Terça-feira, 19 de Maio de 2009

O ANJO E O MALFEITOR


O mensageiro do Céu volveu do Alto a sombrio vale do mundo, em apoio de centenas de criaturas mergulhadas na enfermidade e no crime, na miséria e na ignorância, e, necessitando de concurso alheio para estender socorro urgente, começou por recorrer à publicação de apelos do próprio Evangelho, induzindo corações, em nome do Cristo, à compaixão e à caridade.
Entretanto, porque tardasse qualquer resultado concreto, de vez que todos os habitantes do vale se comoviam com as legendas, mas não se encorajavam à menor manifestação de amparo ao próximo, o Enviado Celestial, convicto de que fora recomendado pelo Senhor a servir e não a questionar, julgou mais acertado assumir a forma de um homem e solicitar sem delegar o apoio de alguém que lhe pudesse prestar auxílio.
Materializado a preceito, procurou pela colaboração dos homens considerados mais responsáveis.
Humilde e resoluto, repetia sempre o mesmo convite à prática evangélica, registrando respostas que o surpreendiam pela diferença.
O VIRTUOSO – Não posso manchar meu nome em contacto à prática evangélica, registrando respostas que o surpreendiam pela diferença.
O SÁBIO – Cada qual está na colheita daquilo que semeou. Falta-me tempo para ajudar vagabundos, voluntariamente distanciados da própria restauração.
O PRUDENTE – Não posso arriscar minha posição dificilmente conquistada, na intimidade de pessoas que me prejudicariam a estima pública.
O FILANTROPO – Dou o dinheiro que seja necessário, mas de modo algum me animaria a lavar feridas de quem quer que seja.
O PREGADOR – Que diriam de mim se me vissem na companhia de criminosos?
O FILÓSOFO – Nunca desceria a semelhante infantilidade... Aspiro a alcançar as mais altas revelaçãos do Universo. Devo estudar infinitamente... Além disso, estou cansado de saber que, se não houvesse sofrimento, ninguém se livraria do mal...
O PESQUISADOR DA VERDADE – Não sou a pessoa indicada. Caridade é capa de muitas dobras, que tanto acolhe o altruísmo quanto a fraude. Não me incomode... Procuro tão-somente as realizações essenciais.
Desencanto, o Mensageiro bateu à porta de conhecido malfeitor, aliás, a pessoa menos categorizada para a tarefa, e reformulou a solicitação.
O convidado, embora os desajustes íntimos, considerou, de imediato, a honra que o Senhor lhe fazia, propiciando-lhe o ensejo de operar no levantamento do bem geral, e meditou, agradecido, na Infinita Bondade que o arrancava da condenação para o favor do serviço. Não vacilou. Seguiu aquele desconhecido de maneiras fraternais que lhe pedia cooperação e entregou-se decididamente ao trabalho. Em pouco tempo, conheceu a fundo o martírio das mãos desamparadas, entre a doença e a penúria, carregando órfãos de pais vivos; o pranto das viúvas relegadas à solidão; as aflições dos enfermos que esperavam a morte nas áreas de ninguém; a tragédia das crianças abandonadas; o suplício dos caluniados sem defesa; os problemas terr´veis dos obsidiados sem assistência; a mágoa das vítimas dos preconceitos levados ao exagero pelo orgulho social; a angústia dos sofredores caídos em desespero pela ausência de fé...
Modificado nos mais profundos sentimentos, o ex-malfeitor consagrou-se ao alívio e à felicidade dos outros, e, percebendo necessidades e provações que não conhecia, procurou instruír-se e aperfeiçoar-se. Com quarenta anos de abnegação, adquiriu as qualidades básicas dos Virtuosos, os recursos primordiais do Sábio, o equilíbrio do Prudente, as facilidades econômicas do Filantropo, a competência do Pregador, a acuidade mental do Filósofo e os altos pensamentos do Pesquisador da Verdade...
Quando largou o corpo físico, pela desencarnação – Espírito lucificado no cadinho da própria regeneração, ao calor do devotamento ao próximo -, entrou vitoriosamente no Céu, para a ascensão a outros Céus...
.............................................................
Um dia, chegaram ao limiar da Esfera Superior o Virtuoso, o Sábio, o Prudente, o Filantropo, o Pregador, o Filósofo e o Pesquisador da Verdade... Examinados na Justiça Divina, foram considerados dígnos perante as Leis do Senhor; entretanto, para o mérito de seguirem adiante, luzes acima, faltava-lhes trabalhar na seara do amor aos semelhantes... Enquanto na Terra, não haviam desentranhado os tesouros que Deus lhes havia conferido em benefício dos outros, Cabia-lhes, assim, o dever de regressar às lides da reencarnação, mas, porque haviam abraçado conduta respeitável no mundo, o Virtuosos receberia, na existência vindoura, mais veneração, o Sábio mais apreço, o Prudente mais serenidade, o Filantropo mais dinheiro, o Pregador mais inspiração, o Filósofo mais discernimento e o Pesquisador da Verdade mais luz...
Observando, porém, que o malfeitor, sobejamente conhecido deles todos, vestia alva túnica resplendente, funcionando entre os agentes da Divina Justiça, começaram a discutir entre sí, incapazes de reconhecer que na obra do amor qualquer filho de Deus encontra os instrumentos e caminhos da própria renovação. Desalentados, passaram a reclamar... Em nome dos companheiros, o Virtuoso aproximou-se do orientador maior que lhes revisava os interesses no Plano Espiritual e indagou:
- Venerável Juiz, por que motivo um malfeitor atravessou, antes de nós, as fronteiras do Céu?!...
O magistrado, porém, abençoou-lhe a inquietação com um sorriso e informou, simplesmente:
- Serviu.

Livro Estante da Vida – Pelo Espírito “Irmão X” - Psicografia Francisco C. Xavier
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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 17:35

