Domingo, 8 de Março de 2009

DOS ANIMAIS


(DISSERTAÇÕES ESPONTÂNEAS FEITAS PELO ESPÍRITO DE CHARLET,EM VÁRIAS SESSÕES DA SOCIEDADE)

Há entre vós uma coisa que sempre vos excita a atenção e a curiosidade. Esse mistério, pois que o é e grande para vós, é a ligação, ou antes, a distância existente entre a vossa alma e a dos animais, mistério que, a despeito de toda a sua ciência, Buffon, o mais poético dos naturalistas, e Cuvier, o mais profundo, jamais puderam penetrar, assim como o escalpelo não vos detalha a anatomia do coração. Ora, sabeis, os animais vivem, e tudo o que vive pensa. Não se pode, pois, viver sem pensar.

Assim sendo, resta demonstrar-vos que quanto mais o homem avança, não conforme o tempo, mas conforme a perfeição, mais penetrará a ciência espiritual, o que se aplica não somente a vós, mas ainda os seres que estão abaixo de vós: os animais. Oh! Exclamarão alguns homens persuadidos de que o vocábulo homem significa todo o aperfeiçoamento, mas há um paralelo possível entre o homem e o bruto? Podeis chamar inteligência aquilo que não passa de instinto? Sentimento o que é apenas sensação? Numa palavra, podeis rebaixar a imagem de Deus? Responderemos: houve um tempo em que a metade do gênero humano era considerada do nível irracional, onde o animal não figurava; um tempo, agora o vosso, em que a metade do gênero humano e encarada como inferior e o animal como bruto. Então? Do ponto de vista espiritual a coisa é diferente. O que os Espíritos superiores diriam do homem terreno, os homens dizem dos animais.

Tudo é infinito na Natureza: o material como o espiritual. Ocupemo-nos, pois, um pouco, desses pobres brutos, falando espiritualmente, e vereis que o animal vive realmente, desde que pensa.

Isto serve de prefácio a um pequeno curso que darei a respeito. Alias, em vida, eu havia dito que a melhor companhia do homem era o cão.

Continua no próximo número.

CHARLET

O mundo é uma escada imensa, cuja elevação é infinita, mas cuja base repousa num horrível caos. Quero dizer que o mundo não é senão um progresso constante dos seres. Estais muito embaixo, sempre, mas haverá muito abaixo de vós. Porque, ouvi bem, não falo apenas de vosso planeta, mas de todos os mundos do universo. Não temais, porém, pois nos limitaremos na Terra.

Antes disso, entretanto, duas palavras sobre um mundo chamado Júpiter, do qual o engenhoso e imortal Palissay vos deu alguns esboços estranhos e tão sobrenaturais para a vossa imaginação. Lembrai-vos de que nesses encantadores desenhos ele vos representou alguns animais de Júpiter. Não há neles um progresso evidente e podeis negar-lhes um grau de superioridade sobre os animais terrestres? E ainda só vedes nisso um progresso de forma e não de inteligência, posto que a atividade de que se ocupam não possa ser executada pelos animais terrestres. Só vos cito este exemplo para vos indicar desde logo uma superioridade de seres que estão muito abaixo de vós. Que seria se vos enumerasse todos os mundos que conheço, isto é, cinco ou seis? Mas limitando-nos à Terra, vede a diferença que entre eles existe. Então! Se a forma é tão variada, tão progressiva, que mesmo na matéria há progresso, podeis deixar de admitir o progresso espiritual desses seres? Ora, sabei-o, se a matéria progride, mesmo a mais atrasada, com mais forte razão o espírito que o anima.

Continuarei da próxima vez.

CHARLET

Nos mundos adiantados, os animais são de tal modo superiores que a mais rigorosa ordem lhes é dada pela palavra, e entre vós, muitas vezes, a pauladas. Em Júpiter, por exemplo, basta uma palavra, e entre vós as chicotadas não bastam. Contudo, há um sensível progresso em vossa Terra, jamais explicado: é que o próprio animal se aperfeiçoa. Assim, outrora o animal era muito mais rebelde apo homem. Também há progresso de vossa parte, por terdes instintivamente compreendido esse aperfeiçoamento dos animais, pois que vos proibis de bater-lhes. Eu dizia que há progresso moral no animal. Há também progresso de condição. Assim, um pobre cavalo açoitado, ferido por um carroceiro mais brutal que ele, comparativamente estará numa condição muito mais tranqüila, mais feliz que a de seu carrasco. Não é de toda justiça, e devemos acaso admirar-nos de que um animal que sofre, que chora, que é reconhecido ou humilhado, conforme a suavidade ou a crueldade de seus donos, tenha a recompensa por haver pacientemente suportado uma vida cheia de torturas? Antes de tudo, Deus é justo: “Todo ser fraco que tiver sofrido será recompensado”. Sempre comparativamente ao homem, entendo, e ouso acrescentar, para concluir, que por vezes o animal tem mais alma, mais coração que o homem, em muitas circunstâncias.

CHARLET

Em vosso globo a superioridade do homem se manifesta por essa elevação da inteligência que o torna o rei da Terra. O lado do homem, o animal é muito fraco, muito inferior e, pobre escravo desta terra de provação, por vezes tem que suportar caprichos cruéis de seu tirano: o homem! A antiga metempsicose era uma lembrança muito confusa da reencarnação e, contudo, essa mesma doutrina não passa de crença popular. Os grandes Espíritos admitiam a reencarnação progressiva; não compreendendo como eles o Universo, a massa ignorante naturalmente dizia: Desde que o homem se reencarna, isto não pode ser senão na Terra; então sua punição, seu tártaro, sua provação é a vida no corpo de um animal; absolutamente como na Idade Média, os cristãos diziam: É no grande vale que se dará o julgamento, após o que os condenados irão para baixo da terra queimar-se em suas entranhas.

Acreditando na metempsicose, os antigos acreditavam portanto, em espíritos de animais, desde que admitiam a passagem da alma humana para corpos de animais. Pitágoras lembrava-se de sua antiga existência e reconhecia o escudo que usava no cerco de Tróia. Sócrates morre predizendo sua nova vida.

Desde que, como disse, tudo é progresso no universo, desde que as leis de Deus não são e não podem ser senão leis do progresso, do ponto de vista em que estais, do ponto de vista de vossas tendências espiritualistas, não admitir o progresso do que está abaixo do homem seria insensato e uma prova de ignorância ou de completa indiferença.

Como o homem, o animal tem aquilo a que chamais consciência, e que não é outra coisa senão a sensação da alma quando fez o bem ou o mal? Observai e vede se o animal não da prova de consciência, sempre, relativamente ao homem. Credes que o cão não saiba quando fez o bem ou o mal? Se não o sentisse, não viveria. Como já vos disse, a sensação moral, numa palavra, a consciência, existe nele como no homem, sem o que seria preciso negar-lhe o sentimento de gratidão, o sofrimento, os pesares, enfim todos os caracteres de uma inteligência, caracteres que todo homem sério pode observar em todos os animais, conforme seus diversos graus, porque, mesmo entre eles, há diversidades singulares.

CHARLET

Rei da Terra pela inteligência, o homem é também um ser superior do ponto de vista material. Suas formas são harmoniosas e, para se fazer obedecer, seu Espírito tem um organismo admirável: o corpo. A cabeça do homem é alta e olha o céu, diz o Gênesis; o animal olha a terra e, pela estrutura de seu corpo, a ela parece mais ligado que o homem. Além disso, a harmonia magnífica do corpo humano não existe no animal. Vede a infinita variedade que os distingue uns dos outros e que, entretanto, não corresponde ao seu Espírito, porque os animais – e entendo sua imensa maioria – tem, quase todos, o mesmo grau de inteligência. Assim, no animal variedade de forma; ao contrário, no homem, variedade de Espírito. Tomai dois homens que tenham os mesmos gostos, aptidões, inteligência; tomai um cão, um cavalo, um gato, numa palavra, mil animais e dificilmente notareis diferenças em sua inteligência. Assim, o Espírito dorme no animal; no homem brilha em todos os sentidos; seu Espírito adivinha Deus e compreende a razão de ser da perfeição.

Assim, pois, no homem, a harmonia simples da forma, começo do infinito no Espírito; e vede agora a superioridade do homem que domina o animal, materialmente por sua estrutura admirável e intelectualmente por suas imensas faculdades. Parece que, nos animais, aprouve a Deus variar mais a forma, encerrando o Espírito; ao contrário, no homem, fazer do próprio corpo humano a manifestação material do Espírito.

Igualmente admirável nessas duas criações, a Providência tanto é infinita no mundo material quanto no espiritual. O homem está para o animal como a flor e todo o reino vegetal estão para a matéria bruta.

Nestas poucas linhas quis eu estabelecer o lugar que deve ocupar o animal na escala da perfeição. Veremos como pode elevar-se comparativamente ao homem.

CHARLET

Como se eleva o Espírito? Pela submissão, pela humildade. O que perde o homem é a razão orgulhosa, que o impele a desprezar todo subalterno e invejar todo superior. A inveja é a mais viva expressão do orgulho; não é o prazer do orgulho, é o desejo doentio, incessante, de poder goza-lo. Os invejosos são os mais orgulhosos, quando se tornam poderosos. Olhai o mestre de todos vós, o Cristo, o homem por excelência, mas na mais alta fase da sublimidade. O cristo, digo eu, em vez de vir com audácia e insolência para derrubar o mundo antigo, vem a Terra encarnar-se numa família pobre e nasce entre os animais. Porque encontrareis por toda parte esses pobres animais, a todos os instantes, onde o homem vive simplesmente com a natureza, numa palavra, pensando em Deus. Nasce entre os animais e estes lhe exaltam o poder na sua linguagem tão expressiva, tão natural e tão simples. Vede que tema para reflexão! O Espírito em toda a sua essência de perfeição. Balaão, o falso profeta, o orgulho humano em toda a sua corrupção, blasfemou contra Deus e bateu no seu animal. De súbito, o Espírito ilumina o Espírito ainda muito vago no jumento e este fala. Por um instante torna-se igual ao homem e, por sua palavra, é o que será nalguns milhares de séculos. Poderíamos citar muitos outros fatos, mas este me parece bem notável, a propósito do que eu dizia sobre o orgulho do homem, que nega até a sua alma, por não poder compreende-la, e vai até a negação do sentimento entre os seres inferiores, entre os quais o Cristo preferiu nascer.

CHARLET

Eu vos entretive durante algum tempo com o que vos havia prometido. Como disse de começo, não falei do ponto de vista anatômico ou médico, mas apenas da essência espiritual que existe nos animais. Terei ainda que falar sobre outros vários pontos que, sendo bem diferente, não são menos úteis à doutrina. Permiti-me uma última recomendação, a de refletirdes um pouco sobre quanto eu disse: nem é extenso, nem pedante e, crede-me, nem por isso é menos útil. Um dia, quando o Bom Pastor dividir suas ovelhas, que vos possa contar entre os bons e excelentes animais que tiverem seguido melhor os seus preceitos. Perdoai esta imagem pouco viva. Ainda uma vez, precisais refletir no que vos digo. Alias, continuarei a vos falar enquanto quiserdes. Terei que vos dizer outra coisa da próxima vez, para definir meu pensamento sobre a inteligência dos animais.
Todo vosso,

CHARLET

Tudo quanto vos posso dizer no momento, amigos, é que vejo com prazer a linha de conduta que seguis. Que a caridade, esta virtude das almas verdadeiramente francas e nobres, seja sem pré o vosso guia, pois é o sinal da verdadeira superioridade. Perseverai neste caminho que necessariamente vos deve conduzir, a todos, a despeito dos esforços cuja força não suspeitais, à verdade e à unidade.

A modéstia também é um dom muito difícil de adquirir; não é, senhores? É uma virtude bastante rara entre os homens. Pensai que para progredir na via do bem e do progresso, só tendes que usar a modéstia. Sem Deus, sem seus divinos preceitos, que sereis? Um pouco menos que esses pobres animais dos quais vos falei, e sobre os quais tenho ainda a intenção de vos entreter. Cingi os rins e preparei-vos para lutar de novo, mas não fraquejeis. Pensai que não é contra Deus que lutais, como Jacó, mas contra o Espírito do mal, que invade tudo e a vós próprios, a cada instante.

O que vos tenho a dizer seria muito longo para esta noite. Tenho a intenção de vos explicar a queda moral dos animais, após a queda moral do homem. Para concluir o que vos disse e o primeiro animal tornado feroz.

Desconfiai dos maus Espíritos. Não suspeitais de sua força, disse-vos há pouco. E embora esta última frase não se relacione com a precedente, não é menos verdadeira e muito a propósito. Agora, refleti.

CHARLET

Quando foi criado o primeiro homem, era tudo harmonia na Natureza. A Onipotência do Criador tinha posto em cada ser uma palavra de bondade, de generosidade e de amor. O homem era radioso; os animais desejavam seu olhar celeste e suas carícias eram as mesmas para eles e para a sua celeste companheira. A vegetação era luxuriante; o sol dourava e iluminava toda a Natureza, como o sol misterioso da alma, centelha de Deus, iluminava interiormente a inteligência do homem. Numa palavra, todos os reinos da Natureza apresentavam essa calma infinita, que parecia compreender Deus; tudo parecia ter bastante inteligência para exaltar a Onipotência do Criador. O céu sem nuvens era como o coração do homem, e a água límpida e azul tinha reflexos infinitos, como a alma do homem tinha os reflexos de Deus.

