio.
Vendo que Jesus repetia uma vez mais aquelas recomendações de despedida, Pedro, dando expansão ao seu temperamento irrequieto,
adiantou-se, indagando :
– Afinal, Senhor, para onde ides?
O Mestre lhe lançou um olhar sereno, fazendo-lhe sentir o interesse que lhe causava a sua curiosidade e redargüiu :
– Ainda não te encontras preparado para seguir-me. O testemunho é de sacrifício e de extrema abnegação e somente mais tarde entrarás na posse da fortaleza indispensável.
Simão, no entanto, desejando provar por palavras aos companheiros o valor da sua dedicação, acrescentou, com certa ênfase, ao propósito de se impor à confiança do Messias :
– Não posso seguir-vos? Acaso, Mestre, podereis duvidar de minha coragem? Então, não sou um homem? Por vós darei a minha própria vida.
O Cristo sorriu e ponderou :
– Pedro, a tua inquietação se faz credora de novos ensinamentos. A experiência te ensinará melhores conclusões, porque, em verdade, te afirmo que esta noite o galo não cantará, sem que me tenhas negado por três vezes.
– Julgais-me, então, um espírito mau e endurecido a êsse ponto? – Indagou o pescador, sentindo-se ofendido.
– Não, Pedro – adiantou o Mestre, com doçura – não te suponho ingrato ou indiferente aos meus ensinos. Mas, vais aprender, ainda hoje, que o homem do mundo é mais frágil do que perverso.

***
Pedro não quis acreditar nas afirmações do Messias e tão logo se verificara a sua prisão, no pressuposto de demonstrar o seu desassombro e boa disposição para a defesa do Evangelho do Reino, atacou com a espada um dos servos do sumo sacerdote de Jerusalém, compelindo o Mestre a mais severas observações. Consoante as afirmativas de Jesus, o colégio dos apóstolos se dispersara, naquele momento de supremas resoluções. A humildade com que o Cristo se entregava desapontara a alguns deles, que não conseguiam compreender a transcendência daquele Reino de Deus, sublimado e distante.
Pedro e João, observando que a detenção do Mestre pelos emissários do templo era fato consumado, combinaram, entre si, acompanhar, de longe, o grupo que se afastava, conduzindo o Messias. Debalde, procuraram os demais companheiros que, receosos da perseguição, haviam debandado.
Ambos, no entanto, desejavam prestar a Jesus o auxílio necessário. Quem sabe poderiam encontrar um recurso de salvá-lo? Era mister certificar-se de tôdas as ocorrências. Mobilizariam suas humildes relações em Jerusalém, a favor do Mestre querido. Compreendiam a extensão do perigo e as ameaças que lhes s pesavam sobre a fronte. De incitante a instante, eram surpreendidos por homens do povo que, em palestra de caminho, acusavam a Jesus de feiticeiro e herético.
A noite caíra sobre a cidade ..
Os dois discípulos observaram que a expedição de servos e soldados chegava à residência de Caifaz, onde o Cristo foi recolhido a uma cela úmida, cujas grades davam para um pátio extenso.
O prisioneiro fora trancafiado, por entre zombarias e impropérios. Ao grupo reduzido, juntava-se agora a massa popular, então em pleno alvoroço festivo, nas comemorações da Páscoa. O pátio amplo foi invadido por uma aluvião de pessoas alegres.
Pedro e João compreenderam que as autoridades do Templo imprimiam caráter popular ao movimento de perseguição ao Messias, vingando-se de sua vitória na entrada triunfal em Jerusalém, como uma nova esperança para o coração dos desalentados e oprimidos.
Depois de ligeiro entendimento, o filho de Zebedeu voltou a Betânia, afim de colocar a mãe de Jesus ao corrente dos fatos, enquanto Pedro se misturava à aglomeração, de maneira a observar em que poderia ser útil ao Messias.
O ambiente estava já preparado pelo farisaísmo para os tristes acontecimentos do dia imediato. Em tôdas as rodas, falava-se do Cristo como de um traidor ou revolucionário vulgar. Alguns comentadores mais exaltados o denunciavam como ladrão. Ridicularizava-se o seu ensinamento, zombava-se de sua exemplificação e não faltavam os que diziam, em voz alta, que o Profeta Nazareno havia chegado à cidade chefiando um bando de salteadores.
O velho pescador de Cafarnaum sentiu a hostilidade com que teria de lutar, afim de socorrer o Messias, e experimentou um frio angustioso no coração. Sua resolução parecia vencida. A alma ansiosa se deixava dominar por dúvidas e aflições. Começou a pensar nos seus familiares, em suas necessidades comuns, nas convenções de Jerusalém que ele não poderia afrontar sem pesados castigos. Com o cérebro fervilhando de expectativas e cogitações de defesa própria, penetrou no pátio extenso, onde se adensava a multidão.
Para logo, uma das servas da casa se aproximou dele e exclamou, surpreendida:
– Não és tu um dos companheiros deste homem? – Indagou, designando a cela onde Jesus se achava encarcerado.
O pescador refletiu um momento e, reconhecendo que o instante era decisivo, respondeu, dissimulando a própria emoção :
– Estás enganada. Não sou.
O apóstolo ponderou aquela primeira negativa e pôs-se a considerar que semelhante procedimento, aos seus olhos, era o mais razoável, porquanto tinha de empregar tôdas as possibilidades ao seu alcance, a favor de Jesus.