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O ANJO E O MALFEITOR


O mensageiro do Céu volveu do Alto a sombrio vale do mundo, em apoio de centenas de criaturas mergulhadas na enfermidade e no crime, na miséria e na ignorância, e, necessitando de concurso alheio para estender socorro urgente, começou por recorrer à publicação de apelos do próprio Evangelho, induzindo corações, em nome do Cristo, à compaixão e à caridade.
Entretanto, porque tardasse qualquer resultado concreto, de vez que todos os habitantes do vale se comoviam com as legendas, mas não se encorajavam à menor manifestação de amparo ao próximo, o Enviado Celestial, convicto de que fora recomendado pelo Senhor a servir e não a questionar, julgou mais acertado assumir a forma de um homem e solicitar sem delegar o apoio de alguém que lhe pudesse prestar auxílio.
Materializado a preceito, procurou pela colaboração dos homens considerados mais responsáveis.
Humilde e resoluto, repetia sempre o mesmo convite à prática evangélica, registrando respostas que o surpreendiam pela diferença.
O VIRTUOSO – Não posso manchar meu nome em contacto à prática evangélica, registrando respostas que o surpreendiam pela diferença.
O SÁBIO – Cada qual está na colheita daquilo que semeou. Falta-me tempo para ajudar vagabundos, voluntariamente distanciados da própria restauração.
O PRUDENTE – Não posso arriscar minha posição dificilmente conquistada, na intimidade de pessoas que me prejudicariam a estima pública.
O FILANTROPO – Dou o dinheiro que seja necessário, mas de modo algum me animaria a lavar feridas de quem quer que seja.
O PREGADOR – Que diriam de mim se me vissem na companhia de criminosos?
O FILÓSOFO – Nunca desceria a semelhante infantilidade... Aspiro a alcançar as mais altas revelaçãos do Universo. Devo estudar infinitamente... Além disso, estou cansado de saber que, se não houvesse sofrimento, ninguém se livraria do mal...
O PESQUISADOR DA VERDADE – Não sou a pessoa indicada. Caridade é capa de muitas dobras, que tanto acolhe o altruísmo quanto a fraude. Não me incomode... Procuro tão-somente as realizações essenciais.
Desencanto, o Mensageiro bateu à porta de conhecido malfeitor, aliás, a pessoa menos categorizada para a tarefa, e reformulou a solicitação.
O convidado, embora os desajustes íntimos, considerou, de imediato, a honra que o Senhor lhe fazia, propiciando-lhe o ensejo de operar no levantamento do bem geral, e meditou, agradecido, na Infinita Bondade que o arrancava da condenação para o favor do serviço. Não vacilou. Seguiu aquele desconhecido de maneiras fraternais que lhe pedia cooperação e entregou-se decididamente ao trabalho. Em pouco tempo, conheceu a fundo o martírio das mãos desamparadas, entre a doença e a penúria, carregando órfãos de pais vivos; o pranto das viúvas relegadas à solidão; as aflições dos enfermos que esperavam a morte nas áreas de ninguém; a tragédia das crianças abandonadas; o suplício dos caluniados sem defesa; os problemas terr´veis dos obsidiados sem assistência; a mágoa das vítimas dos preconceitos levados ao exagero pelo orgulho social; a angústia dos sofredores caídos em desespero pela ausência de fé...
Modificado nos mais profundos sentimentos, o ex-malfeitor consagrou-se ao alívio e à felicidade dos outros, e, percebendo necessidades e provações que não conhecia, procurou instruír-se e aperfeiçoar-se. Com quarenta anos de abnegação, adquiriu as qualidades básicas dos Virtuosos, os recursos primordiais do Sábio, o equilíbrio do Prudente, as facilidades econômicas do Filantropo, a competência do Pregador, a acuidade mental do Filósofo e os altos pensamentos do Pesquisador da Verdade...
Quando largou o corpo físico, pela desencarnação – Espírito lucificado no cadinho da própria regeneração, ao calor do devotamento ao próximo -, entrou vitoriosamente no Céu, para a ascensão a outros Céus...
.............................................................
Um dia, chegaram ao limiar da Esfera Superior o Virtuoso, o Sábio, o Prudente, o Filantropo, o Pregador, o Filósofo e o Pesquisador da Verdade... Examinados na Justiça Divina, foram considerados dígnos perante as Leis do Senhor; entretanto, para o mérito de seguirem adiante, luzes acima, faltava-lhes trabalhar na seara do amor aos semelhantes... Enquanto na Terra, não haviam desentranhado os tesouros que Deus lhes havia conferido em benefício dos outros, Cabia-lhes, assim, o dever de regressar às lides da reencarnação, mas, porque haviam abraçado conduta respeitável no mundo, o Virtuosos receberia, na existência vindoura, mais veneração, o Sábio mais apreço, o Prudente mais serenidade, o Filantropo mais dinheiro, o Pregador mais inspiração, o Filósofo mais discernimento e o Pesquisador da Verdade mais luz...
Observando, porém, que o malfeitor, sobejamente conhecido deles todos, vestia alva túnica resplendente, funcionando entre os agentes da Divina Justiça, começaram a discutir entre sí, incapazes de reconhecer que na obra do amor qualquer filho de Deus encontra os instrumentos e caminhos da própria renovação. Desalentados, passaram a reclamar... Em nome dos companheiros, o Virtuoso aproximou-se do orientador maior que lhes revisava os interesses no Plano Espiritual e indagou:
- Venerável Juiz, por que motivo um malfeitor atravessou, antes de nós, as fronteiras do Céu?!...
O magistrado, porém, abençoou-lhe a inquietação com um sorriso e informou, simplesmente:
- Serviu.

Livro Estante da Vida – Pelo Espírito “Irmão X” - Psicografia Francisco C. Xavier
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Domingo, 17 de Maio de 2009

O ADVERSÁRIO INVISÍVEL


À frente do Senhor, nos arredores de Sídon, quatro dos discípulos, após viagem longa por diferentes caminhos, a serviço da Boa Nova, relatavam os sucessos do dia, observados pelo Divino Amigo, em silêncio:
- Eu – dizia Pedro sob impressão forte -, surpreendido por quadro constrangedor. Impiedoso capataz batia, cruel, sobre o dorso nu de três mães escravas, cujos filhinhos choravam, estarrecidos. Um pensamento imperioso de auxílio dominou-me. Quis correr, sem detença, e, em nome da Boa Nova, socorrer aquelas mulheres desamparadas. Certo, não entraria em luta corporal com o desalmado fiscal de serviço, mas poderia, com a súplica, ajudá-lo a raciocinar. Quantas vezes, um simples pedido que nasce do coração aplaca o furor da ira?
O apostolo fixou um gesto significativo e acentuou:
- No entanto, tive receio de entrar na questão, que me pareceu intrincada...Que diria o perverso disciplinador? Minha intromissão poderia criar dificuldades até mesmo para nós...
Silenciando Pedro, falou Tiago, filho de Zebedeu:
- No trilho de vinda para cá, fui interpelado por jovem mulher com uma criança ao colo. Arrastava-se quase, deixando perceber profundo abatimento... Pediu-me socorro em voz pungente e, francamente, muito me condoí da infeliz, que se declarava infortunada viúva dum vinhateiro. Sem dúvida, era dolorosa a posição em que se colocara e, num movimento instintivo de solidariedade, ia oferecer-lhe o braço amigo e fraterno, para que se apoiasse; mas, recordei, de súbito, que não longe dali estava uma colônia de trabalho ativo...
O companheiro interrompeu-se, um tanto desapontado, e prosseguiu:
- E se alguém me visse em companhia de semelhante mulher? Poderiam dizer que ensino os princípios da Boa Nova e, ao mesmo tempo, sou motivo de escândalo. A opinião do mundo é descaridosa...
Outro aprendiz adiantou-se.
Era Bartolomeu, que contou, espantadiço:
- Em minha jornada para cá, não me faltou desejo à sementeira do bem. Todavia, que querem? Apenas lobriguei conhecido ladrão. Vi-o a gemer sob duas figueiras farfalhudas, durante longos minutos, no transcurso dos quais me inclinei a prestar-lhe assistência rápida... Pareceu-me ferido no peito, em razão do sangue e porejar-lhe da túnica; mas tive receio de inesperada incursão das autoridades pelo sítio e fugi... Se me pilhassem, ao lado dele, que seria de mim?
Calando-se Bartolomeu, falou Filipe:
- Comigo, os acontecimentos foram diversos... Quase ao chegar a Sídon, fui cercado por uma assembléia de trinta pessoas, rogando conselhos sobre a senda de perfeição. Desejavam ser instruídas quanto às novas idéias do Reino de Deus e dirigiam-se a mim, ansiosamente. Contemplavam-me, simples e confiantes; todavia, ponderei as minhas próprias imperfeições e senti escrúpulos... Vendo-me roído de tantos pecados e escabrosos defeitos, julguei mais prudente evitar a critica dos outros. A ironia é um chicote inconsciente. Por isso, emudeci e aqui estou.
Continuava Jesus silencioso, mas Simão Pedro caminhou para ele e indagou:
- Mestre, que dizes? Desejamos efetivamente praticar o bem, mas como agir dentro das normas de amor que nos traças, se nos achamos, em toda parte do mundo, rodados de inimigos?
O Amigo Celeste, porém, considerou, breve:
- Pedro, todos os fracassos do dia constituem a resultante da ação de um só adversário que muitos acalentam. Esse adversário invisível é o medo. Tiveste medo da opinião dos outros, Tiago sentiu medo da reprovação alheia, Bartolomeu asilou o medo da perseguição e Felipe guardou o medo da crítica...
Aflito, o pescador de Cafarnaum interrogou:
- Senhor, como nos livraremos de semelhante inimigo?
O Mestre sorriu compassivo e respondeu:
- Quando o tempo e a dor difundirem, entre os homens, a legítima compreensão da vida e o verdadeiro amor ao próximo, ninguém mais temerá.
Em seguida, talvez porque o silêncio pesasse em excesso, afastou-se sozinho, na direção do mar.