Muito tempo depois tudo pareceu mudar subitamente. A Natureza oprimida soltou um longo suspiro e, pela primeira vez, a voz de Deus se fez ouvir. Terrível dia de desgraça, em que o homem, que até então não tinha ouvido senão a grande voz de Deus, que lhe dizia em tudo: “Tu és imortal”, ficou apavorado com essas coisas terríveis palavras: “Caim, por que mataste teu irmão?” Logo, tudo mudou: o sangue de Abel espalhou-se por toda a Terra; as árvores mudaram de cor; a vegetação, tão rica e colorida, murchou; o céu tornou-se escuro.

Por que o animal se tornava feroz? Magnetismo todo poderoso, invencível, que então tomou as criaturas, a sede de sangue, o desejo de carnagem brilhavam em seus olhos, outrora tão suaves, e o animal tornou-se feroz como o homem. Pois o homem, que tinha sido e rei da Terra, não havia dado o exemplo? O animal seguiu o seu exemplo e desde então a morte planou sobre a terra, morte que se tornou odiosa, em vez de uma transformação suave e espiritual. O corpo do homem deveria dispersar-se no ar, como o corpo do Cristo, e dispersou-se na terra, nessa terra regada pelo sangue de Abel. E o homem trabalhou, e o animal trabalhou.

CHARLET


* * * * *
EXAME CRÍTICO

DAS DISSERTAÇÕES DE CHARLET SOBRE ANIMAIS

1. Dizeis: Tudo o que vive, pensa. Então não se pode viver sem pensar. A proposição nos parece algo absoluta, pois a planta vive e não pensa. Admitis isto como um princípio?
R – Sem dúvida. Só falo da vida animal e não da vida vegetal. Deveis compreende-lo.

2. Mais adiante dizeis: Vereis que o animal vive realmente, desde que pensa. Não há inversão na frase? Parece que a proposição é: Vereis que o animal pensa, realmente, desde que vive.
R – Isto é evidente.

SOBRE O II

3. Lembrais o desenho feito dos animais de Júpiter. Nota-se que tem uma notável analogia com os sátiros da fábula. Essa idéia dos sátiros seria uma intuição da existência desses seres em outros mundos e, neste caso, não seria mera criação fantástica?
R – Quanto mais o novo mundo, mais ele se lembrava. O homem tinha a intuição de uma ordem de seres intermediários, ora mais atrasados que ele, ora mais adiantados. Era o que ele chamava os deuses.

4. Então admitis que as divindades mitológicas não eram senão o que chamamos Espíritos?
R – Sim.

5. Foi-nos dito que em Júpiter é possível o entendimento pela simples transmissão do pensamento. Quando os habitantes desse planeta se dirigem aos animais, que são seus servidores e operários, recorrem a uma linguagem articulada particular? Para os animais teriam uma linguagem articulada e, entre si, a do pensamento?
R – Não, não há linguagem articulada, mas uma espécie de magnetismo poderoso que faz curvar o animal e o leva a executar os menores desejos e as ordens de seus senhores. O Espírito todo poderoso não pode curvar-se.

6. Evidentemente, entre nós os animais tem uma linguagem, pois se compreendem, mas é muito limitada. Os de Júpiter tem uma linguagem mais precisa e positiva que os nossos? Numa palavra, uma linguagem articulada?
R – Sim.

7. Os habitantes de Júpiter compreendem melhor que nós a linguagem dos animais?
R – Vêem através deles os compreendem perfeitamente.

8. Examinando a série dos seres vivos, encontra-se uma cadeia ininterrupta, desde a madrépora, a própria planta, até o animal mais inteligente. Mas entre o animal mais inteligente e o homem há uma evidente lacuna, que em algum lugar deve ser preenchida, porque a Natureza não deixa elos vazios. De onde vem essa lacuna?
R – Essa lacuna dos seres é apenas aparente; não existe na realidade: vem das raças desaparecidas (São Luiz).

9. Tal lacuna pode existir na Terra, mas certamente não existe no conjunto do Universo e deve ser preenchida em alguma parte. Não o seria por certos animais de mundos superiores que, como os de Júpiter, por exemplo, parecem aproximar-se muito do homem terreno pela forma, a linguagem e outros sinais?
R – Nas esferas superiores o germe surgido da Terra desenvolveu-se e jamais se perde. Tornando-vos Espíritos, reencontrareis todos os seres criados e desaparecidos nos cataclismos do vosso globo (São Luís).

SOBRE O III

10. Dizeis que tudo se aperfeiçoa e, como prova do progresso do animal, dizeis que outrora ele era mais rebelde ao homem. É evidente que o animal se aperfeiçoa; mas, pelo menos na Terra, não se aperfeiçoa pelos cuidados do homem. Abandonado a si mesmo, retorna sua natureza selvagem, mesmo o cão.
R – E o homem se aperfeiçoa pelos cuidados de quem? Não é pelos de Deus? Tudo é escalado na Natureza.

11. Falais das recompensas para os animais que sofrem maus tratos e dizeis que é justiça que haja compensação para eles. Assim, parece que admitis no animal a consciência do eu após a morte, com a recordação do passado. Isto é contrário ao que nos foi dito. Se as coisas se passarem como dizeis, resultaria que no mundo dos Espíritos haveria Espíritos de ostras. Podeis dizer se vedes em torno de vós Espíritos de cães, de gatos, de cavalos ou elefantes, como vedes Espíritos humanos?
R –A alma do animal – tendes toda razão – não se reconhece após a morte: é um conjunto confuso de germes, que podem passar para o corpo de tal ou qual animal, conforme o desenvolvimento adquirido. Não é individualizada. Contudo, direi que em certos animais, mesmos em muitos, é individualizada.

12. Aliás, de modo algum esta teoria justifica os maus tratos dos animais. O homem é sempre culpado por fazer sofrer qualquer ser sensível, e a doutrina nos diz que por isso ele será punido. Mas daí a por o animal numa condição superior a ele, há uma grande distância. Que pensais disto?
R – Sim; mas, no entanto sempre estabeleceis uma escala entre os animais; pensais que há distância entre certas raças. O homem é tanto mais culpado quanto mais poderoso.

13. Como explicais que mesmo no mais selvagem estágio o homem se faça obedecer pelo mais inteligente animal?
R – É sobretudo a Natureza que age no caso. O homem selvagem é o homem da Natureza; conhece o animal familiarmente; o homem civilizado estuda o animal, e este se curva ante ele. O homem é sempre o homem em frente ao animal, quer seja selvagem, quer civilizado.

SOBRE O V

14. (A Charlet). Nada temos a dizer sobre este parágrafo, que nos parece muito racional. Tendes algo a acrescentar?
R – Apenas isto: os animais tem todas as faculdades que indiquei, mas neles o progresso se realiza pela educação que recebem do homem e não por si mesmos. Abandonado no estado selvagem, o animal retoma o tipo que tinha ao sair das mãos do Criador. Submetido ao homem, aperfeiçoa-se. Eis tudo.
15. Isto é perfeitamente certo para os indivíduos e as espécies. Mas se considerarmos o conjunto da escala dos seres, há uma evidente marcha ascendente, que não para nos animais da Terra, desde que os de Júpiter são física e intelectualmente superiores aos nossos.
R – Cada raça é perfeita em si mesma e não emigra para raças estranhas. Em Júpiter são os mesmos tipos, formando raças distintas, mas não são os Espíritos dos animais mortos.
16. Então em que se torna o princípio inteligente dos animais mortos?
R – Volta à massa em que cada novo animal toma a porção de inteligência que lhe é necessária. Ora, é precisamente isto que distingue o homem do animal. Naquele o Espírito é individualizado, e progride por si mesmo e é isso que lhe dá superioridade sobre todos os animais. Eis por que o homem, mesmo selvagem, como fizestes notar, se faz obedecer, mesmo pelos mais inteligentes animais.

SOBRE O VI

17. Dais a história de Balaão como fato positivo. Seriamente, que pensais disto?
R – É uma pura alegoria, ou antes, uma ficção, para castigar o orgulho. Fizeram falar o burro de Balaão. Como La Fontaine fez falar muitos outros animais.

SOBRE O XI

18. Nessa passagem Charlet parece ter sido arrastado pela imaginação, pois o quadro que faz da degradação moral do animal é mais fantástico do que científico. Com efeito, o animal é feroz por necessidade, e foi para satisfazer a essa necessidade que a Natureza lhe deu uma organização especial. Se uns devem nutrir-se de carne, é por uma razão providencial e porque era útil à harmonia geral que certos elementos orgânicos fossem absorvidos. O animal é, pois, feroz por constituição e não se conceberia que a queda moral do homem tivesse desenvolvido os dentes caninos do tigre e encurtado os seus intestinos, porque então haveria razão para que o mesmo não tivesse acontecido ao carneiro. Antes dizemos que, na Terra, sendo o homem mais adiantado, encontra-se com seres inferiores em todos os sentidos, cujo contato lhe é causa da inquietação, de sofrimentos e, consequentemente, uma fonte de provas que lhe auxiliam o progresso futuro.

Que pensa Charlet destas reflexões?
R – Apenas as posso aprovar. Eu era um pintor e não um literato ou um cientista. Por isso, de vez em quando me deixo arrastar pelo prazer, novo para mim, de escrever belas frases, mesmo com sacrifício da verdade. Ma o que dizeis é muito justo e inspirado. No quadro que tracei, bordei certas idéias recebidas, para não chocar nenhuma convicção. A verdade é que as primeiras épocas eram a idade do ferro, muito afastadas das pretensas suavidades. Descobrindo diariamente tesouros acumulados pela bondade de Deus, tanto no espaço quanto na Terra, a civilização levou o homem à conquista da verdadeira terra prometida, que Deus concederá à inteligência e ao trabalho, e que não entregou enfeitada nas mãos dos homens-crianças, que a deviam descobrir pela própria inteligência. Aliás, este erro que cometi não poderia ser prejudicial aos olhos da gente esclarecida, que o notaria facilmente. Para os ignorantes passaria inapercebido. Contudo, concordo que errei. Agi levianamente, e isto vos prova até que ponto devereis controlar as comunicações que recebeis.
OBSERVAÇÃO GERAL

Um ensinamento importante do ponto de vista da ciência espírita, ressalta destas comunicações. A primeira coisa que se destaca, ao lê-las, é uma mistura de idéias justas, profundas e com o cunho do observador, ao lado de outras, evidentemente falsas e fundadas mais na imaginação do que na realidade. Sem sombra de dúvida, Charlet era um homem acima do vulgar; mas, como Espírito, não é mais universal do que o era em vida e pode equivocar-se porque, não sendo acima bastante elevado, só encara as coisas de seu ponto de vista. Aliás, só os Espíritos chegados ao último grau de perfeição estão isentos de erros. Os outros, por melhores que sejam, nem tudo sabem e podem enganar-se; mas, quando verdadeiramente bons, o fazem de boa fé e concordam francamente, ao passo que os outros o fazem coincidentemente e se obstinam nas mais absurdas idéias. Por isso devemos guardar-nos contra o que vem do mundo invisível, sem se ter submetido ao controle da lógica. Os bons Espíritos o recomendam incessantemente e jamais se ofendem com a crítica porque, de duas uma: ou estão seguros do que dizem e, então, nada temem, ou não estão e, se tem consciência de sua insuficiência, eles mesmos buscam a verdade. Ora, se os homens podem instruir-se com os Espíritos, alguns deste podem instruir-se com os homens. Ao contrário, os outros querem dominar, esperando fazer aceitar as suas utopias por causa da sua condição de Espíritos. Então, seja presunção de sua parte ou má intenção, não suportam a contradita: querem ser acreditados sob palavra, porque sabem que vão perder no exame. Ofendem-se à menor dúvida sobre sua infantilidade e soberbamente ameaçam vos abandonar, como indignos de os ouvir. Assim, só gostam dos que se ajoelham ante eles. Não há homens assim? E é de admirar que os encontremos com seus caprichos no mundo dos Espíritos? Nos homens, uma tal característica é sempre, aos olhos de gente sensata, um indício de orgulho, de vã suficiência, de tola vaidade e, portanto, de pequenez nas idéias e de falso julgamento. O que seria um sinal de inferioridade moral nos homens, não poderia ser indício de superioridade nos Espíritos.

Como acabamos de ver, Charlet de boa vontade se presta à controvérsia; escuta e admite as objeções e responde com benevolência; desenvolve o que era obscuro e reconhece lealmente o que não era exato. Numa palavra, não quer passar por mais sábio do que é, e nisto prova mais elevação do que se obstinasse nas idéias falsas, a exemplo de certos Espíritos que se escandalizam ao simples enunciado de que suas comunicações parecem susceptíveis de comentários.
O que é ainda próprio desses Espíritos orgulhosos é a espécie de fascinação que exercem sobre seus médiuns, através da qual por vezes os fazem compartilhar dos mesmos sentimentos. Dizemos de propósito seus médiuns, porque deles se apoderam e neles querem ter instrumentos que agem de olhos fechados. De modo algum se acomodariam a um médium perscrutador ou que visse bem claro. Não se dá o mesmo entre os homens? Quando o encontram, temendo que lhes escape, inspiram-lhe o afastamento de quem quer que o possa esclarecer. Isolam-no de certo modo, a fim de estarem em liberdade, ou não o aproximam senão daqueles de quem nada tem a temer. E, para melhor lhes captar a confiança, fazem-se de bons apóstolos, usurpando os nomes de Espíritos venerados, cuja linguagem procuram imitar. Mas, por mais que façam, jamais a ignorância poderá contrafazer o verdadeiro saber, nem uma natureza perversa a verdadeira virtude. O orgulho brotará sempre sob o manto de uma falsa humildade; e porque temem ser desmascarados, evitam a discussão e afastam seus médiuns.

