Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

O CORPO FLUÍDICO DE JESUS


Os excelentes artigos escritos por Bezerra de Menezes com o pseudônimo Max, para “O Paiz” foram posteriormente enfeixados em 3 volumes que a Federação Espírita Brasileira editou, no ano de 1907, sob o título “Espiritismo – Estudos Filosóficos” todos são extraordinários, não fora seu autor o “Kardec Brasileiro”. Por isso mesmo, a Casa de Ismael está preparando uma nova edição da obra, na convicção de que os espíritas apreciarão sobremaneira possuí-la em sua estante, com o selo da FEB, da qual Bezerra de Menezes foi Presidente. Antecipando essa promessa, o Reformador” pública, a seguir, um dos capítulos já revistos, precisamente aqueles em que, dentre outros, a questão do corpo fluídico de Jesus é defendida pelo “Médico dos Pobres”.


Pareceu-nos sempre repugnante a fórmula sacramentária de estar Jesus, corpo, sangue e alma, consubstanciado na hóstia consagrada.
Se fosse um símbolo, nada opor-lhe-ia nossa razão; mas a igreja impõe aos fiéis à crença de que recebem na hóstia e pela hóstia o corpo e a alma do Cristo, tão real e perfeitamente como está no céu.
A fé passiva o que pode opor a tão formal imposição de quem tem o dom da infalibilidade em matéria dogmática?
O crente fanatizado o que pode divisar em semelhante fórmula, senão a manifestação de uma verdade absoluta?
A razão, porém, clama e clamará sempre contra todo dogma que envolva monstruosidade ou absurdo.
O pensador, embora crente, não admite que a suma perfeição se manifeste sob forma impura.
Aquele dirá: credo guia absurdo; enquanto este protestará, clamando: nihil absurdum a Deo.             
Ora, será racional que um Espírito tão elevado, tão puro, tão perfeito, que a igreja crê e manda crer que é um Deus; a segunda pessoa da trindade divina se imiscua se consubstancie com a matéria, de modo que se ache todo nesta?
Jesus é esse Espírito puro e santo, e, no entanto, ei-lo aí todos os dias dado e recebido sob a forma material!
Argumenta-se com as suas próprias palavras, que foram o fundamento do sacramento da eucaristia, pronunciadas na ceia, em que denunciou a traição e o traidor; argumenta- -se com estas palavras que foram: eis o meu corpo, apresentando o pão que havia benzido; eis o meu sangue, apresentando o vinho, também depois de havê-lo benzido.
Com efeito, conclui-se daí que Jesus corporizou-se no pão e no vinho, donde a naturalidade de sua corporização na hóstia consagrada.
É, porém, sabido que o divino Mestre usou sempre da parábola; de linguagem figurada, principalmente quando se referia ao que podemos chamar a parte dogmática de seus ensinamentos.
E isto é devido a não ter a humanidade de seu tempo a precisa clareza intelectual para compreender leis e fenômenos de esfera superior.
Ele dava o ensino sob a figura, para que, mais tarde, quando a humanidade já possuísse mais clara compreensão das coisas, entendesse esse espírito e verdade.
Um exemplo: nós ensinamos a nossos filhos, em criança, o Credo ou símbolo dos apóstolos; mas não Ihes explicamos, porque seria inútil, o sentido ou valor daquelas palavras.
Eles, porém, as guardam de memória, e quando sua faculdade de compreender já tem adquirido o necessário vigor, esse é o tempo em que eles apreciam, em espírito e verdade, aquelas palavras que Ihes ensinamos.
As que Jesus proferiu, quando consagrou o pão e o vinho, foram simbólicas, não podiam ser tomadas, naquele tempo, senão literalmente; mas elas encobriam alto ensinamento para quando a humanidade pudesse compreender as coisas em espírito e verdade, e não mais segundo a letra.
A igreja, recebendo a tradição literal, guardou-há até nosso tempo; mas a igreja de nosso tempo já devera ter compreendido que a corporização de um espírito como o Cristo é absurdo, e, pois devia ter posto de parte a letra e procurado o espírito daquele símbolo.
Se o tivesse feito, como lhe cumpria, mais que a qualquer outro, teria reconhecido que o corpo e o sangue de Jesus, dados a comer e a beber aos apóstolos, são o símbolo de sua doutrina, cujo ensino foi, por aquela cerimônia, confiado àqueles homens.
Se o tivesse feito, como lhe cumpria, teria reconhecido que um Deus não precisava materializar-se, para influir sobre o homem.
Deus, Espírito, influi sobre o homem, Espírito imaterialmente, por sua vontade, por um raio de sua luz.
Para que deixar-nos Jesus o seu corpo e o seu sangue, quando a virtude de seu Espírito está sempre conosco?
Ele, o espiritualista por excelência, consagrar fórmulas materialistas, sem necessidade e até contra seus próprios ensinos!
Como fica claro, racional e sublime considerar o pão e o vinho dados pelo Mestre como o símbolo de sua doutrina, que confiou a seus discípulos como a expressão de sua última vontade?
Recebeu-a Jesus sob a forma de pão, quando Jesus pode-se nos dar sob a forma imaterial, por seu perdão, por sua misericórdia, por seu amor!
Estamos ouvindo redarguir: por que não pode Jesus corporificar-se na hóstia, uma vez que tomou um corpo como o nosso?
Idem por idem! - o mesmo impossível! História do verbo encarnado para a infância da humanidade!
Jesus teve, com efeito, um corpo como o nosso pela forma; mas não pela natureza; teve um corpo fluídico, como tomam os anjos (Espíritos puros) quando descem a nosso mundo.
E é assim que a Virgem não deixou de sê-lo depois do parto, sem necessidade de um milagre, coisa que Deus não pode fazer; porque se o fizesse, transgrediria Suas próprias leis, que são eternas e imutáveis.
Só o imperfeito pode retocar sua máquina!
Ouvimos, ainda, replicarem-nos: então, Jesus não tomou sobre seus ombros os pecados do mundo, não sofreu pela humanidade?
Dizei-nos qual é maior, o sofrimento físico ou o moral?
Se Jesus não teve corpo material para sofrer, teve os sofrimentos mais cruciantes do espírito. E quem nos diz que seu corpo fluídico não se prestava tanto, e porventura mais do que o corpo carnal, à transmissão das sensações materiais?
O que é fora de questão é que repugna à razão o fato de um Espírito divino tomar a carne dos pecadores, e que a concepção espírita de ser fluídico o corpo de Jesus, não somente fala à razão e remove aquela repugnância invencível, como ainda explica, de acordo com as leis naturais, todos os fenômenos da vida do Redentor, e principalmente sua concepção no ventre puríssimo de Maria. Santíssima e seu nascimento, sem que a Mãe deixasse de ser Virgem.
O que é fora de questão é que S. Paulo consagra a doutrina espírita neste ponto, quando diz: que há corpos celestes e corpos terrestres.
Que serão os corpos celestes senão os fluídicos?
*
S. Paulo fala de corpos celestes e de corpos terrestres, que revestem os Espíritos.
Não se pode atribuir-lhe o pensamento de qualificar como corpo celeste o períspirito, certamente distinto do corpo carnal ou terrestre, pois que períspirito tem o Espírito encarnado, como o tem o desencarnado.
Corpo celeste, em oposição a corpo terrestre ou carnal, não pode ser senão de natureza que o torna impossível de coexistir com este, fato que não se dá com o períspirito, indispensável até às relações entre a alma e o corpo do homem.
Além disto, o períspirito acompanha a evolução espiritual, sendo material, pesado e grosseiro, enquanto o Espírito não o é, e desmaterializando-se "pari passu" com este, até tornar-se quase Espírito, até sumir-se, quando o Espírito chega ao estado de completa desmaterialização, que se chama - de puro Espirito.
Ora, falando S. Paulo do corpo que envolve os Espíritos mais elevados: puros Espíritos são óbvios que não se referiu ao períspirito: vestimenta que só usa enquanto não chega aquele grau de elevação, no qual a despe de todo, reduzindo a essência espiritual às três entidades que a constituíram na terra: corpo, períspirito e Espírito.
Se não é, pois, ao períspirito que se refere o apóstolo da caridade, quando fala dos corpos celestes que revestem os Espíritos puros, a que se referirá ele?
 A gênese, iluminada pela nova revelação, esparge a mais clara luz sobre este ponto da ciência, até agora envolto em brumas.
Deus criou um único elemento: matéria cósmica, fluido universal, a qual, evoluindo segundo as leis sábias, eternas e imutáveis, que foram postas, desde o princípio, à criação, dá de si tudo o que constitui o Universo, em todas as suas infinitas espécies e variedades.
É porque só apreciam esta evolução da natureza sem possuírem os instrumentos de penetrarem a causa primária criadora dessa natureza e das Ieis que a regem, que certos sábios acreditam que a natureza é a mãe universal, como de fato; e que é incriada - falso juízo que só tem por si as aparências.
Afirmam o que veem, e têm razão; negam, porém, o que não veem, e não têm razão; porque todos os dias descobrimos leis que não conhecíamos, e, portanto que não deviam existir, pois que antes não as víamos ou percebíamos.
O princípio de proceder tudo da natureza ou da matéria cósmica universal é verdadeiro, e nisto vamos com os materialistas; aquele, porém, de ser a natureza ou matéria cósmica universal existente independente de um criador é um erro, cujo fundamento é palpavelmente insubsistente e até ridículo: e que só é verdade, só existe o que vemos, apreciamos e compreendemos.
Não foi, porém, para discutir esta questão que tomamos a pena e, pois, entremos no nosso assunto.
O fluido universal, origem essencial de todos os seres do Universo, elemento integrante de toda a organização, substância componente de tudo o que existe, por sua condensação ou rarefação, que se der sob a ação das leis a que obedece a forma o reino mineral, o vegetal, o animal; forma os seres do mundo material e os do espiritual.
Compreende-se, pois, que por aquele mecanismo de condensação ele pode dar origem a seres como o Espírito e a seres menos essencializados que o Espírito, porém infinitamente mais que os corpos materiais.
Entre a rocha e a alma ou Espírito, os dois extremos da escala, uma variedade infinita das composições fluídicas.
Os Espíritos grosseiros e atrasados tiram do fluido universal seu revestimento, grosseiro como eles, a que chamamos corpo carnal.
Muito naturalmente os Espíritos mais desmaterializados, por seu progresso, tirarão um revestimento mais leve, mais desmaterializado como eles.
E os puros Espíritos tirarão um tão puro, tão vaporoso, tão essencializado como eles.
Isto é lógico, é racional e a experiência o comprova.
A tradição corrente em todos os povos, desde a mais remota antiguidade, consigna o fato de aparecimento dos mortos aos vivos, fato que nunca poderia dar-se, se o Espírito não vestiu um corpo visível.
A história sagrada refere inúmeros casos de anjos (puros Espíritos) baixarem a terra, para transmitirem a certos homens, justos, o pensamento do Senhor.
Poderão estes anjos revestir-se, para se fazerem visíveis, da mesma matéria que reveste as almas em suas aparições.
O meio donde tiram seus corpos instantâneos é o mesmo, é o fluido universal; mas a qualidade do fluido que escolhem é muito diferente.
As almas serve-se de seus períspiritos, mais ou menos grosseiros, substância colhida no meio comum, que elas condensam e tornam visíveis.
Os anjos, porém, que já não têm períspirito, por que são puros espíritos, precisam tomar, na ocasião, no infinito seio do fluido universal, o que os revista e os torne visíveis.
E como os Espíritos roubam àquela meia substância mais ou menos grosseira, mais ou menos essencializada, segundo seu grau de elevação nas vias do progresso, é óbvio que um Espírito angélico tira do fluido universal a sua mais pura essência; bem se pode dizer: a sua essência espiritual.
É a isto que S. Paulo chamou – corpo celeste - por oposição ao corpo que nos reveste, composto da mesma substância, mas não essencializado, espiritualizado.
De que é verdade o que aí fica exposto, temos a prova nas experiências de William Crookes, que obteve a materialização de um Espírito, ao ponto de tornar-se visível e tangível, tal qual uma pessoa vivente.
Estas agregações do fluido, para constituir um corpo visível, opera-se pela lei dos fluidos, que a ciência de nossos dias ainda ignora; mas que os fatos experimentais já recomendam ao estudo dos sábios, do mesmo modo como tem acontecido em todas as conquistas do saber humano.
Aqui, a ciência já é encaminhada pelas luzes que lhe dão as revelações espíritas.
Assim como o Espírito agrupa os elementos tirados do fluido universal e constitui com eles um corpo, assim, e sempre pelas mesmas leis fluídicas, ele desagrega aqueles elementos e dissolve instantaneamente o corpo fluídico; donde uma gravidez e um parto, com perda da virgindade, verdadeiramente aparente. 

