Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010

DA TEOGONIA À CORTE CELESTIAL

 

No século V antes de Cristo a Grécia viveu seu esplendor como berço da civilização mediterrânea e até hoje, a Idade de Péricles é um marco desta cultura. Durante esse tempo, desenvolvia -se um conceito religioso que é tido como politeísta, contudo, que muito pouco diverge de certos regimes religiosos que se intitulam monoteístas.

A mitologia grega, influenciada pela cultura do Antigo Egito, apresenta de comum com o monoteísmo um deus único, supremo, chamado Zeus, que habitava o Olimpo – corte divina. – Presidia, reinava ou imperava posto que até hoje ainda não se escolheu ao certo o regime teocrático. De Zeus para Deus, uma simples troca de letra.

Acontece que tal corte divina ainda se compunha de outros áulicos que, por se tratar de entidade superiores, também eram considerados deuses no fito único de não os confundir com as criaturas humanas, estas mortais, aqueles com poderes menores que Zeus, obviamente, todavia, investidos de predicados superiores aos de uma vulga r criatura.

Nosso caso não é o de abordar especificamente a cultura helênica, contudo, sendo ela a base dos estudos teogônicos, forçosamente será o fundamento comparativo mais indicado. Assim, podemos dizer que também no monoteísmo existe muita seita com personagens divinificadas, como os santos para a Igreja Católica, etc., pequenos deuses em atributos semelhantes aos do Olimpo.

O Olimpo era o monte mais alto da Tessália, na Grécia, que os atenienses conheciam, e suficientemente inacessível para que nenhum homem o atingisse àquela época desprovida dos alpinistas atuais. Com isso, ninguém lá ia bisbilhotar suas intimidades, resguardando assim a privacidade do local para que nele se instalasse comodamente uma corte divina sem a impertinente curiosidade do indiscreto ser humano. Não havia lugar mais bem indicado para nele instalarem Zeus e sua corte.

O monte grego, pois, tornava -se indevassável de forma que lá poderia ser ficticiamente colocada qualquer coisa que ninguém iria verificar; salvo algumas cabras monteses, possivelmente atribuídas às cocheiras e criações divinais, só os pássaros das grandes alturas sobrevoavam a região.

Deve-se o conhecimento da teogonia às obras do poeta grego Hesíodo, traduzidas do idioma antigo por Ghérard para o francês.

A cultura grega era tanta e tão vasta que Roma, ao ocupar a península Ática, em vez de fazer valer sua cultura sobre os dominados, acabou -se curvando ante o valor dos subjugados e assimilou seus conhecimentos, nascendo, então, a nova fase intelectual do poderoso Império Romano; para não dizer que a cópia era fiel, resolveu traduzir os nomes dos diversos deuses ou compará-los: foi assim que Zeus foi assimilado a Júpiter, ou melhor, este último ganhou o mesmo status. E outros mais, pelo relacionamento, como Vênus e Afrodite, Marte e Ares, etc.

Acontece, todavia que o homem, na sua busca incessante, começa a atingir pontos até então inacessíveis geograficamente, dentre eles a morada dos deuses, desmascarando a lenda e a credulidade a seu respeito fazendo-as cair em descrédito. Tornava-se, pois, necessário encontrar urgentemente uma nova habitação para colocar as divindades adoradas pelos homens.

Enquanto isso, as fases de transição se sucedem; Roma continua imperando no ocidente; os sábios ensinos de Jesus começam a chegar da Galiléia trazidos pelos próprios soldados invasores. Parece que o destino daquele império poderoso é sempre o de ter que importar cultura e crença, pois seu povo, mergulhado em orgias e prazeres, nunca deu ao mundo uma capacidade intelectual filosófica marcante.

Primavam por grandes reis e guerreiros, dentre eles a hierarquia dos doze Césares, conquistadores até nas letras. Caio Júlio, o César intelectual da dinastia, descrito em um poema épico – De Belo Gálico – falando de suas conquistas. Todavia, Roma possuiu o maior tratado ou código de direito que é o exemplo, ainda hoje, para os de todo mundo.

Por essa época, já na era cristã, mais de um século após a vinda de Jesus à Terra (por volta do ano 140), nasce na Grécia, ainda a Grécia como berço das civilizações antigas, um sábio matemático e astrônomo chamado Clavdius Ptolomeus, o africano oriundo da Ptolemaida Hérmia – que, por vezes, é confundido com o Ptolomeu macedônio, fundador da dinastia dos lágidas e que deu uma série de reis egípcios, dentre eles Soter II, dito Ptolomeu X, contemporâneo do astrônomo.

A Ptolomeus deve-se o primeiro catálogo de estrelas, embora todo errado como tudo o que dele adveio. Apresenta a teoria geocêntrica do Universo que serviu aos cristãos para criar a lenda do Céu-Inferno-Purgatório. Estava novamente Deus colocado em outro “Olimpo”, desta feita bem mais inacessível que o do monte grego.