Não há ninguém que, julgando friamente e sem prevenção, não reconheça como má uma tal influência, porque ressalta ao mais vulgar bom-senso que um Espírito realmente bom e esclarecido jamais procura exercê-la. Pode, pois dizer-se que todo médium que a ela se submete se acha sob o império de uma obsessão, da qual deve quanto antes procurar livrar-se. O que se quer, antes de tudo, não são comunicações a todo custo, mas comunicações boas e verdadeiras. Ora, para ter boas comunicações são necessários bons Espíritos; e para ter bons Espíritos é preciso ter bons médiuns, livres de qualquer influência má. A natureza dos Espíritos que habitualmente assistem um médium é, pois, uma das primeiras coisas a considerar. Para a conhecer exatamente há um critério infalível e não é nos sinais materiais, nem nas fórmulas de evocação ou de conjuração que será encontrada. Esse critério está nos sentimentos que o Espírito inspira ao médium. Pela maneira deste último agir, pode julgar-se a natureza dos Espíritos que o dirigem e, consequentemente, o grau de confiança que merecem suas comunicações.

Isto não é uma opinião pessoal, um sistema, mas um princípio deduzido da mais rigorosa lógica, se admitirmos esta premissa: um mau pensamento não pode ser sugerido por um bom Espírito. Enquanto não se provar que um bom Espírito pode inspirar o mal, diremos que todo ato que se afaste da benevolência da caridade e da humildade, e no qual se note o ódio, a inveja, o ciúme, o orgulho ferido ou a simples acrimônia, não pode ser inspirado senão por um mau Espírito, ainda quando este hipocritamente pregasse as mais belas máximas, porque, se fosse realmente bom, prová-lo-ia pondo seus atos em harmonia com suas palavras. A prática do Espiritismo é cercada de tantas dificuldades; os Espíritos enganadores são tão astuciosos, tão sabidos e, ao mesmo tempo tão numerosos, que não seria demais armar-se do máximo de precauções para os desalojar. Importa, pois, rebuscar com o maior cuidado todos os indícios pelos quais eles se podem trair. Ora, esses indícios estão, ao mesmo tempo, em sua linguagem e nos atos que provocam.

Tendo submetido estas reflexões ao Espírito de Charlet, eis o que disse a respeito: “Não posso senão aprovar o que acabais de dizer e aconselhar a todos quantos se ocupam do Espiritismo a seguir tão sábios conselhos, evidentemente ditados por bons Espíritos, mas que não são absolutamente – bem podeis crê-lo – do gosto dos maus, pois estes sabem muito bem que é esse o meio mais eficaz de combater a sua influência. Assim, fazem tudo quanto podem para desviar disso aqueles que querem prender em suas redes”.

Charlet disse que foi arrastado pelo prazer, para ele novo, de escrever belas frases, mesmo com sacrifício da verdade. Que teria acontecido se tivéssemos publicado seu trabalho sem comentários? Teriam acusado o Espiritismo por aceitar idéias ridículas, e a nós mesmos por não sabermos distinguir entre o verdadeiro e o falso. Muitos Espíritos estão no mesmo caso: acham uma satisfação para o amor-próprio em espalhar, através dos médiuns, já que não o podem diretamente, essas peças literárias, científicas, filosóficas ou dogmáticas de grande fôlego. Mas quando tem apenas um falso saber, escrevem coisas absurdas, assim como o fariam os homens. É sobretudo nessas obras continuadas que podemos julgá-los, porque sua ignorância os torna incapazes de representar o papel por muito tempo e eles próprios revelam sua insuficiência, a cada passo, ferindo a lógica e a razão. Através de uma porção de idéias falsas, há, por vezes, algumas boas, com que contam para iludir. Tal incoerência apenas demonstra sua incapacidade: são os pedreiros que sabem alinhar as pedras da construção, mas incapazes de construir um palácio. É, por vezes, curioso ver o dédalo inextricável de combinações e de raciocínios em que se metem, e dos quais não saem senão à força de sofismas e de utopias. Vimos alguns que, a custa de expedientes, deixaram o seu trabalho. Outros, porém, não se dão por vencidos e querem agir até o fim, rindo-se ainda à custa dos que levam a sério.

Estas reflexões nos são como um princípio geral, e seria erro ver nelas uma aplicação qualquer. Entre os numerosos escritos publicados sobre o Espiritismo, sem dúvida alguns poderiam dar lugar a uma crítica fundada; mas não os pomos a todos na mesma linha; indicamos um meio de os apreciar e cada um fará como entender. Se ainda não empreendemos fazer-lhes um exame em nossa Revista é pelo receio de que se equivoquem quanto ao móvel da crítica que poderíamos fazer. Assim, preferimos esperar que o Espiritismo seja melhor conhecido e, sobretudo, melhor compreendido. Então nossa opinião, apoiada em base geralmente admitida, não poderá ser suspeitada de parcialidade. O que esperamos acontece diariamente, pois vemos que em muitas circunstâncias o julgamento da opinião toma a dianteira da nossa. Assim, nos aplaudimos por nossa reserva. Empreendermos este exame, quando julgarmos oportuno o momento. Mas já se pode ver qual será a base de nossa apreciação: está não tempo a tola pretensão de lher ter o privilégio. Com efeito, a lógica é o grande critério de toda comunicação espírita, como o é de todos os trabalhos humanos. Sabemos bem o que aquele que raciocina erradamente julga ser lógico. Ele o é à sua maneira, mas só para si e não para os outros. Quando uma lógica é rigorosa como dois são quatro, e as conseqüências são deduzidas de axiomas evidentes, o bom-senso geral, mais cedo ou mais tarde faz justiça a todos esses sofismas. Cremos que as proposições seguintes tem este caráter:

1. - Os bons Espíritos não podem ensinar e inspirar senão o bem; assim, tudo o que não é rigorosamente bem não pode vir de um bom Espírito;

2. - Os Espíritos esclarecidos e verdadeiramente superiores não podem ensinar coisas absurdas; assim, toda comunicação manchada de erros manifestos ou contrários aos dados mais vulgares da ciência e da observação, só por isso atesta a inferioridade de sua origem;

3. - A superioridade de um escrito qualquer está na justeza e na profundidade das idéias e não nos enfeites e na redundância do estilo; assim, toda comunicação espírita em que há mais palavras e frases brilhantes do que pensamentos sólidos, não pode vir de um Espírito realmente superior;

4. - A ignorância não pode contrafazer o verdadeiro saber, nem o mal contrafazer o bem de maneira absoluta; assim, todo Espírito que, sob um nome venerado, diz coisas incompatíveis com o título que se dá, é responsável por fraude;

5. - É da essência de um Espírito elevado ligar-se mais ao pensamento do que à forma e à maneira, de onde se segue que a elevação do Espírito está na razão da elevação das idéias; assim, todo Espírito meticuloso nos detalhes da forma, que prescreve puerilidades, numa palavra, que liga importância aos sinais e às coisas materiais, acusa, por isso mesmo, uma pequenez de idéias, e não pode ser verdadeiramente superior;

6.- Um Espírito realmente superior não pode contradizer-se; assim, se duas comunicações contraditórias forem dadas sob um mesmo nome respeitável, uma delas necessariamente é apócrifa, e se uma for verdadeira, será aquela que em nada desmente a superioridade do Espírito cujo nome a encima.

A conseqüência a tirar destes princípios é que, fora das questões morais, só deve acolher com reservas o que vem dos Espíritos, e que, em todo caso, jamais devem ser aceitas sem exame. Daí decorre a necessidade de ter a maior circunspecção na publicação dos escritos emanados dessa fonte, sobretudo quando, pela estranheza da doutrinas que contem, ou pela incoerência das idéias, podem prestar-se ao ridículo. É preciso desconfiar da inclinação de certos Espíritos para as idéias sistemáticas e do amor-próprio que buscam espalhar. Assim, é sobretudo nas teorias científicas que precisa haver extrema prudência e guardar-se de dar precipitadamente como verdades alguns sistemas por vezes mais sedutores do que reais e que, mais cedo ou mais tarde, podem receber um desmentido oficial. Que sejam apresentados como probabilidades, se forem lógicos, e como podendo servir de base a observações ulteriores, vá; mas seria imprudência tomá-los prematuramente como artigos de fé. Diz um provérbio: “Nada mais perigoso que um amigo imprudente.” Ora, é o caso dos que, no Espiritismo, se deixam levar por um zelo mais ardente que refletido.
REVISTA ESPÍRITA
JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS
PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE ALLAN KARDEC
ANO 3 - JULHO 1860 - Nº. 7
-


PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 19:41

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Sexta-feira, 6 de Março de 2009

TEORIA DOS SONHOS

É verdadeiramente estranho que um fenômeno tão vulgar quanto o dos sonhos tenha sido objeto de tanta indiferença da parte da ciência, e que ainda se esteja a perguntar a causa dessas visões. Dizer que são produtos da imaginação não é resolver a questão; é uma dessas palavras com a auxilio da qual querem explicar o que não compreendem e que nada explicam. Em todo o caso, a imaginação é um produto do entendimento. Ora, como não se pode admitir entendimento nem imaginação na matéria bruta, é necessário crer que a alma nisto entre para alguma coisa. Se os sonhos ainda são um mistério para a ciência, é que ela se obstinou em fechar os olhos para a causa espiritual.
Procura-se a alma nas dobras do cérebro, enquanto ela se ergue a cada instante à nossa frente, livre e independente, numa porção de fenômenos inexplicáveis só pelas leis da matéria, notadamente nos sonhos, no sonambulismo natural e artificial e na dupla vista à distância. Não nos fenômenos raros, excepcionais, sutis, que exigem pacientes pesquisas do sábio e do filósofo, mas nos mais vulgares. Lá está ela, que parece dizer: Olhai e ver-me-eis; estou aos vossos olhos e não me vedes; vistes-me muitas e muitas vezes; vedes-me todos os dias; os próprios meninos me vêem; o sábio e o ignorante, o homem de gênio e o ignorante me vêem e não me reconheceis.
Mas há pessoas que parecem temer olhá-la de frente, e ter a prova de sua existência. Quanto aos que a procuram de boa-fé, até hoje lhes faltou a única chave que lhe poderia ter dado a reconhecer. Esta chave o Espiritismo acaba de dar pela lei que rege as relações do mundo corporal e do mundo espiritual. Auxiliado por esta chave é pelas observações sobre que se apóia, ele dá dos sonhos a mais lógica explicação jamais fornecida. Demonstra que o sonho, o sonambulismo, o êxtase, a dupla vista, o pressentimento, a intuição do futuro, a penetração do pensamento não passam de variantes e graus de um mesmo princípio: a emancipação da alma, mais ou menos desprendida da matéria.
A respeito dos sonhos, dá ele conta precisa de todas as variedades que apresentam? Ainda não: possuímos o princípio, o que já é muito; os que podemos explicar por-nos-ão na via dos outros; sem dúvida faltam-nos alguns conhecimentos, que adquiriremos mais tarde. Não há uma única ciência que, de saída, tenha desenvolvido todas as suas conseqüências e aplicações; elas não se podem completar senão por sucessivas observações. Ora, nascido ontem, o Espiritismo está como a química nas mãos dos Lavoisier e dos Berthoffet, seus primeiros criadores; estes descobriram as lei fundamentais; as primeiras balizas fincadas puseram no caminho de novas descobertas.
Entre os sonhos uns há que tem um caráter de tal modo positivo que, racionalmente, não poderiam ser atribuídos a simples jogo da imaginação. Tais são aqueles nos quais, ao despertar, adquire-se a prova da realidade do que se viu, e em que absolutamente não se pensava. Os mais difíceis de explicar são os que nos apresentam imagens incoerentes, fantásticas, sem realidade aparente. Um estudo mais aprofundado do singular fenômeno das criações fluídicas sem dúvida por-nos-á no caminho.
Esperando, eis uma teoria que parece permitir um passo no assunto. Não a damos como absoluta, mas como fundada na lógica e podendo ser submetida a estudo. Ela nos foi dada por um dos nossos melhores médiuns, em estado de sonambulismo muito lúcido, por ocasião do fato seguinte.
Solicitado pela mãe de uma jovem a lhe dar notícias de sua filha, que estava em Lyon, ele a viu deitada e adormecida, e descreveu com exatidão o apartamento em que se achava. Essa jovem, de dezessete anos, é médium escrevente. A mãe perguntou se ela tinha aptidão para se tornar médium vidente. Esperai, disse o sonâmbulo, é preciso que eu siga o traço de seu Espírito, que neste momento não está no corpo. Ela está aqui, na villa Ségur na sala onde estamos, atraída pelo vosso pensamento; ela vos vê e vos escuta. Para ela é um sonho, do qual não se recordará ao despertar.
Pode-se, acrescenta ele, dividir os sonhos em três categorias caracterizadas pelo grau da lembrança que fica no estado de desprendimento no qual se acha o Espírito. São:
1º - Os sonhos que são provocados pela ação da matéria e dos sentidos sobre o Espírito, isto é, aqueles em que o organismo representa um papel preponderante pela mais íntima união entre o corpo e o Espírito. A gente se lembra claramente e, por pouco desenvolvida que seja a memória, dele se conserva uma impressão durável.
2º - Os sonhos que podem ser chamados mistos. Participam, ao mesmo tempo, da matéria e do Espírito. O desprendimento é mais completo. A gente se recorda ao despertar, para o esquecer quase que instantaneamente, a menos que uma particularidade venha despertar a lembrança.
3º - Os sonhos etéreos ou puramente espirituais. São produtos só do Espírito, que está desprendido da matéria, tanto quanto o pode estar na vida do corpo. A gente não se recorda, ou resta uma vaga lembrança de que se sonhou. Nenhuma circunstância poderia trazer à memória os incidentes do sono.
O sonho atual da jovem pertence a esta terceira categoria. Ela não o recordará. Foi conduzida aqui por um Espírito muito conhecido do mundo espírita lionês e, mesmo, do mundo espírita europeu - o médium-sonambúlico descreve o Espírito Cárita. Ele trouxe com o objetivo de que ela conserve senão uma lembrança precisa, um pressentimento do bem que se pode colher de uma crença firme, pura e santa, e do bem que se pode fazer aos outros, fazendo-o a si próprio.
Ele diz à mãe dela que se ela se lembrasse tão bem em seu estado normal quanto se lembra agora de suas encarnações precedentes, não demoraria muito no estado estacionário em que está. Porque vê claramente e pode avançar sem hesitação, ao passo que no estado ordinário temos uma venda sobre os olhos. Ela diz aos assistentes: "Obrigado por vos terdes ocupado de mim." Depois beija sua mãe. Como é feliz! acrescenta o médium, terminando, como é feliz com este sonho, do qual não se recordará, mas que, nem por isso, deixará de lhe deixar uma salutar impressão! São esses sonhos inconscientes que proporcionam estas sensações indefiníveis de contentamento e de felicidade, de que a gente não se dá conta e que são um antegozo daquilo de que desfrutam os Espíritos felizes.
Disto ressalta que o Espírito encarnado pode sofrer transformações que lhe modificam as aptidões. Um fato que talvez não tenha sido suficientemente observado vem em apoio da teoria acima. Sabe-se que o esquecimento do sonho é um dos caracteres do sonambulismo. Ora, do primeiro grau de lucidez, por vezes o Espírito passa a um grau mais elevado, que é diferente do êxtase, e no qual adquire novas idéias e percepções mais sutis. Saindo deste segundo grau para entrar na primeiro, nem se lembra do que disse, nem do que viu. Depois, passando deste grau para o de vigília, há novo esquecimento. Uma coisa a notar é que há lembrança do grau superior para o inferior, ao passo que há esquecimento do grau inferior para o superior.
É, pois, bem evidente que entre os dois estados sonambúlicos, de que acabamos de falar, passa-se algo análogo ao que ocorre no estado de vigília e o primeiro grau de lucidez; que o que se passa influi sobre as faculdades e as aptidões do Espírito. Dir-se-ia que do estado de vigília ao primeiro grau o Espírito é despojado de um véu; que do primeiro ao segundo grau é despojado de um segundo véu. Nos graus superiores, não mais existindo esses véus, o Espírito vê o que está abaixo e se lembra. Descendo a escada, os véus se formam sucessivamente e lhe ocultam o que está acima, com o que perde a sua lembrança. A vontade do magnetizador por vezes pode dissipar esse véu fluídico e dar a lembrança.
Como se vê, há uma grande analogia entre os dois estados sonambúlicos e as diversas categorias de sonhos descritos acima. Parece-nos mais que provável que, num e noutro caso, o Espírito se ache numa situação idêntica. Para cada degrau que sobe, eleva-se acima de uma camada de garoa: sua vista e suas percepções tornam-se mais claras.