Max     (pseudônimo do Dr. Bezerra de Menezes)
Reformador (FEB) Março 1974
 ("Espiritismo - Estudos Filosóficos", 1ª edição FEB, 1907, volume 3, págs. 349 a 358.).
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 14:11

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Terça-feira, 8 de Novembro de 2011

VONTADE



 Dentre tantos atributos essenciais da alma humana tais como livre-arbítrio, consciência de si mesma, inteligência, racionalidade, percepções, a vontade é, inquestionavelmente, um dos principais.
O ser humano, embrutecido em suas origens, tem sido ajudado a caminhar na esteira do tempo por sua vontade. Das brumas do passado aos dias atuais aprendeu a discernir e poder alcançar o senso moral mas ainda hoje não conseguiu adaptar-se à observância das leis naturais. Caminha em largas passadas em inteligência, porém arrasta-se lentamente em moralidade. Transgride reincidentemente as normas divinas, notadamente o postulado universal do amor ao próximo descerrado ao Mundo pelo Divino Mestre. O cediço hábito de ferir é ainda frequente entre as pessoas.
Jesus desceu das luzes do infinito para viver entre os homens arrostando imperfeições, e aflições de toada ordem, sem jamais deixar de tolerar incompreensões, de socorrer, aliviar, curar e encaminhar as criaturas no meio das trevas mais densas do Planeta. Para implantar no solo da Terra a Sua Doutrina recomendou a seus discípulos: “Ide e pregai”.
Hoje, próxima do terceiro milênio da Era Cristã, a Humanidade necessita urgentemente assimilar as verdades da Doutrina Consoladora e Esclarecedora por Ele enviada para se libertar do erro, da ignorância, dos sofrimentos. Fincada definitivamente a bandeira do Espiritismo Cristão, incumbe a seus adeptos conscienciosos espalhar as luzes da sublime candeia da Nova Revelação sob o lema de Deus, Cristo e Caridade.
O Espiritismo é a senda da verdade, a luz que clareia a via do destino. As almas desviadas dos rumos do bem se entediarão de errar e sofrer e serão despertadas do longo letargo da ignorância e das maldades. Suas vontades as conduzirão aos pagos onde se edifica o bem. As que obram com Deus encontram o lenitivo para os sofrimentos, a medicação contra os males.
A sociedade humana exibe muitas chagas morais abomináveis: o egoísmo, a cobiça e ambição delirantes, as guerras, a violência de várias feições, o consumo e o mercado de drogas, vícios e desregramentos diversos, e tantas outras. A descrença em Deus, o desconhecimento de Suas leis fazem com que os portadores dessas nódoas ignorem que têm encontro marcado com a Soberana Justiça Divina.
Por outro lado, grande parte dos homens se esquece de que pequena parcela do supérfluo do que possui é suficiente para minorar a fome, amparar crianças órfãs e desvalidas, idosos desprotegidos e vítimas dos infortúnios. A dureza dos corações é, muitas vezes, o carrasco do erro e da injustiça. Bastaria que se unissem as vontades de socorrer, não com simples esmolas, mas com a ajuda efetiva ou seja, o desejo de cumprir o dever de fraternidade. A certeza da vida futura e a consciência de que somos irmãos, filhos do Pai eterno, sustentam os esforços nesse sentido.
Nossas ações devem estar voltadas para o futuro. Não devemos perder de vista em nenhuma delas que as suas consequências são inexoráveis. Passado, presente e futuro são sempre solidários. O porvir mais próximo ou mais distante nos reserva o efeito das nossas práticas de hoje, isso rigorosamente em decorrência do bem ou do mal que delas resultem, tudo de conformidade com as leis da Divina Providência.
A descrença na vida futura é uma das principais causas do egoísmo, do orgulho e das vicissitudes deles decorrentes. Quando as pessoas somente praticarem o bem não haverá necessidade dos resgates dolorosos. Numa sociedade fraterna em que todos se ajudarem mutuamente, todos serão venturosos. Isso não é utopia. A razão pura nos informa que é perfeitamente realizável. Para tanto o imprescindível é a evolução, a educação em sentido amplo a nos conduzirem às verdades da existência de Deus, da imortalidade da alma, das vidas sucessivas, das leis naturais.
Pelo progresso já feito verifica-se, sem dificuldade, que a evolução não tem termo. Fácil é, pois, entender que há mundos ditosos onde impera a fraternidade e a prática do bem é usual, sendo os sofrimentos limitados à transformação natural da matéria, excluídos, portanto, os resultantes da prática do mal.
Desde que se alcance a consciência da verdade, o desejo de progredir é a poderosa alavanca da evolução e quanto mais se oferece à vida mais ela devolve.
A expressão da vontade varia de um para outro indivíduo. Sendo manifestação da alma revela-se de acordo com o seu grau de adiantamento. Na erraticidade pode não ser a mesma a vontade do Espírito quando encarnado, podendo, também, ser superior às suas forças.
A vontade dos maus está costumeiramente voltada para a inveja, a cobiça, a vaidade, para as más tendências, valendo notar, contudo, que não há seres votados permanentemente ao mal, como entendem algumas crenças, o que atentaria contra a Justiça e a Sabedoria das leis naturais.
Submeter-se à vontade de Deus é o meio seguro de incrementar o progresso, vencer as provas e expiações. Devemos, pois, nos esforçar para aproximar da d’Ele a nossa vontade, já que essa comunhão de propósitos somente nos fará ditosos.
A Doutrina Espírita ensina também que a vontade do Espírito se modifica à medida que ele evolui, podendo apressar ou retardar o próprio progresso.
Bem ou mal dirigida, a vontade gera alegrias ou arrependimentos. Incumbe a cada criatura, portanto, esforçar-se para se aproximar das virtudes, absorvê-las e cultivá-las a fim de sentir a abençoada presença divina em sua vida. O amor, sumário de todas elas, é o agente e o poder capazes de construir e sustentar a vida, de fecundar e fertilizar a alma.
Muitas vezes as pessoas perdem o ânimo de viver por motivos e razões variados. Chegam mesmo a atentar contra a própria vida. Isso constitui afronta gravíssima às leis de Deus a proporcionar padecimentos futuros angustiosos.
Por outro lado, imenso contingente humano tem pavor da morte, quase sempre devido à descrença na vida futura. Santo Agostinho nos lembra que morremos todos os dias. A morte é, na realidade, a passagem para uma vida melhor sob o ponto de vista de que nos livra dos males da matéria. Contudo, não nos livra dos sofrimentos. Para o homem de bem a morte é ensejo de júbilo que o corpo físico não pode proporcionar. A morte é para os bons o encontro da paz enquanto que para os que se desviam do caminho do bem significa a entrada para o suplício.
As pessoas marginalizadas da sociedade, crianças, adolescentes e adultas, que vagueiam pelas vias públicas em grande número, espalhadas pelos recantos da imensa Nação Brasileira, compõem um quadro de penúria. Muitas, estiradas no chão da Pátria, sem teto e sem alimento, em situação degradante, inferior mesmo à dos animais irracionais. Estômagos vazios ulcerados pela carência de alimentação, pulmões minados pela fome, o corpo exibindo chagas. Já não se trata de pobreza aquela que acompanha o homem há milênios, mas de absoluta miséria. Todas as vistas devem voltar-se para essa realidade aviltante. Há necessidade urgente e imperiosa de enfrentar essa questão, fazer cessar a indiferença, pôr cobro em tal situação ou pelo menos minorar tal degradação.
Criam-se programas e impostos, destacam-se verbas para outras destinações, mas esse problema não tem sido solucionado nem mesmo considerado, não faz parte do sentimento das criaturas, não há vontade de resolvê-lo. Não se trata de retirar das ruas desocupados e mendigos para que não criem embaraços à vida e aos olhos dos transeuntes. Trata-se de encarar um realidade que atenta contra a dignidade da pessoa humana. É tema que diz respeito a todos, governantes e governados, religiosos ou não. A comunidade inteira tem obrigação irrecusável de dar solução a essa questão, venham de que fonte for os recursos necessários.
Queiram ou não os orgulhosos e os insensíveis, essas criaturas em infamante miséria são nossas irmãs e como tais devem ser consideradas e tratadas. Que se tribute com eqüidade a coletividade, até mesmo os próprios beneficiados, mas que encontre termo esse panorama desolador que envilece qualquer civilização.
Nem só de pão vive o homem. Entretanto, não se pode nem pensar em fazer discurso ou pregação de qualquer natureza ou procedência para os que têm permanentemente o estômago vazio e o corpo dilacerado pelos pedrouços da vida. É inelutável a necessidade de combate às causas profundas que dão origem a esses quadros tristes. Mas não há como esperar os resultados de outras medidas que possam ter repercussão sobre esses casos. O socorro e o amparo a essas criaturas devem ser urgentes. Quem não prestar colaboração nesse sentido está cometendo infração moral contra a Humanidade.
Neste momento não devemos levar em consideração se merecem ou não ser socorridas todas essas criaturas. Embora saibamos da existência das que preferem morrer na indigência a trabalhar, jamais devemos esquecer que também essas devem ser socorridas, eis que são portadoras de enfermidades da alma e que, por sua vez, serão um dia curadas. A distribuição da infalível justiça cabe às leis de Deus. A nós, filhos do Senhor da Vida, segundo as mesmas leis, incumbe a prática da caridade. .
Reformador Jan.99
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 13:44