Fingindo despreocupação, o irmão de André se dirigiu a uma pequena aglomeração de populares, onde cada qual procurava esquivar-se ao frio intenso da noite, aquentando-se junto de um braseiro.
Novamente um dos circunstantes, reconhecendo-o, o interpelou nestes termos :
– Então, vieste socorrer o teu Mestre?
– Que Mestre? – perguntou o pescador de Cafarnaum, entre receoso e assustado – Nunca fui discípulo desse homem. Fornecida essa explicação, todo o grupo se sentiu à vontade para comentar a situação do prisioneiro. Longas horas passaram-se para Simão Pedro, que tinha o coração a duelar-se com a própria consciência, naqueles instantes penosos em que fora chamado ao testemunho. A noite ia adiantada, quando alguns servidores vieram servir bilhas de vinho. Um deles encarando o discípulo com certo espanto, exclamou de súbito:
– É este!... É bem aquele discípulo que nos atacou à espada, entre as árvores do horto!...
– Simão ergueu-se pálido e protestou :
– Estás enganado, amigo! Vê que isso não seria possível!...
Logo que pronunciou sua derradeira negativa, os galos da vizinhança cantaram em vozes estridentes, anunciando a madrugada.
Pedro recordou as palavras do Mestre e sentiu-se perturbado por infinita angústia. Levantou-se cambaleante e, voltando-se instintivamente para a cela em que o Mestre se achava prisioneiro, viu o semblante sereno de Deus a contemplá-lo através das grades singelas.

***
Presa de indizível remorso, o apóstolo retirou-se envergonhado de si mesmo. Dando alguns passos, alcançou os muros exteriores, onde se deteve a chorar amargamente. Ele, que fora sempre homem ríspido e resoluto, que condenara invariàvelmente os transviados da verdade e do bem, que nunca conseguira perdoar as mulheres mais infelizes, ali se encontrava, abatido como uma criança, em face de sua própria falta. Começava a entender a razão de certas experiências dolorosas de seus irmãos em humanidade. Em seu espírito como que desabrochava uma fonte de novas considerações pelos infortunados da vida. Desejava, ansiosamente, ajoelhar-se ante o Messias e suplicar-lhe perdão para a sua queda dolorosa.
Através do véu de lágrimas que lhe obscurecia os olhos, Simão Pedro experimentou uma visão controladora e generosa. Figurou-se-lhe que o Mestre vinha vê-lo, em espírito, na solidão da noite, trazendo nos lábios aquele mesmo sorriso sereno de todos os dias. Ante a emoção confortadora e divina, Pedro ajoelhou-se e murmurou:
– Senhor, perdoai-me!
Mas, nesse instante, não mais viu, na confusão de seus angustiados pensamentos. Luar alvíssimo enfeitava de luz as vielas desoladas. Foi ai que o antigo pescador refletiu mais austeramente, lembrando as advertências amigas de Jesus, quando lhe dizia : – “Pedro, o homem do mundo é mais frágil do que perverso!...”
Irmão X - Humberto de Campos
Do livro “Boa Nova”. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.




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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

FIDELIDADE A DEUS

Depois das primeiras prédicas de Jesus, respeito aos trabalhos ingentes que a edificação do d Deus existia dos seus discípulos, esboçou-se na fraterna comunidade um leve movimento e incompreensão. Que? pois a Boa-Nova reclamaria tamanhos sacrifícios? Então o Senhor, que sondava o íntimo de seus companheiros diletos, os reuniu, uma noite, quando a turba os deixara a sós e já algumas horas haviam passado sobre o por do sol.
Interrogando-os vivamente, provocou a manifestação dos seus pensamentos e dúvidas mais íntimas. Após escutar-lhes as confidencias simples e sinceras, o Mestre ponderou:
– Na causa de Deus, a fidelidade deve ser uma das primeiras virtudes. Onde o filho e o pai que não desejem estabelecer, como ideal de união, a confiança integral e recíproca? Nós não podemos duvidar da fidelidade do Nosso Pai para conosco. Sua dedicação nos cerca os espíritos, desde o primeiro dia. Ainda não o conhecíamos e já ele nos amava. E, acaso, poderemos desdenhar a possibilidade da retribuição? Não seria repudiarmos o título de filhos amorosos, o fato de nos deixarmos absorver no afastamento, favorecendo a negação?
Como os discípulos o escutassem atentos, bebendo-lhe os ensinos, o Mestre acrescentou :
– Tudo na vida tem o preço que lhe corres-ponde. Se vacilais receosos ante as bênçãos o sacrifício e as alegrias do trabalho, meditai nos tributos que a fidelidade ao mundo exige. O prazer não costuma cobrar do homem um imposto alto e doloroso? Quanto pagarão, em flagelações íntimas, o vaidoso e o avarento? Qual o prego que o mundo reclama ao gozador e ao mentiroso?
Ao clarão alvacento da Lua, como pai bondoso rodeado de seus filhinhos, Jesus "reconheceu que os discípulos, diante das suas cariciosas perguntas, haviam transformado a atitude mental, como que iluminadas por súbito clarão.
Tìmidamente, Tiago, filho de Alceu, contou a história de um amigo que arruinara a saúde, por excessos nos prazeres condenáveis.
Tadeu falou de um conhecido que, depois de ganhar grande fortuna, se havia tornado avarento e mesquinho a ponto de privar-s do necessário, para multiplicar o número de suas moedas, acabando assassinado pelos ladrões.