Livro: Pontos e Contos Psicografia Francisco Cândido Xavier - Pelo espírito: Irmão X
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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 23:11

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O ADVERSÁRIO INVISÍVEL


À frente do Senhor, nos arredores de Sídon, quatro dos discípulos, após viagem longa por diferentes caminhos, a serviço da Boa Nova, relatavam os sucessos do dia, observados pelo Divino Amigo, em silêncio:
- Eu – dizia Pedro sob impressão forte -, surpreendido por quadro constrangedor. Impiedoso capataz batia, cruel, sobre o dorso nu de três mães escravas, cujos filhinhos choravam, estarrecidos. Um pensamento imperioso de auxílio dominou-me. Quis correr, sem detença, e, em nome da Boa Nova, socorrer aquelas mulheres desamparadas. Certo, não entraria em luta corporal com o desalmado fiscal de serviço, mas poderia, com a súplica, ajudá-lo a raciocinar. Quantas vezes, um simples pedido que nasce do coração aplaca o furor da ira?
O apostolo fixou um gesto significativo e acentuou:
- No entanto, tive receio de entrar na questão, que me pareceu intrincada...Que diria o perverso disciplinador? Minha intromissão poderia criar dificuldades até mesmo para nós...
Silenciando Pedro, falou Tiago, filho de Zebedeu:
- No trilho de vinda para cá, fui interpelado por jovem mulher com uma criança ao colo. Arrastava-se quase, deixando perceber profundo abatimento... Pediu-me socorro em voz pungente e, francamente, muito me condoí da infeliz, que se declarava infortunada viúva dum vinhateiro. Sem dúvida, era dolorosa a posição em que se colocara e, num movimento instintivo de solidariedade, ia oferecer-lhe o braço amigo e fraterno, para que se apoiasse; mas, recordei, de súbito, que não longe dali estava uma colônia de trabalho ativo...
O companheiro interrompeu-se, um tanto desapontado, e prosseguiu:
- E se alguém me visse em companhia de semelhante mulher? Poderiam dizer que ensino os princípios da Boa Nova e, ao mesmo tempo, sou motivo de escândalo. A opinião do mundo é descaridosa...
Outro aprendiz adiantou-se.
Era Bartolomeu, que contou, espantadiço:
- Em minha jornada para cá, não me faltou desejo à sementeira do bem. Todavia, que querem? Apenas lobriguei conhecido ladrão. Vi-o a gemer sob duas figueiras farfalhudas, durante longos minutos, no transcurso dos quais me inclinei a prestar-lhe assistência rápida... Pareceu-me ferido no peito, em razão do sangue e porejar-lhe da túnica; mas tive receio de inesperada incursão das autoridades pelo sítio e fugi... Se me pilhassem, ao lado dele, que seria de mim?
Calando-se Bartolomeu, falou Filipe:
- Comigo, os acontecimentos foram diversos... Quase ao chegar a Sídon, fui cercado por uma assembléia de trinta pessoas, rogando conselhos sobre a senda de perfeição. Desejavam ser instruídas quanto às novas idéias do Reino de Deus e dirigiam-se a mim, ansiosamente. Contemplavam-me, simples e confiantes; todavia, ponderei as minhas próprias imperfeições e senti escrúpulos... Vendo-me roído de tantos pecados e escabrosos defeitos, julguei mais prudente evitar a critica dos outros. A ironia é um chicote inconsciente. Por isso, emudeci e aqui estou.
Continuava Jesus silencioso, mas Simão Pedro caminhou para ele e indagou:
- Mestre, que dizes? Desejamos efetivamente praticar o bem, mas como agir dentro das normas de amor que nos traças, se nos achamos, em toda parte do mundo, rodados de inimigos?
O Amigo Celeste, porém, considerou, breve:
- Pedro, todos os fracassos do dia constituem a resultante da ação de um só adversário que muitos acalentam. Esse adversário invisível é o medo. Tiveste medo da opinião dos outros, Tiago sentiu medo da reprovação alheia, Bartolomeu asilou o medo da perseguição e Felipe guardou o medo da crítica...
Aflito, o pescador de Cafarnaum interrogou:
- Senhor, como nos livraremos de semelhante inimigo?
O Mestre sorriu compassivo e respondeu:
- Quando o tempo e a dor difundirem, entre os homens, a legítima compreensão da vida e o verdadeiro amor ao próximo, ninguém mais temerá.
Em seguida, talvez porque o silêncio pesasse em excesso, afastou-se sozinho, na direção do mar.

Livro: Pontos e Contos Psicografia Francisco Cândido Xavier - Pelo espírito: Irmão X
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Sábado, 9 de Maio de 2009