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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011

O DOGMA ESPÍRITA

 

 Passemos afinal ao ponto capital deste trabalho e que gira em redor do último termo em questão: dogma. Diga-se antes de tudo que ele se origina do verbo grego «dokein» (pensar), significando, na verdadeira acepção etimológica: pensamento, dou­trina, convicção. Os antigos queriam significar com essa palavra unia firme resolução e uma decisão de autoridade, quer no campo da Ciência, quer no da vida do Estado. Neste Último sentido encontramo-la no bojo da própria Bíblia, como podemos verificar dos seguintes exemplos:
  “Se bem parecer ao rei, decrete-se que sejam mortos, e nas próprias mãos dos que executarem a obra eu pesarei deles dez mil talentos de pra­ta que entrem para os tesouros do rei” (Et. 3-9); “Saiu o decreto, segundo o qual deviam ser mortos os sábios; e buscaram a Daniel e aos seus companheiros, para que fossem mortos.” “Agora, pois, ó rei, sanciona o interdito, e assina a escritura, para que não seja mudada, segundo a lei dos medos e dos persas, que se não pode revogar” (Dn. 2-13 e 6-8); “Naquele dia foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se” (Lc. 2-1); “Ao passar pelas cidades, entregavam aos irmãos, para que observassem, as decisões tomadas pelos apóstolos e presbíteros de Jerusalém.” “Aos quais Jasom hospedou. Todos estes procedem contra os decretos de César, afirmando ser Jesus outro rei” (At. 10-4 e 17-7); “Aboliu na sua carne a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo novo homem, fazendo a paz” (Ef. 2-15); “Tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz” (Cl. 2-14); “Pela fé, Moisés, apenas nascido, foi ocultado por seus pais, durante três meses, porque viram que a criança era famosa; também não ficaram amedrontados pelo decreto do rei” (Hb. 11-23).
  Ora, com o tempo a palavra foi ganhando sentido mais radical e acabou por traduzir o ponto fundamental e indiscutível duma doutrina religiosa e, por extensão, de qualquer doutrina ou sistema. Acabaria por significar, ainda, o conjunto das dou­trinas fundamentais do Cristianismo, segundo pro­posta dos alexandrinos. Desde o quarto século, paulatinamente tem início a restrição do termo às doutrinas de fé. O dogma, assim, não há de ser palavra tão feia, tal como muita gente pensa. Até que é bastante inocente. Começa entretanto a as­sustar quando é adjetivada. Por exemplo: o dogma católico (“dogma catholicum”). Ganha então um significado Inteiramente novo e muito diferente daquele comum, não tanto pelo que exprima, mas pelas premissas que lhe antecedem a decretação. No caso especifico desse dogma temos então “uma verdade religiosa revelada sobrenaturalmente por Deus e, como tal, proposta a crer pela Igreja” (“Teologia Dogmática”, de Bernardo Bartmann, pág. 15 da 1ª edição brasileira). E enquanto o clero cuidasse apenas de propor realmente dogmas cristãos, extraídos do Evangelho, não seria tanto de se condenar sua atitude, senão apenasmente na parte em que margeia a Razão e interpreta a Boa-Nova a porta fechadas, a pretexto dum carismo que se arrogou arbitrariamente ou da pretensa assistência privilegiada do Espírito Santo. Por isso, com esse nome a Igreja passou a propor (antes, impor) uma série de tolices e absurdos, subproduto de concílios solenes e abusivos decretos papais. Vejamos um pouco mais o que o erudito Bernardo Bartmann ensina na sua “Teologia Dogmática”, à página 16 da edição citada:
  “Visto que o dogma, tomado em sentido estrito exige a Revelação sobrenatural, segue-se daí que as verdades que a Igreja ensina, não hauridas porém naquela fonte, são dogmas impropriamente ditos.” Note-se que é um respeitável membro do clero que, honestamente, faz a afirmativa, contrariando, de certa forma, o normal comportamento da cúpula eclesiástica. Difícil se torna, contudo, convencê-la, a ela, a Igreja, de quanto se afasta, deliberada ou inocentemente, das fontes da Revelação na maioria, na grande maioria dos seus dogmas.
  Confirmemos, de nossa parte, a imprescindibilidade de que o dogma, para ser autêntico, tenha de estar contido na Revelação. Nada há de repugnante, por exemplo, no dogma da existência de Deus. Os espíritas não podem rejeitar essa afirmativa e têm todos, igualmente, convicção dessa Verdade. Os que a não têm deixam automaticamente de ser espíritas, embora sua posição de forma alguma lhe obste a entrada no reino dos céus.
  Há dois aspectos, entretanto, que já nesta altura não podem deixar de ser devidamente esclarecidos. O primeiro diz respeito à extensão da Revelação, em face da qual espíritas e católicos discordam. Enquanto estes consideram-na, estranhamente, encerrada com a morte de João Evangelista, o último dos apóstolos, aqueles, considerando as promessas do próprio Cristo, aceitam a sua complementação progressiva. Por isso, às vezes, nós, os espíritas, vamos buscar outros pontos de convicção naquela que é a Terceira Revelação e que, de resto, não contrariou sequer a primeira ou a segunda, mas apenas esclareceu-as melhor.
  Lembramos aqui que foi a falsa convicção do farisaísmo nos seus dogmas que encegueceu os seus adeptos e impediu-os de raciocinar sobre as novas e progressivas verdades que Jesus trouxe ao mundo. No mais, essa história de afirmar (aliás, gratuitamente) que a Revelação se encerrou com o Novo Testamento deixa muito mal o Criador que, nessa hipótese, teria esquecido completamente todos os povos anteriores ao Cristo, permitindo que somente os que nasceram de sua época em diante (desde que se neguem as existências passadas e que o Espírito nasce uma só vez na Terra) viessem a ser premiados com o conhecimento de verdades maiores ou, antes, das verdades definitivas sobre tudo e sobre todos. A progressividade espírita da Revelação não conspurca assim o Criador, apresentando-O como um Ser realmente Sábio e Perfeito que vai permitindo às Suas criaturas aprender e evoluir, em todas as épocas, à medida que as Verdades Eternas lhes vão sendo reveladas.
  Mas, mesmo que se quisesse — apenas para argumentar — raciocinar em torno tão-somente da Revelação Cristã, como a última trazida ao mundo, ainda assim os pontos de vista espíritas afloram muito mais natural e fluentemente do que aqueles que precisam de concílios para ser compreendidos e proclamados. E’ o caso da reencarnação.
  O segundo aspecto que prometemos referir, além da extensão da Revelação, é o da aplicação da Razão à própria Revelação. E’ assim que, conforme já frisamos seguidamente, somos racionalistas, enquanto a Igreja faz aditar à Revelação a chamada Tradição (símbolos da fé, concílios, escritos dos padres, etc,) a fim de proclamar os seus dogmas. Daí a cautela da Santa Madre: “Há limites que a especulação não pode transpor sem perigo para o dogma” (“Teologia Dogmática”, página 113). A Igreja, como já vimos, não admite a aplicação da Razão aos dogmas que ela propõe, esquecida de que, nos concílios, é o puro racionalismo que em última análise orienta os debates e faz gerar as soluções decretadas. E se assim não fora teríamos o caos das idéias no seu mais amplo sentido.
  O Espiritismo alia a Razão pura à Revelação, objetivando a proposição dos seus postulados. E como também reconhece alguns limites à especulação, faz assentar o seu exame das Verdades nos fatos que ela encerra, quer direta, quer indireta­mente. E’ aqui que o Espiritismo se engrandece e torna suas convicções mais sensatas, mais sábias, mais lógicas e menos confutáveis. Deus existe, dogmatiza a Igreja, porque assim consta da Revelação, porque assim expressa a Tradição e porque assim o magistério “infalível” da Igreja o proclamou. Deus existe — afirma o Espiritismo — porque assim cons­ta da Revelação, porque assim compreende a nos­sa Razão e porque assim os fatos o comprovam. “O Espiritismo — sentencia Kardec — não estabelece como princípio absoluto senão o que se acho evidentemente demonstrado, ou o que ressalta logicamente da observação” (“A Gênese”, pág. 42 da 13ª edição da FEB) – “Que autoridade tem a revelação espírita — diz ainda o Mestre — uma vez que emana de seres de limitadas luzes e não infalíveis? A objeção seria ponderosa, se essa revelação consistisse apenas no ensino dos Espíritos, as deles exclusivamente a devêssemos receber e houvéssemos de aceitá-la de olhos fechados. Perde, porém, todo valor, desde que o homem concorre para a revelação com o seu raciocínio e o seu critério, desde que os Espíritos se limitam a pô-lo no caminho das deduções que ele pode tirar da observação dos fatos” (“A Gênese”, págs. 44/45, da edição citada).