Pedro recordou o caso de um pescador de sua intimidade, que sucumbira tràgicamente, por efeito de sua desmedida ambição.
Jesus, depois de ouvi-los, satisfeito, perguntou :
– Não achais enorme o tributo que o mundo exige dos que se apegam aos seus gozos e riquezas? Se o mundo pede tanto, porque não poderia Deus pedir-nos lealdade ao coração? Trabalhamos agora pela instituição divina do seu reino na Terra; mas, desde quando estará o Pai trabalhando por nós? As interrogativas pairavam no espaço sem resposta dos discípulos, porque, acima de tudo, eles ouviam a que lhes dava o próprio coração. Do firmamento infinito os reflexos do luar se projetavam no lençol tranqüilo do lago, dando a impressão de encantador caminho para o horizonte, aberto sobre as águas, por entre deslumbramentos de luz.
Enquanto os companheiros meditavam no que dissera Jesus, Tiago se lhe dirigiu, nestes termos:
– Mestre, tenho um amigo, de Corazin que vos ouviu a palavra santificante e desejava seguir-vos ; porém, asseverou-me que o reino pregado pela vossa bondade está cheio de numerosos obstáculos, acrescentando que Deus deve mostrar-se a nós outros somente na Vitória e na ventura. Devo confessar que hesitei ante as suas observações, mas, agora, esclarecido pelos vossos ensinamentos, melhor vos compreendo e afirmo-vos que nunca esquecerei minha fidelidade ao reino!...
A voz do apóstolo, na sua confissão espontânea, se revelava tocada de entusiasmo doce e amigo e o Senhor, aproveitando a hora para a semeadura divina, exclamou bondoso:
– Tiago, nem todos podem compreender a verdade de uma só vez. Devemos considerar que o mundo está cheio de crentes que não entendem a proteção às céu, senão nos dias de tranqüilidade e de triunfo. Nós, porém, que conhecemos a vontade suprema, temos que lhe seguir o roteiro. Não devemos pensar no Deus que concede, mas no Pai que educa; não no Deus que recompensa, sim no Pai que aperfeiçoa. Daí se segue que a nossa batalha pela redenção tem de ser perseverante e sem tréguas...
Nesse ínterim, todos os companheiros de apostolado, manifestando o interesse que os esclarecimentos da noite lhes causavam, se puseram a perguntar, com respeito e carinho.
– Mestre – exclamou um deles – não seria melhor fugirmos do mundo para, viver na incessante contemplação do reino?...
– Que diríamos do filho que se conservasse em perpétuo repouso, junto de seu pai que trabalha sem cessar, no labor da grande família? Respondeu Jesus.
– Mas, de que modo se há de viver como homem e como apóstolo do reino de Deus na face deste mundo”. – inquiriu Tadeu.
– Em verdade – esclareceu o Messias – ninguém pode servir, simultaneamente, a dois senhores. Fora absurdo viver ao mesmo tempo para os prazeres condenáveis da Terra e para as virtudes sublimes do céu. O discípulo da Boa-Nova tem de servir a Deus, servindo à sua obra neste mundo. Ele sabe que se acha a laborar com muito esforço num grande campo, propriedade de seu Pai, que o observa com carinho e atenta com amor nos seus trabalhos. Imaginemos que êsse campo estivesse cheio de inimigos : por toda parte, vermes asquerosos, víboras peçonhentas, tratos de terra improdutiva.É certo que as farsas destruidoras reclamarão a indiferença e a submissão do filho de Deus; mas, o filho de coração fiel a seu Pai se lança ao trabalho com perseverança e boa vontade. Entrará em luta silenciosa com o meio, sofrer-lhe-á os tormentos com heroísmo espiritual, por amor do reino que traz no coração, plantará uma flor onde haja um espinho, abrirá uma senda, embora estreita, onde estejam em confusão os parasitos da Terra, cavará pacientemente, buscando as entranhas do solo para que surja uma gota dágua onde queime um deserto. Do íntimo desse trabalhador brotará sempre um cântico de alegria, porque Deus o ama e segue com atenção.
– Qual a primeira qualidade a cultivar no coração – perguntou um dos filhos de Zebedeu – para que nos sintamos plenamente identificados com a grandeza espiritual da tarefa?
– Acima de tôdas as coisas – respondeu o Mestre – é preciso ser fiel a Deus.
A pequena assembléia parecia altamente enlevada e satisfeita; mas, André inquiriu:
– Mestre, estes últimos dias, tenho-me sentido doente e receio não poder trabalhar como os demais companheiros. Como poderei ser fiel a Deus, estando enfermo?
– Ouvi. – Replicou o Senhor com certa ênfase.
– Nos dias de calma, é fácil provar-se fidelidade e confiança. Não se prova, porém, dedicação, verdadeiramente, senão nas horas tormentosas, em que tudo parece contrariar e perecer. O enfermo tem consigo diversas possibilidades de trabalhar para Nosso Pai, com mais altas probabilidades de êxito no serviço'. Tateando ou rastejando, busquemos servir ao Pai que está nos céus, porque nas suas mãos divinas vive o Universo inteiro!...