REVISTA ESPÍRITA
JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS
PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE ALLAN KARDEC
ANO 8 - JULHO 1865 - Nº. 7
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 14:05

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TEORIA DOS SONHOS

É verdadeiramente estranho que um fenômeno tão vulgar quanto o dos sonhos tenha sido objeto de tanta indiferença da parte da ciência, e que ainda se esteja a perguntar a causa dessas visões. Dizer que são produtos da imaginação não é resolver a questão; é uma dessas palavras com a auxilio da qual querem explicar o que não compreendem e que nada explicam. Em todo o caso, a imaginação é um produto do entendimento. Ora, como não se pode admitir entendimento nem imaginação na matéria bruta, é necessário crer que a alma nisto entre para alguma coisa. Se os sonhos ainda são um mistério para a ciência, é que ela se obstinou em fechar os olhos para a causa espiritual.
Procura-se a alma nas dobras do cérebro, enquanto ela se ergue a cada instante à nossa frente, livre e independente, numa porção de fenômenos inexplicáveis só pelas leis da matéria, notadamente nos sonhos, no sonambulismo natural e artificial e na dupla vista à distância. Não nos fenômenos raros, excepcionais, sutis, que exigem pacientes pesquisas do sábio e do filósofo, mas nos mais vulgares. Lá está ela, que parece dizer: Olhai e ver-me-eis; estou aos vossos olhos e não me vedes; vistes-me muitas e muitas vezes; vedes-me todos os dias; os próprios meninos me vêem; o sábio e o ignorante, o homem de gênio e o ignorante me vêem e não me reconheceis.
Mas há pessoas que parecem temer olhá-la de frente, e ter a prova de sua existência. Quanto aos que a procuram de boa-fé, até hoje lhes faltou a única chave que lhe poderia ter dado a reconhecer. Esta chave o Espiritismo acaba de dar pela lei que rege as relações do mundo corporal e do mundo espiritual. Auxiliado por esta chave é pelas observações sobre que se apóia, ele dá dos sonhos a mais lógica explicação jamais fornecida. Demonstra que o sonho, o sonambulismo, o êxtase, a dupla vista, o pressentimento, a intuição do futuro, a penetração do pensamento não passam de variantes e graus de um mesmo princípio: a emancipação da alma, mais ou menos desprendida da matéria.
A respeito dos sonhos, dá ele conta precisa de todas as variedades que apresentam? Ainda não: possuímos o princípio, o que já é muito; os que podemos explicar por-nos-ão na via dos outros; sem dúvida faltam-nos alguns conhecimentos, que adquiriremos mais tarde. Não há uma única ciência que, de saída, tenha desenvolvido todas as suas conseqüências e aplicações; elas não se podem completar senão por sucessivas observações. Ora, nascido ontem, o Espiritismo está como a química nas mãos dos Lavoisier e dos Berthoffet, seus primeiros criadores; estes descobriram as lei fundamentais; as primeiras balizas fincadas puseram no caminho de novas descobertas.
Entre os sonhos uns há que tem um caráter de tal modo positivo que, racionalmente, não poderiam ser atribuídos a simples jogo da imaginação. Tais são aqueles nos quais, ao despertar, adquire-se a prova da realidade do que se viu, e em que absolutamente não se pensava. Os mais difíceis de explicar são os que nos apresentam imagens incoerentes, fantásticas, sem realidade aparente. Um estudo mais aprofundado do singular fenômeno das criações fluídicas sem dúvida por-nos-á no caminho.
Esperando, eis uma teoria que parece permitir um passo no assunto. Não a damos como absoluta, mas como fundada na lógica e podendo ser submetida a estudo. Ela nos foi dada por um dos nossos melhores médiuns, em estado de sonambulismo muito lúcido, por ocasião do fato seguinte.
Solicitado pela mãe de uma jovem a lhe dar notícias de sua filha, que estava em Lyon, ele a viu deitada e adormecida, e descreveu com exatidão o apartamento em que se achava. Essa jovem, de dezessete anos, é médium escrevente. A mãe perguntou se ela tinha aptidão para se tornar médium vidente. Esperai, disse o sonâmbulo, é preciso que eu siga o traço de seu Espírito, que neste momento não está no corpo. Ela está aqui, na villa Ségur na sala onde estamos, atraída pelo vosso pensamento; ela vos vê e vos escuta. Para ela é um sonho, do qual não se recordará ao despertar.
Pode-se, acrescenta ele, dividir os sonhos em três categorias caracterizadas pelo grau da lembrança que fica no estado de desprendimento no qual se acha o Espírito. São:
1º - Os sonhos que são provocados pela ação da matéria e dos sentidos sobre o Espírito, isto é, aqueles em que o organismo representa um papel preponderante pela mais íntima união entre o corpo e o Espírito. A gente se lembra claramente e, por pouco desenvolvida que seja a memória, dele se conserva uma impressão durável.
2º - Os sonhos que podem ser chamados mistos. Participam, ao mesmo tempo, da matéria e do Espírito. O desprendimento é mais completo. A gente se recorda ao despertar, para o esquecer quase que instantaneamente, a menos que uma particularidade venha despertar a lembrança.
3º - Os sonhos etéreos ou puramente espirituais. São produtos só do Espírito, que está desprendido da matéria, tanto quanto o pode estar na vida do corpo. A gente não se recorda, ou resta uma vaga lembrança de que se sonhou. Nenhuma circunstância poderia trazer à memória os incidentes do sono.
O sonho atual da jovem pertence a esta terceira categoria. Ela não o recordará. Foi conduzida aqui por um Espírito muito conhecido do mundo espírita lionês e, mesmo, do mundo espírita europeu - o médium-sonambúlico descreve o Espírito Cárita. Ele trouxe com o objetivo de que ela conserve senão uma lembrança precisa, um pressentimento do bem que se pode colher de uma crença firme, pura e santa, e do bem que se pode fazer aos outros, fazendo-o a si próprio.
Ele diz à mãe dela que se ela se lembrasse tão bem em seu estado normal quanto se lembra agora de suas encarnações precedentes, não demoraria muito no estado estacionário em que está. Porque vê claramente e pode avançar sem hesitação, ao passo que no estado ordinário temos uma venda sobre os olhos. Ela diz aos assistentes: "Obrigado por vos terdes ocupado de mim." Depois beija sua mãe. Como é feliz! acrescenta o médium, terminando, como é feliz com este sonho, do qual não se recordará, mas que, nem por isso, deixará de lhe deixar uma salutar impressão! São esses sonhos inconscientes que proporcionam estas sensações indefiníveis de contentamento e de felicidade, de que a gente não se dá conta e que são um antegozo daquilo de que desfrutam os Espíritos felizes.
Disto ressalta que o Espírito encarnado pode sofrer transformações que lhe modificam as aptidões. Um fato que talvez não tenha sido suficientemente observado vem em apoio da teoria acima. Sabe-se que o esquecimento do sonho é um dos caracteres do sonambulismo. Ora, do primeiro grau de lucidez, por vezes o Espírito passa a um grau mais elevado, que é diferente do êxtase, e no qual adquire novas idéias e percepções mais sutis. Saindo deste segundo grau para entrar na primeiro, nem se lembra do que disse, nem do que viu. Depois, passando deste grau para o de vigília, há novo esquecimento. Uma coisa a notar é que há lembrança do grau superior para o inferior, ao passo que há esquecimento do grau inferior para o superior.
É, pois, bem evidente que entre os dois estados sonambúlicos, de que acabamos de falar, passa-se algo análogo ao que ocorre no estado de vigília e o primeiro grau de lucidez; que o que se passa influi sobre as faculdades e as aptidões do Espírito. Dir-se-ia que do estado de vigília ao primeiro grau o Espírito é despojado de um véu; que do primeiro ao segundo grau é despojado de um segundo véu. Nos graus superiores, não mais existindo esses véus, o Espírito vê o que está abaixo e se lembra. Descendo a escada, os véus se formam sucessivamente e lhe ocultam o que está acima, com o que perde a sua lembrança. A vontade do magnetizador por vezes pode dissipar esse véu fluídico e dar a lembrança.
Como se vê, há uma grande analogia entre os dois estados sonambúlicos e as diversas categorias de sonhos descritos acima. Parece-nos mais que provável que, num e noutro caso, o Espírito se ache numa situação idêntica. Para cada degrau que sobe, eleva-se acima de uma camada de garoa: sua vista e suas percepções tornam-se mais claras.

REVISTA ESPÍRITA
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ANO 8 - JULHO 1865 - Nº. 7
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 14:05

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Segunda-feira, 2 de Março de 2009

RESUMO DA LEI DOS FENÔMENOS ESPÍRITAS.


Esta instrução foi feita sobretudo tendo em vista as pessoas que não possuem nenhuma noção do Espiritismo, e às quais se quer dele dar uma idéia sucinta em poucas palavras. Nos grupos ou reuniões espíritas, onde se encontrem assistentes novatos, ela pode utilmente servir de preâmbulo às sessões, segundo as necessidades.

As pessoas estranhas ao Espiritismo, não lhe compreendendo nem os objetivos nem os meios, quase sempre, fazem dele uma idéia completamente falsa. O que lhes falta, sobretudo, é o conhecimento do princípio, a chave primeira dos fenômenos; na falta disso, o que vêem e o que ouvem é sem proveito, e mesmo sem interesse, para elas. Há um fato adquirido pela experiência, é que só a visão ou o relato dos fenômenos não basta para convencer. Aquele mesmo que é testemunha de fatos capazes de confundi-lo, é mais espantado do que convencido; quanto mais o efeito lhe parece extraordinário, mais o suspeita. Um estudo preliminar sério é o único meio de conduzir à convicção; freqüentemente mesmo ele basta para mudar inteiramente o curso das idéias. Em todos os casos, ele é indispensável para a compreensão dos fenômenos mais simples. À falta de uma instrução completa, que não pode ser dada em algumas palavras, um resumo sucinto da lei que rege as manifestações bastará para fazer encarar a coisa sob a sua verdadeira luz, para as pessoas que nela não estão ainda iniciadas. É esse primeiro degrau que damos na pequena instrução adiante. No entanto, uma observação preliminar é necessária.

A propensão dos incrédulos, geralmente, é suspeitar da boa fé dos médiuns, e de supor o emprego de meios fraudulentos. Além de que, ao olhar de certas pessoas, essa suposição é injuriosa, é preciso, antes de tudo, se perguntar qual interesse poderiam ter em enganar e em desempenhar, ou fazer desempenhar, a comédia. A melhor garantia da sinceridade está no desinteresse absoluto, porque ali onde não há nada a ganhar, o charlatanismo não tem razão de ser.