  Quanto à Tradição, é óbvio que o Espiritismo também lhe empresta algum respeito, se considerada no sentido restrito do conjunto das verdades reveladas que os apóstolos pregaram sem as deixar escritas. Repele-a, entretanto, no sentido odioso que lhe empresta a Igreja, quando afirma: “Ao magistério infalível da Igreja cabe discernir, em última instância, quais tradições são de origem divina, quais de origem humana” (“Os Dogmas da Fé”, de João Pedro Junglas, pág. 51 da 3ª edição de “Vozes”) - Ou: “O critério pelo qual se reconhece a bíblia verdadeira, é a tradição apostólica que a Igreja sanciona pelo magistério infalível” (idem, ibidem pág. 51). Como vemos, há um “magistério infalível” (?!) que julga em última instância o valor da Tradição. Porque a sanção é só e exclusivamente da Igreja? Além do mais, à guisa de apor essa sanção, o clero passou, de repente, não apenas a sancionar os dogmas do Evangelho, mas a fazer também Revelação, autoridade para a qual, nem com muito boa vontade, conseguimos lobrigar na mensagem do Cristo. E’ certo que Jesus falou na descida do Espírito Santo, mas apenas para dizer que ele desceu sobre o colégio apostólico a fim de dar força e sabedoria aos pregadores da Boa-Nova e não para que fizesse qualquer Revelação. E, de fato, a própria Igreja não se considera com essa autoridade, pois “não compôs nenhum livro sagrado, por­que não é, inspirada, mas sim interpreta os livros sagrados porque é assistida pelo “Espírito Santo”, como afirma Caussette. Não é mentira que São Bernardo escreveu uma vez que a Igreja, como Es­posa do Cristo, tem o Espírito Santo e pode infundir um sentido novo no escrito. Contudo, reconheçamos que, de direito, a Igreja jamais se arrogou esta autoridade e a opinião de São Bernardo permanece uma voz isolada. Seu procedimento, entre­tanto, é paradoxalmente outro, pois mais não tem feito, na prática, do que agir conforme diz que não deve agir. Se reconhece que não tem a autoridade para fazer revelação, como pois nos vem inspirar dogmas como o da Santíssima Trindade, da infalibilidade Papal, da Ascensão db Nossa Senhora, do Purgatório, do Pecado Original, etc.? Não foi sem razão que Lutero acusou a Igreja de arrogar-se o poder absolutista sobre a Escritura: “Vangloriam-se de que o Papa e a sua Igreja estão acima da Sagrada Escritura. O Papa teria o poder de mu­dá-la, suprimi-la, proibi-la, interpretá-la a seu bel-prazer.”
  O         Espiritismo está pronto a aceitar todas as verdades contidas no Evangelho e, mesmo assim, de­pois de examinadas racionalmente. Perguntar-se-á, porém: mas, em que termos a Razão de que tanto falamos deverá ser aplicada? Qual o critério para esse exame? Que, espécie de Razão deverá servil de fiel de balança: a dos Espíritos ou a dos Concílios? Adolfo Bezerra de Menezes, o apóstolo do Espiritismo no Brasil, ensina-nos na sua obra “A Doutrina Espírita como Filosofia Teogônica” (reeditada com o título de “Uma Carta de Bezerra de Menezes”): “Temos um critério infalível para o conhecimento da pura verdade. Temos esse critério nas perfeições infinitas do Criador. Tudo que as exaltar é pura verdade. Tudo que as rebaixar épura mentira. E, por esse critério, podemos verfifi­ca.r quais os princípios de nossa religião que são verdades, quais os que são mentiras” (págs. 61/62 da 1ª edição da FEB).
  O         grande equívoco da Igreja não está em apontar dogmas, mas em apontar determinados dogmas que não constam da Revelação ou que são produtos de interpretações distorcidas, distanciadas da grandeza de Deus e capazes de rebaixá-Lo. E’ o caso do Inferno, com a crença em Satanás, um ser e uma imagem que, apresentados tão poderosos quanto o próprio Deus, conseguem até desafiá-Lo, diminuindo-O e desmerecendo-O portanto (aqui temos uma falsa interpretação evangélica). Ou, então, no caso da vida única, que minimiza o Criador, apresentando-O injusto com os que não quis gerar per­feitos física, intelectual e moralmente (aqui temos uma afirmativa que não existe na Revelação).
  A própria Igreja chama “veritates catholicae” (verdades católicas) àquelas que não estão contidas na Revelação e que, portanto, não podem ser consideradas dogmas. As verdades católicas constituem apenas as “doctrinae ecclesiasticae” (doutrinas eclesiásticas), para distinguir das “doutrinas divinas” da Revelação. Contudo, a questão se revela facciosa por completo, quando verificamos que, apesar dessa doutrina, a Igreja apresenta como dogma exatamente o que se não acha nas Escrituras, contrariando portanto os seus próprios preceitos que, por isso mesmo, não passam de temas de fancaria. E’ o caso flagrante da infalibilidade papal. No mais, a Igreja cuida de defender sua posição de todos os modos, pois mesmo em relação às “verdades católicas” não esqueceu de garanti-las com a característica da infalibilidade. “Os concílios gozaram sempre o prestigio de uma autoridade infalível” — afirma Bernardo Bartmann à pág. 65 da sua “Teologia Dogmática”. Em última análise temos, destarte, a troca dos nomes apenas; os bois são sempre os mesmos.
  Segundo o Espiritismo, todos são aptos à interpretação evangélica, desde que os resultados alcançados suportem a crítica da Razão, não repilam o bom-senso universal nem contrariem a verdade experimental dos fatos. E — frisemos bastante — a crítica da Razão (isto é, pela Razão) deve necessariamente engrandecer e exalçar Deus e nunca re­baixá-Lo!
  Há ainda um outro ângulo a ser considerado na questão: o texto original da Revelação. O Concílio de Trento estabeleceu “que esta velha e divulgada versão (“vetus et vulgata editio”), provada pelo uso de tantos séculos na Igreja, nas leituras públicas, disputas, pregações, seja considerada como autêntica (“pro authentica habeatur”), e ninguém ouse ou presuma rejeitá-la a qualquer pretexto” (“Enchiridion Symbolorum et Definitionum”, página 785). A respeito, comenta Bartmann no seu trabalho teológico: “O elemento essencial da decisão conciliar deve-se procurar no sentido da palavra “autêntica”. Em si, não significa conformidade com o texto original da Bíblia, mas reconhecimento da parte da Igreja” (pág. 47, edição citada). Como vemos, a Igreja, além do mais, fechou definitivamente a questão em torno até mesmo do texto bíblico, em relação ao qual não admite nada que se lhe prove contrariamente ao que, da sua parte, já reconheceu como autêntico. Isto já é, queiram ou não queiram, colocar-se realmente acima da própria Revelação!
Dissequemos o problema do dogma com mais profundidade ainda. A teologia dogmática, que já analisamos em parágrafos anteriores, cumpre três deveres distintos: a) apresentar o dogma como é atualmente no ensino da Igreja, extraindo-o das chamadas fontes simbólicas; b) prová-lo com a Escritura e a Tradição; e) aprofundá-lo especulativamente, quanto possível.
  Não é difícil verificar que o processo de apresentar, provar e aprofundar é sempre de natureza racional, a despeito da repulsa da Igreja ao sistema racionalista. Mas vamos adiante. Na apresentação do dogma, é recomendada a atenção aos seus próprios escritos. Na prova são aconselhadas “as normas científicas usadas hoje pela exegese e tantas vezes recomendadas pela Igreja” (“Introduzione allo Studio dei Dogma”, de Glorieux, edição Paulina de 1951). No aprofundamento é recomendada a fé como ponto de partida, além dum ângulo ou crivo filosófico que não seja outro senão o do aristotelismo escolástico, indicado nas encíclicas “Aeterni Patris”, de Leão XIII, de 1879, e “Humani Generis”, de Pio XII, de 1950. Repare-se que, na hora de “apresentar” o dogma, a grande fonte é sempre o ensino da própria Igreja e os chamados escritos simbólicos, também dessa mesma Igreja. Para isso ela impõe o uso duma linguagem teológica fixa, “pois se cada teólogo quisesse criar um vocabulário próprio, resultaria uma tremenda confusão” (“Enchiridion Symboiorum et Defínitionum”, págs. 159, 161, 442 e seguintes). Impõe ainda que se evite “a novidade profana de palavras” e, citando Santo Agostinho, obriga o uso “duma regra determinada para que o uso arbitrário dos termos não venha a criar uma opinião errônea sobre o que designam”. A isto chamam “apresentar o dogma na sua verdadeira realidade”. Como vemos desde logo, é praticamente dogmatizar antes mesmo de apresentar o próprio dogma. Repare-se em seguida que, na hora de “provar” o dogma, só tem valor a exegese católica, o que evidencia uma condição “a priori”, profundamente repugnante. A prova que não trilhe a norma da ciência católica, não serve nunca. Finalmente, repare-se que a especulação só se permite através duma determinada escola filosófica, qual seja, a do aristotelismo escolástico, o que seria o mesmo se nós, espíritas, propuséssemos: aceitaremos a doutrina católica, desde que nos convençam dos seus postulados através unicamente da escola filosófica dos materialistas ... Um beco sem saída. Além disso tudo, quando a fé é imposta como princípio diretivo da especulação, poder-se-ia certamente indagar: que fé? A fé cega, sem dúvida, tão sem valor e sem convicção interior. No mais, como se­ria possível a fé (apesar de cega) numa verdade que ainda vai ser proclamada pela teologia dogmática, depois daquelas três exigências? Afinal, é a Verdade que gera a fé ou a fé que gera a Verdade? Parece que estamos, agora, dentro dum círculo vi­cioso.