CARTA A MINHA MÃE



Hoje, mamãe, eu não te escrevo daquele gabinete cheio de livros sábios, onde o teu filho, pobre e enfermo, via passar os espectros dos enigmas humanos junto da lâmpada que, aos poucos, lhe devorava os olhos, no silêncio da noite.
A mão que me serve de porta-caneta é a mão cansada de um homem paupérrimo que trabalhou o dia inteiro, buscando o pão amargo e quotidiano dos que lutam e sofrem. A minha secretária é uma tripeça tosca à guisa de mesa e as paredes que se rodeiam são nuas e tristes como aquelas de nossa casa desconfortável em Pedra do Sal. O telhado sem forro deixa passar a ventania lamentosa da noite e deste remanso humilde onde a pobreza se esconde, exausta e desalentada, eu te escrevo sem insônias e sem fadigas para contar-te que ainda estou vivendo para amar e querer a mais nobre das mães.
Queria voltar ao mundo que eu deixei para ser novamente teu filho, desejando fazer-me um menino, aprendendo a rezar com o teu espírito santificado nos sofrimentos.
A saudade do teu afeto leva-me constantemente a essa Parnaíba das nossas recordações, cujas ruas arenosas, saturadas do vento salitroso do mar, sensibilizam a minha personalidade e dentro do crepúsculo estrelado de tua velhice, cheia de crença e de esperança, vou contigo, em espírito, nos retrospectos prodigiosos da imaginação, aos nossos tempos distantes. Vejo-te com os teus vestidos modestos em nossa casa da Miritiba, suportando com serenidade e devotamento os caprichos alegres de meu pai. Depois, faço a recapitulação dos teus dias de viuvez dolorosa junto da máquina de costura e do teu "terço" de orações, sacrificando a mocidade e a saúde pelos filhos, chorando com eles a orfandade que o destino lhe reservara e junto da figura gorda e risonha da Midoca ajoelho-me aos teus pés e repito:
- Meu Senhor Jesus Cristo, se eu não tiver de ter uma boa sorte, levai-me deste mundo, dando-me uma boa morte.
Muitas vezes, o destino te fez crer que partirias antes daqueles que havias nutrido com o beijo das tuas carícias, demandando os mundos ermos e frios da Morte. Mas partimos e tu ficaste. Ficaste no cadinho doloroso da Saudade, prolongando a esperança numa vida melhor no seio imenso da eternidade. E o culto dos filhos é o consolo suave do teu coração. Acariciando os teus netos, guardas com desvelo o meu cajueiro que aí ficou como um símbolo, plantado no coração da terra parnaibana e, carinhosamente, colhes das suas castanhas e das suas folhas fartas e verdes, para que as almas boas conservem uma lembrança do teu filho, arrebatado no turbilhão da Dor e da Morte.
Ao Mirocles, mamãe, que providenciou quanto ao destino desse irmão que aí deixei, enfeitado de flores e passarinhos, estuante de selva na carne moça da terra, pedi velasse pelos teus dias de isolamento e velhice, substituindo-me junto do teu coração. Todos os nossos te estendem as suas mãos bondosas e amigas e é assombrada que, hoje, ouves a minha voz, através das mensagens que tenho escrito para quantos me possam compreender. Sensibilizam-se as tuas lágrimas, quando passas os olhos cansados sobre as minhas páginas póstumas e procuro dissipar as dúvidas que torturam o teu coração, combalido nas lutas. Assalta-me o desejo de me encontrares, tocando-me com a generosa ternura de tuas mãos, lamentando as tuas vacilações e os teus escrúpulos, temendo aceitar as verdades espíritas em detrimento da fé católica que te vem sustentando nas provações. Mas não é preciso, mamãe, que me procures nas organizações espiritistas e para creres na sobrevivência do teu filho não é necessário que abandones os princípios da tua fé. Já não há mais tempo para que o teu espírito excursione em experiências no caminho vasto das filosofias religiosas.
Numa de suas páginas, dizia Coelho Neto que as religiões são como as linguagens. Cada doutrina envia a Deus, a seu modo, o voto de sua súplica ou de sua adoração. Muitas mentalidades entregam-se aí no mundo aos trabalhos da discussão. Chega porém um dia em que o homem acha melhor repousar na fé a que se habituou, nas suas meditações e nas suas lutas. Esse dia, mamãe, é o que estás vivendo, refugiada no conforto triste das lágrimas e das recordações. Ascendendo às culminâncias do teu Calvário de saudade e de angústia, fixas os teus olhos na celeste expressão do Crucificado, e Jesus que é a providência misericordiosa de todos os desamparados e de todos os tristes, te fala ao coração dos vinhos suaves e doces de Caná que se metamorfosearam no vinagre amargoso dos martírios e das palmas verdes de Jerusalém que se transformaram na pesada coroa de espinhos. A cruz então se te afigura mais leve e caminhas. Amigos devotados e carinhosos te enviam de longe o terno consolo dos seus afetos e prosseguindo no teu culto de amor aos filhos distantes, esperas que o Senhor com as suas mãos prestigiosas, venha decifrar para os teus olhos os grandes mistérios da Vida.
Esperar e sofrer têm sido os dois grandes motivos em torno dos quais rodopiaram os teus quase setenta e cinco anos de provações, de viuvez e de orfandade.
E eu, minha mãe, não estou mais aí para afagar-te as mãos trêmulas e os teus cabelos brancos que as dores santificaram. Não posso prover-te de pão e nem guardar te da fúria da tempestade, mas abraçando o teu espírito, sou a força que adquires na oração como se absorvesses um vinho misterioso e divino. .
Inquirido certa vez pelo grande Luís Gama sobre as necessidades de sua alforria, um jovem escravo lhe observou:
"Não, meu senhor!. .. A liberdade que me oferece me doeria mais que o ferrete da escravidão, porque minha mãe, cansada e decrépita, ficaria sozinha nos martírios do cativeiro."
Se Deus me perguntasse, mamãe, sobre os imperativos da minha emancipação espiritual, eu teria preferido ficar aí, não obstante a claridade apagada e triste dos meus olhos e hipertrofia que me transformava num monstro para levar-te o meu carinho e a minha afeição, até que pudéssemos partir juntos, desse mundo onde sonhamos tudo para nada alcançar.
Mas se a Morte parte os grilhões frágeis do corpo, é impotente para dissolver as algemas inquebrantáveis do espírito.
Deixa que o teu coração prossiga, oficiando no altar da saudade e da oração; cântaro divino e santificado, Deus colocará dentro dele o mel abençoado da esperança e da crença, e, um dia, no portal ignorado do mundo das sombras, eu virei, de mãos entrelaçadas com a Midoca, retrocedendo no tempo para nos transformarmos em tuas crianças bem-amadas. Seremos agasalhados então nos teus braços cariciosos como dois passarinhos minúsculos, ansiosos da doçura quente e doce das asas de sua mãe e guardaremos as nossas lágrimas nos cofres de Deus onde elas se cristalizam como as moedas fulgurantes e eternas do erário de todos os infelizes e desafortunados do mundo.
- Tuas mãos segurarão ainda o "terço" das preces inesquecíveis e nos ensinarás, de joelhos, a implorar de mãos postas as bênçãos prestigiosas do Céu. E enquanto os teus lábios sussurrarem de mansinho - "Salve, Rainha...mãe de misericórdia...", começaremos juntos a viagem ditosa do Infinito sobre o dossel luminoso das nuvens claras, tênues e alegres do Amor.
Humberto de Campos - Irmão X
Livro Mãe. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 16:48

