Domingo, 29 de Agosto de 2010

SURPRESAS E PERPLEXIDADES DE UM MÉDICO

Que acontece a um médico de formação científica clássica quando "tropeça" - é esse mesmo o termo - na realidade da alma humana? Essa pergunta vai-se tornando cada dia mais constante, desde que a ciência médica restabeleceu seu perdido contacto com a hipnose. Por muitos anos, ficou esta a margem, como tabu científico, espécie de membro espúrio de uma extravagante família de fenômenos psíquicos.
Isso tudo - diziam os cientistas - é coisa de lunáticos e deve continuar nos porões do conhecimento humano, sem jamais voltar a ver a luz do Sol.
Acontece que a verdade sofre de incurável fototropismo tem uma ânsia incontrolável de luz e acaba por descobrir uma frincha por onde novamente emerge, para desespero da intransigente ciência acadêmica.
A hipnose é tão antiga quanto a feitiçaria primitiva, a magia, ou a própria Medicina. Acostumada aos dourados salões acadêmicos de hoje, a ciência moderna tem certa vergonha explicável, mas não justificável, de suas próprias origens, tão humildes e obscuras.
A chamada história científica da hipnose começou com Franz Mesmer (1734-1815), que a empregou no tratamento de seus clientes, pelo fim do século dezoito, rotulando o fenômeno de "magnetismo animal". Seja porque os resultados obtidos por Mesmer tenham sido algo extraordinários em muitos casos, seja porque ele próprio fosse um tipo algo estranho, amante dos grandes gestos e da publicidade, o certo é que o chamado "magnetismo animal" caiu em desgraça. Além do mais, cheirava a espiritualismo, numa época nitidamente racionalista, já a caminho desse materialismo que chegaria quase a dominar todo o pensamento, alguns anos adiante. Apenas uns poucos médicos - sem muito entusiasmo e despertando mais o desprezo de seus colegas que sua atenção - se arriscavam a estudar o fenômeno.
Por volta da metade do século 19, um médico Inglês. chamado James Braid, começou a estudar o assunto a sério, com a intenção de dar, a esse ramo do conhecimento humano, um "status" científico. Foi Braid quem criou os termos hipnose e hipnotismo. Depois de Braid, a coisa novamente escorregou para a obscuridade do porão. A ciência oficial continuava a não dar muita importância ao fenômeno. Ainda mais agravava esta atitude da Ciência, o fato de que a hipnose passara facilmente para as mãos dos charlatães e de certos "artistas" de palco e picadeiro. Além disso tudo, vinha a hipnose envolvida numa coisa muito séria que a Ciência sempre temeu e evitou: o Espírito.
Finalmente, um grande passo foi dado quando as associações médicas inglesas e americanas aprovaram formalmente o emprego da hipnose em Medicina e condenaram enfaticamente a manipulação do fenômeno pelos leigos. Isso foi na metade do decênio 1950 - 1960, coisa recentíssima, portanto. Logo em seguida, organizou-se a American Society of Clinical Hypnosis (Sociedade Americana de Hipnose Clínica). Com isso, a hipnose saía de uma vez do porão. Não se diga, porém, que a ciência oficial já sabe tudo a seu respeito; antes, pelo contrário, está apenas começando a engatinhar nesse terreno tão cheio de surpresas. Não obstante todos os riscos e dificuldades, o fato em si é auspicioso, porque, praticando a hipnose, mesmo exclusivamente para fins médicos, a Ciência já está começando, como se diz em linguagem popular, "a dar de cara" com a sólida realidade do Espírito.
E' que na prática da hipnose para fins clínicos ou terapêuticos, os médicos estão, a cada passo, tendo curiosas experiências. E' uma pena que tantos deles não tenham a necessária formação, digamos técnica, para lidar com esse problema de tão transcendental importância para o destino do homem.
Por isso, repito a pergunta: Que acontece quando o médico se encontra diante da realidade do Espírito humano? Tenho aqui, diante de mim, um livro muito interessante a respeito deste fascinante assunto.
