Sexta-feira, 30 de Abril de 2010

MATEUS, Cap. IX, v. 14-17. — MARCOS, Cap. II, v. 18-22. —LUCAS. Cap. V, v. 33-39

 

Jejum. —Pano novo. — Odres velhos. — Vinho novo. — Vinho velho

 

MATEUS: V. 14. Então, vieram ter com ele os discípulos de João e lhe perguntaram: Porque os fariseus e nós jejuamos frequentemente e os teus discípulos não jejuam? — 15. Jesus lhes respondeu: Podem acaso chorar os filhos do esposo quando o esposo está com eles? Dia, porém, virá em que o esposo lhes será tirado; eles então jejuarão. — 16. Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, por isso que aquele esgarçaria uma parte da roupa e lhe aumentaria o rasgão; — 17, e não se deita vinho novo em odres velhos, porque os odres se quebram, o vinho se derrama e os odres ficam perdidos; ao passo que, deitando-se vinho novo em odres novos, um e outros se conservam.

MARCOS: V. 18. Alguns discípulos de João e alguns fariseus que costumavam jejuar vieram e perguntaram a Jesus: Porque os discípulos de João e os fariseus jejuam e os teus discípulos não jejuam? — 19. Jesus lhes respondeu: Os filhos das núpcias podem acaso jejuar enquanto o esposo está com eles? Não podem jejuar, enquanto têm consigo o esposo. — 20. Mas, dia virá em que o esposo lhes será tirado; eles então jejuarão. — 21. Ninguém cose um remendo de pano novo em roupa velha, porquanto aquele arrancaria uma parte desta e tornaria maior o rasgão. — 22. Ninguém põe vinho novo em odres velhos, porquanto o vinho quebraria os odres, se derramaria e os odres ficariam perdidos; vinho novo em odres novos deve ser posto.

 

LUCAS: V. 33. Então, disseram-lhe: Porque é que os discípulos de João, assim como os fariseus jejuam frequentemente e fazem orações, enquanto que os teus comem e bebem? — 34. Jesus lhes disse: Podeis obrigar os filhos do esposo a jejuar, enquanto o esposo está com eles? — 35. Dias virão em que o esposo lhes será tirado; eles então jejuarão. — 36. Fez-lhes também esta comparação: Ninguém prega remendo de pano novo em roupa velha, porque o novo rompe o velho e assim o pedaço de pano novo não convém à roupa velha. -37. Do mesmo modo, ninguém deita vinho novo em odres velhos, porque, se fizer isso, o vinho novo rebentará os odres, se derramará e os odres ficarão perdidos. — 38. O vinho novo deve ser posto em odres novos, porque assim tudo se conservará. — 39. E não há quem, bebendo vinho velho, prefira o novo, pois que diz: o velho é melhor.

 

Todas as explicações que aqui cabem, para a compreensão do fim que Jesus objetivava com o ensinamento que deu de modo velado, entendem com o futuro espírita.

 

Os homens eram a roupa velha que, remendada impensadamente, teria sido destruída. Eram os odres velhos, impróprios para recipientes de um licor ativo que, fermentando, os despedaçaria.

 

Vós, espíritas, sois os odres novos nos quais o vinho novo é despejado abundantemente. Guardai-o como preciosidade e ele dará em vós bom produto; envelhecerá nos odres, melhorará e restituirá a força, a saúde e a vida aos que vierem bebê-lo.

 

O termo — "esposo" — pelo qual o Mestre se designava a si próprio, era tomado às idéias, às tradições e aos costumes hebraicos, pela consideração dispensada aos Hebreus que se casavam. Ora, sendo o chefe desta doutrina, que vos tem amparado apesar de todos os vossos desvios, Jesus era considerado como o mancebo puro que depõe a coroa nupcial, a fim de assumir o governo da família que constituiu para si.

Os filhos, os amigos do esposo são expressões sinônimas pela significação, indicando os que mais ligados e mais caros eram ao esposo.

Procurai compreender bem, segundo o espírito que vivifica e não segundo a letra que, agora, mata, procurai compreender, em espírito e em verdade, estas palavras que Jesus dirigiu aos discípulos de João e aos fariseus:

 

"Podem os filhos, os amigos do esposo jejuar, enquanto com eles está o esposo? Não podem jejuar, enquanto o esposo está com eles. Mas, dias virão em que o esposo lhes será tirado. Eles então jejuarão."

 

A presença de Jesus entre os discípulos os mantinha na senda que deviam trilhar. Não precisavam, pois, submeter-se a privações expiatórias. Mas, o futuro se distendia aos olhos do Mestre e ele antevia os abusos, os transviamentos que não tardariam a perverter a sua igreja, os seus filhos, isto é, à humanidade e os que tomariam a si a continuação da obra dos apóstolos e dos primeiros cristãos.