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CARTA A MINHA MÃE



Hoje, mamãe, eu não te escrevo daquele gabinete cheio de livros sábios, onde o teu filho, pobre e enfermo, via passar os espectros dos enigmas humanos junto da lâmpada que, aos poucos, lhe devorava os olhos, no silêncio da noite.
A mão que me serve de porta-caneta é a mão cansada de um homem paupérrimo que trabalhou o dia inteiro, buscando o pão amargo e quotidiano dos que lutam e sofrem. A minha secretária é uma tripeça tosca à guisa de mesa e as paredes que se rodeiam são nuas e tristes como aquelas de nossa casa desconfortável em Pedra do Sal. O telhado sem forro deixa passar a ventania lamentosa da noite e deste remanso humilde onde a pobreza se esconde, exausta e desalentada, eu te escrevo sem insônias e sem fadigas para contar-te que ainda estou vivendo para amar e querer a mais nobre das mães.
Queria voltar ao mundo que eu deixei para ser novamente teu filho, desejando fazer-me um menino, aprendendo a rezar com o teu espírito santificado nos sofrimentos.
A saudade do teu afeto leva-me constantemente a essa Parnaíba das nossas recordações, cujas ruas arenosas, saturadas do vento salitroso do mar, sensibilizam a minha personalidade e dentro do crepúsculo estrelado de tua velhice, cheia de crença e de esperança, vou contigo, em espírito, nos retrospectos prodigiosos da imaginação, aos nossos tempos distantes. Vejo-te com os teus vestidos modestos em nossa casa da Miritiba, suportando com serenidade e devotamento os caprichos alegres de meu pai. Depois, faço a recapitulação dos teus dias de viuvez dolorosa junto da máquina de costura e do teu "terço" de orações, sacrificando a mocidade e a saúde pelos filhos, chorando com eles a orfandade que o destino lhe reservara e junto da figura gorda e risonha da Midoca ajoelho-me aos teus pés e repito:
- Meu Senhor Jesus Cristo, se eu não tiver de ter uma boa sorte, levai-me deste mundo, dando-me uma boa morte.
Muitas vezes, o destino te fez crer que partirias antes daqueles que havias nutrido com o beijo das tuas carícias, demandando os mundos ermos e frios da Morte. Mas partimos e tu ficaste. Ficaste no cadinho doloroso da Saudade, prolongando a esperança numa vida melhor no seio imenso da eternidade. E o culto dos filhos é o consolo suave do teu coração. Acariciando os teus netos, guardas com desvelo o meu cajueiro que aí ficou como um símbolo, plantado no coração da terra parnaibana e, carinhosamente, colhes das suas castanhas e das suas folhas fartas e verdes, para que as almas boas conservem uma lembrança do teu filho, arrebatado no turbilhão da Dor e da Morte.
Ao Mirocles, mamãe, que providenciou quanto ao destino desse irmão que aí deixei, enfeitado de flores e passarinhos, estuante de selva na carne moça da terra, pedi velasse pelos teus dias de isolamento e velhice, substituindo-me junto do teu coração. Todos os nossos te estendem as suas mãos bondosas e amigas e é assombrada que, hoje, ouves a minha voz, através das mensagens que tenho escrito para quantos me possam compreender. Sensibilizam-se as tuas lágrimas, quando passas os olhos cansados sobre as minhas páginas póstumas e procuro dissipar as dúvidas que torturam o teu coração, combalido nas lutas. Assalta-me o desejo de me encontrares, tocando-me com a generosa ternura de tuas mãos, lamentando as tuas vacilações e os teus escrúpulos, temendo aceitar as verdades espíritas em detrimento da fé católica que te vem sustentando nas provações. Mas não é preciso, mamãe, que me procures nas organizações espiritistas e para creres na sobrevivência do teu filho não é necessário que abandones os princípios da tua fé. Já não há mais tempo para que o teu espírito excursione em experiências no caminho vasto das filosofias religiosas.
Numa de suas páginas, dizia Coelho Neto que as religiões são como as linguagens. Cada doutrina envia a Deus, a seu modo, o voto de sua súplica ou de sua adoração. Muitas mentalidades entregam-se aí no mundo aos trabalhos da discussão. Chega porém um dia em que o homem acha melhor repousar na fé a que se habituou, nas suas meditações e nas suas lutas. Esse dia, mamãe, é o que estás vivendo, refugiada no conforto triste das lágrimas e das recordações. Ascendendo às culminâncias do teu Calvário de saudade e de angústia, fixas os teus olhos na celeste expressão do Crucificado, e Jesus que é a providência misericordiosa de todos os desamparados e de todos os tristes, te fala ao coração dos vinhos suaves e doces de Caná que se metamorfosearam no vinagre amargoso dos martírios e das palmas verdes de Jerusalém que se transformaram na pesada coroa de espinhos. A cruz então se te afigura mais leve e caminhas. Amigos devotados e carinhosos te enviam de longe o terno consolo dos seus afetos e prosseguindo no teu culto de amor aos filhos distantes, esperas que o Senhor com as suas mãos prestigiosas, venha decifrar para os teus olhos os grandes mistérios da Vida.
Esperar e sofrer têm sido os dois grandes motivos em torno dos quais rodopiaram os teus quase setenta e cinco anos de provações, de viuvez e de orfandade.
E eu, minha mãe, não estou mais aí para afagar-te as mãos trêmulas e os teus cabelos brancos que as dores santificaram. Não posso prover-te de pão e nem guardar te da fúria da tempestade, mas abraçando o teu espírito, sou a força que adquires na oração como se absorvesses um vinho misterioso e divino. .
Inquirido certa vez pelo grande Luís Gama sobre as necessidades de sua alforria, um jovem escravo lhe observou:
"Não, meu senhor!. .. A liberdade que me oferece me doeria mais que o ferrete da escravidão, porque minha mãe, cansada e decrépita, ficaria sozinha nos martírios do cativeiro."
Se Deus me perguntasse, mamãe, sobre os imperativos da minha emancipação espiritual, eu teria preferido ficar aí, não obstante a claridade apagada e triste dos meus olhos e hipertrofia que me transformava num monstro para levar-te o meu carinho e a minha afeição, até que pudéssemos partir juntos, desse mundo onde sonhamos tudo para nada alcançar.
Mas se a Morte parte os grilhões frágeis do corpo, é impotente para dissolver as algemas inquebrantáveis do espírito.
Deixa que o teu coração prossiga, oficiando no altar da saudade e da oração; cântaro divino e santificado, Deus colocará dentro dele o mel abençoado da esperança e da crença, e, um dia, no portal ignorado do mundo das sombras, eu virei, de mãos entrelaçadas com a Midoca, retrocedendo no tempo para nos transformarmos em tuas crianças bem-amadas. Seremos agasalhados então nos teus braços cariciosos como dois passarinhos minúsculos, ansiosos da doçura quente e doce das asas de sua mãe e guardaremos as nossas lágrimas nos cofres de Deus onde elas se cristalizam como as moedas fulgurantes e eternas do erário de todos os infelizes e desafortunados do mundo.
- Tuas mãos segurarão ainda o "terço" das preces inesquecíveis e nos ensinarás, de joelhos, a implorar de mãos postas as bênçãos prestigiosas do Céu. E enquanto os teus lábios sussurrarem de mansinho - "Salve, Rainha...mãe de misericórdia...", começaremos juntos a viagem ditosa do Infinito sobre o dossel luminoso das nuvens claras, tênues e alegres do Amor.
Humberto de Campos - Irmão X
Livro Mãe. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 16:48

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Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