“André, se algum dia teus olhos se fecharem para a luz da Terra, serve a Deus com a tua palavra e com os ouvidos; se ficares mudo, toma, assim mesmo, a charrua, valendo-te das tuas mãos. Ainda que ficasses privado dos olhos e da palavra, das mãos e dos pés, poderias servir a Deus com a paciência e a coragem, porque a virtude é o verbo dessa fidelidade que nos conduzirá ao amor dos amores!”
O grupo dos apóstolos calara-se, impressionado, ante aquelas recomendações. O luar esplendia sobre as águas silenciosas. O mais leve ruído não traía o silêncio augusto da hora.
André chorava de emoção, enquanto os outros observavam a figura do Cristo, iluminada pelos clarões da Lua, deixando entrever um amoroso sorriso. Então, todos, impulsionados por soberana força interior, disseram, quase a um só tempo:
– Senhor, seremos fiéis!...

***
Jesus continuou a sorrir, como quem sabia a intensidade da luta a ser travada e conhecia a fragilidade das promessas humanas. Entretanto, do coração dos apóstolos jamais se apagou a lembrança daquela noite luminosa de Cafarnaum, aureolada pelo sentimento divino. Humilhados e perseguidos, crucificados na dor e esfolados vivos, souberam ser fiéis, através de todas as vicissitudes da Natureza, e, transformando suas angústias e seus trabalhos num cântico de glorificação, sob a eterna inspiração do Mestre renovaram a face do mundo.
Irmão X - Humberto de Campos
Do livro “Boa Nova”. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 02:09

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FIDELIDADE A DEUS

Depois das primeiras prédicas de Jesus, respeito aos trabalhos ingentes que a edificação do d Deus existia dos seus discípulos, esboçou-se na fraterna comunidade um leve movimento e incompreensão. Que? pois a Boa-Nova reclamaria tamanhos sacrifícios? Então o Senhor, que sondava o íntimo de seus companheiros diletos, os reuniu, uma noite, quando a turba os deixara a sós e já algumas horas haviam passado sobre o por do sol.
Interrogando-os vivamente, provocou a manifestação dos seus pensamentos e dúvidas mais íntimas. Após escutar-lhes as confidencias simples e sinceras, o Mestre ponderou:
– Na causa de Deus, a fidelidade deve ser uma das primeiras virtudes. Onde o filho e o pai que não desejem estabelecer, como ideal de união, a confiança integral e recíproca? Nós não podemos duvidar da fidelidade do Nosso Pai para conosco. Sua dedicação nos cerca os espíritos, desde o primeiro dia. Ainda não o conhecíamos e já ele nos amava. E, acaso, poderemos desdenhar a possibilidade da retribuição? Não seria repudiarmos o título de filhos amorosos, o fato de nos deixarmos absorver no afastamento, favorecendo a negação?
Como os discípulos o escutassem atentos, bebendo-lhe os ensinos, o Mestre acrescentou :
– Tudo na vida tem o preço que lhe corres-ponde. Se vacilais receosos ante as bênçãos o sacrifício e as alegrias do trabalho, meditai nos tributos que a fidelidade ao mundo exige. O prazer não costuma cobrar do homem um imposto alto e doloroso? Quanto pagarão, em flagelações íntimas, o vaidoso e o avarento? Qual o prego que o mundo reclama ao gozador e ao mentiroso?
Ao clarão alvacento da Lua, como pai bondoso rodeado de seus filhinhos, Jesus "reconheceu que os discípulos, diante das suas cariciosas perguntas, haviam transformado a atitude mental, como que iluminadas por súbito clarão.
Tìmidamente, Tiago, filho de Alceu, contou a história de um amigo que arruinara a saúde, por excessos nos prazeres condenáveis.
Tadeu falou de um conhecido que, depois de ganhar grande fortuna, se havia tornado avarento e mesquinho a ponto de privar-s do necessário, para multiplicar o número de suas moedas, acabando assassinado pelos ladrões.
Pedro recordou o caso de um pescador de sua intimidade, que sucumbira tràgicamente, por efeito de sua desmedida ambição.
Jesus, depois de ouvi-los, satisfeito, perguntou :
– Não achais enorme o tributo que o mundo exige dos que se apegam aos seus gozos e riquezas? Se o mundo pede tanto, porque não poderia Deus pedir-nos lealdade ao coração? Trabalhamos agora pela instituição divina do seu reino na Terra; mas, desde quando estará o Pai trabalhando por nós? As interrogativas pairavam no espaço sem resposta dos discípulos, porque, acima de tudo, eles ouviam a que lhes dava o próprio coração. Do firmamento infinito os reflexos do luar se projetavam no lençol tranqüilo do lago, dando a impressão de encantador caminho para o horizonte, aberto sobre as águas, por entre deslumbramentos de luz.
Enquanto os companheiros meditavam no que dissera Jesus, Tiago se lhe dirigiu, nestes termos:
– Mestre, tenho um amigo, de Corazin que vos ouviu a palavra santificante e desejava seguir-vos ; porém, asseverou-me que o reino pregado pela vossa bondade está cheio de numerosos obstáculos, acrescentando que Deus deve mostrar-se a nós outros somente na Vitória e na ventura. Devo confessar que hesitei ante as suas observações, mas, agora, esclarecido pelos vossos ensinamentos, melhor vos compreendo e afirmo-vos que nunca esquecerei minha fidelidade ao reino!...