 

Antevia, portanto, necessária a expiação como meio de reparação. E o jejum material era, entre os Hebreus, o emblema da expiação.

 

O jejum de que Jesus falava e que os homens teriam de praticar nos tempos que se seguiriam ao desempenho da sua missão terrena não era o jejum material que os discípulos de João e os fariseus praticavam. Não; Jesus aludia às expiações a que os homens teriam de submeter-se, para reparar suas faltas; aludia ao jejum moral. O jejum material constituía entre os Hebreus um ato expiatório, destinado a reparar os erros leves da vida. Teve sua razão de ser (como daqui a pouco explicaremos), numa época em que só as leis materiais podiam dominar a matéria.

 

Consiste o jejum moral no remorso das faltas graves que cometeis todos os dias para com Deus, transgredindo suas leis, deixando de praticar o amor e a caridade, entregando-vos ao orgulho, ao egoísmo, à inveja, vícios que muitas vezes não chegais mesmo a lobrigar no fundo de vossos corações, tão grande é a vossa cegueira, tanta a confiança que cada um de vós deposita em si próprio. Ah! jejuai, mortificando vossas almas para que se purifiquem. Bom é o jejum, mas o jejum moral. Ele é útil à alma culpada, pois que a expurga das impurezas.

 

Esse jejum, único que o Senhor exige, consiste em a criatura não se submeter nunca aos seus maus instintos, por mais agradável que isso lhe seja, em infligir voluntariamente a si mesma humilhações; quando tenham por fim o adiantamento de seus irmãos, ou constituam para eles um exemplo; em não se entregar a ato algum de culposa leviandade; em não se dar a excessos de qualquer natureza.

 

Não julgueis seja muito penoso para o homem viver tranqüilamente diante de Deus. Basta-lhe estar com a sua consciência em paz e satisfeita, para ter a força e a saúde do corpo.

 

De onde provém, senão dos excessos de toda ordem a que sujeitais vossos corpos, a degeneração das raças humanas? Que é o que produz o apoucamento das vossas inteligências, senão o arrojo desavergonhado das vossas idéias, senão o desejo imoderado de saber prematuramente mais do que lhe deva ser dado?

 

Formais uma sociedade — vivei em sociedade. Sede bons, amorosos e, assim, dignos de ser amados. Não procureis o luxo material que enerva, nem adquirir inconsideradamente a ciência que desvaira.

 

Jesus não pretendeu impor e não impôs a obrigação do jejum material, disse-o ele próprio.

 

"O que mancha o homem não é o que lhe entra no corpo, porquanto isto não lhe vai ao coração, mas aos intestinos e daí ao lugar secreto. O que mancha o homem é o que lhe sai do coração; são os maus pensamentos, as más palavras, as ações más, os vícios que degradam a Humanidade, as infrações da lei de Deus consignada no Decálogo e nestas palavras que encerram toda a lei e os profetas: — amar a Deus acima de todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo."

 

Os mandamentos humanos relativos ao jejum material, prescrevendo a privação de alimentos ou só permitindo, em determinadas épocas e em determinados dias, certas espécies de alimentos, foram e são inúteis para o homem de inteligência e de coração. Jamais o Senhor lhe impõe a obediência a tais mandamentos. Entretanto, tiveram sua razão de ser. A observância desses preceitos, por mais ridículos que sejam em si mesmos, foi um freio posto aos excessos da gula e da luxúria, numa época em que somente as leis materiais podiam dominar a matéria. Sujeitando o corpo a um regime rigoroso, diminuíam-se-lhe as forças animais e continham-se assim muitos abusos.

 

Mantendo as prescrições materiais do jejum e da abstinência, a Igreja romana se conservou contemporânea dos escribas e dos fariseus. Sim, ela impõe um fardo pesado, que já não é necessário. Não quis caminhar com a Humanidade e hoje se acha distanciada desta. Mas, tudo voltará aos seus eixos, porque Deus o quer e suas vontades são imutáveis.

 

Os v. 16 e 17 de Mateus, 21 e 23 de Marcos, 36 a 39 de Lucas encerram, como dissemos ao começar estas explicações, alegorias espíritas. Aos homens daquele tempo e às gerações que se seguiram até aos vossos dias, precursores da era nova, se referia Jesus, quando falava da roupa já velha à qual não convinha pôr um remendo de pano novo; quando falava dos odres velhos dos quais o vinho novo, rebentando-os, se escaparia, ficando um e outros perdidos. Quer isso dizer que aqueles homens eram incapazes de receber, aceitar e conservar a nova revelação que, assim, ficava reservada para os tempos vindouros, para quando chegasse o momento de cumprir-se esta sentença: "a letra mata e o espírito vivifica"; para quando os séculos e a reencarnação, que é meio de expiação, de reparação e de progresso, houvessem preparado as inteligências e os corações de maneira a fazer deles odres novos capazes de conservarem o vinho novo.