E' uma obra recente (1959), intitulada "Explorations of a Hypnotist" (Explorações de um Hipnotizador), de autoria de um médico inglês chamado Dr. Jonathan Rodney. O Dr. Rodney, segundo esclarecem as notas da sobrecapa, é um médico de clínica geral, que teve seu interesse despertado para a alergia, no que se especializou. Como era de esperar-se, não poderia deixar de interessar-se igualmente pela Psicologia, já que tantos fenômenos alérgicos são, em essência, de origem psicossomática. Na esteira desses primeiros casos resolvidos pela hipnose, vieram outros e outros, até que o Dr. Rodney se viu profundamente envolvido no assunto.
Vejamos, pois, o que tem a dizer.
Ao que parece, o Dr. Rodney ainda guarda, no fundo de si, muitos dos antigos preconceitos da ortodoxia científica e de seus dogmas. Observe o leitor esta frase, no segundo parágrafo da introdução do seu livro: "Há muita gente, especialmente, no Oriente, que chega a considerar o corpo como simples invólucro para ao que chamam Espírito e ajustam suas vidas em torno desse conceito." O grifo é meu.
Veja o leitor como custam a morrer os preconceitos científicos. Este homem de ciência, esclarecido sob tantos pontos de vista e aspectos da medicina psicossomática - termo que emprega com frequência continua a achar curiosa a existência de gente que acredite no Espírito.
A introdução é curta e logo passa o autor ao livro propriamente dito, iniciando-o com uma breve história da hipnose. Não me parece necessário reproduzir suas palavras. E' interessante, porém, referir sua opinião de que Freud, com seus métodos de psicanálise, retardou em trinta anos o desenvolvimento da Ciência, o que não teria ocorrido se tivesse logo lançado mão dos processos hipnóticos. "Ainda hoje - diz ele mais adiante - muita gente acredita que o hipnotizador adquire completo controle da mente do hipnotizado. Nada poderia estar mais distanciado da verdade." Isso é perfeitamente correto. Temos assistido a inúmeras experiências, nas quais a pessoa em estado de hipnose profunda discute os mais variados assuntos com o hipnotizador, contestando-lhe a opinião, refutando-lhe os argumentos, demonstrando, enfim, com toda a nitidez possível, sua perfeita e completa independência e autonomia. Em estado de hipnose profunda, o Espírito é livre quanto mais o seja e dono de uma lucidez que nem mesmo no estado de vigília consegue alcançar, nos seus melhores momentos.
A seguir, o Dr. Rodney apresenta alguns dos casos que resolve habitualmente com o tratamento hipnótico: doenças da pele (psoríase, eczema), doenças do aparelho respiratório (asma, febre do feno), doenças do coração (taquicardia, hipertensão) e tantas outras, como a doença de Raynaud, males do aparelho digestivo, artrite, doenças dos olhos, nariz e ouvidos, etc. Quanto às doenças mentais, diz ele que, na sua experiência, as únicas que reagem a um tratamento hipnótico são a melancolia, a mania, a hipomania e a insanidade epiléptica. Pode, entretanto, curar com relativa facilidade o tabagismo, o alcoolismo, o vício das drogas (morfina, cocaína, etc.), além de muitas psico-neuroses, certos casos de homossexualismo (quando não de origem glandular), insônia, gagueira, o hábito de corar, de urinar na cama, roer as unhas e até mesmo a obesidade, quando causada pelo excesso de comida. No entanto, adverte, a hipnose não é uma panacéia infalível para todos os males. Aviso oportuno e sensato.
Sendo, porém, instrumento tão poderoso de trabalho médico, porque não encontra melhor acolhida nos meios científicos? "Porque - perguntam-lhe -os psiquiatras gastam tantos meses e até anos, ministrando cursos de psicanálise, se a hipnoterapia pode alcançar o mesmo resultado - ou até melhores - em poucas horas?"
Confessa o Dr. Rodney que a pergunta é difícil de responder. Acha, porém, que os especialistas se acostumaram a encarar a psicanálise como última palavra, no que diz respeito à mente humana. E mais: "para falar francamente, na minha opinião, a razão é dupla. Em primeiro lugar, muitos psiquiatras não sabem realmente como hipnotizar, e, em segundo lugar, ... bem, o tratamento psicanalítico é longo e, em sua maior parte, reservado aos clientes particulares e estes pagam consultas."