Estamos nos prendendo um pouco à História para mostrar como os dogmas e os conceitos religiosos sempre estiveram intimamente ligados à cultura e ao conhecimento de cada época na qual tenham sido implantados.

A “Almagesta”, tratado de Astronomia do sábio grego com o catálogo estelar e a teoria do geocentrismo, foi devidamente aprovada no ano de 150 D.C. pelo imperador romano Antonino Pio cuja importância histórica foi mais a de ter educado Marco Antônio para ser seu sucessor do que mesmo ter sancionado um tratado astronômico na dupla acepção da palavra.

Posto que aprovado pelo imperador todo poderoso das terras romanas, incluindo Grécia, colônias africanas e territórios europeus ocupados, o estudo de Ptolomeus passou a ser oficial e consagrado mais que qualquer bula papal para os católicos; por esse motivo, ficou estabelecido que a Terra seria o centro do Universo e no seu interior o fogo q ue brotava pelas bocas vulcânicas e que, segundo os religiosos, seria a labareda das penas eternas em substituição às terras ilhadas do Estige da mitologia grega.

Só faltava Caronte e sua barca num rio de lava vulcânica.

Por fora, como ainda não era devidamente conhecida, em vez da atmosfera, a suposição da existência de camadas envoltórias formando o éter (do grego: aithér – etéreo), e quanto mais distante do globo mais etéreo. Envolvendo tudo isso tinha o limbo – nome até hoje empregado para definir a periferia dos astros, quase em desuso, porém conservado para especificar a graduação dos transferidores, principalmente os dos aparelhos ópticos – local para onde os religiosos resolveram mandar as almas em tempo de espera e que não tinham o direito de entrar diretamente no Paraíso Celeste a fim de aguardarem seu julgamento.

E, finalmente externo a tudo, como envolvente máxima, a abóbada celeste de estrelas fixas, onde imperaria a paz e a tranqüilidade do Universo, morada ideal para se alojar o novo Deus substituto de Júpiter destituído de sua corte ou destronado com a queda da inviolabilidade de sua antiga residência.

A única diferença é que subtraíram a divindade dos demais deuses, no entanto eles continuaram a existir sob as mais diversas formas, como anjos, arcanjos, querubins, etc.

De qualquer forma, perdurava a idéia de um Deus único supremo com seu acompanhamento na corte celeste, respeitando-se já então militarmente influído pelos costumes romanos, os poderes e hierarquias das divindades.

O termo latino Deus, dei para diferenciar a nova autoridade religiosa de Júpiter, o deus do Olimpo, veio também do grego Théos por adaptação fonética ao idioma falado em Roma. Ainda, segundo Virgílio, “o guia” (vesperdeo).

Por essa época o império romano estava entregue a Constantino, o Grande (277 -337 d.C.) e representava, sem dúvida, a maior potência do ocidente pelo seu poderio bélico. Por influência de seus assessores, ele impôs a Igreja de Pedro aos seus domínios, como religião oficial do Estado; foi assim que o Cristianismo passou a ser praticado livremente e mais do que isto, como obrigação, somente que, educado sob os princípios pagãos, aquele Império só poderia se adaptar a conceitos vinculados aos moldes pagãos, tomando o nome de Igreja Romana.

O Cristianismo, como veremos adiante, por si, nada mais era do que o Mosaísmo readaptado pelos preceitos que Jesus legou em sua passagem e pelas interpretações que deles deram seus instituintes denominados evangelistas. De saída, sofreu sua primeira mutilação: a de ser imposto pela força e não pela razão.

A nova Igreja tomou força, arregimentou sociedades e, para melhor governar seus fiéis, adquiriu forma hierárquica. Apenas de Cristo – como passou a tratar Jesus –, derivara o nome, de resto, era a tirania e a opressão em estilo pagão muito ao gosto da moral ( mor, moris – costume) romana.

Este néo-cristianismo ressurgido adaptou o Ser Divino do Novo Testamento ao Ser Supremo do paganismo para que melhor pudesse ser compreendido, possuindo um aspecto humano – até barbas lhe impuseram – mesmo no caráter. E para dar mais ênfase ao Judaísmo transformado em Cristianismo, copiaram lendas das seitas asiáticas, sob influência do Hinduísmo, criando a idéia da santíssima trindade do Trimúrti – composto de Brahma, Vix’nu e Çiva – que, por adaptação de personalidades, transformou-se em Deus Pai incriado, Cristo Filho homem na Terra personificado por Jesus e a alma divina da Criação que é o Espírito Santo, amém!

Contudo, se verificarmos bem, veremos que são quatro e não três, a saber: Nosso Senhor – o Deus criador; Jesus – o filho amado, feito homem na carne; Cristo – o Krishna, guia supremo do planeta; completado pelo Espírito Santo (amém!). Confusão esta nascida da idéia de que a Terra, centro do Universo, seria a única preocupação de Deus, no caso, o próprio Cristo.