A voz do apóstolo, na sua confissão espontânea, se revelava tocada de entusiasmo doce e amigo e o Senhor, aproveitando a hora para a semeadura divina, exclamou bondoso:
– Tiago, nem todos podem compreender a verdade de uma só vez. Devemos considerar que o mundo está cheio de crentes que não entendem a proteção às céu, senão nos dias de tranqüilidade e de triunfo. Nós, porém, que conhecemos a vontade suprema, temos que lhe seguir o roteiro. Não devemos pensar no Deus que concede, mas no Pai que educa; não no Deus que recompensa, sim no Pai que aperfeiçoa. Daí se segue que a nossa batalha pela redenção tem de ser perseverante e sem tréguas...
Nesse ínterim, todos os companheiros de apostolado, manifestando o interesse que os esclarecimentos da noite lhes causavam, se puseram a perguntar, com respeito e carinho.
– Mestre – exclamou um deles – não seria melhor fugirmos do mundo para, viver na incessante contemplação do reino?...
– Que diríamos do filho que se conservasse em perpétuo repouso, junto de seu pai que trabalha sem cessar, no labor da grande família? Respondeu Jesus.
– Mas, de que modo se há de viver como homem e como apóstolo do reino de Deus na face deste mundo”. – inquiriu Tadeu.
– Em verdade – esclareceu o Messias – ninguém pode servir, simultaneamente, a dois senhores. Fora absurdo viver ao mesmo tempo para os prazeres condenáveis da Terra e para as virtudes sublimes do céu. O discípulo da Boa-Nova tem de servir a Deus, servindo à sua obra neste mundo. Ele sabe que se acha a laborar com muito esforço num grande campo, propriedade de seu Pai, que o observa com carinho e atenta com amor nos seus trabalhos. Imaginemos que êsse campo estivesse cheio de inimigos : por toda parte, vermes asquerosos, víboras peçonhentas, tratos de terra improdutiva.É certo que as farsas destruidoras reclamarão a indiferença e a submissão do filho de Deus; mas, o filho de coração fiel a seu Pai se lança ao trabalho com perseverança e boa vontade. Entrará em luta silenciosa com o meio, sofrer-lhe-á os tormentos com heroísmo espiritual, por amor do reino que traz no coração, plantará uma flor onde haja um espinho, abrirá uma senda, embora estreita, onde estejam em confusão os parasitos da Terra, cavará pacientemente, buscando as entranhas do solo para que surja uma gota dágua onde queime um deserto. Do íntimo desse trabalhador brotará sempre um cântico de alegria, porque Deus o ama e segue com atenção.
– Qual a primeira qualidade a cultivar no coração – perguntou um dos filhos de Zebedeu – para que nos sintamos plenamente identificados com a grandeza espiritual da tarefa?
– Acima de tôdas as coisas – respondeu o Mestre – é preciso ser fiel a Deus.
A pequena assembléia parecia altamente enlevada e satisfeita; mas, André inquiriu:
– Mestre, estes últimos dias, tenho-me sentido doente e receio não poder trabalhar como os demais companheiros. Como poderei ser fiel a Deus, estando enfermo?
– Ouvi. – Replicou o Senhor com certa ênfase.
– Nos dias de calma, é fácil provar-se fidelidade e confiança. Não se prova, porém, dedicação, verdadeiramente, senão nas horas tormentosas, em que tudo parece contrariar e perecer. O enfermo tem consigo diversas possibilidades de trabalhar para Nosso Pai, com mais altas probabilidades de êxito no serviço'. Tateando ou rastejando, busquemos servir ao Pai que está nos céus, porque nas suas mãos divinas vive o Universo inteiro!...
“André, se algum dia teus olhos se fecharem para a luz da Terra, serve a Deus com a tua palavra e com os ouvidos; se ficares mudo, toma, assim mesmo, a charrua, valendo-te das tuas mãos. Ainda que ficasses privado dos olhos e da palavra, das mãos e dos pés, poderias servir a Deus com a paciência e a coragem, porque a virtude é o verbo dessa fidelidade que nos conduzirá ao amor dos amores!”
O grupo dos apóstolos calara-se, impressionado, ante aquelas recomendações. O luar esplendia sobre as águas silenciosas. O mais leve ruído não traía o silêncio augusto da hora.
André chorava de emoção, enquanto os outros observavam a figura do Cristo, iluminada pelos clarões da Lua, deixando entrever um amoroso sorriso. Então, todos, impulsionados por soberana força interior, disseram, quase a um só tempo:
– Senhor, seremos fiéis!...

***
Jesus continuou a sorrir, como quem sabia a intensidade da luta a ser travada e conhecia a fragilidade das promessas humanas. Entretanto, do coração dos apóstolos jamais se apagou a lembrança daquela noite luminosa de Cafarnaum, aureolada pelo sentimento divino. Humilhados e perseguidos, crucificados na dor e esfolados vivos, souberam ser fiéis, através de todas as vicissitudes da Natureza, e, transformando suas angústias e seus trabalhos num cântico de glorificação, sob a eterna inspiração do Mestre renovaram a face do mundo.
Irmão X - Humberto de Campos
Do livro “Boa Nova”. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 02:09

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Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

CRENÇAS E CERTEZAS

As crenças em geral, compreendendo as religiões, as filosofias e até as crendices, dirigem, em grande proporção, as ações e os sentimentos humanos.
A razão e a inteligência podem fortalecer ou enfraquecer a natureza do que se tornou aceito pelo espírito, mas dificilmente destroem os princípios admitidos desde a infância.