O autor, porém, não quer desacreditar a psicanálise. No seu entender, Freud, Jung e Adler ficarão na história da Ciência "como gigantes no desenvolvimento da Psicologia moderna, mas já é tempo de que seus conceitos básicos sejam atualizados".
Também está certo o Dr. Rodney quando proclama a ingenuidade do psicanalista, "que parece apreciar o emprego de termos como "id" "ego", "super ego", "censura" e "libido"... Só não concordo com o autor quando conclui dizendo que "a psiquiatria deve abandonar tudo quanto cheire a curandeirismo". Isso, em termos: há muita coisa aproveitável na bagagem cultural do curandeiro ou do feiticeiro primitivo. A despeito de toda a sua proclamada ignorância, o feiticeiro sempre soube, ao lidar com um caso de possessão, que tinha diante de si a figura de um Espírito estranho influenciando o ser encarnado, isto é, dois Espíritos disputando o mesmo corpo físico. Ao contrário, o psicanalista, quando lhe trazem ao consultório um caso de obsessão ou possessão, nem sonha admitir a existência de um Espírito estranho a interferir no mecanismo psicológico do possesso ou do obsidiado. Para ele, b quadro clínico fica todo enfeitado com o pomposo e obscuro jargão "científico" que nada explica nem esclarece. Pois se ele nem admite a existência do Espírito, como pretende curar as suas disfunções?
Em resumo, o Dr. Rodney acha que muitos psiquiatras e médicos hipnotistas de hoje julgam Freud superado. Os que seguem o sábio de Viena, fazem-no por certo comodismo e para se manterem na corrente da "moda", mesmo reconhecendo que a hipnose é um método bastante superior, "embora não tão compensador do ponto de vista financeiro
As páginas seguintes são dedicadas à descrição da natureza do hipnotismo e processos de indução hipnótica. O leitor certamente conhece trabalhos autorizados sobre o assunto.
E, então, entra o Dr. Rodney no cerne do seu tema ao tocar na equação hipnotismo e percepção extra-sensorial. Informa o autor que c% Dr. Donald West - "que nunca se deixa levar por suas emoções no curso de suas investigações - acha que pode mesmo existir algo no fenômeno da percepção extra-sensorial".
A gente custa a crer no que lê. Então vem um médico a público, declarando praticar a hipnose há mais de quinze anos, para discutir problemas do Espírito humano e tudo quanto nos tem a dizer, sobre percepção extra-sensorial - uma atividade genuinamente espiritual -, se resume em repetir a vaga opinião de outro médico que, por sua vez, julga possível a existência de "alguma coisa" na PÉS? E isso em 1959, quando as pesquisas do Dr. Rhine -que estuda o fenômeno desde 1932 - já demonstraram, como se diz em latim, "ad nauseiam", a existência da faculdade extra-sensorial no homem? Há mais, ainda. O Dr. Rodney admite, como vimos, que o Dr. West admita a existência da percepção extra-sensorial, mas logo abaixo adverte, muito enfático, que "o público não deve confundir (hipnotismo) de forma alguma, com o Espiritismo, que se limita a pessoas altamente impressionáveis e está freqüentemente em mãos de charlatões. Nenhum homem ou mulher inteligente pode crer que haja qualquer coisa no Espiritismo. Essa é a opinião do Dr. West depois de grandes experiências. Todo o adulto deve concordar com ele".
Logo, o Dr. Rodney não tem a mínima idéia acerca dos problemas que estuda. Como pode um homem com esse preparo psicológico e científico interferir no complexo e sensível mecanismo do Espírito humano, se a opinião que adota, a respeito de assunto tão grave quanto este, nem mesmo é sua, e sim obtida de segunda mão, de outro médico, que diz ter feito "grandes experiências"? Que experiências são essas? E porque os adultos inteligentes têm que concordar com o Dr. West e mais o Dr. Rodney? Já não quero invocar aqui as figuras geniais do Prof. William Crookes, ou do Prof. Aksakof ou de Sir Arthur Conan Doyle, mas poderia apontar ao Dr. Rodney milhares de homens e mulheres inteligentíssimos, sensatíssimos, com a cabeça muito firme no lugar, que não apenas acreditam no Espiritismo, mas que têm certeza absoluta da sua autenticidade.
