Quinta-feira, 29 de Abril de 2010

EXTRATO DO JORNAL DO COMMERCIO DO RIO DE JANEIRO DE 23 DE SETEMBRO DE 1863

CRÔNICA DE PARIS

A propósito dos espectros dos teatros, assim concluiu o correspondente, depois de haver feito o seu histórico:

“Assim, no próximo inverno, cada um poderá brindar seus amigos com o espetáculo, tornado popular, de alguns fantasmas e outras curiosidades sobrenaturais. À sobremesa apagarão as velas e ver-se-ão aparecer, envoltos em seus sudários, os espectros modernos, substituindo as antigas canções que outrora cantavam nossos avós. Nos bailes, em vez de refrescos, desfilarão fantasmas. Que distração encantadora! Só de pensar a gente se arrepia.”

Depois o autor passa ao Espiritismo:

“Já que falamos de coisas sobrenaturais, não passaremos em silêncio O Livro dos Espíritos. Que título atraente! que mistérios não oculta! E se voltarmos ao ponto de partida, que caminho não percorreram essas idéias nos últimos anos! – No começo esses fenômenos, ainda não explicados, consistiam numa simples mesa posta em movimento pela imposição das mãos; hoje as mesas não se contentam mais em girar, saltar, erguer-se num pé, fazer mil piruetas; vão mais longe: falam! Quando digo: falam, é que têm um alfabeto próprio e, mesmo, vários. Basta dirigir-lhes uma pergunta e logo é dada a resposta por pequenas batidas seguidas, com o pé, ou por meio de um lápis que, seguro pela mão, põe-se a traçar, no papel, sinais, palavras, frases inteiras ditadas por uma vontade estranha e desconhecida. Então a mão se torna um simples instrumento, um mero porta-lápis, e o Espírito da pessoa fica completamente estranho a tudo o que se passa.

“O Espiritismo – é assim que chamam a ciência desses fenômenos – em poucos anos fez grandes progressos nos fatos e na prática; mas a teoria, em minha opinião, não fez o mesmo caminho, ficou estacionária e direi por quê.

“É incontestável, a menos que as pessoas que se ocupam dessa matéria não tenham interesse em se enganar e nos enganar, que os fatos existem. Não só se revelam por meio das mesas, mas, também, se nos apresentam todos os dias e a todas as horas. Excitam a admiração de todos, mas cada um fica nisto. Por exemplo:

“Duas pessoas concebem a mesma idéia ou se encontram simultaneamente na mesma palavra; alguém que não encontramos com freqüência e em quem acabamos de pensar apresenta-se inopinadamente; batem à nossa porta e, a despeito de nada vir de fora que nos indique a pessoa, adivinhamos quem é; uma carta com dinheiro nos chega num momento de urgência; e tantos outros casos freqüentes, tão numerosos e conhecidos de todo o mundo. Tudo isto pode ser atribuído ao acaso? Não; não pode ser o acaso em caso algum. E por que não seria uma comunicação fluídica, inapreciável à nossa organização material, enfim um sexto sentido de natureza mais elevada? Ninguém sabe onde reside a alma; ela não é visível, nem ponderável, nem tangível e, todavia, cheios de convicção como estamos, afirmamos a sua existência.

“Qual a natureza do agente elétrico? O que é o ímã?...

E, contudo, os efeitos da eletricidade e do magnetismo estão sempre patentes aos nossos olhos. Estou convencido de que um dia se dará o mesmo com o Espiritismo, ou seja qual for o nome que a Ciência, em última instância, haja por bem lhe dar.

“Desde algum tempo tenho visto numerosos casos de catalepsia, de magnetismo, de Espiritismo e não posso conservar a menor dúvida a seu respeito; mas o que me parece mais difícil é poder explicá-los e os atribuir a esta ou àquela causa. Assim, é necessário proceder com prudência e reserva de opinião, abstendo-se de cair nos dois extremos: ou negar todos os fatos, ou submetê-los todos a uma teoria prematura.

“A existência dos fenômenos é incontestável; sua teoria ainda está por descobrir: eis hoje o estado da questão. Não se pode negar que haja algo de singular e digno de ser examinado nesta ideia que agitou o mundo inteiro e que reaparece com mais intensidade que nunca, nessa idéia que tem os seus órgãos periódicos, seus anais de observação e que tem emocionado os espíritos na Áustria, na Itália e na América, fazendo nascerem reuniões na França, país onde elas raramente se formam, e onde o governo dificilmente as tolera.

“Esta invasão geral, além de produzir uma viva impressão, tem altíssima importância. É necessário, pois, sem precipitação nem idéias preconcebidas, verificar esses fenômenos com boa-fé, até que venham a ser explicados, o que será feito um dia, se a Deus aprouver nos revelar a natureza desse agente misterioso.”

Como se vê, o autor não é muito adiantado; mas, pelo menos, não julga o que não sabe. Reconhece a existência dos fatos e sua causa primeira, mas desconhece seu modo de produção.

Ignora os progressos da parte teórica da ciência e, a respeito, dá um conselho muito sábio: o de não fazer teorias arriscadas, como no começo dos fenômenos muitos se apressaram em fazer, em que cada um se desdobrava para os explicar à sua maneira. Assim, a maioria desses sistemas prematuros caiu por efeito de experiências ulteriores, que vieram contradizê-los. Hoje possuímos uma teoria racional, na qual nenhum ponto foi admitido a título de hipótese; tudo é deduzido da experiência e da observação atenta dos fatos. Pode dizer-se que, a tal respeito, o Espiritismo tem sido estudado à maneira das ciências exatas.

Negada ontem, esta ciência não disse tudo; ao contrário, ainda resta muita a aprender. Mas disse bastante para ser fixada em bases fundamentais e saber que esses fenômenos não saem da ordem dos fatos naturais. Foram qualificados como sobrenaturais e maravilhosos por falta de conhecimento da lei que os rege, como ocorreu com a maioria dos fenômenos da Natureza.

Dando a conhecer esta lei, o Espiritismo restringe o círculo do maravilhoso, ao invés de o ampliar. Dizemos mais: ele lhe desfecha o último golpe. Os que falam de outro modo provam que não o estudaram.

Constatamos com satisfação que a idéia espírita faz sensíveis progressos no Rio de Janeiro, onde conta expressivo número de representantes, fervorosos e devotados. A pequena brochura O Espiritismo na sua expressão mais simples, publicada em português, muito contribuiu para ali espalhar os verdadeiros princípios da doutrina.

REVISTA ESPÍRITA - JULHO DE 1864 – edição FEB
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 00:22

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