Quarta-feira, 29 de Julho de 2009

ANTES MORRER DO QUE MATAR !


Desde pequena, as grandes livrarias atraíam poderosamente minha atenção, e nelas entrava com respeito religioso. Recordo-me que, há muitos anos, estando em Deva, visitei o palácio de Dom Leopoldo Augusto de Cueto e, ao entrar em sua biblioteca, verdadeira maravilha em todos os sentidos, ao ver as estantes artísticas que continham o que de melhor se escreveu entre os povos civilizados, confesso ingenuamente que não me prostrei de joelhos temendo que rissem de mim; mas se a alma pudesse tomar alguma postura, indubitavelmente a minha teria se reclinado, orando fervorosamente naquele magnífico santuário da sabedoria humana.
Nunca me esqueci daquele salão, no qual tudo falava; ali se respirava uma atmosfera diferente e, em nenhuma das catedrais que vi, senti aquela religiosidade e admiração que experimentei na biblioteca de Augusto de Cueto.
Refiro-me e estas recordações do meu passado para demonstrar que sou amante fervorosa da leitura. Mas, uma vez que para ler com proveito se necessita de tempo, que sempre me falta por diversos motivos, eis o motivo porque aproveito, em muitas ocasiões, as histórias que uns e outros vêm me contar, e até a opinião e o parecer dos seres mais humildes e ignorantes, seguindo nisto o conselho amigo que me deu, em Madri, O inolvidável escritor Roque Barcia que, com seu modo particular de gracejar, disse-me:
- Minha amiga, você riria se conhecesse alguns críticos das minhas obras. Não costumo consultar meus mais íntimos amigos, por duas razões muito poderosas: a primeira, porque o carinho cega a alguns; a segunda, porque a outros o verme da inveja lhes rói as entranhas, e o voto de nenhum deles tem valor para mim.
Minha mulher observou, durante algum tempo, que quando o carvoeiro vinha à minha casa, ao sair, parava diante do meu escritório e escutava com deleite o que eu lia em voz alta, fazendo sinais de aprovação, nos pontos mais culminantes dos meus escritos. Tenho o costume de escrever e ler cada parágrafo que traço no papel.
Certa manhã, fiz o carvoeiro entrar no meu escritório, dizendo-lhe:
- Vamos homem, minha mulher disse-me que és inteligente, e vou ler-te um capítulo de uma obra que estou escrevendo, para ouvir o teu parecer.
O moço sentou-se muito sério e voltou-se, todo ouvidos, para escutar minha leitura. Quando concluí, olhei-o e vi que em seu semblante se retratavam o desgosto e a contrariedade.
- O que te parece? Não gostou do que li?
- Não, senhor.
- Por que?
- Porque você ficou muito satisfeito insultando, mas não estarão assim os insultados. Você fere com esse escrito; mas não ensina, como em muitos outros, da sua autoria, que li.
O carvoeiro se foi, e voltei a ler o capítulo censurado, rasgando imediatamente as páginas porque, na realidade, nunca havia escrito nada pior em minha vida. Levei muitas vezes em conta as advertências daquele ser tão humilde, veja você, atendente de uma carvoaria: teria sido um cítico admirável.
Mas vejo que, entregue às minhas recordações, distanciei-me algum tempo do objetivo principal deste artigo, que é o de tributar uma homenagem de profunda admiração a dois homens que nunca vi, que não sei como se chamaram e que, todavia, se me fosse possível, faria uma viagem para deixar em sua tumba um ramo de flores.
Falando, há alguns dias, com um guarda civil, espírito muito adiantado, muito estudioso e muito observador, disse-me o seguinte:
- Amália, já que te fixas tanto nas coisas, contar-te-ei um fato raríssimo, que um companheiro meu presenciou, merecendo ele toda a minha confiança, e que, além disso, ouvi vários outros se referirem ao mesmo fato. Mas meu amigo, sobretudo, é para mim a melhor garantia da sua autenticidade, porque quanto à forma e à verdade não há quem o supere.
A província de Extremadura, há muitos anos, viu-se invadida por foragidos, de tal forma que a guarda civil não tinha descanso nem sossego, sempre na perseguição dos salteadores que roubavam, matavam, incendiavam, e eram o terror e o espanto dos pobres lavradores que perdiam suas economias, suas casas e até a vida. A tanto chegou o descaramento e a ousadia dos malfeitores, que o general que comandava a guarda civil ordenou que, sem formação de processo, se fuzilasse os bandidos onde fossem encontrados, pois só arrancando a erva má pela raiz, poderiam viver tranqüilas centenas de famílias consagradas aos trabalhos mais rudes.
A ordem foi obedecida e, nos bosques daquela pequena Ìndia da Espanha, pagaram com a vida, por muitas ações más, uma grande parte daqueles facínoras sem coração.