Por isso tudo, por andarem mergulhados nessa espessa e lamentável ignorância a respeito da natureza humana, é que certos cientistas se perdem num dogmatismo estreito, ridículo, lamentável. O Dr. Rodney, que acusa Freud de ter retardado o desenvolvimento da Psiquiatria por trinta anos pelo menos, precisa de um bom exame de consciência.
Daí porque ficou tão atarantado, segundo confessa, candidamente, quando um de seus pacientes em transe de hipnose profunda, revelou a ele, Dr. Rodney, o que estava fazendo a Sra. Rodney, naquele exato momento, em outra cidade. Claro que o Dr. Rodney tinha de ficar surpreendido, pois, se não admite sequer a existência do Espírito, como é que vai compreender que, em estado de hipnose, o Espírito se desprende e alcança elevado estado de lucidez e liberdade?
Ao descrever as técnicas de indução hipnótica, o autor critica os passes longitudinais: "...eles parecem muito dramáticos nos filmes, mas na verdade são completamente inúteis". De minha parte, não os poria à margem tão ligeiramente. Tenho visto a indução de transe hipnótico sem passes, mas o Coronel Albert de Rochas, que experimentou largo tempo com a hipnose, os empregava com excelentes resultados.
Nos capítulos seguintes continua descrevendo a técnica empregada e as condições de diversos pacientes, informando que apenas dez per cento das pessoas não são hipnotizáveis. Das 90% hipnotizáveis, cerca de 50% ficam apenas num estado primário, 20, no estado cataléptico, e 20, em estado de hipnose profunda. Os 10 porcento insusceptíveis de serem hipnotizados, incluem crianças, pessoas muito idosas e lunáticos. As pessoas de elevado nível de inteligência são mais fáceis de hipnotizar.
Depois de discorrer amplamente sobre a sua técnica, o autor apresenta alguns casos de hipnoterapia, nos quais obteve apreciável êxito, curando certas moléstias. Com esses casos encerra a primeira parte do livro, mas é a segunda que realmente nos interessa, porque nesta ele narra suas experiências de regressão de memória.
O seu primeiro caso deu-se com uma senhora Baker, que ele desejava curar de uma curiosa incapacidade de engolir. A sessão descrita já é a segunda. Colocou a Sra. Baker em estado hipnótico e praticou a regressão de memória, fazendo-a recuar até aos vinte e quatro anos de idade e, depois, mais e mais, até um ano de idade e até dois meses. Aí quis aprofundar mais um pouco, fazendo-a descrever o tempo em que se encontrava ainda em estado de gestação, no útero materno. O dialogo até este ponto é longo e a Sra. Baker havia descrito todos os fatos mais importantes de sua infância e mocidade num inglês coloquial e ligeiro. Já havia até assumido a posição fetal enrolada sobre si mesma, entendendo aparentemente as palavras do médico, mas incapaz de a elas responder. De repente, voltou à sua posição normal no sofá. "Estava plácida e serena, diz o autor, mas respirava outra vez, muito pesadamente." E falou, em excelente francês:
- "La reine... La reine est morte."
O médico se confessa aturdido ("startled"). Olhou para a sua secretária, que de tudo tomava nota, como tinha sido combinado. E repetiu a pergunta, em inglês, à senhora hipnotizada:
- What did you say? (Que foi que a senhora disse?)
- "Morte... La reine est morte." - repetiu a jovem senhora.
E o doutor, de novo, em inglês:
- Did you say the Queen is dead? (A senhora disse que a rainha morreu?)
- "Ah, oui. La pauvre reine. La pauvre reine." Não posso, leitor, repetir todo esse curioso diálogo, mas ele continuou, em inglês dum lado e em francês de outro. A moça, em transe hipnótico, declarou sempre, em bom francês, chamar-se Marielle Pacasse. Era casada com um certo Jules, dono de uma quitanda, onde o ajudava a vender frutas.
Como em todos esses estados de regressão, o Espírito realmente parece reviver aquelas cenas e não apenas recordá-las. E reproduz de preferência os acontecimentos mais destacados e que mais fundo o impressionaram.
- A senhora não pode falar-me em inglês? -perguntou o médico.
E a paciente, uma senhora inglesa, cospe, em puro desprezo.
- Porque cospe?
- "Je n'aime paz les Anglais... Les cochons!" (Não gosto dos ingleses, esses porcos.)