 

Materiais, ignorantes, obstinados nos seus preconceitos e tradições, os homens daquela época teriam sido esmagados pelo peso de um fardo para eles onerosíssimo, tê-lo-iam alijado dos ombros, ou teriam cegado pelo brilho de tão viva luz. Convinha-lhes primeiramente a linguagem da parábola, o regime da letra, sujeita a interpretações humanas e materiais, a fim de que os necessários esforços e as constantes lutas do pensamento preparassem o advento do espírito.

 

"O vinho novo deve ser posto em odres novos, porque assim tudo se conserva."

 

Constituem o vinho novo os ensinos dos Espíritos do Senhor, que vêm dispor as coisas de modo a que tenham fim o mundo moral do erro e da mentira, a vossa fraqueza e a vossa ignorância; que vos vêm explicar, tornar compreensível e desdobrar, em espírito e em verdade, a lei simples e sublime de Jesus, tirando da letra o espírito, escoimando-a das falsas interpretações que lhe deram e que a alteraram ou desnaturaram, impedindo-a de produzir seus frutos.

 

Os odres novos são os verdadeiros espíritas que recebem e praticam esses ensinamentos; são os Espíritos que, purificados e esclarecidos pelo Espiritismo, farão rebentar o velho odre, incapaz de resistir à fermentação das idéias novas.

 

O odre velho existe em vossos dias. São aqueles que, cegos e interesseiros, bebendo em fontes impuras ou falsificadas, procuraram, procuram e ainda procurarão entravar a obra da regeneração humana, a formação da Igreja do Cristo, cujo templo é o vosso planeta e à qual todos os homens se tornarão fiéis (Judeus e Gentios) pela prática da lei do amor e da caridade.

 

A igreja que os homens fizeram tem que ser transformada, vós o sabeis. Preparai, pois, espíritas, os materiais que hão de servir para a reedificação, a fim de que os obreiros do Senhor encontrem talhadas as pedras, quando for tempo de levantar o edifício.

 

O vinho novo e o odre novo se conservarão pela nova fé, nova no sentido de que avançará por estrada muito diversa da que segue a igreja que tendes.

 

"Não há quem, bebendo vinho velho, prefira o novo, pois que logo dirá: o velho é melhor."

 

Compreendei bem o sentido alegórico destas palavras de Jesus, que, veladamente, se referia à era nova que começa.

 

O vinho velho que deve ser preferido é o que já se despojou de todos os corpos estranhos, é aquele cuja fermentação o livrou de todas as impurezas, é aquele que, posto em odres novos, nestes envelheceu.

 

Quando, pois, vós outros da nova geração houverdes deixado fermentar nos vossos corações os desdobramentos, que trazemos, da doutrina de Jesus, podereis dar a vossos irmãos, para que o saboreiem, o vinho velho, que será preferido ao novo.

 

Se sois odres novos, recebei o vinho novo tal como em vós o despejam os Espíritos do Senhor. Não deixeis que se altere, vicie, corrompa, obstando à fermentação que vos purificará as almas de suas leveduras. Toda doutrina não conforme à lei de amor e de caridade que o Cristo pregou e ainda manda pregar; os erros em que se esforçam por vos mergulhar os cegos ou interesseiros, erros que são vinho novo adulterado, falsificado, a fermentar nalguns cérebros, enlouquecendo-os — eis o que impediria o vinho novo de envelhecer, ou o alteraria, viciaria e corromperia em vós, arrastando-vos a atos de demência.

 

Dai o exemplo a vossos irmãos pela prática dos ensinos dos Espíritos do Senhor e da lei de Jesus que eles vos explicam em toda a verdade.

Solidários e ligados pelos laços da caridade e do amor recíproco, preparai o advento da fraternidade universal. Então, emocionados e atraídos por esse exemplo, vossos irmãos dirão: o velho é melhor.

 

Sim, porquanto o velho será realmente velho, embora muitos o considerem novo. O que vos pregamos hoje não é a mesma lei que Jesus vos deu a conhecer? Que é o que intentamos senão fazer-vos voltar atrás em busca desse vinho que, há mil e oitocentos anos, espera que os homens o saboreiem?

 

Ele é novo no sentido de que está hoje apropriado, pela nova revelação, aos vasos que o devem conter.

PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 01:00

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