Quanto à realidade dos fenômenos, cada um pode constatá-la, colocando-se nas condições favoráveis e se leva à observação dos fatos a paciência, a perseverança e a imparcialidade necessárias.
1. O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, compreende todas as conseqüências morais que decorrem dessas relações.

2. Os Espíritos não são, como se pensa freqüentemente, seres à parte na criação; são as almas daqueles que viveram sobre a Terra ou em outros mundos. As almas ou Espíritos são, pois, uma só e mesma coisa; de onde se segue que quem crê na existência da alma, crê, por isso mesmo, na dos Espíritos.

3. Geralmente, faz-se um idéia muito falsa do estado dos Espíritos; estes não são, como alguns o crêem, seres vagos e indefinidos, nem chamas como os fogos fátuos, nem fantasmas como nos contos de assombrações. São seres semelhantes a nós, tendo um corpo como o nosso, mas fluídico e invisível no estado normal.

4. Quando a alma está unida ao corpo durante a vida, ela tem um duplo envoltório:
um pesado, grosseiro e destrutível que é o corpo; o outro fluídico, leve e indestrutível, chamado perispírito.
O perispírito é o laço que une a alma e o corpo; é por seu intermédio que a alma faz o corpo agir, e que percebe as sensações sentidas pelo corpo.

5. A morte não é senão a destruição do envoltório grosseiro; a alma abandona esse envoltório, como se despe de uma roupa usada, ou como a borboleta deixa a sua crisálida; mas ela conserva o seu corpo fluídico ou perispírito.
A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o homem; a alma e o perispírito separados do corpo constituem o ser chamado Espírito.

6. A morte do corpo livra o Espírito do envoltório que o prendia à Terra e o fazia sofrer; uma vez livre desse fardo, não há mais do que seu corpo etéreo, que lhe permite percorrer o espaço e transpor as distâncias com a rapidez do pensamento.

7. O fluido que compõe o perispírito penetra todos os corpos, e os atravessa como a luz atravessa os corpos transparentes; nenhuma matéria lhe faz obstáculo. É por isso que os Espíritos penetram por toda a parte, nos lugares o mais hermeticamente fechados; é uma idéia ridícula crer que se introduzem por uma pequena abertura, como o buraco de uma fechadura ou o tubo da chaminé.

8. Os Espíritos povoam o espaço; constituem o mundo invisível que nos cerca, no meio do qual vivemos, e com o qual, sem cessar, estamos em contato.

9. Os Espíritos têm todas as percepções que tinham sobre a Terra, mas em um grau mais alto, porque as suas faculdades não são amortecidas pela matéria; têm sensações que nos são desconhecidas; vêem e ouvem coisas que os nossos sentidos limitados não permitem nem ver nem ouvir. Para eles não há obscuridade, salvo aqueles cuja punição é estar temporariamente nas trevas. Todos os nossos pensamentos repercutem neles, e os lêem como num livro aberto; de sorte que o que poderíamos responder a alguém quando vivo, não o poderemos mais desde que seja Espírito.

10. Os Espíritos conservam as afeições sérias que tinham sobre a Terra; se comprazem em retornar àqueles que amaram, sobretudo quando a eles são atraídos pelo pensamento e pelos sentimentos que lhes têm, ao passo que são indiferentes por aqueles que não têm senão da indiferença.
Os Espíritos podem se manifestar de muitas maneiras diferentes: pela visão, pela audição, pelo toque, pelos ruídos, ou movimento dos corpos, a escrita, o desenho, a música, etc. Eles se manifestam por intermédio de pessoas dotadas de uma aptidão especial para cada gênero de manifestação, e que se distinguem sob o nome de médiuns. É assim que se distinguem os médiuns videntes, falantes, auditivos, sensitivos, de efeitos físicos, desenhistas, tiptólogos, escreventes, etc. Entre os médiuns escreventes há variedades numerosas, segundo a natureza das comunicações que são aptos a receber.

11. O perispírito, embora invisível para nós no estado normal, por isso não é menos matéria etérea. O Espírito pode, em certos casos, fazê-lo sofrer uma espécie de modificação celular que o torna visível e mesmo tangível; é assim que se produzem as aparições. Esse fenômeno não é mais extraordinário do que aquele do vapor que é invisível quando é muito rarefeito, e que se torna visível quando está condensado.
Os Espíritos que se tornam visíveis se apresentam, quase sempre, sob as aparências que tinham quando vivos, e que pode fazê-los reconhecer.

12. É com ajuda de seu perispírito que o Espírito atua sobre o seu corpo vivo; é ainda com esse mesmo fluido que se manifesta agindo sobre a matéria inerte, que produz do ruídos, os movimentos das mesas e outros objetos que levanta, tomba ou transporta. Esse fenômeno nada tem de surpreendente considerando-se que, entre nós, os mais possantes motores se acham nos fluidos mais rarefeitos e mesmo imponderáveis, como o ar, o vapor e a eletricidade.
É igualmente com a ajuda de seu perispírito que o Espírito faz os médiuns escreverem, falarem ou desenharem; não tendo corpo tangível para agir ostensivamente quando quer se manifestar, serve-se do corpo do médium, de cujos órgãos se apodera, que faz agir como se fosse seu próprio corpo, e isso pelo eflúvio fluídico que derrama sobre ele.

13. É pelo mesmo meio que o Espírito age sobre a mesa, seja para fazê-la mover-se sem significação determinada, seja para fazê-la bater golpes inteligentes indicando as letras do alfabeto, para formar as palavras e as frases, fenômeno designado sob o nome de tiptologia. A mesa não é aqui senão um instrumento do qual se serve, como o faz do lápis para escrever; dá-lhe uma vitalidade momentânea pelo fluido do qual a penetra, mas não se identifica com ela. As pessoas que, em sua emoção, vendo se manifestar um ser que lhe é caro, abraçam a mesa, fazem um ato ridículo, porque é absolutamente, como se elas abraçassem o bastão do qual um amigo se serve para bater as pancadas. Ocorre o mesmo com aquelas que dirigem a palavra à mesa, como se o Espírito estivesse encerrado na madeira, e como se a madeira tivesse se tornado Espírito.
Quando as comunicações ocorrem por esse meio, é preciso se representar o Espírito, não na mesa, mas ao lado, tal qual era quando vivo, e tal qual seria visto se, nesse momento, pudesse se tornar visível. A mesma coisa ocorre nas comunicações pela escrita; ver-se-ia o Espírito ao lado do médium, dirigindo a sua mão, ou transmitindo-lhe o seu pensamento por uma corrente fluídica.
Quando a mesa se destaca do solo e flutua no espaço sem ponto de apoio, o Espírito não a ergue com a força de seu braço, mas a envolve e a penetra de uma espécie de atmosfera fluídica que neutraliza o efeito da gravidade, como o faz o ar para os balões e os papagaios de papel. O fluido com a qual ela está penetrada lhe dá, momentaneamente, uma leveza específica maior. Quando ela está pregada ao solo, está num caso análogo ao da campânula pneumática sob a qual se faz o vácuo. Estas não são aqui senão comparações, para mostrar a analogia dos efeitos, e não a semelhança absoluta das causas.
Compreende-se, segundo isso, que não é mais difícil ao Espírito levantar uma pessoa do que levantar uma mesa, de transportar um objeto de um lugar a um outro, ou de lançá-lo em qualquer parte; esses fenômenos se produzem pela mesma lei.
Quando a mesa persegue alguém, não é o Espírito que corre, porque ele pode permanecer tranqüilamente no mesmo lugar, mas que lhe dá o impulso por uma corrente fluídica com a ajuda da qual faz movê-la à sua vontade.
Quando pancadas se fazem ouvir na mesa ou noutra parte, o Espírito não bate nem com sua mão, nem com um objeto qualquer; ele dirige sobre o ponto de onde parte o ruído um jato de fluido que produz o efeito de um choque elétrico. Ele modifica, como se pode modificar os sons produzidos pelo ar.

14. Pode-se ver, por estas poucas palavras, que as manifestações espíritas, de qualquer natureza que sejam, não têm nada de sobrenatural nem de maravilhoso. Esses são fenômenos que se produzem em virtude da lei que rege as relações do mundo visível e do mundo invisível, lei toda tão natural quanto as da eletricidade, da gravidade, etc. O Espiritismo é a ciência que nos faz conhecer essa lei, como a mecânica nos faz conhecer a lei do movimento, a ótica a da luz.
Estando as manifestações espíritas na Natureza, produziram-se em todas as épocas; sendo conhecida a lei que as rege, explica-nos uma multidão de problemas considerados como insolúveis; é a chave de uma multidão de fenômenos explorados e ampliados pela superstição.

15. Estando o maravilhoso completamente descartado, esses fenômenos nada têm mais que repugne a razão, porque vêm tomar lugar ao lado dos outros fenômenos naturais. Nos tempos de ignorância, todos os efeitos dos quais não se conhecia a causa, eram reputados sobrenaturais; as descobertas da ciência restringiram sucessivamente o círculo do maravilhoso; o conhecimento dessa nova lei veio reduzi-lo a nada. Aqueles, pois, que acusam o Espiritismo de ressuscitar o maravilhoso, provam, por isso mesmo, que falam de uma coisa que não conhecem.

16. Uma idéia quase geral entre as pessoas que não conhecem o Espiritismo é de crer que os Espíritos, só pelo fato de estarem livres da matéria, devem tudo saber e possuir a soberana sabedoria. Está aí um erro grave. Deixando o seu envoltório corpóreo, eles não se despojam imediatamente de suas imperfeições; não é senão com o tempo que se depuram e se melhoram.
Sendo os Espíritos as almas dos homens, como há homens de todos os graus de saber e de ignorância, dê bondade e de maldade, encontra-se a mesma coisa entre os Espíritos. Há deles que não são senão levianos e traquinas, outros são mentirosos, velhacos, hipócritas, maus, vingativos; outros, ao contrário, possuem as mais sublimes virtudes e o saber num grau desconhecido sobre a Terra. Essa diversidade na qualidade dos Espíritos é um dos pontos mais importantes a considerar, porque explica a natureza boa ou má das comunicações que se recebem; é a distingui-las que é preciso sobretudo se empenhar.
Disso resulta que não basta se dirigir a um Espírito qualquer para ter uma resposta justa a toda pergunta; porque o Espírito responderá segundo o que sabe, e, freqüentemente, não dará senão a sua opinião pessoal, que pode ser justa ou falsa. Se for sábio, confessará a sua ignorância sobre o que não sabe; se for leviano ou mentiroso, responderá sobre tudo sem se importar com a verdade; dará sua idéia como uma verdade absoluta. Foi por isso que São João o evangelista disse: "Não creiais em todo Espírito, mas experimentai se os Espíritos são de Deus." A experiência prova a sabedoria deste conselho. Haveria, pois, imprudência e leviandade em aceitar sem controle tudo o que vem dos Espíritos.
Os Espíritos não podem responder senão sobre aquilo que sabem, e, além disso, sobre o que lhes é permitido dizer, porque há coisas que não devem revelar, porque não é dado ainda aos homens tudo conhecerem.

17. Reconhece-se a qualidade dos Espíritos pela sua linguagem; a dos Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica, isenta de toda trivialidade, puerilidade ou contradição; ela respira a sabedoria, a benevolência e a modéstia; é concisa e sem palavras inúteis. A dos Espíritos inferiores, ignorantes ou orgulhosos carece dessas qualidades; o vazio das idéias nela é quase sempre compensado pela abundância das palavras.

18. Um outro ponto igualmente essencial a considerar é que os Espíritos são livres; comunicam-se quando querem, a quem lhes convém, e também quando o podem, porque têm as suas ocupações. Não estão às ordens e ao capricho de quem quer que seja, e não é dado a ninguém fazê-los vir contra a sua vontade, nem fazê-los dizer o que querem calar; de sorte que ninguém pode afirmar que um Espírito qualquer virá ao seu chamado num momento determinado, ou responderá a tal ou a tal questão. Dizer o contrário é provar ignorância absoluta dos princípios mais elementares do Espiritismo; só o charlatanismo tem fontes infalíveis.

19. Os Espíritos são atraídos pela simpatia, a semelhança dos gostos e dos caracteres, a intenção que faz desejar sua presença. Os Espíritos superiores não vão mais à reuniões fúteis do que um sábio da Terra não iria a uma assembléia de jovens estouvados. O simples bom senso nos diz que isso não pode ser de outro modo; ou, se ali vão algumas vezes, é para dar um conselho salutar, combater os vícios, tratar de conduzir no bom caminho; se não são escutados, retiram-se. Seria ter uma idéia completamente falsa crer que os Espíritos sérios possam se comprazer em responder a futilidades, a questões ociosas que não provam nem ligam, nem respeito por eles, nem desejo real de se instruir, e ainda menos que possam vir se dar em espetáculo para a diversão dos curiosos. Não o tivessem feito de sua vida não podem fazê-lo depois de sua morte.