- Como é que a senhora não gosta dos ingleses. A senhora não é inglesa?
- "Eu, inglesa? Eu? Sou francesa! Detesto esses porcos, esses cães..."
Ninguém está mais surpreso com tudo isso que o pobre doutor, que acaba de tropeçar, sem saber, na crua realidade da reencarnação. A Sra. Baker, cem per cento inglesa, apenas revive, com todo o realismo, as aflições e angústias da existência que viveu na França, ao tempo da Revolução, como Marielle Pacasse. Lamenta a morte trágica de Maria Antonieta.
- Quem é o seu rei? - pergunta o médico.
- "Louis, mais Louis est mort."
O rei também está morto. Quem manda agora é o triunvirato Marat, Danton e Robespierre. Todos vivos? Não, diz ela, Robespierre está vivo. Marat morreu.
A conversa ainda prossegue, até que o médico resolve despertar a paciente. Esta se lembrou de tudo até o ponto em que ele a mandou dormir mais profundamente. Depois disso, recorda-se vagamente de ter tido "um sonho", no qual se via em Paris, há muito tempo, mas não sabe de mais nada.
- A senhora reconhece o nome Marielle Pacasse?
- Não, doutor. Tinha eu de o recordar?
Já se preparando para sair, o médico lhe disse o seguinte:
- All right, Mrs. Baker. Et maintenant, ou allez-vous? (Muito bem Sra. Baker. E agora, onde vai a senhora?)
A pobre senhora olhou-o, estupefata. Que história era aquela de lhe falar numa língua estrangeira?
- Que foi que disse, doutor?
- Dites-moi? - continua o doutor - Quel es votre nom? (Diga-me, como se chama?)
Ela riu e respondeu:
- Porque o senhor está falando francês comigo?
- E' apenas um teste. A senhora fala francês
- Não. Bem que eu gostaria, mas nunca frequentei escola secundária e não se ensina francês no curso primário.
- A senhora já esteve na França?
- Não.
Assim ficou o Dr. Rodney com as suas surpresas e perplexidades. Na sessão seguinte, a Sra Baker novamente retornou à sua curiosa aventura francesa; confirmou chamar-se Marielle Pecasse, e tudo o mais, informando até mesmo a data da prisão de Robespierre e quem o prendeu. "Il est julliet et Tallien arrête lo grand Robespierre." - diz ela.
O Dr. Rodney estava cada vez mais surpreso pois que a despeito das inúmeras e hábeis armadilhas que colocava diante da Sra. Baker, ou melhor de Marielle Pacasse, ela respondia invariavelmente da mesma forma, conservando-se coerente com a História e a cronologia, sempre respondendo em perfeito francês, que ignorava totalmente, em estado de vigília.
Conclusão do Dr. Rodney: nenhuma, por enquanto. Narra outros casos. Como o do Sr. Barclay, por exemplo. Este senhor sonhava repetidamente que bebia sangue humano. Por duas vezes, chegou mesmo a atacar pessoas da família, mordendo-lhes o pescoço. Depois de curá-lo pela hipnose, o Dr. Rodney praticou-lhe a regressão de memória e o fez recuar a uma existência anterior. A linguagem do homem muda completamente. Fala um inglês antiquado e colorido, cheio de curiosas expressões idiomáticas desusadas. Seu nome não é mais Royston Barclay - chama-se James Ainsworth. E' taverneiro na estrada de St. John a Stanton. O lugarejo chama-se Oakley.
Mals uma vez se evidencia que o Espírito realmente recua para aqueles tempos e revive as cenas de então.
- Quem é o seu rei?
- Ué, Charles, senhor, é o monarca e é um cavalheiro muito jovial; pelo menos é o que dizem.
- Qual Charles?
- O que veio logo depois de seu pai, senhor. Ele era inda muito criança quando o primeiro Charles, de pé diante do palácio, em Whitehall, teve, a sua cabeça cortada.
(Isto se deu em 30 de Janeiro de 1649, com Charles I da Inglaterra. Seu filho, Charles II, viveu de 1630 a 1685.)
Vê-se que o homem tinha pouca instrução ao tempo em que viveu como James Ainsworth. Mas não apenas Isso. James utilizava o vocabulário da época, e o que ainda não era de seu conhecimento ele não compreendia.