  O processo espírita é muito diferente. E, antes de examiná-lo, leiamos rapidamente esse conceito de Léon Denis, contido em “O Problema do Ser, do Destino e da Dor”, à pág. 30 da 8ª edição da FEB:
              “Hoje, já não basta crer; quer-se saber. Nenhuma concepção filosófica tem probabilidade de triunfar, se não tiver por base uma demonstração que seja, ao mesmo tempo, lógica, matemática e positiva, e se, além disso, não a coroar uma sanção que satisfaça a todos os nossos instintos de justiça.” Um pouco antes, à pág. 28, lemos: “O novo espiritualismo dirige-se, pois, conjuntamente, aos sentidos e à inteligência. Experimental, quando estuda os fenômenos que lhe servem de base; racional, quando verifica os ensinamentos que deles derivam, e constitui um instrumento poderoso para a indagação da verdade, pois que pode servir simultaneamente em todos os domínios do conhecimento “ Em nota elucidativa ao pé da pág. 32, afirma: “Os fatos não têm valor sem a razão que os analisa e deles deduz a lei.” “Por conseguinte, o método que se impõe é: 1º) a observação dos fatos; 2º) a sua generalização e a investigação da lei; 3º) a indução racional que, além dos fenômenos fugitivos e mutáveis, percebe a causa permanente que a produz,” Assim — podemos agora repetir com ênfase — o método espírita tem a seu favor, no enunciado da Verdade, esse caminho novo e todo especial, embora muito simplista: a Razão e os Fatos experimentais, de­pois, obviamente, da Revelação. Nesse sentido é que o Espiritismo também tem seus dogmas, como aliás bem acentuou o nosso brilhante e estudioso confrade Carlos Imbassahy, no seu excelente trabalho intitulado “Religião”, quando diz, à pág. 156 da edição de 1952, da FEB: “Nem ao dogma, talvez, se fugisse, visto que, para o espiritista, a existência de Deus é ponto fundamental e indiscutível”. A esse método aliemos ainda o criticismo kantiano no seu aspecto mais extraordinário, do ponto de vista do conhecimento, qual seja o da impossibilidade de se conhecer toda a verdade através da razão. Isto pode parecer paradoxal, mas não o é. Vamos mais uma vez tentar explicar porquê. Lembremo-nos de que Kant admitiu, como necessário, não apenas Deus, mas também a existência e imortalidade do Espírito, embora não nos fosse possível apreender a essência dessas duas grandes verdades. Ora, não é isto exatamente o que nos ensina o Espiritismo ? Não é isto que consta, como já vimos, de “O Livro dos Espíritos”?
  O próprio Kant acabaria sendo considerado paradoxal, se não fosse levada em conta, com bastante inteligência, a sua filosofia. Entre a “Crítica da Razão Pura” e a “Critica da Razão Prática” há um abismo para o estudioso desprevenido. No primeiro, Kant destrói a metafísica científica “para em seu lugar elevar-se a metafísica da fé. Do cristianismo da razão pura, passa Kant ao dogmatismo moral” (“Noções da História da Filosofia”, do padre Leonel Franca, pág. 178 da 12ª edição da AGIR). Após a publicação da “Crítica da Razão Pura”, Reinhold disse que a obra foi proclamada pelos dogmatistas como a tentativa dum céptico para abalar e certeza de todo o conhecimento; pelos cépticos, como um trabalho arrogante, presunçoso, visando a erigir nova forma de dogmatismo sobre as ruínas dos sistemas anteriores; pelos supernaturalistas, como um artifício habilmente maquinado para afastar os fundamentos históricos da Religião e estabelecer sem controvérsias o naturalismo; pelos naturalistas como um novo alento à agonizante filosofia da fé; pelos materialistas, como uma confutação idealista da realidade da matéria; pelos espiritualistas, come uma injustificável confinação da realidade do mundo corpóreo, escondido com o título de domínio de experiência.
  Ora, se o kantismo é capaz de ser ao mesmo tempo criticista e dogmático, porque não o pode também o Espiritismo? Considere-se ainda que este além do mais, joga com fatores absolutamente estranhos ao kantismo e que facilita sobremodo e compreensão do aparente paradoxo. A Doutrina dos Espíritos envolve dois campos do conhecimento: o dos encarnados e o dos desencarnados, provando experimentalmente essa dupla posição da existência e do pensamento das criaturas. Isto facilita muitos problemas. O Espírito desencarnado pode conhecer, muitas vezes, algumas verdades a mais que na condição de encarnado, lhe estariam veladas à sua razão relativa. Aqui ele se sujeita ao criticismo, e do lado oposto da vida, falando-se em tese ele não está mais tão fortemente sujeito a esta condição. Admitido o intercâmbio entre os dois mundos, teremos então atingidas algumas verdades antes incognoscíveis na sua essência.
  Voltemos agora ao raciocínio inicial. Por tudo isso, nada há de estranho na afirmativa de Kardec de que o Espiritismo tem alguns dogmas. Trata-se entretanto, de alguns poucos pontos fundamentais da Doutrina, contido. na Revelação Cristã, na Revelação kardecista e em outras, dignas de respeito como é o caso da “Revelação da Revelação”, de Roustaing. A Razão e a Lógica os sancionam. Os Fatos os comprovam. A universalidade dos estudiosos os atestam. Não há, pois, porque temer a palavra, se encaramo-la do ponto de vista que de fato encerra a sua etimologia: pensamento: convicção doutrina. Nenhum espírita pode negar a Deus. Nenhum espírita pode negar a comunicação entre vi­vos e mortos. Nenhum espírita pode negar a imortalidade da alma. São dogmas, porém, concluídos diferentemente da Igreja Católica, por tudo o que vimos expondo até aqui. Não são decretados por uma autoridade humana, por um concilio ou por uma reunião do bispado. Nem tão-pouco são votados por um grupo qualquer que, em assembléia fechada, decide pretensiosamente o que é ou não é verdade. O que se deve temer não é propriamente o termo dogma, mas, antes, o termo dogmática. “A Teologia Dogmática é a fonte por onde se passa do regime de liberdade para o de escravidão” disse com muita propriedade o Padre Alta no seu livro “O Cristianismo do Cristo e dos seus Vigários”, à pág. 814 da edição de 1951 da FEB. Atra­vés da dogmática é que surgem até hoje os dogmas mais absurdos da Igreja Católica. Com seu critério dogmático a Santa Madre impõe o Juízo Final, o Inferno, a Santíssima Trindade, a infalibilidade do Papa, e uma série imensa de outras ilogicidades. Através da dogmática a Igreja manietou a Razão, violentou as consciências e inventou um rosário de dogmas “católicos”. Com eles conspurcou o verdadeiro Cristianismo, enceguecendo-se ante as novas verdades que o Consolador Pro­metido trouxe à Humanidade e viciando-se na mentira e na simonia. Buscando aflita uma saída para sua incrível e insustentável posição filosófica, agarrou-se a uma moderna “interpretação progressiva” do dogma, preparando o caminho para uma fuga estratégica futura, mas, de qualquer forma, envencilhada num inextricável emaranhado que a esgotará paulatinamente e pouco a pouco lhe exaurirá até as últimas forças.
  Este trabalho não deveria terminar aqui. Deveríamos aprofundar alguns dos muitos pontos necessariamente passíveis de maiores esclarecimentos; entretanto, essa tarefa não a comportam as páginas limitadas do “Reformador”. Apenas para re­matar, reafirmemos esta breve sinopse de toda e matéria abordada:
  1 — O Espiritismo se enquadra no dogmatismo filosófico moderado, por entender que a criatura, em determinadas circunstâncias, pode alcançar a Verdade absoluta. (Leia-se, a propósito, nosso artigo intitulado “Ao Encontro de Deus”, publicado em “Re­formador” de Novembro de 1962.)
  2 — O Espiritismo repele a teologia dogmática dos católicos por lhe negar os critérios de verdade que adota e o sistema aplicado na proclamação dos seus dogmas.
  3 — O Espiritismo possui alguns poucos dogmas extraídos das Revelações Divinas, aceito porém pela Razão, quando esta não minimiza Deus nos Seus juízos e quando são confirmados experimentalmente pelos Fatos.
  4 — O Espiritismo admite o criticismo transcendental kantiano, por conceber que há verdades impossíveis de, no estado atual dos encarnados (e às vezes, também dos desencarnados), serem assimiladas tais quais são, pela Razão limitada e relativa das criaturas.
    Luciano dos Anjos
Fonte: Reformador – fevereiro, 1964 
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 00:01