Essa realidade torna patente a importância, para o Espiritismo, de cuidar do ensino da Doutrina e da evangelização da infância e da juventude, eis que, por mais rebelde seja a criança ou o jovem, sempre permanecem as sementes assimiladas pelo ser, que germinarão cedo ou tarde.
Todos sabemos da importância da instrução que se processa nas escolas do mundo. Todavia, mais que a instrução, a educação moral é que verdadeiramente modifica e transforma o indivíduo.
Quando se atenta para o fato de que os ensinos morais do Cristo, integralmente adotados pela Doutrina dos Espíritos, são o mais alto estágio ético-moral conhecido na Terra, logo se percebe quão importante é, para o indivíduo e para a sociedade, seu conhecimento e sua vivência.
A modificação profunda da organização social no mundo é uma necessidade aceita pela generalidade das nações. Mesmo os indiferentes, que se preocupam somente com seus interesses imediatistas, não se oporiam a que a miséria física e moral de milhões de criaturas encontrasse solução justa.
Extinguir a corrupção de variados matizes, que se enraíza nos órgãos governamentais e nos usos e costumes de todos os povos é aspiração da imensa maioria da população terrena.
Pôr cobro ao crime e à violência, espalhados por todas as camadas sociais, é o anseio e a finalidade daqueles que desejam viver em um mundo mais justo e solidário.
Educação para todos, instrução generalizada, prevenção e tratamento das doenças, qual a sociedade organizada que não desejaria pôr em prática esses bens sociais?
As leis humanas, orientadas no sentido do bem geral, são poderoso instrumento no aperfeiçoamento do meio social, mas não são capazes de contornar as paixões inferiores do homem, muito menos eliminá-las.
Pela sua própria natureza, as leis são repressivas de determinadas práticas nocivas, sem poder de destruição de suas causas, que estão no homem deseducado ou ignorante. A legislação procura reprimir grandes males, mas o homem deseducado busca sempre uma brecha para fugir à responsabilidade de conviver harmoniosamente no meio social.
Em suma, o característico essencial das leis humanas é o de catalogar as infrações, o mau proceder, o crime, as atitudes anti-sociais e inconvenientes, quando não são instrumentos de interesses pessoais e grupais.
Já a Lei Divina, da qual tomamos conhecimento através das grandes revelações, em especial a Mensagem do Cristo, tem caráter positivo, no sentido de indicar ao homem o que deve fazer para agir corretamente. São normas de comportamento que não só evitam o procedimento negativo, contrário à Lei de Deus, como descortinam o caminho da felicidade, fundamentada no Amor.
Enquanto nas leis humanas se cuida da superfície, na repressão aos males, vícios e paixões, a Lei Divina vai diretamente às causas do mal — o egoísmo, o orgulho e seus consectários —, mostrando como combatê-las, através da transformação moral, do bem-proceder, do caminho justo, sem desvios.
Portanto, o grande remédio para a transformação das sociedades humanas está na reeducação do homem, segundo as regras e normas que Jesus, o grande Pedagogo da Humanidade, preconiza em seu Evangelho.
As instituições humanas refletirão sempre o que são os próprios homens. Por mais belas que sejam suas aspirações, por mais altanados sejam seus ideais, se os homens permanecerem egoístas e deseducados moralmente as instituições falharão.
Exemplo claro temos na Organização das Nações Unidas, idealizada após o grande conflito mundial da guerra de 1939-1945.
Esse organismo internacional contém, na letra de seus estatutos, o mais puro ideal de paz entre as nações. A Declaração dos Direitos do Homem expressa o que de mais edificante poderiam os idealistas imaginar para a defesa da criatura humana, no estágio em que chegou a civilização do século XX. A proscrição da violência, o direito à vida, à liberdade de pensamento, à educação, à saúde estão expressos nesse documento que honra seus autores, tacitamente aceito por todas as nações.
Entretanto, continuam os conflitos armados entre diversas nações, os bolsões de miséria no mundo inteiro são uma triste realidade, os crimes são uma constante por toda parte e o desrespeito aos direitos declarados constitui problema comum.
Por que essa antinomia entre o ideal e a prática, entre a instituição e a execução de seus princípios?
Simplesmente porque o homem de todas as latitudes não está educado para viver sob as regras da instituição magnífica, que se torna inoperante, apesar do esforço dos idealistas. Nesse caso, os maus, os mal-educados, os egoístas, os orgulhosos incumbem-se de desrespeitar as normas estabelecidas, para atender seus interesses imediatos.
A grande solução está na educação de todos. Educação moral, com conhecimento das causas dos males. Essa solução, embora lenta e difícil, é o único caminho.
A imperfeição moral e a ignorância a respeito das realidades espirituais são características dos habitantes dos mundos atrasados como o nosso, por isso mesmo destinados à evolução através de sofrimentos, provações e expiações. Mas isso não quer dizer que suas populações não possam alcançar melhores condições de vida, através da educação e da regeneração moral.
Cada indivíduo que se regenera, que se transforma moralmente para melhor, está contribuindo para o progresso do mundo. O progresso geral é, pois, resultante da soma das melhorias individuais. Ora, se a evolução é possível para um, para um grupo, será possível também para todo o gênero humano.
O progresso humano, com a regeneração do Orbe, está profundamente vinculado à crença na vida futura, nos seus processos, no seu desdobramento.