Por exemplo: Pergunta-lhe o doutor quais as bebidas que tomava. Cerveja, quase sempre: Mas não há outras? Chá, café?
- Nunca ouvi falar dessas, senhor.
E depois:
- Você dorme num quarto? (Bedroom)
- No quê?
- "A bedroom"
O homem suspira profundamente, como se labutasse na cabeça com aquela estranha palavra "bedroom"; depois proclama:
- I sleep in a chamber, what else? (Durmo numa câmara, que mais?)
A palavra para quarto naquele tempo não era "bedroom" e sim "chamber". Da mesma forma ignora a palavra ointment (unguento), mas sabe perfeitamente o que quer dizer "unguent".
O Dr. Rodney quer saber depois que fazia ele entre a vida de James Ainsworth e a de Royston Barclay. "Nada, senhor. Nada de uma vez... Apenas pareço flutuar..."
- Onde o senhor flutua?
- Flutuar,.. flutuar... Não sei onde - algum lugar. Tudo é... calmo e quieto.
Depois de tudo isso, introduz o Dr. Rodney um capítulo sobre o que chama enfaticamente de alucinações. Exemplo: "Uma esposa, amargurada pela dor de ter perdido o marido, pode levantar a vista e vê-lo de pé à porta." A possibilidade de ser o próprio Espírito do marido ali presente, nem mesmo é examinada. E dizem que isto é ciência...
E' uma pena que, no caso de Barclay, ele não pesquisasse naquela vida de Ainsworth, ou mesmo anteriormente àquela, as causas dos sonhos vampirescos. Certamente as teria descoberto.
Num outro caso, Jane Fulton, a nova secretaria do Dr. Rodney, sempre descrevia, sob hipnose, uma existência prévia como Seth Blane. Quando o médico lhe dava sugestões sobre outras personalidades, ela as aceitava, mas, deixada livremente à sua associação de idéias, voltava a descrever a existência de Seth Blane, com todos os pormenores, sempre os mesmos.
Depois de apresentar esses casos e vários outros, era de esperar-se que o autor aventasse pelo menos uma teoria para explicá-los. Não. Em vez disso, escreve cerca de uma página de livro sob o título "The Challenge" (O desafio). Em três dos casos, ele procurou investigar os dados fornecidos pelos hipnotizados. De dois, não conseguiu praticamente nada de útil; o tempo decorrido já ia longe e os documentos da época eram insuficientes. Quanto a Marielle Pacasse, existência prévia da Sra. Baker, o Dr. Rodney obteve maior êxito. Escreveu a um jornalista francês, o Sr. Jean-Claude Rivière. Apurou-se o seguinte: que não existia mais a rua St. Pierre, onde Marielle dizia residir, mas, na realidade, a rua existira ao tempo da Revolução Francesa, exatamente como a jovem descrevera: na Ile de la Cité, perto da Notre Dame.
A pergunta final do doutor: "Será que existe mesmo a reencarnação, a eternidade do homem?" Sua resposta: "Não vou sequer tentar uma resposta. Comecei meu trabalho com cepticismo e ainda acho difícil reconciliar-me com a explicação que parece justificar a história da Sra. Baker. Não desejo reivindicar nada para mim, para o meu método, ou para a minha paciente. Passo adiante, simplesmente, o desafio que os fatos me oferecem."
Aí está a experiência do Dr. Jonathan Rodney, médico que, na sua prática de hipnose clínica, tateando na escuridão da ciência dogmática, com relação às questões espirituais, tropeçou no vulto imenso do Espírito humano. Ficou sem saber como explicar - a não ser pela reencarnação - os fatos que observou. E isso não consegue aceitar. E é esse mesmo homem que nos vem dizer que uma pessoa inteligente não deve admitir essa história de Espiritismo...
Enquanto isso, milhões de Espíritos, encarnados e desencarnados, se atormentam mutuamente em crises de obsessão e possessão, necessitando desesperadamente de assistência real por parte de gente qualificada. Essa ajuda, entretanto, somente poderá ser prestada por quem saiba da existência do Espírito, conheça algo do mecanismo da mediunidade e se certifique da verdade reencarnacionista.

JOÃO MARCUS
Fonte: Reformador - fevereiro, 1964
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 15:51

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