ACERCA DA PENA DA MORTE



Indaga você como apreciam os desencarnados a instituição da pena de morte, e acrescenta: – “não será justo subtrair o corpo ao espírito que se fez criminoso? será lícito permitir a comunhão de um tarado com as pessoas normais?”
E daqui poderíamos argumentar: – quem de nós terá usado o corpo como devia? quem terá atingido a estatura espiritual da verdadeira humanidade para considerar-se em plenitude de equilíbrio?
A execução de uma sentença de morte, na maioria dos casos, é a libertação prematura da alma que se arrojou ao despenhadeiro da sombra. E sabemos que só a pena de viver na carne é suscetível de realizar a recuperação daqueles que se fizeram réus confessos diante dos tribunais humanos.
Não vale afugentar moscas sem curar a ferida.
Eliminar a carne não é modificar o espírito.
Um assassinado, quando não possui energia suficiente para desculpar a ofensa e esquecê-la, habitualmente passa a gravitar em torno daquele que lhe arrancou a vida, criando os fenômenos comuns da obsessão; e as vitimas da forca ou do fuzilamento, do machado ou da cadeira elétrica, se não constituem padrões de heroísmo e renunciação, de imediato, além-túmulo, vampirizam o organismo social que lhes impôs o afastamento do veiculo físico, transformando-se em quistos vivos da fermentação da discórdia e da indisciplina,.
O tribunal terrestre jamais decidirá, com segurança, sobre a extinção do crime, sem o concurso ativo do hospital e da escola.
Sem o professor e sem o médico, o juiz de sã consciência viverá sempre atormentado pela obrigação de prender e condenar, descendo da dignidade da toga para ombrear com os que se dedicam à flagelação alheia.
A função da justiça penal, dentro da civilização considerada cristã, é, acima de tudo, reeducar.
Sem o entendimento fraterno na base de nossas relações uns com os outros, não nos distanciaremos do labirinto de talião, que pretende converter o mundo em eterno sorvedouro de males renascentes.
Jesus, o divino libertador, veio quebrar algemas que nos jungiam aos princípios do castigo igual à culpa..
A educação é a mola do processo de redimir a mente cristalizada nas trevas.
Organizar a penitenciária renovadora, onde o serviço e o livro encontrem aplicação adequada, é a solução para o escuro problema da criminalidade, entre os homens, mesmo porque o melhor desforço da sociedade, contra o delinqüente, é deixá-lo viver, na reparação das próprias faltas.
Cada espírito respira no céu ou no inferno que formou para. si mesmo...
Aqui, temos o “campo dos efeitos”, e aí, no mundo, o “campo das causas”. E enquanto a alma se demora no “campo das causas”, há sempre oportunidade de consertar e reajustar, melhorando as consequências.
Não é morrendo que encontraremos facilidade para a reconciliação, É aprendendo com as rudes lições do educandário de matéria densa que se nos apuram as qualidades morais para a ascesão do espírito.
Ninguém, pois, precisará inquietar-se, provocando essa ou aquela reivindicação pela violência.
A lei da harmonia universal funciona em todos os planos da vida, encarregando-se de tudo restaurar no momento oportuno.
Quanto ao ato de condenar, quem de nós se revelará em condições de exercer semelhante direito?
Quantos de nós não somos malfeitores indiscutíveis, simplesmente por não encontrar a presa, no instante preciso da tentação? quantos delitos teremos perpetrado em pensamento?
Só a educação, alicerçada no amor, redimir-nos-á a multimilenária noite da ignorância.
Se você demonstra interesse tão grande na regeneração dos costumes, defendendo com tamanho entusiasmo a suposta legalidade da pena de morte, vasculhe o próprio coração e a própria consciência e verifique se está isento de faltas. Se você já superou os óbices da animalidade, adquirindo a grande compreensão a preço de sacrifício, estimaria saber se terá realmente coragem para amaldiçoar os pecadores do mundo, atirando-lhes “a primeira pedra”.

Livro Cartas e Crônicas - Espírito Irmão X - Psicografia Francisco C. Xavier.

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PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 23:42

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ACERCA DA PENA DA MORTE



Indaga você como apreciam os desencarnados a instituição da pena de morte, e acrescenta: – “não será justo subtrair o corpo ao espírito que se fez criminoso? será lícito permitir a comunhão de um tarado com as pessoas normais?”
E daqui poderíamos argumentar: – quem de nós terá usado o corpo como devia? quem terá atingido a estatura espiritual da verdadeira humanidade para considerar-se em plenitude de equilíbrio?
A execução de uma sentença de morte, na maioria dos casos, é a libertação prematura da alma que se arrojou ao despenhadeiro da sombra. E sabemos que só a pena de viver na carne é suscetível de realizar a recuperação daqueles que se fizeram réus confessos diante dos tribunais humanos.
Não vale afugentar moscas sem curar a ferida.
Eliminar a carne não é modificar o espírito.
Um assassinado, quando não possui energia suficiente para desculpar a ofensa e esquecê-la, habitualmente passa a gravitar em torno daquele que lhe arrancou a vida, criando os fenômenos comuns da obsessão; e as vitimas da forca ou do fuzilamento, do machado ou da cadeira elétrica, se não constituem padrões de heroísmo e renunciação, de imediato, além-túmulo, vampirizam o organismo social que lhes impôs o afastamento do veiculo físico, transformando-se em quistos vivos da fermentação da discórdia e da indisciplina,.
O tribunal terrestre jamais decidirá, com segurança, sobre a extinção do crime, sem o concurso ativo do hospital e da escola.
Sem o professor e sem o médico, o juiz de sã consciência viverá sempre atormentado pela obrigação de prender e condenar, descendo da dignidade da toga para ombrear com os que se dedicam à flagelação alheia.
A função da justiça penal, dentro da civilização considerada cristã, é, acima de tudo, reeducar.
Sem o entendimento fraterno na base de nossas relações uns com os outros, não nos distanciaremos do labirinto de talião, que pretende converter o mundo em eterno sorvedouro de males renascentes.
Jesus, o divino libertador, veio quebrar algemas que nos jungiam aos princípios do castigo igual à culpa..
A educação é a mola do processo de redimir a mente cristalizada nas trevas.
Organizar a penitenciária renovadora, onde o serviço e o livro encontrem aplicação adequada, é a solução para o escuro problema da criminalidade, entre os homens, mesmo porque o melhor desforço da sociedade, contra o delinqüente, é deixá-lo viver, na reparação das próprias faltas.
Cada espírito respira no céu ou no inferno que formou para. si mesmo...
Aqui, temos o “campo dos efeitos”, e aí, no mundo, o “campo das causas”. E enquanto a alma se demora no “campo das causas”, há sempre oportunidade de consertar e reajustar, melhorando as consequências.
Não é morrendo que encontraremos facilidade para a reconciliação, É aprendendo com as rudes lições do educandário de matéria densa que se nos apuram as qualidades morais para a ascesão do espírito.
Ninguém, pois, precisará inquietar-se, provocando essa ou aquela reivindicação pela violência.
A lei da harmonia universal funciona em todos os planos da vida, encarregando-se de tudo restaurar no momento oportuno.
Quanto ao ato de condenar, quem de nós se revelará em condições de exercer semelhante direito?
Quantos de nós não somos malfeitores indiscutíveis, simplesmente por não encontrar a presa, no instante preciso da tentação? quantos delitos teremos perpetrado em pensamento?
Só a educação, alicerçada no amor, redimir-nos-á a multimilenária noite da ignorância.
Se você demonstra interesse tão grande na regeneração dos costumes, defendendo com tamanho entusiasmo a suposta legalidade da pena de morte, vasculhe o próprio coração e a própria consciência e verifique se está isento de faltas. Se você já superou os óbices da animalidade, adquirindo a grande compreensão a preço de sacrifício, estimaria saber se terá realmente coragem para amaldiçoar os pecadores do mundo, atirando-lhes “a primeira pedra”.

Livro Cartas e Crônicas - Espírito Irmão X - Psicografia Francisco C. Xavier.