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Domingo, 6 de Novembro de 2011

A MALDADE: UMA DOENÇA DO ESPÍRITO


Impossível ignorar a existência do mal. Relatos de maldade e atos criminosos ocupam espaço na mídia escrita e falada, corriqueiramente.
O assunto faz parte de estudos médicos, psicológicos, filosóficos e literários, do passado e do presente. A Ciência admite, inclusive, a existência de componente genético para a maldade. O pensamento espírita, porém, é que
O mal não é intrínseco no indivíduo, não faz parte da natureza íntima do Espírito; é, antes, uma anomalia, como o são as enfermidades. O bem, tal como a saúde, é o estado natural, é a condição visceralmente inerente ao Espírito. Um corpo doente constitui um caso de desequilíbrio, precisamente como um Espírito transviado, rebelde, viciado, ou criminoso.1
Em termos médicos, maldade (do latim malus: mal) é o “desejo ou intenção de causar danos a alguém ou de verem outras pessoas sofrerem”.2 A psiquiatria considera a maldade como uma psicopatia que “não aparece de forma única e uniforme [pois], há graus variados”,3 afirma Ana Beatriz Barbosa Silva, professora brasileira de Psiquiatria e autora da instrutiva obra Mentes Perigosas: o psicopata mora ao lado (Rio de Janeiro, Objetiva, 2008). Em linguagem compreensível ao grande público, o livro estuda a maldade, segundo critérios médicos, mais precisamente da Psiquiatria, oferece ao leitor oportunos esclarecimentos, pontua conceitos, indica os avanços da Ciência e, ao final, apresenta um “manual de sobrevivência”, que ensina como a pessoa pode se prevenir de ações ou situações que envolvam a maldade.
A doutora Ana Beatriz ensina que, como psicopatia, a maldade é um “transtorno da personalidade que apresenta dois elementos causais fundamentais: uma disfunção neurobiológica e o conjunto de influências sociais e educativas recebidas ao longo da vida”.
³ Informa ainda que tais psicopatas são, em geral, indivíduos frios, calculistas, inescrupulosos, dissimulados, mentirosos, sedutores e que visam apenas o próprio benefício. Eles são incapazes de estabelecer vínculos afetivos ou de se colocar no lugar do outro. São desprovidos de culpa ou remorso e, muitas vezes, revelam-se agressivos e violentos. Em maior ou menor nível de gravidade e com formas diferentes de manifestarem os seus atos transgressores, os psicopatas são verdadeiros “predadores sociais”, em cujas veias e artérias corre um sangue gélido.4
A maldade apresenta gradações que, no ponto máximo, é denominado perversão pelos psicanalistas.
“Originada do latim perversione, a palavra designa o ato ou efeito de tornar-se mau, corromper, depravar ou desmoralizar. [...]. Da mesma raiz de perversão, deriva perversidade que quer dizer ‘índole ferina ou ruim’.”5
Para a Doutrina Espírita “Deus não criou Espíritos maus; criou-os simples e ignorantes [...]. Os que são maus, assim se tornaram por sua vontade”.6 Neste contexto, a índole perversa ou as más tendências identificadas em certas pessoas refletem o somatório de ações infelizes, atentados contínuos à legislação divina, em razão do uso incorreto do livre-arbítrio, ao longo das reencarnações. Nestas condições instalam-se perturbações nos refolhos da alma que produzem desordens mentais, observáveis nas atitudes e comportamentos individuais, às vezes desde a mais tenra infância.
Se as manifestações de maldade não forem precocemente controladas ou tratadas, a pessoa pode se transformar em sócio pata, praticando atos classificados como crimes hediondos.
O Espírito André Luiz explica melhor a problemática:
[...] na retaguarda dos desequilíbrios mentais, sejam da ideação e da afetividade, da atenção e da memória, tanto quanto por trás de enfermidades psíquicas clássicas [...] permanecem as perturbações da individualidade transviada do caminho que as Leis Divinas lhe assinalam à evolução moral.
[...] Torturada por suas próprias ondas desorientadoras, a reagirem, incessantes, sobre os centros e mecanismos do corpo espiritual, cai a mente nas desarmonias e fixações consequentes e, porque o veículo de células extrafísicas que a serve, depois da morte, é extremamente influenciável, ambienta nas próprias forças os desequilíbrios que a senhoreiam, consolidando-se-lhe, desse modo, as inibições que, em futura existência, dominar-lhe-ão temporariamente a personalidade, sob a forma de fatores mórbidos, condicionando as disfunções de certos recursos do cérebro físico, por tempo indeterminado.7
O espírita consciente evita, a todo custo, praticar atos de maldade, mesmo os considerados “toleráveis” pela sociedade. Mantém-se atento aos próprios pensamentos e atos, a fim de não fazer vinculações mentais com entidades desarmonizadas, encarnadas ou desencarnadas. Compreende, enfim, que o processo obsessivo está na maioria das vezes associado às desarmonias espirituais, exacerbando-as. O Instrutor Barcelos, de acordo com os registros de André Luiz, orienta, a propósito:
[...] No círculo das recordações imprecisas, a se traduzirem por simpatia e antipatia, vemos a paisagem das obsessões transferida ao corpo carnal, onde, em obediência às lembranças vagas e inatas, os homens e as mulheres, jungidos uns aos outros pelos laços da consanguinidade ou dos compromissos morais, se transformam em perseguidores e verdugos inconscientes entre si. Os antagonismos domésticos, os temperamentos aparentemente irreconciliáveis, entre pais e filhos, esposos e esposas, parentes e irmãos, resultam dos choques sucessivos da subconsciência, conduzida a recapitulações retificadoras do pretérito distante. [...]8
Uma vez reveladas tendências para a prática do mal, na criança ou no jovem, pais e educadores devem somar esforços, buscando apoio profissional, médico e/ou psicológico. O auxílio espiritual, usual na casa espírita (prece, passe, irradiações, estudo etc.), é também imprescindível. O Instrutor Barcelos, anteriormente citado, orienta que como medida preventiva [...] Precisamos divulgar no mundo o conceito moralizador da personalidade congênita, em processo de melhoria gradativa, espalhando enunciados novos que atravessem a zona de raciocínios falíveis do homem e lhe penetrem o coração, restaurando-lhe a esperança no eterno futuro e revigorando-lhe o ser em suas bases essenciais. As noções reencarnacionistas renovarão a paisagem da vida da Crosta da Terra, conferindo à criatura não somente as armas com que deve guerrear os estados inferiores de si própria, mas também lhe fornecendo o remédio eficiente e salutar. [...]9

Reformador Junho2010

Referências:
1VINÍCIUS. Em torno do mestre. 9. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. O criminoso e o crime, p. 97.
2THOMAS, Clayton (organizador). Dicionário médico enciclopédico taber. Trad. Fernando Gomes do Nascimento. 17. ed. São Paulo: Manole, 2000. p. 1070.
3SILVA, Ana Beatriz Barbosa. A essência da maldade. In: Revista Mente e Cérebro, ano 17, n. 202, p. 36. São Paulo: Duetto. Scientific American Brasil.
4______. Mentes perigosas: o psicopata mora ao lado. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. Cap. 2, p. 37.
5______. A essência da maldade. In: Revista Mente e Cérebro, ano 17, n. 202, p. 38. São Paulo: Duetto Scientific American Brasil.
6KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Q. 121.
7XAVIER, Francisco C.; VIEIRA, Waldo. Mecanismos da mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. 32. ed. 3. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Cap. 24, item Perturbações morais, p. 186-187.
8XAVIER, Francisco C. Obreiros da vida eterna. Pelo Espírito André Luiz. 33. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 2, p. 43.
9______. ______. p. 41.
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 00:01

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Sábado, 5 de Novembro de 2011

CIÚME: TRAMA ESCURA DO SENTIMENTO


“Escutai e compreendei bem isto: não é o que entra na boca que macula o homem; o que sai da boca do homem é que o macula. O que sai da boca procede do coração e é o que torna impuro o homem.” (Mateus, 15:17-18.)





O Mestre, ao enunciar esse significativo ensinamento, de inapreciável valor, também registrado no Evangelho de Marcos (7: 18 a 21), espera de nós uma mudança íntima e radical mediante a purificação do nosso coração, não de reforma externa. A passagem evangélica impele-nos a pensar sobre o tema do presente artigo, identificando, nas doenças da alma, o momento em que o ciúme converte a palavra em açoite desesperador.

O assunto sugere vasta abordagem, mas gostaríamos de nos deter em alguns aspectos desse sentimento que tem danificado moralmente muitas almas irmãs que se deixam levar pelo receio e pela incerteza nos relacionamentos afetivos entre casais.

Como aniquilar o ciúme do coração para fugir de aflitivas tentações que nos assaltam o pensamento?

Se o sentimento precede, em nós, toda e qualquer elaboração de ordem mental, por que não conseguimos mantê-los equilibrados, pacificando-os, tanto quanto possível, em benefício das experiências amorosas que usufruímos?

Ao interpretar o ciúme, o Mentor espiritual Emmanuel, esclarece:

– O ciúme, propriamente considerado nas suas expressões de escândalo e violência, é um indício de atraso moral ou de estacionamento no egoísmo, dolorosa situação que o homem somente vencerá a golpes de muito esforço, na oração e na vigilância, de modo a enriquecer o seu íntimo com a luz do amor universal, começando pela piedade para com todos os que sofrem e erram, guardando também a disposição sadia para cooperar na elevação de cada um.1

Nossas ideias se exteriorizam todos os dias e somos identificados pelas vibrações que irradiamos. É imprescindível, portanto, observar as condições emocionais que se originam de nossas reflexões e raciocínios – nem sempre vigilantes – e que nos conduzem à derrota no campo de lutas cotidianas.

Ao examinar os relacionamentos perturbadores, o Espírito Joanna de Ângelis mostra-nos que “o amor é uma conquista do espírito maduro, psicologicamente equilibrado; usina de forças para manter os equipamentos emocionais em funcionamento harmônico”2 e refere-se às características daqueles que agem em desacordo com esse amor:

Os indivíduos de temperamento neurótico, tornam-se incapazes de manter um relacionamento estável. Pela própria constituição psicológica, são portadores de afetividade obsessiva e, porque inseguros, são desconfiados, ciumentos, por consequência, depressivos ou capazes de inesperadas irrupções de agressividade.

[...] Creem não merecer o amor de outrem, e, se tal acontece, assumem o estranho comportamento de acreditar que os outros não lhes merecem a afeição, podendo traí-los ou abandoná-los na primeira oportunidade. Quando se vinculam, fazem-se absorventes, castradores, exigindo que os seus afetos vivam em caráter de exclusividade para eles [...].3

Afirma o preclaro Espírito, que o amor-compreensão “não se escora em suspeitas, nem exigências infantis; elimina o ciúme e a ambição de posse, proporcionando inefável bem-estar ao ser amado que, descomprometido com o dever de retribuição, também ama”.3 De fato, esse amor, contrário ao amor-paixão, vence obstáculos para manifestar a sua afeição com maior intensidade a cada dia. Assim, no entender de Vinícius: “A paixão pode conduzir o homem à loucura e ao crime. O amor equilibra as faculdades, consolida o caráter, apura os sentimentos e torna o homem capaz dos mais belos sacrifícios”.4

O monstro do ciúme, contudo, devora-nos o equilíbrio; torna-nos frágeis emocionalmente frente às dúvidas e às desconfianças que nos atormentam o coração.