20. Do que precede, resulta que toda reunião espírita, para ser proveitosa, deve, como primeira condição, ser séria e recolhida; que tudo nela deve se passar respeitosamente, religiosamente, e com dignidade, querendo-se obter o concurso habitual dos bons Espíritos. Não é preciso esquecer que se esses mesmos Espíritos ali estivessem presentes quando vivos, teriam tido por eles considerações aos quais têm ainda mais direito depois de sua morte.
Em vão alegue-se a utilidade de certas experiências curiosas, frívolas e divertidas para convencer os incrédulos: é a um resultado todo oposto que se chega. O incrédulo, já levado a zombar das crenças mais sagradas, não pode ver uma coisa séria naquilo que se faz um gracejo; não pode ser levado a respeitar o que não lhe é apresentado de maneira respeitável; também, as reuniões fúteis e levianas, daquelas onde não há nem ordem, nem seriedade, nem recolhimento, ele leva sempre uma impressão má. O que pode sobretudo convencê-lo, é a prova da presença de seres cuja memória lhe é cara; é diante de suas palavras sérias e solenes, é diante das revelações íntimas que se o vê comoverse e empalidecer. Mas, por isso mesmo que ele tem mais respeito, veneração, apego para a pessoa cuja alma se lhe apresenta, fica chocado, escandalizado de vê-la vir a uma assembléia sem respeito, num meio de mesas que dançam e das chocarrices dos Espíritos levianos; todo incrédulo que seja, sua consciência repele essa aliança do sério e do frívolo, do religioso e do profano, é por isso que ele tacha tudo isso de malabarismo, e, freqüentemente, sai menos convencido do que não estava ao entrar.
As reuniões dessa natureza fazem sempre mais mal do que bem, porque afastam da Doutrina mais pessoas do que para ela não trazem, sem contar que elas oferecem flanco à crítica dos detratores que nelas encontram os motivos fundados de zombaria.

21. É errado que se faça um jogo das manifestações físicas; se elas não têm a importância do ensino filosófico, têm sua utilidade, do ponto de vista dos fenômenos, porque são o alfabeto da ciência da qual dão a chave. Embora menos necessárias hoje, ajudam ainda a convicção de certas pessoas. Mas não excluem, de nenhum modo, a ordem e a boa atitude nas reuniões onde se as experimenta; se fossem sempre praticadas de maneira conveniente, convenceriam mais facilmente e produziriam, sob todos os aspectos, bem melhores resultados.

22. Essas explicações, sem dúvida, são muito incompletas e podem, necessariamente, provocar numerosas perguntas, mas não é preciso perder de vista que este não é um curso de Espiritismo. Tais como são, elas bastam para mostrar a base sobre a qual repousa, o caráter das manifestações e grau de confiança que podem inspirar segundo as circunstâncias.
Quanto à utilidade das manifestações, ela é imensa, por suas conseqüências; mas não tivessem por resultado senão de fazer conhecer uma nova lei da Natureza, de demonstrar materialmente a existência da alma e sua imortalidade, seria já muito, porque este seria um largo caminho aberto à filosofia.
REVISTA ESPÍRITA JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS
PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE ALLAN KARDEC
ANO 7 - ABRIL 1869 - Nº. 4
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 22:49

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RESUMO DA LEI DOS FENÔMENOS ESPÍRITAS.


Esta instrução foi feita sobretudo tendo em vista as pessoas que não possuem nenhuma noção do Espiritismo, e às quais se quer dele dar uma idéia sucinta em poucas palavras. Nos grupos ou reuniões espíritas, onde se encontrem assistentes novatos, ela pode utilmente servir de preâmbulo às sessões, segundo as necessidades.

As pessoas estranhas ao Espiritismo, não lhe compreendendo nem os objetivos nem os meios, quase sempre, fazem dele uma idéia completamente falsa. O que lhes falta, sobretudo, é o conhecimento do princípio, a chave primeira dos fenômenos; na falta disso, o que vêem e o que ouvem é sem proveito, e mesmo sem interesse, para elas. Há um fato adquirido pela experiência, é que só a visão ou o relato dos fenômenos não basta para convencer. Aquele mesmo que é testemunha de fatos capazes de confundi-lo, é mais espantado do que convencido; quanto mais o efeito lhe parece extraordinário, mais o suspeita. Um estudo preliminar sério é o único meio de conduzir à convicção; freqüentemente mesmo ele basta para mudar inteiramente o curso das idéias. Em todos os casos, ele é indispensável para a compreensão dos fenômenos mais simples. À falta de uma instrução completa, que não pode ser dada em algumas palavras, um resumo sucinto da lei que rege as manifestações bastará para fazer encarar a coisa sob a sua verdadeira luz, para as pessoas que nela não estão ainda iniciadas. É esse primeiro degrau que damos na pequena instrução adiante. No entanto, uma observação preliminar é necessária.

A propensão dos incrédulos, geralmente, é suspeitar da boa fé dos médiuns, e de supor o emprego de meios fraudulentos. Além de que, ao olhar de certas pessoas, essa suposição é injuriosa, é preciso, antes de tudo, se perguntar qual interesse poderiam ter em enganar e em desempenhar, ou fazer desempenhar, a comédia. A melhor garantia da sinceridade está no desinteresse absoluto, porque ali onde não há nada a ganhar, o charlatanismo não tem razão de ser.

Quanto à realidade dos fenômenos, cada um pode constatá-la, colocando-se nas condições favoráveis e se leva à observação dos fatos a paciência, a perseverança e a imparcialidade necessárias.
1. O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, compreende todas as conseqüências morais que decorrem dessas relações.

2. Os Espíritos não são, como se pensa freqüentemente, seres à parte na criação; são as almas daqueles que viveram sobre a Terra ou em outros mundos. As almas ou Espíritos são, pois, uma só e mesma coisa; de onde se segue que quem crê na existência da alma, crê, por isso mesmo, na dos Espíritos.

3. Geralmente, faz-se um idéia muito falsa do estado dos Espíritos; estes não são, como alguns o crêem, seres vagos e indefinidos, nem chamas como os fogos fátuos, nem fantasmas como nos contos de assombrações. São seres semelhantes a nós, tendo um corpo como o nosso, mas fluídico e invisível no estado normal.

4. Quando a alma está unida ao corpo durante a vida, ela tem um duplo envoltório:
um pesado, grosseiro e destrutível que é o corpo; o outro fluídico, leve e indestrutível, chamado perispírito.
O perispírito é o laço que une a alma e o corpo; é por seu intermédio que a alma faz o corpo agir, e que percebe as sensações sentidas pelo corpo.

5. A morte não é senão a destruição do envoltório grosseiro; a alma abandona esse envoltório, como se despe de uma roupa usada, ou como a borboleta deixa a sua crisálida; mas ela conserva o seu corpo fluídico ou perispírito.
A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o homem; a alma e o perispírito separados do corpo constituem o ser chamado Espírito.

6. A morte do corpo livra o Espírito do envoltório que o prendia à Terra e o fazia sofrer; uma vez livre desse fardo, não há mais do que seu corpo etéreo, que lhe permite percorrer o espaço e transpor as distâncias com a rapidez do pensamento.

7. O fluido que compõe o perispírito penetra todos os corpos, e os atravessa como a luz atravessa os corpos transparentes; nenhuma matéria lhe faz obstáculo. É por isso que os Espíritos penetram por toda a parte, nos lugares o mais hermeticamente fechados; é uma idéia ridícula crer que se introduzem por uma pequena abertura, como o buraco de uma fechadura ou o tubo da chaminé.

8. Os Espíritos povoam o espaço; constituem o mundo invisível que nos cerca, no meio do qual vivemos, e com o qual, sem cessar, estamos em contato.

9. Os Espíritos têm todas as percepções que tinham sobre a Terra, mas em um grau mais alto, porque as suas faculdades não são amortecidas pela matéria; têm sensações que nos são desconhecidas; vêem e ouvem coisas que os nossos sentidos limitados não permitem nem ver nem ouvir. Para eles não há obscuridade, salvo aqueles cuja punição é estar temporariamente nas trevas. Todos os nossos pensamentos repercutem neles, e os lêem como num livro aberto; de sorte que o que poderíamos responder a alguém quando vivo, não o poderemos mais desde que seja Espírito.

10. Os Espíritos conservam as afeições sérias que tinham sobre a Terra; se comprazem em retornar àqueles que amaram, sobretudo quando a eles são atraídos pelo pensamento e pelos sentimentos que lhes têm, ao passo que são indiferentes por aqueles que não têm senão da indiferença.
Os Espíritos podem se manifestar de muitas maneiras diferentes: pela visão, pela audição, pelo toque, pelos ruídos, ou movimento dos corpos, a escrita, o desenho, a música, etc. Eles se manifestam por intermédio de pessoas dotadas de uma aptidão especial para cada gênero de manifestação, e que se distinguem sob o nome de médiuns. É assim que se distinguem os médiuns videntes, falantes, auditivos, sensitivos, de efeitos físicos, desenhistas, tiptólogos, escreventes, etc. Entre os médiuns escreventes há variedades numerosas, segundo a natureza das comunicações que são aptos a receber.

11. O perispírito, embora invisível para nós no estado normal, por isso não é menos matéria etérea. O Espírito pode, em certos casos, fazê-lo sofrer uma espécie de modificação celular que o torna visível e mesmo tangível; é assim que se produzem as aparições. Esse fenômeno não é mais extraordinário do que aquele do vapor que é invisível quando é muito rarefeito, e que se torna visível quando está condensado.
Os Espíritos que se tornam visíveis se apresentam, quase sempre, sob as aparências que tinham quando vivos, e que pode fazê-los reconhecer.

12. É com ajuda de seu perispírito que o Espírito atua sobre o seu corpo vivo; é ainda com esse mesmo fluido que se manifesta agindo sobre a matéria inerte, que produz do ruídos, os movimentos das mesas e outros objetos que levanta, tomba ou transporta. Esse fenômeno nada tem de surpreendente considerando-se que, entre nós, os mais possantes motores se acham nos fluidos mais rarefeitos e mesmo imponderáveis, como o ar, o vapor e a eletricidade.
É igualmente com a ajuda de seu perispírito que o Espírito faz os médiuns escreverem, falarem ou desenharem; não tendo corpo tangível para agir ostensivamente quando quer se manifestar, serve-se do corpo do médium, de cujos órgãos se apodera, que faz agir como se fosse seu próprio corpo, e isso pelo eflúvio fluídico que derrama sobre ele.

13. É pelo mesmo meio que o Espírito age sobre a mesa, seja para fazê-la mover-se sem significação determinada, seja para fazê-la bater golpes inteligentes indicando as letras do alfabeto, para formar as palavras e as frases, fenômeno designado sob o nome de tiptologia. A mesa não é aqui senão um instrumento do qual se serve, como o faz do lápis para escrever; dá-lhe uma vitalidade momentânea pelo fluido do qual a penetra, mas não se identifica com ela. As pessoas que, em sua emoção, vendo se manifestar um ser que lhe é caro, abraçam a mesa, fazem um ato ridículo, porque é absolutamente, como se elas abraçassem o bastão do qual um amigo se serve para bater as pancadas. Ocorre o mesmo com aquelas que dirigem a palavra à mesa, como se o Espírito estivesse encerrado na madeira, e como se a madeira tivesse se tornado Espírito.
Quando as comunicações ocorrem por esse meio, é preciso se representar o Espírito, não na mesa, mas ao lado, tal qual era quando vivo, e tal qual seria visto se, nesse momento, pudesse se tornar visível. A mesma coisa ocorre nas comunicações pela escrita; ver-se-ia o Espírito ao lado do médium, dirigindo a sua mão, ou transmitindo-lhe o seu pensamento por uma corrente fluídica.
Quando a mesa se destaca do solo e flutua no espaço sem ponto de apoio, o Espírito não a ergue com a força de seu braço, mas a envolve e a penetra de uma espécie de atmosfera fluídica que neutraliza o efeito da gravidade, como o faz o ar para os balões e os papagaios de papel. O fluido com a qual ela está penetrada lhe dá, momentaneamente, uma leveza específica maior. Quando ela está pregada ao solo, está num caso análogo ao da campânula pneumática sob a qual se faz o vácuo. Estas não são aqui senão comparações, para mostrar a analogia dos efeitos, e não a semelhança absoluta das causas.
Compreende-se, segundo isso, que não é mais difícil ao Espírito levantar uma pessoa do que levantar uma mesa, de transportar um objeto de um lugar a um outro, ou de lançá-lo em qualquer parte; esses fenômenos se produzem pela mesma lei.
Quando a mesa persegue alguém, não é o Espírito que corre, porque ele pode permanecer tranqüilamente no mesmo lugar, mas que lhe dá o impulso por uma corrente fluídica com a ajuda da qual faz movê-la à sua vontade.
Quando pancadas se fazem ouvir na mesa ou noutra parte, o Espírito não bate nem com sua mão, nem com um objeto qualquer; ele dirige sobre o ponto de onde parte o ruído um jato de fluido que produz o efeito de um choque elétrico. Ele modifica, como se pode modificar os sons produzidos pelo ar.

14. Pode-se ver, por estas poucas palavras, que as manifestações espíritas, de qualquer natureza que sejam, não têm nada de sobrenatural nem de maravilhoso. Esses são fenômenos que se produzem em virtude da lei que rege as relações do mundo visível e do mundo invisível, lei toda tão natural quanto as da eletricidade, da gravidade, etc. O Espiritismo é a ciência que nos faz conhecer essa lei, como a mecânica nos faz conhecer a lei do movimento, a ótica a da luz.
Estando as manifestações espíritas na Natureza, produziram-se em todas as épocas; sendo conhecida a lei que as rege, explica-nos uma multidão de problemas considerados como insolúveis; é a chave de uma multidão de fenômenos explorados e ampliados pela superstição.

15. Estando o maravilhoso completamente descartado, esses fenômenos nada têm mais que repugne a razão, porque vêm tomar lugar ao lado dos outros fenômenos naturais. Nos tempos de ignorância, todos os efeitos dos quais não se conhecia a causa, eram reputados sobrenaturais; as descobertas da ciência restringiram sucessivamente o círculo do maravilhoso; o conhecimento dessa nova lei veio reduzi-lo a nada. Aqueles, pois, que acusam o Espiritismo de ressuscitar o maravilhoso, provam, por isso mesmo, que falam de uma coisa que não conhecem.