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Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

MORRER PARA DESCANSAR


Desenvolvera-se Sérgio Mafra nos conhecimentos do Espiritismo cristão, tornara-se elemento de valor entre os companheiros, colaborava atencioso, sempre que chamado a serviço, mas apresentava um defeito grave: era demasiadamente triste e pessimista e vivia em desacordo com todos os processos da experiência humana. Estimava a tarefa que lhe fora cometida, não se negava ao concurso fraterno; contudo, desejava morrer, abandonar o mundo para sempre e entregar-se ao descanso em convivência com as entidades amorosas do plano invisível.
Ricardo, amigo de muito tempo, assistia-o do campo espiritual, desveladamente. Sérgio observava-lhe a fisionomia iluminada, através da visão mediúnica e recordava, imediatamente, a idéia de morte.
- Ah! Meu amigo – exclamava choroso, dirigindo-se ao benfeitor -, quanto desejava partir, cooperar convosco na vida mais alta! A Terra asfixia o coração... em tudo a dor, o desalento, a incompreensão!...
Ricardo sorria e, tomando-lhe o braço, escrevia atencioso:
- Sérgio, meu caro, extingue os pensamentos da morte, porque somente a vida persiste na eternidade. Não desprezes o ensejo de servir no mundo. Todos temos para com o Planeta imensos débitos que devemos resgatar, de espírito confortado e feliz. Ninguém renasce com isenção de sérios compromissos. Teus propósitos são valiosos, és sincero nos sentimentos e confias em nós; todavia, a idéia fixa, referente à morte do corpo, é uma obsessão perigosa que te poderá arrastar a desenganos cruéis. Atende à vida, filho meu! Não te percas em lastimar o desenvolvimento das criaturas; repara, acima de tudo, a zona de serviço que elas te oferecem e dá-te ao trabalho com amor. Permaneces em aprendizado ativo. Não fujas à lição. A tristeza dos criminosos é justificável por nascer de remorsos amargos, proporcionando-lhes oportunidade a retificações; entretanto, constitui uma excrescência deplorável nos servidores da fé. Semelhante angustia é um conjunto de vibrações destruidoras, ao passo que a alegria sã vem de Deus e deve comunicar-se aos seus filhos. A Criação inteira está palpitante de júbilo. Não te entregues, portanto, ao desequilíbrio. Lembra-te de que permaneces no lugar de serviço a que o Senhor te destinou. Reflete nesta profunda realidade e continua servindo à causa do bem.
Sérgio lia e relia as considerações desse teor e redargüia em lagrimas:
- A existência humana, todavia, me assusta. Pensar na morte é a minha consolação. Nada me interessa na terra, onde o tempo demora terrivelmente a passar. Desejaria servir junto de vós, amado amigo, a fim de descansar o coração e alcançar a paz.
Ricardo esboçava expressivo gesto e respondia com firmeza:
- Acreditarias, porventura, que possamos viver aqui sem atividades laboriosas? Nossos trabalhos são enormes e nossas responsabilidades absorventes. O esforço que nos compete irmãos encarnados; entretanto, Sérgio, os nossos deveres são bem pesados e dolorosos por vezes. Não vivemos em paisagem aérea, exonerados de obrigações difíceis, Somos compelidos a testemunhos que te assombrariam, por certo, e não seria aconselhável o teu regresso à esfera invisível, sem uma preparação adequada. Zela os teus interesses eternos, não te precipites, aproveita o tempo, construindo com a verdade e o bem. Se precisarmos efetivamente do fruto, não será razoável destruir a flor. A existência carnal te oferece belos períodos de repouso e observação. Vale-te dos tesouros de agora não de descuides.
- Observação? Repouso? – clamava Sérgio, desalento – não tenho oportunidades para estudos eficientes e muito menos para descanso. A permanência na Terra é castigo severíssimo, amargo degredo espiritual. Não me conformo com a paisagem escura do mundo.
E o companheiro, embora em esforço normal, sem qualquer ato indigno da fé que abraça, ardoroso, continuava chorando e lastimando o presente, através de queixas veladas e amarguras indefiníveis.
Era, sem duvida, assíduo cooperador dos trabalhos espirituais e não se furtava ao testemunho serio, mas continuava sempre viva aquela luta de argumentação entre ele e Ricardo. Este erguia-lhe a mente para as elevadas concepções da vida eterna; no entanto, aquela somente idealizava a morte repousante. E, no curso do tempo, face à lei que determina a realização, conforme o ideal, Sérgio Mafra desencarnou de uma gripe sem importância. O ardente desejo de morrer, para descansar, impediu-lhe o controle eficiente da máquina orgânica; e, quando todos os amigos lhe aguardavam, esperançosos, o restabelecimento físico, eis que Mafra lhes impôs a incompreensível surpresa.
Esperou-o Ricardo, pacientemente, abraçou-o, no limiar da vida nova e falou como quem não encontrava outro remédio senão a conformação:
- Boa sorte, meu amigo! Planejaste a morte e abandonaste o corpo!...
- Sim, sim – replicou Sérgio, de olhos brilhantes -, sempre desejei colaborar ao vosso lado.
- Então sigamos ao serviço, não temos tempo a perder – acrescentou o benfeitor amável e bem-humorado.
E aplicando-lhe forças magnéticas, para que Mafra não se deixasse dominar por sensações de sono, fez-se acompanhar por ele, deliberadamente, ao seu campo de serviços complexos.
Estava Sérgio encantado a principio, mas, aos poucos, reconheceu que Ricardo dispunha de raríssimas horas para repouso, durante o dia. Não conseguiam nem mesmo ensejo os mais longos entendimentos. O nobre amigo estava cheio de ocupações sacrificiais e o recém-desencarnado viu-se na obrigação de acompanhá-lo em peregrinação através de hospitais, creches orfanatos, necrotérios, oficinas, templos e instituições de caridade, em serviço ativo de socorro a doente e a menos favorecidos da sorte, encarnados e desencarnados.
Compelido a seguir-lhe o ritmo de serviço, Sérgio estava exausto, ao fim de duas semanas.
Humilhado, vencido, dirigiu-se, em pranto, ao benfeitor, penitenciando-se:
- Ah! Meu nobre Ricardo, quantas exigências no trabalho espiritual! A experiência é para mim muito dolorosa! Tente paciência, não suporto mais!...
Ricardo, porém, não sorriu, e considerou em tom grave:
- Não desejavas, em caráter prematuro, as tarefas reservadas ao homem, depois da morte física? Não aproveitaste uma gripe benigna para facilitar o desequilíbrio orgânico? Na terra maternal, erguias-te pela manhã, tomava o teu café reconfortador, trabalhavas algumas horas no curso do dia, entregavas-te ao gosto das refeições bem-feitas, distraias o coração na palestra afetuosa dos familiares queridos, recebias a cooperação de desvelados benfeitores encarnados e desencarnados e dormias na calma do sono e nos deslumbramentos do sonho... Todavia, não obstante a sinceridade de tua fé considerava a existência um martírio execrável. Traduzias a benção do Eterno por incomodo ao coração. Presentemente, porem, observa que os teus serviços terrenos eram bem suaves e constituíam verdadeiro paraíso em comparação com os deveres de hoje.
Mafra contemplava-o de olhar ansioso, aguardando a dispensa de obrigações que lhe pareciam tão duro. Ma, muito longe de programar o repouso, Ricardo fixou, nele os olhos lúcidos e concluiu:
- Agora, Sérgio, não te posso desobrigar, porque meus avisos à tua alma foram reiterados e veementes; e, não podendo olvidar meus deveres, também não te posso abandonar ao léu, no caminho de sombras. É, portanto, de teu interesse que venhas comigo ao trabalho áspero, para que não te suceda alguma coisa pior.