Nossas suspeitas, fruto do egoísmo que nos assinala a personalidade, convertem-se em profundas aflições fazendo-nos sofrer desnecessariamente, causando-nos inúmeros transtornos físicos e morais; padecimentos buscados na vida presente, “consequência natural do caráter e do proceder dos que os suportam”.5 Sobre o problema, Allan Kardec explica-nos, objetivamente:

Interroguem friamente suas consciências todos os que são feridos no coração pelas vicissitudes e decepções da vida; remontem passo a passo à origem dos males que os torturam e verifiquem se, as mais das vezes, não poderão dizer: Se eu houvesse feito, ou deixado de fazer tal coisa, não estaria em semelhante condição.

A quem, então, há de o homem responsabilizar por todas essas aflições, senão a si mesmo? O homem, pois, em grande número de casos, é o causador de seus próprios infortúnios [...].6

Em nota à questão 917 de O Livro dos Espíritos, tendo como resposta a mensagem transmitida pelo Espírito Fénelon, analisa Kardec, asseverando:

[...] Quando compreender bem que no egoísmo reside uma dessas causas, a que gera o orgulho, a ambição, a cupidez, a inveja, o ódio, o ciúme, que a cada momento o magoam, a que perturba todas as relações sociais, provoca as dissensões, aniquila a confiança, a que o obriga a se manter constantemente na defensiva contra o seu vizinho, enfim a que do amigo faz inimigo, ele compreenderá também que esse vício é incompatível com a sua felicidade e, podemos mesmo acrescentar, com a sua própria segurança. [...]7

É imprescindível vigiar a palavra para que não venhamos a cometer desatinos em nome do sentimento que afirmamos ter pela pessoa amada; vigiar a boca, ao transmitir pensamentos destrutivos, exteriorizando elementos perturbadores, de acordo com as nossas intenções mais secretas e personalistas.

Dia virá em que colheremos os frutos amargos das atitudes infelizes que perpetramos.

O exemplo oferecido pelo Espírito André Luiz, retratado em uma de suas obras, alerta-nos para o fato de que, mesmo espíritas, não fugiremos dessas situações se não soubermos preservar a harmonia necessária ao lado daqueles com quem convivemos no recesso do lar: é o caso da médium Isaura Silva. O autor, em conversa com Sidônio, diretor dos trabalhos, a descreve como

[...] valorosa cooperadora, revela qualidades apreciáveis e dignas, porém, não perdeu ainda a noção de exclusivismo sobre a vida do companheiro e, através dessa brecha que a induz a violentas vibrações de cólera, perde excelentes oportunidades de servir e elevar-se. [...]8 André Luiz, orientado pelo Guardião espiritual, relata que, apesar de a cooperadora possuir vastas probabilidades de serviço ao próximo, suas condições espirituais menos nobres, influenciadas pelos sentimentos enegrecidos que cultiva, lhe encaminham, durante o sono, fora do corpo de carne, ao encontro de entidades desencarnadas, caracterizadas por aspirações de ordem inferior e de mentes pervertidas. Confabulando com esses Espíritos, a seareira encontra guarida para desabafar sobre os dramas imaginários que acalenta dentro de si. Em razão disso, os Espíritos superiores que a assistem, concluem:

– Antes de tudo, os agentes da desarmonia perturbam-lhe os sentimentos de mulher, para, em seguida, lhe aniquilarem as possibilidades de missionária.

O ciúme e o egoísmo constituem portas fáceis de acesso à obsessão arrasadora do bem. Pelo exclusivismo afetivo, a médium, nesta conversação, já se ligou mentalmente aos ardilosos adversários de seus compromissos sublimes. 9

Vivamos, pois, tranquilamente junto aos que nos cercam, mantendo uma conduta de segurança no plano afetivo; saibamos cultivar a ligação imperecível entre as almas que amamos e que nos amam, lutando contra os perigos do ciúme devastador que aniquila a estabilidade de nossos melhores sentimentos, sem esquecer que a palavra procede do coração envolvendo-nos para o bem ou para o mal.



Reformador Maio 2010


Referências:
1XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 28. ed. 3. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Questão 183.
2FRANCO, Divaldo P. O homem integral. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador, BA: LEAL, 1990. Cap. 7, Relacionamentos perturbadores, p. 114-117.
3______.______. p. 114.
4VINÍCIUS (Pseudônimo de Pedro de Camargo). Nas pegadas do mestre. 12. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. Amor e paixão, p. 126.
5KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 129. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 5, item 4, p. 107.
6______.______. p. 108.
7______. O livro dos espíritos. 91. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Comentário de Kardec à questão 917.
8XAVIER, Francisco C. Libertação. Pelo Espírito André Luiz. 2. ed. esp. Rio de Janeiro: FEB, 2007. Cap. 16, p. 216.
9______.______. p. 220.
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 14:50

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Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011

É PERMITIDO REPREENDER OS OUTROS ...?


 Com este título, Kardec propõe três questões que são respondidas pelo Espírito S. Luís, em Paris, no ano de 1860.(1)

Na primeira delas é que vamos nos deter por agora, quando Kardec pergunta: –“Ninguém sendo perfeito, seguir-se-á que ninguém tem o direito de repreender o seu próximo?” Resposta – “Certamente que não é essa a conclusão a tirar-se, porquanto cada um de vós deve trabalhar pelo progresso de todos e, sobretudo, daqueles cuja tutela vos foi confiada. Mas, por isso mesmo, deveis fazê-lo com moderação, para um fim útil, e não, como as mais das vezes, pelo prazer de denegrir. Neste último caso, a repreensão é uma maldade; no primeiro, é um dever que a caridade manda seja cumprido com todo o cuidado possível. Ao demais, a censura que alguém faça a outrem deve ao mesmo tempo dirigi-la a si próprio, procurando saber se não a terá merecido.”

É bom lembrar que Jesus, tipo mais perfeito para servir de guia e modelo à Humanidade, enviado por Deus (2), como na primeira parte da resposta acima, jamais deixou de mostrar o erro nos quais os curados por Ele estavam inseridos, quando dizia: – “(...) de futuro não tornes a pecar”. Mas, também, nunca repreendeu alguém com o intuito de desacreditá-lo junto à sociedade; ao contrário, como no caso da mulher surpreendida em adultério (3), disse: – “Aquele dentre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.”

Fez, como está no final da resposta de S. Luís, que antes de julgarmos os outros, devemos verificar se esse julgamento não nos cabe também.

Sem dúvida alguma, a crítica irresponsável, o notar as imperfeições alheias, a maledicência fazem parte do cotidiano da grande massa da população terrena, fruto, ainda, das nossas imperfeições que nos acompanham há milênios. É uma anormalidade que com frequência praticamos como se fosse normal, já que automatizamos tais pensamentos, palavras e ações infelizes sem nos conscientizarmos do mal que proporcionamos aos nossos semelhantes.

Vemos, com muita tristeza, como os meios de comunicação, nas suas mais variadas formas, se utilizam dessas prerrogativas infelizes, sabedoras de que coisas dessa natureza é que vendem e dão altos índices de audiência.

O que mostra como ainda estamos atrasados moralmente.

Lemos outro dia, numa coluna de jornal, pequeno artigo que contava uma história mais ou menos assim: “Cada pessoa caminha na vida carregando duas sacolas, uma no peito e outra nas costas. Na do peito estão contidas as virtudes, e na das costas, os vícios. Cada um de nós só vê as costas dos que vão à frente, portanto, só os defeitos dos outros, esquecendo-nos de que os que vêm atrás de nós vêem os nossos defeitos também.”

Atitudes dignas para com os semelhantes deveriam ser rotineiras e não fatos isolados que chegam a ser destacados como coisas extraordinárias.

Costumamos dizer em nossas palestras que cada pessoa deveria ter um disjuntor moral na língua, que desarmasse automaticamente, quando fôssemos falar mal de alguém e, assim, ficaríamos mudos, só retornando a voz quando fôssemos falar coisas boas daquela pessoa. Mas o disjuntor deveria ficar mesmo era no nosso cérebro, para que toda vez que um pensamento infeliz com relação a uma pessoa surgisse, ele se desligasse e nós não indignificaríamos a ninguém. Esse disjuntor chama-se autocontrole sobre o que pensamos, para que não falemos ou ajamos em desfavor dos nossos semelhantes.

O Espiritismo nos mostra a necessidade da renovação pessoal na busca do ser integral, principalmente agora, nesta era da humanidade, norteada pelo amor que deve unir a todas as criaturas.

Lutemos por corrigir os nossos defeitos e, como diz a parábola do Argueiro e da Trave no olho (4), retiremos primeiro as nossas imperfeições, para só depois vermos como poderemos “auxiliar” os outros a removerem as suas.