Que se poderia esperar da descrença, do niilismo, do materialismo que conduzem ao nada?
Como induzir o materialista a aceitar a continuação da vida após a morte do corpo, se ele não aceita a existência do Espírito?
De outro lado, como mostrar ao espiritualista que há uma justiça infalível para todos, se ele vê à sua volta aparentes injustiças a clamarem contra os Céus, sem compreender os mecanismos das Leis Divinas?
Essas questões, por si sós, mostram a necessidade de se levar ao conhecimento dos descrentes e dos induzidos ao erro religioso ou filosófico as luzes da Doutrina do Consolador, nos seus aspectos esclarecedores das realidades da vida.
A crença na existência do Espírito imortal transformou-se em certeza, com a rica fenomenologia espírita ao alcance de quem se disponha a observá-la.
A reencarnação, ou doutrina das vidas sucessivas, conhecida há milênios, explica com detalhes o processo da lei de causa e efeito, da ação e da reação e da justiça natural.
Toda essa riqueza de conhecimentos que nos veio através das revelações, sintetizados nos princípios fundamentais da Doutrina dos Espíritos, não é patrimônio de uma minoria, mas de toda a Humanidade.
Daí a responsabilidade que cabe aos espíritas de levarem esses conhecimentos a todas as camadas sociais, a todos os povos e nações, a todos os homens.
São conhecimentos que libertam o Espírito eterno da escravidão da ignorância, tornando-o apto a compreender os mecanismos da vida e suas realidades imanentes.
A fé e a esperança no porvir não podem ser cultivadas por criaturas cuja visão não ultrapassa a vida presente e cujo interesse se circunscreve às atividades materiais.
Sociedades modernas, fortemente influenciadas pelo niilismo e pelo materialismo, por terem falhado as religiões tradicionais com seus dogmas impróprios, são sociedades profundamente egoístas que vivem em constantes lutas de classes, em detrimento dos mais altos interesses da coletividade.
Ao atraso moral soma-se o desconhecimento da continuidade da vida e da responsabilidade individual pelas próprias ações, gerando o descalabro da falta de solidariedade e de fraternidade.
Reverter esse quadro triste da civilização atual é a grande tarefa da Doutrina dos Espíritos, na sua mais alta função: preparar a sociedade para a Era do Espírito.
A missão gigantesca do Espiritismo mostra a necessidade de sua propagação, de sua difusão por toda parte, para que seus princípios sejam conhecidos, não mais como simples crença, mas como realidade e certeza irrecusáveis.
Juvanir Borges De Souza
Fonte: Reformador nº2000 – Novembro/1995
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 15:21

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CRENÇAS E CERTEZAS

As crenças em geral, compreendendo as religiões, as filosofias e até as crendices, dirigem, em grande proporção, as ações e os sentimentos humanos.
A razão e a inteligência podem fortalecer ou enfraquecer a natureza do que se tornou aceito pelo espírito, mas dificilmente destroem os princípios admitidos desde a infância.
Essa realidade torna patente a importância, para o Espiritismo, de cuidar do ensino da Doutrina e da evangelização da infância e da juventude, eis que, por mais rebelde seja a criança ou o jovem, sempre permanecem as sementes assimiladas pelo ser, que germinarão cedo ou tarde.
Todos sabemos da importância da instrução que se processa nas escolas do mundo. Todavia, mais que a instrução, a educação moral é que verdadeiramente modifica e transforma o indivíduo.
Quando se atenta para o fato de que os ensinos morais do Cristo, integralmente adotados pela Doutrina dos Espíritos, são o mais alto estágio ético-moral conhecido na Terra, logo se percebe quão importante é, para o indivíduo e para a sociedade, seu conhecimento e sua vivência.
A modificação profunda da organização social no mundo é uma necessidade aceita pela generalidade das nações. Mesmo os indiferentes, que se preocupam somente com seus interesses imediatistas, não se oporiam a que a miséria física e moral de milhões de criaturas encontrasse solução justa.
Extinguir a corrupção de variados matizes, que se enraíza nos órgãos governamentais e nos usos e costumes de todos os povos é aspiração da imensa maioria da população terrena.
Pôr cobro ao crime e à violência, espalhados por todas as camadas sociais, é o anseio e a finalidade daqueles que desejam viver em um mundo mais justo e solidário.
Educação para todos, instrução generalizada, prevenção e tratamento das doenças, qual a sociedade organizada que não desejaria pôr em prática esses bens sociais?
As leis humanas, orientadas no sentido do bem geral, são poderoso instrumento no aperfeiçoamento do meio social, mas não são capazes de contornar as paixões inferiores do homem, muito menos eliminá-las.
Pela sua própria natureza, as leis são repressivas de determinadas práticas nocivas, sem poder de destruição de suas causas, que estão no homem deseducado ou ignorante. A legislação procura reprimir grandes males, mas o homem deseducado busca sempre uma brecha para fugir à responsabilidade de conviver harmoniosamente no meio social.
Em suma, o característico essencial das leis humanas é o de catalogar as infrações, o mau proceder, o crime, as atitudes anti-sociais e inconvenientes, quando não são instrumentos de interesses pessoais e grupais.
Já a Lei Divina, da qual tomamos conhecimento através das grandes revelações, em especial a Mensagem do Cristo, tem caráter positivo, no sentido de indicar ao homem o que deve fazer para agir corretamente. São normas de comportamento que não só evitam o procedimento negativo, contrário à Lei de Deus, como descortinam o caminho da felicidade, fundamentada no Amor.