16. Uma idéia quase geral entre as pessoas que não conhecem o Espiritismo é de crer que os Espíritos, só pelo fato de estarem livres da matéria, devem tudo saber e possuir a soberana sabedoria. Está aí um erro grave. Deixando o seu envoltório corpóreo, eles não se despojam imediatamente de suas imperfeições; não é senão com o tempo que se depuram e se melhoram.
Sendo os Espíritos as almas dos homens, como há homens de todos os graus de saber e de ignorância, dê bondade e de maldade, encontra-se a mesma coisa entre os Espíritos. Há deles que não são senão levianos e traquinas, outros são mentirosos, velhacos, hipócritas, maus, vingativos; outros, ao contrário, possuem as mais sublimes virtudes e o saber num grau desconhecido sobre a Terra. Essa diversidade na qualidade dos Espíritos é um dos pontos mais importantes a considerar, porque explica a natureza boa ou má das comunicações que se recebem; é a distingui-las que é preciso sobretudo se empenhar.
Disso resulta que não basta se dirigir a um Espírito qualquer para ter uma resposta justa a toda pergunta; porque o Espírito responderá segundo o que sabe, e, freqüentemente, não dará senão a sua opinião pessoal, que pode ser justa ou falsa. Se for sábio, confessará a sua ignorância sobre o que não sabe; se for leviano ou mentiroso, responderá sobre tudo sem se importar com a verdade; dará sua idéia como uma verdade absoluta. Foi por isso que São João o evangelista disse: "Não creiais em todo Espírito, mas experimentai se os Espíritos são de Deus." A experiência prova a sabedoria deste conselho. Haveria, pois, imprudência e leviandade em aceitar sem controle tudo o que vem dos Espíritos.
Os Espíritos não podem responder senão sobre aquilo que sabem, e, além disso, sobre o que lhes é permitido dizer, porque há coisas que não devem revelar, porque não é dado ainda aos homens tudo conhecerem.

17. Reconhece-se a qualidade dos Espíritos pela sua linguagem; a dos Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica, isenta de toda trivialidade, puerilidade ou contradição; ela respira a sabedoria, a benevolência e a modéstia; é concisa e sem palavras inúteis. A dos Espíritos inferiores, ignorantes ou orgulhosos carece dessas qualidades; o vazio das idéias nela é quase sempre compensado pela abundância das palavras.

18. Um outro ponto igualmente essencial a considerar é que os Espíritos são livres; comunicam-se quando querem, a quem lhes convém, e também quando o podem, porque têm as suas ocupações. Não estão às ordens e ao capricho de quem quer que seja, e não é dado a ninguém fazê-los vir contra a sua vontade, nem fazê-los dizer o que querem calar; de sorte que ninguém pode afirmar que um Espírito qualquer virá ao seu chamado num momento determinado, ou responderá a tal ou a tal questão. Dizer o contrário é provar ignorância absoluta dos princípios mais elementares do Espiritismo; só o charlatanismo tem fontes infalíveis.

19. Os Espíritos são atraídos pela simpatia, a semelhança dos gostos e dos caracteres, a intenção que faz desejar sua presença. Os Espíritos superiores não vão mais à reuniões fúteis do que um sábio da Terra não iria a uma assembléia de jovens estouvados. O simples bom senso nos diz que isso não pode ser de outro modo; ou, se ali vão algumas vezes, é para dar um conselho salutar, combater os vícios, tratar de conduzir no bom caminho; se não são escutados, retiram-se. Seria ter uma idéia completamente falsa crer que os Espíritos sérios possam se comprazer em responder a futilidades, a questões ociosas que não provam nem ligam, nem respeito por eles, nem desejo real de se instruir, e ainda menos que possam vir se dar em espetáculo para a diversão dos curiosos. Não o tivessem feito de sua vida não podem fazê-lo depois de sua morte.

20. Do que precede, resulta que toda reunião espírita, para ser proveitosa, deve, como primeira condição, ser séria e recolhida; que tudo nela deve se passar respeitosamente, religiosamente, e com dignidade, querendo-se obter o concurso habitual dos bons Espíritos. Não é preciso esquecer que se esses mesmos Espíritos ali estivessem presentes quando vivos, teriam tido por eles considerações aos quais têm ainda mais direito depois de sua morte.
Em vão alegue-se a utilidade de certas experiências curiosas, frívolas e divertidas para convencer os incrédulos: é a um resultado todo oposto que se chega. O incrédulo, já levado a zombar das crenças mais sagradas, não pode ver uma coisa séria naquilo que se faz um gracejo; não pode ser levado a respeitar o que não lhe é apresentado de maneira respeitável; também, as reuniões fúteis e levianas, daquelas onde não há nem ordem, nem seriedade, nem recolhimento, ele leva sempre uma impressão má. O que pode sobretudo convencê-lo, é a prova da presença de seres cuja memória lhe é cara; é diante de suas palavras sérias e solenes, é diante das revelações íntimas que se o vê comoverse e empalidecer. Mas, por isso mesmo que ele tem mais respeito, veneração, apego para a pessoa cuja alma se lhe apresenta, fica chocado, escandalizado de vê-la vir a uma assembléia sem respeito, num meio de mesas que dançam e das chocarrices dos Espíritos levianos; todo incrédulo que seja, sua consciência repele essa aliança do sério e do frívolo, do religioso e do profano, é por isso que ele tacha tudo isso de malabarismo, e, freqüentemente, sai menos convencido do que não estava ao entrar.
As reuniões dessa natureza fazem sempre mais mal do que bem, porque afastam da Doutrina mais pessoas do que para ela não trazem, sem contar que elas oferecem flanco à crítica dos detratores que nelas encontram os motivos fundados de zombaria.

21. É errado que se faça um jogo das manifestações físicas; se elas não têm a importância do ensino filosófico, têm sua utilidade, do ponto de vista dos fenômenos, porque são o alfabeto da ciência da qual dão a chave. Embora menos necessárias hoje, ajudam ainda a convicção de certas pessoas. Mas não excluem, de nenhum modo, a ordem e a boa atitude nas reuniões onde se as experimenta; se fossem sempre praticadas de maneira conveniente, convenceriam mais facilmente e produziriam, sob todos os aspectos, bem melhores resultados.

22. Essas explicações, sem dúvida, são muito incompletas e podem, necessariamente, provocar numerosas perguntas, mas não é preciso perder de vista que este não é um curso de Espiritismo. Tais como são, elas bastam para mostrar a base sobre a qual repousa, o caráter das manifestações e grau de confiança que podem inspirar segundo as circunstâncias.
Quanto à utilidade das manifestações, ela é imensa, por suas conseqüências; mas não tivessem por resultado senão de fazer conhecer uma nova lei da Natureza, de demonstrar materialmente a existência da alma e sua imortalidade, seria já muito, porque este seria um largo caminho aberto à filosofia.
REVISTA ESPÍRITA JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS
PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DE ALLAN KARDEC
ANO 7 - ABRIL 1869 - Nº. 4
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 22:49

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Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

A VISÃO DE DEUS


Desde que Deus está em toda a parte, porque não o vemos? Vê-lo-emos ao deixar a Terra? Estas são também perguntas feitas diariamente. A primeira é fácil de resolver: nossos órgãos materiais têm percepções limitadas, que os tornam impróprios à visão de certas coisas, mesmo materiais. É assim que certos fluidos escapam totalmente à nossa vista e aos nossos instrumentos de análise. Vemos os efeitos da peste e não vemos o fluido que a transporta; vemos os corpos mover-se sob a influência da força da gravitação, e não vemos esta força.
As coisas de essência espiritual não podem ser percebidas pelos órgãos materiais; só pela visão espiritual é que podemos ver os Espíritos e as coisas do mundo imaterial; assim, só a nossa alma pode ter a percepção de Deus. Ela o vê imediatamente após a morte? É o que só as comunicações de além-túmulo nos podem ensinar. Por elas, sabemos que a visão de Deus só é privilégio das almas as mais depuradas e que, assim, muito poucas ao deixar o invólucro terreno, possuem o grau de desmaterialização necessário. Algumas comparações vulgares o darão facilmente a compreender.
Aquele que está no fundo de um vale, cercado de espessa bruma, não vê o sol; contudo, à luz difusa, ele julga da presença do sol. Se subir a montanha, à medida que se eleva dissipa-se o nevoeiro, a luz se torna cada vez mais viva, mas ainda não vê o sol. Quando começa a percebê-lo ainda está velado, porque o mínimo de vapor basta para lhe enfraquecer o brilho. Só depois de se haver elevado completamente acima da camada brumosa é que, achando-se num ar perfeitamente puro, ele o vê em todo o seu esplendor.
Dá-se o mesmo com quem tivesse a cabeça envolta por diversos véus. De começo, não vê absolutamente nada; a cada véu que se retira, distingue um clarão cada vez maior; só quando desaparece o último véu é que vê as coisas nitidamente.
Também se dá o mesmo que comum licor carregado de matéria estranha: a princípio fica turvo; a cada destilação sua transparência aumenta até que, estando completamente purificado, adquire uma limpidez perfeita e não apresenta nenhum obstáculo à visão.
Assim é com a alma. O envoltório perispirital, posto que invisível e impalpável para nós, é para ela uma verdadeira matéria, ainda muito grosseira para certas percepções. Esse envoltório se espiritualiza à medida que a alma se eleva em moralidade. As imperfeições da alma são como véus que obscurecem sua visão; cada imperfeição de que se desfaz é um véu a menos, mas só depois de ser depurado completamente é que goza da plenitude de suas faculdades.
Sendo Deus a essência divina por excelência, não pode ser percebido em todo o seu brilho senão pelos Espíritos chegados ao mais alto grau de desmaterialização. Se os Espíritos imperfeitos não o vêem, não é porque estejam mais afastados que os outros; como eles, como todos os seres da natureza, estão mergulhados no fluido divino; como nós estamos na luz, os cegos também estão na luz e, contudo, não a vêem. As imperfeições são véus que ocultam Deus à visão dos Espíritos inferiores; quando a cerração se dissipar, eles o verão resplandecer: para isto nem precisarão de subir, nem de ir procurá-lo nas profundezas do infinito; estando a vida espiritual desembaraçada das manchas morais que a obscurecem, eles o verão em qualquer lugar onde se encontrarem, ainda que na Terra, desde que está em toda a parte.
O Espírito só se depura lentamente, e as diversas encarnações são os alambiques, no fundo dos quais deixa, de cada vez, algumas impurezas. Deixando seu envoltório corporal, não se despoja instantaneamente de suas imperfeições; é por isso que alguns, após a morte, não vêem mais Deus do que em vida; mas, à medida que se depura, dele têm uma intuição mais distinta; se não o vêem, compreendem-no melhor; a luz é menos difusa. Assim, quando Espíritos dizem que Deus lhes proíbe de responder a determinada pergunta, não é que Deus lhes apareça ou lhes dirija a palavra para prescrever ou interditar isto ou aquilo. Não; mas eles o sentem, recebem os eflúvios de seu pensamento, como nos acontece com relação aos Espíritos que nos envolvem com seu fluido, posto não os vejamos.
Nenhum homem pode, pois, ver a Deus com os olhos da carne. Se esse favor fosse concedido a alguns, só o seria no estado de êxtase, quando a alma está tão desprendida dos laços da matéria quanto é possível durante a encarnação.
Um tal privilégio aliás seria apenas das almas de escol, encarnadas em missão e não em expiação. Mas como os Espíritos da mais elevada ordem resplandecem com um brilho deslumbrante, pode ser que Espíritos menos elevados, encarnados ou desencarnados, feridos pelo esplendor que os cerca, julgassem ter visto o próprio Deus. Tal como se vê, por vezes, um ministro tomado por seu soberano.
Sob qual aparência Deus se apresenta aos que se tornaram dignos desse favor? Sob uma forma qualquer? Sob uma figura humana ou como um foco resplendente de luz? É o que a linguagem humana é incapaz de descrever, porque para nós não existe nenhum ponto de referência que possa dar uma idéia. Somos como cegos a quem em vão procurassem fazer compreender o brilho do Sol. Nosso vocabulário é limitado às nossas necessidades e ao círculo de nossas idéias; o dos povos mais civilizados é muito pobre para descrever os esplendores dos céus, nossa inteligência muito limitada para os compreender, e nossa vista muito fraca ficaria por eles deslumbrada. (Allan Kardec - R. E. 1866).
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 16:24

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Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