Estava assim resolvido o sério problema para deificar nosso Guia e não ferir as estruturas da época. E como os recursos da Astronomia de então eram parcos e não permitiam se desvendasse o céu, melhor escolha não houvera que colocar a nova morava divina e sua corte celeste ou celestial no ultra –limbo idealizado por Ptolomeus e que era assaz indevassável. Contudo, ainda nesta concepção perdura a ideia de que os poderes destes seres celestiais, quais deuses mitológicos, são supre mos e intangíveis pela capacidade humana; pode-se dizer que isto representa o reflexo de toda uma cultura marcante que perdurava e ainda perdura na imaginação do povo.

Copérnico (Nicklauss) o astrônomo polonês, com sua teoria heliocentrista (1501) e posteriormente Galileo Galilei, nascido em Piza (1564), com sua indiscreta luneta desvendando o cosmo e com o seu estudo de Mecânica Celeste (1609) reafirmando as teses heliocentristas vieram comprometer seriamente a cômoda situação estabelecida em face dos estudos ptolomaicos.

Tal como os alpinistas fizeram com a corte do Olimpo, desta feita, desalojaram a corte celeste do zimbório, deixando-a desabrigada e sem outro lugar apropriado para que se instalasse sem as curiosas observações humanas comprometedoras e destruidoras de dogmas, bem como pudesse se livrar do alcance da nova invenção – a luneta – do sábio italiano.

Ambos só não foram queimados vivos pela Santa Inquisição porque um desencarnou antes e outro, enclausurado, deixou-se desdizer sem nada contestar.

Apesar desse ato coercivo, a Igreja Cristã que adotara o cânone habitacional de Deus baseado nos estudos de Ptolomeus, teve que se reformular e, sabiamente, decidiu que Céu-Inferno-Purgatório seria meramente um estado de espírito da criatura, não sem antes punir ambos os hereges, como já foi dito.

Evidentemente, a idéia de que a condenação ao Céu ou ao Inferno seria um estado de espírito, não há que contestar, afastada a hipótese de penas eternas e bem-aventuranças supremas concedidas a critério de sacerdotes tão humanos como os fiéis.

E dessa forma, chegamos à Era atual: tem-se dito que o avanço da Ciência cada vez mais encurrala os dogmas religiosos. Engano tredo! Pois a religião é que tem sido a maior vítima dos cientistas, porque sempre estabeleceu seus critérios baseados nos parcos conhecimentos humanos, onde reside seu erro, tentando adaptar o conceito religioso a cada descoberta científica, como no caso do geocentrismo.

Para encobrir sobremodo a falta de conhecimentos, considerando -se que a Religião não poderia ser falha, já que emana diretamente de Deus, a solução foi admitirem os dogmas: verdades que não se discutem.

Nossa Ciência está muito longe da Verdade Universal e, por isso, induz sua rival e companheira no erro; assim, ao criar-se um dogma, ele passa a ser inconteste ante a falta de segurança e amparo que possa lhe dar o conhecimento humano sobre o qual venha a se estabelecer.

Só que Deus não se mete nessas questões. Apesar disso, Ele e sua corte encontram -se, no momento, sem residência; talvez esse seja o motivo, como saída, em criarem-Lhe novos atributos tornando-O onipresente, incriado e como tal, habitaria todo o Universo que é o seu corpo material; é Infinito e Perfeito, como tal, não se restringe a um Universo possivelmente finito.

E aí começam a surgir as incoerências.

Quanto à sua perfeição, Leibniz escreveu um tratado para justificar a criação de uma obra imperfeita e não conseguiu, ainda, convencer os filósofos laicos. Contudo, o que até então está deveras pegando, no conceito cristão, é o dogma da Santíssima Trindade: como revogá -lo sem modificar a situação divina de Jesus?

Surge, assim, um novo problema bem mais intrínseco do que a posição que Deus possa ocupar no Universo ou que mais: – será que todo esse cosmo foi criado exclusivamente para que se colocasse o homem (obra prima da Criação) num minúsculo planeta de um reduzido e insignificante sistema solar perdido em uma galáxia que longe está de ser a maior do espaço sideral? Será ainda, que, nesse infinito perdido na eternidade do Evo, não exista nenhum outro mundo habitado? Se for para dar esse privilégio exclusivamente ao homem por que não o colocar em um astro melhor?

E muitas outras perguntas e indagações relativas à Criação existem, que nem os dogmas da Religião nem a capacidade intelectiva da Ciência podem esclarecer, muito menos os devaneios filosóficos.

De fato: não podemos ser a obra prima de Deus!

Carlos Imbassahy – obra E.. Deus Existe?

PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 14:45

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