Livro: Pontos e Contos Psicografia Francisco Cândido Xavier - Pelo espírito: Irmão X
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Desenvolvera-se Sérgio Mafra nos conhecimentos do Espiritismo cristão, tornara-se elemento de valor entre os companheiros, colaborava atencioso, sempre que chamado a serviço, mas apresentava um defeito grave: era demasiadamente triste e pessimista e vivia em desacordo com todos os processos da experiência humana. Estimava a tarefa que lhe fora cometida, não se negava ao concurso fraterno; contudo, desejava morrer, abandonar o mundo para sempre e entregar-se ao descanso em convivência com as entidades amorosas do plano invisível.
Ricardo, amigo de muito tempo, assistia-o do campo espiritual, desveladamente. Sérgio observava-lhe a fisionomia iluminada, através da visão mediúnica e recordava, imediatamente, a idéia de morte.
- Ah! Meu amigo – exclamava choroso, dirigindo-se ao benfeitor -, quanto desejava partir, cooperar convosco na vida mais alta! A Terra asfixia o coração... em tudo a dor, o desalento, a incompreensão!...
Ricardo sorria e, tomando-lhe o braço, escrevia atencioso:
- Sérgio, meu caro, extingue os pensamentos da morte, porque somente a vida persiste na eternidade. Não desprezes o ensejo de servir no mundo. Todos temos para com o Planeta imensos débitos que devemos resgatar, de espírito confortado e feliz. Ninguém renasce com isenção de sérios compromissos. Teus propósitos são valiosos, és sincero nos sentimentos e confias em nós; todavia, a idéia fixa, referente à morte do corpo, é uma obsessão perigosa que te poderá arrastar a desenganos cruéis. Atende à vida, filho meu! Não te percas em lastimar o desenvolvimento das criaturas; repara, acima de tudo, a zona de serviço que elas te oferecem e dá-te ao trabalho com amor. Permaneces em aprendizado ativo. Não fujas à lição. A tristeza dos criminosos é justificável por nascer de remorsos amargos, proporcionando-lhes oportunidade a retificações; entretanto, constitui uma excrescência deplorável nos servidores da fé. Semelhante angustia é um conjunto de vibrações destruidoras, ao passo que a alegria sã vem de Deus e deve comunicar-se aos seus filhos. A Criação inteira está palpitante de júbilo. Não te entregues, portanto, ao desequilíbrio. Lembra-te de que permaneces no lugar de serviço a que o Senhor te destinou. Reflete nesta profunda realidade e continua servindo à causa do bem.
Sérgio lia e relia as considerações desse teor e redargüia em lagrimas:
- A existência humana, todavia, me assusta. Pensar na morte é a minha consolação. Nada me interessa na terra, onde o tempo demora terrivelmente a passar. Desejaria servir junto de vós, amado amigo, a fim de descansar o coração e alcançar a paz.
Ricardo esboçava expressivo gesto e respondia com firmeza:
- Acreditarias, porventura, que possamos viver aqui sem atividades laboriosas? Nossos trabalhos são enormes e nossas responsabilidades absorventes. O esforço que nos compete irmãos encarnados; entretanto, Sérgio, os nossos deveres são bem pesados e dolorosos por vezes. Não vivemos em paisagem aérea, exonerados de obrigações difíceis, Somos compelidos a testemunhos que te assombrariam, por certo, e não seria aconselhável o teu regresso à esfera invisível, sem uma preparação adequada. Zela os teus interesses eternos, não te precipites, aproveita o tempo, construindo com a verdade e o bem. Se precisarmos efetivamente do fruto, não será razoável destruir a flor. A existência carnal te oferece belos períodos de repouso e observação. Vale-te dos tesouros de agora não de descuides.
- Observação? Repouso? – clamava Sérgio, desalento – não tenho oportunidades para estudos eficientes e muito menos para descanso. A permanência na Terra é castigo severíssimo, amargo degredo espiritual. Não me conformo com a paisagem escura do mundo.
E o companheiro, embora em esforço normal, sem qualquer ato indigno da fé que abraça, ardoroso, continuava chorando e lastimando o presente, através de queixas veladas e amarguras indefiníveis.
Era, sem duvida, assíduo cooperador dos trabalhos espirituais e não se furtava ao testemunho serio, mas continuava sempre viva aquela luta de argumentação entre ele e Ricardo. Este erguia-lhe a mente para as elevadas concepções da vida eterna; no entanto, aquela somente idealizava a morte repousante. E, no curso do tempo, face à lei que determina a realização, conforme o ideal, Sérgio Mafra desencarnou de uma gripe sem importância. O ardente desejo de morrer, para descansar, impediu-lhe o controle eficiente da máquina orgânica; e, quando todos os amigos lhe aguardavam, esperançosos, o restabelecimento físico, eis que Mafra lhes impôs a incompreensível surpresa.
Esperou-o Ricardo, pacientemente, abraçou-o, no limiar da vida nova e falou como quem não encontrava outro remédio senão a conformação:
- Boa sorte, meu amigo! Planejaste a morte e abandonaste o corpo!...
- Sim, sim – replicou Sérgio, de olhos brilhantes -, sempre desejei colaborar ao vosso lado.
- Então sigamos ao serviço, não temos tempo a perder – acrescentou o benfeitor amável e bem-humorado.
E aplicando-lhe forças magnéticas, para que Mafra não se deixasse dominar por sensações de sono, fez-se acompanhar por ele, deliberadamente, ao seu campo de serviços complexos.
Estava Sérgio encantado a principio, mas, aos poucos, reconheceu que Ricardo dispunha de raríssimas horas para repouso, durante o dia. Não conseguiam nem mesmo ensejo os mais longos entendimentos. O nobre amigo estava cheio de ocupações sacrificiais e o recém-desencarnado viu-se na obrigação de acompanhá-lo em peregrinação através de hospitais, creches orfanatos, necrotérios, oficinas, templos e instituições de caridade, em serviço ativo de socorro a doente e a menos favorecidos da sorte, encarnados e desencarnados.
Compelido a seguir-lhe o ritmo de serviço, Sérgio estava exausto, ao fim de duas semanas.
Humilhado, vencido, dirigiu-se, em pranto, ao benfeitor, penitenciando-se:
- Ah! Meu nobre Ricardo, quantas exigências no trabalho espiritual! A experiência é para mim muito dolorosa! Tente paciência, não suporto mais!...
Ricardo, porém, não sorriu, e considerou em tom grave:
- Não desejavas, em caráter prematuro, as tarefas reservadas ao homem, depois da morte física? Não aproveitaste uma gripe benigna para facilitar o desequilíbrio orgânico? Na terra maternal, erguias-te pela manhã, tomava o teu café reconfortador, trabalhavas algumas horas no curso do dia, entregavas-te ao gosto das refeições bem-feitas, distraias o coração na palestra afetuosa dos familiares queridos, recebias a cooperação de desvelados benfeitores encarnados e desencarnados e dormias na calma do sono e nos deslumbramentos do sonho... Todavia, não obstante a sinceridade de tua fé considerava a existência um martírio execrável. Traduzias a benção do Eterno por incomodo ao coração. Presentemente, porem, observa que os teus serviços terrenos eram bem suaves e constituíam verdadeiro paraíso em comparação com os deveres de hoje.
Mafra contemplava-o de olhar ansioso, aguardando a dispensa de obrigações que lhe pareciam tão duro. Ma, muito longe de programar o repouso, Ricardo fixou, nele os olhos lúcidos e concluiu:
- Agora, Sérgio, não te posso desobrigar, porque meus avisos à tua alma foram reiterados e veementes; e, não podendo olvidar meus deveres, também não te posso abandonar ao léu, no caminho de sombras. É, portanto, de teu interesse que venhas comigo ao trabalho áspero, para que não te suceda alguma coisa pior.

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