Enquanto nas leis humanas se cuida da superfície, na repressão aos males, vícios e paixões, a Lei Divina vai diretamente às causas do mal — o egoísmo, o orgulho e seus consectários —, mostrando como combatê-las, através da transformação moral, do bem-proceder, do caminho justo, sem desvios.
Portanto, o grande remédio para a transformação das sociedades humanas está na reeducação do homem, segundo as regras e normas que Jesus, o grande Pedagogo da Humanidade, preconiza em seu Evangelho.
As instituições humanas refletirão sempre o que são os próprios homens. Por mais belas que sejam suas aspirações, por mais altanados sejam seus ideais, se os homens permanecerem egoístas e deseducados moralmente as instituições falharão.
Exemplo claro temos na Organização das Nações Unidas, idealizada após o grande conflito mundial da guerra de 1939-1945.
Esse organismo internacional contém, na letra de seus estatutos, o mais puro ideal de paz entre as nações. A Declaração dos Direitos do Homem expressa o que de mais edificante poderiam os idealistas imaginar para a defesa da criatura humana, no estágio em que chegou a civilização do século XX. A proscrição da violência, o direito à vida, à liberdade de pensamento, à educação, à saúde estão expressos nesse documento que honra seus autores, tacitamente aceito por todas as nações.
Entretanto, continuam os conflitos armados entre diversas nações, os bolsões de miséria no mundo inteiro são uma triste realidade, os crimes são uma constante por toda parte e o desrespeito aos direitos declarados constitui problema comum.
Por que essa antinomia entre o ideal e a prática, entre a instituição e a execução de seus princípios?
Simplesmente porque o homem de todas as latitudes não está educado para viver sob as regras da instituição magnífica, que se torna inoperante, apesar do esforço dos idealistas. Nesse caso, os maus, os mal-educados, os egoístas, os orgulhosos incumbem-se de desrespeitar as normas estabelecidas, para atender seus interesses imediatos.
A grande solução está na educação de todos. Educação moral, com conhecimento das causas dos males. Essa solução, embora lenta e difícil, é o único caminho.
A imperfeição moral e a ignorância a respeito das realidades espirituais são características dos habitantes dos mundos atrasados como o nosso, por isso mesmo destinados à evolução através de sofrimentos, provações e expiações. Mas isso não quer dizer que suas populações não possam alcançar melhores condições de vida, através da educação e da regeneração moral.
Cada indivíduo que se regenera, que se transforma moralmente para melhor, está contribuindo para o progresso do mundo. O progresso geral é, pois, resultante da soma das melhorias individuais. Ora, se a evolução é possível para um, para um grupo, será possível também para todo o gênero humano.
O progresso humano, com a regeneração do Orbe, está profundamente vinculado à crença na vida futura, nos seus processos, no seu desdobramento.
Que se poderia esperar da descrença, do niilismo, do materialismo que conduzem ao nada?
Como induzir o materialista a aceitar a continuação da vida após a morte do corpo, se ele não aceita a existência do Espírito?
De outro lado, como mostrar ao espiritualista que há uma justiça infalível para todos, se ele vê à sua volta aparentes injustiças a clamarem contra os Céus, sem compreender os mecanismos das Leis Divinas?
Essas questões, por si sós, mostram a necessidade de se levar ao conhecimento dos descrentes e dos induzidos ao erro religioso ou filosófico as luzes da Doutrina do Consolador, nos seus aspectos esclarecedores das realidades da vida.
A crença na existência do Espírito imortal transformou-se em certeza, com a rica fenomenologia espírita ao alcance de quem se disponha a observá-la.
A reencarnação, ou doutrina das vidas sucessivas, conhecida há milênios, explica com detalhes o processo da lei de causa e efeito, da ação e da reação e da justiça natural.
Toda essa riqueza de conhecimentos que nos veio através das revelações, sintetizados nos princípios fundamentais da Doutrina dos Espíritos, não é patrimônio de uma minoria, mas de toda a Humanidade.
Daí a responsabilidade que cabe aos espíritas de levarem esses conhecimentos a todas as camadas sociais, a todos os povos e nações, a todos os homens.
São conhecimentos que libertam o Espírito eterno da escravidão da ignorância, tornando-o apto a compreender os mecanismos da vida e suas realidades imanentes.
A fé e a esperança no porvir não podem ser cultivadas por criaturas cuja visão não ultrapassa a vida presente e cujo interesse se circunscreve às atividades materiais.
Sociedades modernas, fortemente influenciadas pelo niilismo e pelo materialismo, por terem falhado as religiões tradicionais com seus dogmas impróprios, são sociedades profundamente egoístas que vivem em constantes lutas de classes, em detrimento dos mais altos interesses da coletividade.
Ao atraso moral soma-se o desconhecimento da continuidade da vida e da responsabilidade individual pelas próprias ações, gerando o descalabro da falta de solidariedade e de fraternidade.
Reverter esse quadro triste da civilização atual é a grande tarefa da Doutrina dos Espíritos, na sua mais alta função: preparar a sociedade para a Era do Espírito.
A missão gigantesca do Espiritismo mostra a necessidade de sua propagação, de sua difusão por toda parte, para que seus princípios sejam conhecidos, não mais como simples crença, mas como realidade e certeza irrecusáveis.
Juvanir Borges De Souza
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