Domingo, 4 de Julho de 2010

O ESPÍRITA PERANTE AS RELIGIÕES

"O Espiritismo é a Religião em Espírito e Verdade, de que Jesus falou à Mulher Samaritana: "Dia virá em que os verdadeiros adoradores de Deus o adoração em espírito e verdade." Mas há espíritas que não compreendem isso e negam a religião espírita. É possível tirarmos do Espiritismo a fé em Deus e a lei da caridade?".

Todo o problema, que tanta celeuma tem levantado entre alguns irmãos intelectuais, se resume na falta de compreensão do que seja religião. Os irmãos anti-religiosos gastam tinta e papel em quantidade por quererem provar um absurdo. Alegam que Kardec se recusou a chamar o Espiritismo de religião. Mas o próprio Kardec explicou por que o evitou, - não se recusou, mas apenas evitou, - chamar o Espiritismo de religião: não queria confundir uma doutrina de luz e liberdade com as organizações dogmáticas e fanáticas do mundo religioso.

Nesse caso, dirão alguns irmãos: o Espiritismo é contra as religiões. Mas isso não é verdade. O próprio Kardec declarou, como podemos ver em "O que é o Espiritismo", que ele é o maior auxiliar das religiões. Acontece apenas que a religião espírita não se estrutura num sistema religioso. Hoje, depois dos grandes estudos filosóficos realizados sobre essa questão, dos fins do século passado até os nossos dias, todo homem de cultura compreende que religião não é igreja, mas sentimento. O grande filósofo Henri Bergson ensinou que há dois tipos de religião: a social, que é dogmática e estática, e a individual, que é livre e dinâmica. Assim também pensava Henrique Pestalozzi, para quem a religião verdadeira é a Moralidade. Vemos aí um dos motivos por que Kardec dizia que o Espiritismo tem conseqüências morais, em vez de referir-se a conseqüências religiosas. Hoje em dia, o Codificador não teria dúvida em falar de religião, porque o conceito atual de religião é muito mais amplo.

O Espiritismo tem três aspectos, como sabemos: o científico, no qual ele se apresenta como ciência de observação e investigação, tratando dos fenômenos espíritas; o filosófico, no qual procura interpretar os resultados da investigação científica e dar-nos uma visão nova do mundo; e o religioso, no qual nos ensina como aplicar, na vida prática, os princípios da filosofia espírita. Queremos, acaso, ficar apenas nos princípios, sem aplicálos?

Este livro de Miguel Vives é um manual de moral espírita, e, como vemos nas suas páginas, está inteiramente impregnado de religião. Mas, é claro, de religião em espírito e verdade, sem nenhuma sujeição e ritualismos antiquados ou reinventados, a sacerdotes ou sacramentos. O Espiritismo é a Religião da Moralidade, a que se referia Pestalozzi.

Um dos princípios fundamentais da moral espírita, como sabemos, é a tolerância. A religião espírita, portanto, ao contrário das religiões dogmáticas e sacerdotais, que são sempre agressivas, é sumamente tolerante. Por isso mesmo, o espírita não deve atacar, criticar, menosprezar as outras religiões. Pouco importa que elas façam o contrário, a respeito do Espiritismo. O que nos cabe é respeitar todas as formas de crença que nossos irmãos da Humanidade queiram adotar. Não ensinou Jesus que são muitos os caminhos que levam ao Pai? Como pode o espírita, que compreende o espírito desse ensinamento, atacar esta ou aquela religião?

Mas, se não pode atacar, sem não deve criticar (no mau sentido da palavra), também, não pode e não deve ficar com os pés em duas canoas, dizendo-se ao mesmo tempo espírita e adepto de outra religião. Pois se temos a religião em espírito e verdade, o que havemos de fazer com uma religião formalista e dogmática? Cabe aqui a pergunta do apóstolo Paulo aos Gálatas: Corríeis bem; quem vos impediu, para não obedecerdes a verdade? (V:7). E também o ensino evangélico de Jesus: Seja o teu falar: sim, sim; não, não. Todas elas auxiliam o espírito a evoluir. Mas, quando já temos o conhecimento do espírito, havemos de voltar à carne?

As religiões, são escolas, em que os espíritos aprendem a verdade espiritual.

Quem já passou pela escola primária e está na secundária pode frequentar ao mesmo tempo as duas? E quem já entrou no curso superior, há de voltar ao secundário? Se o Espiritismo nos ensina que o que vale é a intenção, como havemos de continuar na prática dos ritos? Se já aprendemos que Deus está no coração de cada um, como continuarmos a incensá-Lo no altar? Se sabemos que os sacramentos são fórmulas exteriores, simples símbolos destinados a ensinar verdades mais profundas, e se já atingimos essas verdades, havemos de regredir à prática das fórmulas?

O espírita sabe que todas as religiões tem por finalidade conduzir as criaturas humanas à compreensão da Espiritualidade. Não pode condená-las, mas também não pode sujeitar-se a elas. Deve aprová-las para aqueles irmãos que ainda carecem delas. Mas, de sua parte, tem a obrigação de mostrar e exemplificar a liberdade que já alcançou. E o dever de ser fiel à verdade que encontrou. Seria justo que um escritor voltasse a soletrar o bêa-bá? Ou que um escritor zombasse das crianças que soletram? Não foi soletrando que ele aprendeu a escrever? Assim é a posição do espírita diante das religiões. Cabe-lhe compreendê-las, mas sempre firme na sua posição de espírita.

Quem não é fiel no mínimo, também não o será no máximo, como nos ensina a parábola. O espírita que, para atender ao respeito humano, às convenções sociais ou até mesmo aos seus interesses particulares, torce o sentido da tolerância espírita para participar de rituais em que não mais acredita, nem pode acreditar, é infiel para consigo mesmo e para com a verdade espiritual que descobriu no Espiritismo. É infiel no mínimo, pois o que recebeu nesta vida é apenas o princípio do que deverá receber mais tarde. Não se mostrando digno desse mínimo, como poderá esperar o máximo? Lembremos ainda uma advertência de Paulo, que muito nos serve atualmente: Se alguém te vir, a ti que tens ciência, sentado à mesa no templo dos ídolos, não será a consciência do fraco induzida a comer das coisas sacrificadas aos ídolos? (I. Cor. VIII:10)

O espírita não tem apenas liberdade, mas também responsabilidade. Será responsável pelos seus exemplos perante os fracos. Ele está em condições de participar dos ídolos (ou seja: dos sacramentos e rituais das igrejas), sem se afetar pessoalmente. Mas não pode esquecer que afetará os outros. Se, pelo seu exemplo, abrir as portas do movimento espírita à infiltração de elementos formalistas, será responsável pela deformação da prática doutrinária. Essa é uma grave responsabilidade, contra a qual devemos estar sempre de atalaia. Deus nos livre de respondermos pela desfiguração da própria verdade que nos salvou do erro!

Em Conclusão:

O espírita deve respeitar todas as crenças sinceras, todas as religiões que levam a criatura ao Criador, não atacando nenhuma nem zombando das suas práticas; mas não tem o direito de, em nome da tolerância, tornar-se cúmplice de práticas religiosas ou de ensinos teológicos que podem levar seus irmãos de volta ao passado; todas as religiões são boas para aqueles que as aceitam e praticam com sinceridade, mas se o espírita não for sincero consigo mesmo, com a sua própria religião, quem pode acreditar nele?
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 00:01

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