Uma tarde, um pelotão de guardas civis, comandados por um sargento, prendeu nove salteadores. Amarraram-nos fortemente, e empreenderam caminhada até chegar a um lugar apropriado para despachá-los para o outro mundo.
Entre os guardas, havia dois indivíduos que fazia pouco tempo que haviam se incorporado à força que perseguia, sem quartel, os bandoleiros; inteiraram-se, como os demais, do que tinham a fazer com os amigos do alheio e calaram, porque quem manda manda, e nada se pode fazer.
O sargento fez alto em uma taberna, esperando que o sol se pusesse. Os presos, bem custodiados, estavam sentados ao pé de alguns arbustos, e os guardas, uns passeavam esperando a ordem de marchar, e outros permaneciam sentados. Entre estes, estavam os dois indivíduos que tinham chegado ultimamente. Ninguém estava contente, porque matar a sangue-frio não é tarefa agradável. Mas, como na milícia quem não obedece paga com a vida, ninguém dizia uma palavra, nem má nem boa.
Afinal, disse o sargento: marchem! e os bandidos foram os primeiros a se porem de pé, rodeados pelos guardas, empreendendo, todos, o caminho; mas, depois de poucos passos, disse o sargento, com estranheza:
- Aqui falta gente. Voltou o rosto, e viu dois guardas sentados, mais distante, ao pé de pequena elevação. Estranhou tanto a desobediência que, ele mesmo, retrocedeu e, chegando até os dois, tocando bruscamennte no ombro de um deles, exclamou: Até quando durará esse sono? Ao tocar-lhe, o guarda se inclinou sobre seu companheiro e os dois caíram, rodando pelo solo como massas inertes. O sargento retrocedeu, assombrado; aqueles dois homens estavam mortos... !
O chefe das forças cumpriu sua tarefa e, em dois carros, foram conduzidos os cadáveres ao cemitério de povoado vizinho. Fizeram autópsia nos dois guardas mortos, e os médicos que a realizaram, disseram que não tinham lesão alguma; que eram, ao contrário, dois corpos sãos e robustos; que haviam morrido de angústia!
Os outros guardas recordaram, então, inclusive o sargento, a repugnância, o nojo que haviam mostrado ao saber que deviam matar os salteadores. Conforme viram que se aproximava a hora, que sensação tão dolorosa deveriam sentir, que angústia tão extraordinária experimentariam aqueles dois espíritos, para separar-se do seu organismo forte, são, vigoroso, no esplendor da juventude! Para romper tais laços, deveriam sentir todos os horrores da mais cruenta agonia, dizendo com a fortaleza dos mártires: Antes morrer do que matar!
Que dois espíritos tão elevados! Que almas tão desprendidas das misérias terrenas! Eis aí dois heróis, dois redentores, que preferiram morrer a destruir a sangue frio a vida dos outros! Como me seria agradável receber uma comunicação desses espíritos! Quem diria, ao vê-los de uniformes, que eram dois espíritos que odiavam os procedimentos da força? Tomaram por expiação tão nojenta carreira, e não puderam dobrar-se às suas horríveis exigências? Quem sabe ... ! Há tanto o que estudar na vida eterna do espírito ... !
Às vezes, no lodo, se encontram pérolas e, entre flores perfumadas, répteis repugnantes que se ocultam entre suas matizadas folhas.
Quantos dos que passam por filantropos e por homens de coração, dão de ombros quando estão na intimidade da família, se ouvem o relato de uma desdita horrível !
Por outro lado, outros, que querem uma nivelação social, quando vêem uma dessas cenas dolorosas, estremecem e, se não têm o que dar, pedem uma esmola para socorrer os que choram.
Quão poucos espíritos vivem no seu meio! Que nos ensina isto? Que esta vida é um capítulo da nossa história; não pode ser de outra maneira, deve-se admiitir a sobrevivência da alma.
Muito me fez pensar a morte dos dois guardas civis que viveram fora do seu meio. Por que elegeram a carreira das armas? Por que estiveram tão em contato com os vingadores de ofício de ações ilegais?
Almas generosas. Eu as admiro e lhes consagro minha recordação crendo que, ao chegar ao espaço minha primeira pergunta será: "Onde estão aqueles dois espíritos que disseram na Terra: Antes morrer do que matar'? Talves uma voz amiga me responda: "Vês aqueles dois sóis, cujos raios não podes fitar por sua refulgência deslumbrante? Pois é a nuvem fluídica que envolve esses dois espíritos, cuja luz ainda não podes contemplar sem cegar-te com seus vivos resplendores".
Amália D.Soler
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 18:22

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