CAUSAS ATUAIS DAS AFLIÇÕES

4. De duas espécies são as vicissitudes da vida, ou, se o preferirem, promanam de duas fontes bem diferentes, que importa distinguir. Umas têm sua causa na vida presente; outras, fora desta vida.
Remontando-se à origem dos males terrestres, reconhecer-se-á que muitos são conseqüência natural do caráter e do proceder dos que os suportam.
Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição!
Quantos se arruínam por falta de ordem, de perseverança, pelo mau proceder, ou por não terem sabido limitar seus desejos!
Quantas uniões desgraçadas, porque resultaram de um cálculo de interesse ou de vaidade e nas quais o coração não tomou parte alguma!
Quantas dissensões e funestas disputas se teriam evitado com um pouco de moderação e menos suscetibilidade!
Quantas doenças e enfermidades decorrem da intemperança e dos excessos de todo gênero!
Quantos pais são infelizes com seus filhos, porque não lhes combateram desde o princípio as más tendências! Por fraqueza, ou indiferença, deixaram que neles se desenvolvessem os gérmens do orgulho, do egoísmo e da tola vaidade, que produzem a secura do coração; depois, mais tarde, quando colhem o que semearam, admiram-se e se afligem da falta de deferência com que são tratados e da ingratidão deles.
Interroguem friamente suas consciências todos os que são feridos no coração pelas vicissitudes e decepções da vida; remontem passo a passo à origem dos males que os torturam e verifiquem se, as mais das vezes, não poderão dizer: Se eu houvesse feito, ou deixado de fazer tal coisa, não estaria em semelhante condição.
A quem, então, há de o homem responsabilizar por todas essas aflições, senão a si mesmo? O homem, pois, em grande número de casos, é o causador de seus próprios infortúnios; mas, em vez de reconhecê-lo, acha mais simples, menos humilhante para a sua vaidade acusar a sorte, a Providência, a má fortuna, a má estrela, ao passo que a má estrela é apenas a sua incúria.
Os males dessa natureza fornecem, indubitavelmente, um notável contingente ao cômputo das vicissitudes da vida.
O homem as evitará quando trabalhar por se melhorar moralmente, tanto quanto intelectualmente.
5. A lei humana atinge certas faltas e as pune. Pode, então, o condenado reconhecer que sofre a conseqüência do que fez. Mas a lei não atinge, nem pode atingir todas as faltas; incide especialmente sobre as que trazem prejuízo à sociedade e não sobre as que só prejudicam os que as cometem.
Deus, porém, quer que todas as suas criaturas progridam e, portanto, não deixa impune qualquer desvio do caminho reto. Não há falta alguma, por mais leve que seja, nenhuma infração da sua lei, que não acarrete forçosas e inevitáveis conseqüências, mais ou menos deploráveis. Daí se segue que, nas pequenas coisas, como nas grandes, o homem é sempre punido por aquilo em que pecou. Os sofrimentos que decorrem do pecado são-lhe uma advertência de que procedeu mal. Dão-lhe experiência, fazem-lhe sentir a diferença existente entre o bem e o mal e a necessidade de se melhorar para, de futuro, evitar o que lhe originou uma fonte de amarguras; sem o que, motivo não haveria para que se emendasse. Confiante na impunidade, retardaria seu avanço e, conseqüentemente, a sua felicidade futura.
Entretanto, a experiência, algumas vezes, chega um pouco tarde: quando a vida já foi desperdiçada e turbada; quando as forças já estão gastas e sem remédio o mal.
Põe-se então o homem a dizer: “Se no começo dos meus dias eu soubera o que sei hoje, quantos passos em falso teria evitado! Se houvesse de recomeçar, conduzir-me-ia de outra maneira. No entanto, já não há mais tempo!” Como o obreiro preguiçoso, que diz: “Perdi o meu dia”, também ele diz: “Perdi a minha vida”. Contudo, assim como para o obreiro o Sol se levanta no dia seguinte, permitindo-lhe neste reparar o tempo perdido, também para o homem, após a noite do túmulo, brilhará o Sol de uma nova vida, em que lhe será possível aproveitar a experiência do passado e suas boas resoluções para o futuro.
Evangelho Segundo o Espiritismo
Capítulo V
editado pela Federação Espírita Brasileira
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 01:45

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CAUSAS ATUAIS DAS AFLIÇÕES

4. De duas espécies são as vicissitudes da vida, ou, se o preferirem, promanam de duas fontes bem diferentes, que importa distinguir. Umas têm sua causa na vida presente; outras, fora desta vida.
Remontando-se à origem dos males terrestres, reconhecer-se-á que muitos são conseqüência natural do caráter e do proceder dos que os suportam.
Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição!
Quantos se arruínam por falta de ordem, de perseverança, pelo mau proceder, ou por não terem sabido limitar seus desejos!
Quantas uniões desgraçadas, porque resultaram de um cálculo de interesse ou de vaidade e nas quais o coração não tomou parte alguma!
Quantas dissensões e funestas disputas se teriam evitado com um pouco de moderação e menos suscetibilidade!
Quantas doenças e enfermidades decorrem da intemperança e dos excessos de todo gênero!
Quantos pais são infelizes com seus filhos, porque não lhes combateram desde o princípio as más tendências! Por fraqueza, ou indiferença, deixaram que neles se desenvolvessem os gérmens do orgulho, do egoísmo e da tola vaidade, que produzem a secura do coração; depois, mais tarde, quando colhem o que semearam, admiram-se e se afligem da falta de deferência com que são tratados e da ingratidão deles.
Interroguem friamente suas consciências todos os que são feridos no coração pelas vicissitudes e decepções da vida; remontem passo a passo à origem dos males que os torturam e verifiquem se, as mais das vezes, não poderão dizer: Se eu houvesse feito, ou deixado de fazer tal coisa, não estaria em semelhante condição.
A quem, então, há de o homem responsabilizar por todas essas aflições, senão a si mesmo? O homem, pois, em grande número de casos, é o causador de seus próprios infortúnios; mas, em vez de reconhecê-lo, acha mais simples, menos humilhante para a sua vaidade acusar a sorte, a Providência, a má fortuna, a má estrela, ao passo que a má estrela é apenas a sua incúria.
Os males dessa natureza fornecem, indubitavelmente, um notável contingente ao cômputo das vicissitudes da vida.
O homem as evitará quando trabalhar por se melhorar moralmente, tanto quanto intelectualmente.
5. A lei humana atinge certas faltas e as pune. Pode, então, o condenado reconhecer que sofre a conseqüência do que fez. Mas a lei não atinge, nem pode atingir todas as faltas; incide especialmente sobre as que trazem prejuízo à sociedade e não sobre as que só prejudicam os que as cometem.
Deus, porém, quer que todas as suas criaturas progridam e, portanto, não deixa impune qualquer desvio do caminho reto. Não há falta alguma, por mais leve que seja, nenhuma infração da sua lei, que não acarrete forçosas e inevitáveis conseqüências, mais ou menos deploráveis. Daí se segue que, nas pequenas coisas, como nas grandes, o homem é sempre punido por aquilo em que pecou. Os sofrimentos que decorrem do pecado são-lhe uma advertência de que procedeu mal. Dão-lhe experiência, fazem-lhe sentir a diferença existente entre o bem e o mal e a necessidade de se melhorar para, de futuro, evitar o que lhe originou uma fonte de amarguras; sem o que, motivo não haveria para que se emendasse. Confiante na impunidade, retardaria seu avanço e, conseqüentemente, a sua felicidade futura.
Entretanto, a experiência, algumas vezes, chega um pouco tarde: quando a vida já foi desperdiçada e turbada; quando as forças já estão gastas e sem remédio o mal.
Põe-se então o homem a dizer: “Se no começo dos meus dias eu soubera o que sei hoje, quantos passos em falso teria evitado! Se houvesse de recomeçar, conduzir-me-ia de outra maneira. No entanto, já não há mais tempo!” Como o obreiro preguiçoso, que diz: “Perdi o meu dia”, também ele diz: “Perdi a minha vida”. Contudo, assim como para o obreiro o Sol se levanta no dia seguinte, permitindo-lhe neste reparar o tempo perdido, também para o homem, após a noite do túmulo, brilhará o Sol de uma nova vida, em que lhe será possível aproveitar a experiência do passado e suas boas resoluções para o futuro.
Evangelho Segundo o Espiritismo
Capítulo V
editado pela Federação Espírita Brasileira
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 01:45

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Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

TENTAÇÃO DE JESUS - OS MILAGRES DO EVANGELHO

52. Jesus, transportado pelo diabo ao pináculo do Templo, depois ao cume de uma montanha e por ele tentado, constitui uma daquelas parábolas que lhe eram familiares e que a credulidade pública transformou em fatos materiais.1(1 A explicação que se segue é reprodução textual do ensino que a esse respeito deu um Espírito).
53. “Jesus não foi arrebatado. Ele apenas quis fazer que os homens compreendessem que a Humanidade se acha sujeita a falir e que deve estar sempre em guarda contra as más inspirações a que, pela sua natureza fraca, é impelida a ceder. A tentação de Jesus é, pois, uma figura e fora preciso ser cego para tomá-la ao pé da letra. Como pretenderíeis que o Messias, o Verbo de Deus encarnado, tenha estado submetido, por algum tempo, embora muito curto fosse este, às sugestões do demônio e que, como o diz o Evangelho de Lucas, o demônio o houvesse deixado por algum tempo, o que daria a supor que o Cristo continuou submetido ao poder daquela entidade? Não; compreendei melhor os ensinos que vos foram dados. O Espírito do mal nada poderia sobre a essência do bem. Ninguém diz ter visto Jesus no cume da montanha, nem no pináculo do Templo. Certamente, tal fato teria sido de natureza a se espalhar por todos os povos. A tentação, portanto, não constituiu um ato material e físico. Quanto ao ato moral, admitiríeis que o Espírito das trevas pudesse dizer àquele que conhecia sua própria origem e o seu poder: “Adora-me, que te darei todos os remos da Terra?” Desconheceria então o demônio aquele a quem fazia tais oferecimentos? Não é provável. Ora, se o conhecia, suas propostas eram uma insensatez, pois ele
não ignorava que seria repelido por aquele que viera destruir-lhe o império sobre os homens.
“Compreendei, portanto, o sentido dessa parábola, que outra coisa aí não tendes, do mesmo modo que nos casos do Filho Pródigo e do Bom Samaritano. Aquela mostra os perigos que correm os homens, se não resistem à voz íntima que lhes clama sem cessar: ‘Podes ser mais do que és; podes possuir mais do que possuis; podes engrandecer-te, adquirir muito; cede à voz da ambição e todos os teus desejos serão satisfeitos.’ Ela vos mostra o perigo e o meio de o evitardes, dizendo às más inspirações: Retira-te, Satanás ou, por outras palavras: Vai-te, tentação!
“As duas outras parábolas que lembrei mostram o que ainda pode esperar aquele que, por muito fraco para expulsar o demônio, lhe sucumbiu às tentações. Mostram a misericórdia do pai de família, pousando a mão sobre a fronte do filho arrependido e concedendo-lhe, com amor, o perdão implorado. Mostram o culpado, o cismático, o homem repelido por seus irmãos, valendo mais, aos olhos do Juiz Supremo, do que os que o desprezam, por praticar ele as virtudes que a lei de amor ensina.
“Pesai bem os ensinamentos que os Evangelhos contêm; sabei distinguir o que ali está em sentido próprio, ou em sentido figurado, e os erros que vos hão cegado durante tanto tempo se apagarão pouco a pouco, cedendo lugar à brilhante luz da Verdade.”

João Evangelista, Bordéus, 1862.

A GÊNESE - surge nas livrarias a primeira edição em 06.01.1868
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 02:27

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TENTAÇÃO DE JESUS - OS MILAGRES DO EVANGELHO

52. Jesus, transportado pelo diabo ao pináculo do Templo, depois ao cume de uma montanha e por ele tentado, constitui uma daquelas parábolas que lhe eram familiares e que a credulidade pública transformou em fatos materiais.1(1 A explicação que se segue é reprodução textual do ensino que a esse respeito deu um Espírito).
53. “Jesus não foi arrebatado. Ele apenas quis fazer que os homens compreendessem que a Humanidade se acha sujeita a falir e que deve estar sempre em guarda contra as más inspirações a que, pela sua natureza fraca, é impelida a ceder. A tentação de Jesus é, pois, uma figura e fora preciso ser cego para tomá-la ao pé da letra. Como pretenderíeis que o Messias, o Verbo de Deus encarnado, tenha estado submetido, por algum tempo, embora muito curto fosse este, às sugestões do demônio e que, como o diz o Evangelho de Lucas, o demônio o houvesse deixado por algum tempo, o que daria a supor que o Cristo continuou submetido ao poder daquela entidade? Não; compreendei melhor os ensinos que vos foram dados. O Espírito do mal nada poderia sobre a essência do bem. Ninguém diz ter visto Jesus no cume da montanha, nem no pináculo do Templo. Certamente, tal fato teria sido de natureza a se espalhar por todos os povos. A tentação, portanto, não constituiu um ato material e físico. Quanto ao ato moral, admitiríeis que o Espírito das trevas pudesse dizer àquele que conhecia sua própria origem e o seu poder: “Adora-me, que te darei todos os remos da Terra?” Desconheceria então o demônio aquele a quem fazia tais oferecimentos? Não é provável. Ora, se o conhecia, suas propostas eram uma insensatez, pois ele
não ignorava que seria repelido por aquele que viera destruir-lhe o império sobre os homens.
“Compreendei, portanto, o sentido dessa parábola, que outra coisa aí não tendes, do mesmo modo que nos casos do Filho Pródigo e do Bom Samaritano. Aquela mostra os perigos que correm os homens, se não resistem à voz íntima que lhes clama sem cessar: ‘Podes ser mais do que és; podes possuir mais do que possuis; podes engrandecer-te, adquirir muito; cede à voz da ambição e todos os teus desejos serão satisfeitos.’ Ela vos mostra o perigo e o meio de o evitardes, dizendo às más inspirações: Retira-te, Satanás ou, por outras palavras: Vai-te, tentação!
“As duas outras parábolas que lembrei mostram o que ainda pode esperar aquele que, por muito fraco para expulsar o demônio, lhe sucumbiu às tentações. Mostram a misericórdia do pai de família, pousando a mão sobre a fronte do filho arrependido e concedendo-lhe, com amor, o perdão implorado. Mostram o culpado, o cismático, o homem repelido por seus irmãos, valendo mais, aos olhos do Juiz Supremo, do que os que o desprezam, por praticar ele as virtudes que a lei de amor ensina.
“Pesai bem os ensinamentos que os Evangelhos contêm; sabei distinguir o que ali está em sentido próprio, ou em sentido figurado, e os erros que vos hão cegado durante tanto tempo se apagarão pouco a pouco, cedendo lugar à brilhante luz da Verdade.”

João Evangelista, Bordéus, 1862.

A GÊNESE - surge nas livrarias a primeira edição em 06.01.1868
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