Reformador Dez.2001
Referências Bibliográficas:
1 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, 111. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995, p. 180.
2 ____. O Livro dos Espíritos, 75. ed., Rio de Janeiro: FEB, 1995, questão 625, p. 308.
3 ____. O Evangelho segundo o Espiritismo, 111. ed., Rio de Janeiro: FEB, 1995, p. 173.
4 ____.Idem, p. 172.
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 18:02

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Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011

REFLEXÕES SOBRE A MORTE


Cidadão da eternidade, o homem convive, simultaneamente, com o mundo físico e o espiritual. Durante o sono, verifica-se a separação provisória entre a alma e o corpo. Enquanto este dorme, o Espírito semiliberto, envolto em seu corpo fluídico, ou períspirito, pode adentrar o mundo invisível, em excursão de aprendizagem ou em tarefa de ajuda aos mais necessitados nos dois planos da vida.
Na morte, porém, a libertação é definitiva: a vida, no corpo espiritual, desabrocha intensa e livre, pois “semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual” (Paulo, I Cor. 15:44). Por outro lado, o nascimento na Terra é como uma morte para o Espírito: este é encerrado em um “túmulo de carne”, no dizer de Léon Denis. O mesmo se infere do conselho de Jesus ao homem que queria segui-Lo: “A outro disse: - Segue-me”. “Mas ele disse: - Senhor, permite-me que eu vá primeiro sepultar meu pai”- “Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; quanto a ti, vai anunciar o reino de Deus” (Lucas, 11:59-60).
É evidente que Jesus não censurava a preocupação piedosa do filho: providenciar o sepultamento de seu pai. A lição que se infere dessa passagem evangélica é que a vida real, intensa e bela, é a vida espiritual, natural ao ser; havia, pois, urgência em proclamá-la.
Toda morte é um renascimento: o despertar da vida em sua plenitude.
Assim como morre a feia lagarta para surgir a borboleta multicolor, assim também desagrega-se o invólucro material para libertar o Espírito que, em sua roupagem diáfana, flutua rumo ao verdadeiro lar, em busca de novos compromissos.
No dia de Finados, uma multidão de pessoas comparece aos cemitérios, cumprindo a tradição do culto aos mortos. As necrópoles ficam em festa, numa profusão de flores e velas, com direito à cobertura da mídia. Respeitamos aqueles que assim o fazem; no entanto, somos levados a refletir sobre o fato à luz dos ensinamentos da Doutrina Espírita.
Não é no silêncio frio das sepulturas que vamos encontrar os nossos entes queridos que partiram. Dos tristes despojos muitas vezes, resta apenas pó. Não raro, os amores por que choramos e vamos procurar no cemitério estão ao nosso lado, velando por nós. Às vezes sofrem e perturbam-se, angustiados com o nosso sofrimento.
Em “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec pergunta: (323) – “ A visita de uma pessoa a um túmulo causa maior contentamento ao Espírito, cujos despojos corporais aí se encontrem, do que a prece que por ele faça essa pessoa em sua casa?”
“Aquele que visita um túmulo apenas manifesta, por essa forma, que pensa no Espírito ausente. A visita é a representação exterior de um fato íntimo.
Já dissemos que a prece é que santifica o ato da rememoração. Nada importa o lugar, desde que é feita com o coração.”
Convocados pelo pensamento, os finados comparecem ao triste local, em atenção aos seus familiares e amigos que lá se encontram. Tal, porém, poderia ser feito no recesso do lar, quando, em demonstração de saudade e carinho, fosse-lhes oferecida cariciosa vibração de uma prece. .

Reformador Nov. 1999
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 17:42

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Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

PARA QUE EDUCAR?


A educação constitui a base senão todo o fundamento do progresso e desenvolvimento moral de um povo ou nação. Infelizmente, as sociedades humanas não têm sabido valorizar o papel da educação. Na maioria das nações, a educação é limitada à escola instrucional, cingindo-se a um papel mais informativo. Apenas a História, aqui ou ali, oferece-nos um testemunho inequívoco de povos que souberam valorizar o processo educacional e conseguiram colher dele indeléveis resultados. Como exemplo, não devemos deixar de mencionar o chamado século de Péricles, na Grécia ateniense, e o século de Augusto, em Roma, ou a velha China de tão sadio e puro misticismo na alma de Lao-Tseu, Confúcio, Mêncio e tantos outros.
Claro que não estamos ignorando outras grandes civilizações do passado, é que o nosso propósito, o móvel do presente trabalho é a educação como fator de desenvolvimento e de espiritualização, ainda que, na maioria dos casos, não tenha ti­do sustentação por mais de um século, mas que é o bastante para garantir a veracidade de nossa tese. Sabemos o que era Roma quando Caio Júlio César assumiu o poder e o que este imperador teve de enfrentar e sofrer para manter a sua dignidade. Mas deixou a sua marca para todo o sempre. Já a Grécia foi mais feliz. Não houve apenas Péricles. A própria índole do povo heleno favorecia a presença de homens extraordinários que sabiam respeitar o princípio da aretê, não obstante tratar-se de povo adorador de deuses dos pés de barro, como mais tarde acentuaria Sócrates.
Nosso propósito, já o disse­mos, é salientar o papel da educação que, conforme consta do dicionário de Aurélio Buarque de Holanda, é “processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando à sua melhor integração individual e social”. E quando acrescentamos à ação de educar o atributo espiritual, tal conceituação assume, de imediato, uma profundidade bem maior, porque fica acrescida, também, do desenvolvi­mento da capacidade espiritual do ser.
O próprio conceito — não dizemos definição — assegura-nos que educação demanda um longo processo de realização. Por conseguinte, ela não se adquire de um salto, não se aprende numa aula, não se desenvolve durante uma palestra nem sequer incute-se num ser­mão, conforme tantas vezes se esforçou por demonstrar o velho Vieira. Educação é também um processo que se estabelece através de múltiplos passos, técnicas, princípios e muita dedicação, onde entram, como condições principais, a motivação e a vontade. A motivação pode ser função do educador. Mas a vontade, que pode ser salientada ou incentivada pela motivação, esta precisa ser cultivada na alma do educando. Se ele não estiver convencido do valor e da importância da educação, nada fará por desenvolvê-la em si mesmo.
A conceituação fala ainda em desenvolvimento da capacidade, o que compreende exercitação. Qualquer capacidade só se desenvolve, no indivíduo, através do exercício, que constitui o fundamento ou alicerce do hábito, que para muitos é uma nova natureza no indivíduo. Convém, por isso mesmo, não alimentar ilusões a respeito dos hábitos antes de conhecer bem a sua força e poder, bem como saber distinguir entre um hábito positivo e um hábito negativo. No processo educacional, quando o educando atinge o nível da auto percepção, ele passa a se firmar e robustecer-se na distinção dos hábitos, reforçando aqueles que são bons e procurando esquecer aqueles que a cons­ciência desaprova. E a partir daí que o educando se inicia num patamar mais adiantado do processo: o conhecimento de si mesmo. Paulo, o Apóstolo dos gentios, conheceu a importância desse estágio quando afirmou: “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém” (1 Cor., 6:12).
Diz ainda a conceituação de educação que sua meta é a melhor integração individual e social do educando. Isto significa bem-estar, felicidade, alegria e condiz com o pensamento do Prof. Huberto Rohden em seu “Educação do Homem Integral”:
“A felicidade não consiste em que o homem goze aqui todos os prazeres — a felicidade consiste em que o homem viva em perfeita harmonia com as leis cósmicas, que regem o Uni­verso inteiro e também a vida do homem.”
Realmente, o homem de nos­sos dias não é feliz, seu bem­ estar não é eficaz e sua alegria é um simulacro porque ele não se educou para a vida em sociedade, que requer abnegação e altruísmo. Preparou-se para competir e a base da com­petição é a escassez, cujas conseqüências são frustrações em cadeia.
Em verdade, nós completamos o conceito de educação encontrado no dicionário do Prof. Aurélio Buarque ao acrescentar o atributo espiritual, isto é, “visando à sua melhor integração individual, social e espiritual”. Realmente, nenhum homem deve desvincular-se de sua condição espiritual. Enquanto se mantiver subordinado à crença de que após a morte física nada mais lhe restará, o homem continuará egoísta e infeliz, portanto em oposição a si mesmo. E, conseqüentemente, um desajustado.
Para que educar? Ou para que educarmo-nos? E possível que alguém faça a si mesmo uma ou outra indagação. E quando esse alguém é espiritista, isto é, estuda e vive o Espiritismo, ele tem resposta para as duas indagações por­quanto educa e educa-se. Se é pai, nunca se descura da educação dos filhos que o Pai verdadeiro colocou sob a sua tutela, nem se olvida quanto à necessidade da própria educação. E nesse sentido que Jesus assim se expressou, no Monte: “Sede vós pois perfeitos como é per­feito o vosso Pai que está nos Céus”, consoante as anotações cuidadosas de Mateus, no fecho do Capítulo Quinto. Não consta que o Mestre Jesus era algum momento de seu apostolado haja empregado o termo educação, todavia é expressiva a maneira como encerra o Segundo Capítulo do Sermão da Montanha: “Sede vós pois per­feitos...” Ora, ninguém será capaz de atingir a perfeição sem muito esforço desenvolvi­do, sem dedicação ao Bem, sem muita abnegação, sem muita violência sobre si mesmo e com absoluta perseverança. A perseverança é aquele estado interior de quem decidiu escalar o infinito e não permite que nada modifique a sua disposição. Dentre muitos exemplos notáveis na história do Evangelho, pelo menos dois possuem características intraduzíveis: a conversão de Saulo e a reforma íntima de Maria Madalena. Saulo rompe de vez com todo o manancial de suas velhas crenças. Não discute com Jesus nem lhe pede explicação. Sua postura foi a de quem entendeu tudo, e deixa escapar da mente através dos lábios uma autêntica indagação de humildade: “Senhor, que queres que eu faça?” (Atos, 9:6). Quanto a Maria Madalena, uma mulher do mundo, uma filha do chamado pecado, não sabia quem era Jesus, mas recebera o desafio de tentá-lo, de seduzi-lo como a tantos outros fizera. Mas não lhe suporta o olhar pleno de ternura, como nunca conhecera em nenhum outro momento de sua tumultuada existência. E Maria capitula, e muda, e se transforma, e despe-se para sempre de tudo, do apogeu de luxos e de vícios, de luxúria e de paixões.
Ao acrescentarmos ao conceito de educação o atributo espiritual, ou melhor, o desenvolvimento da capacidade espiritual, estamos colocando a educação no âmbito do quase inimaginável. Isto significa que ao desenvolver a capacidade espiritual, estará atingindo o educando níveis extraordinários de sua evolução, começando, em primeiro lugar, pelo desenvolvimento da capa­cidade volitiva, conquistando poder decisório e perseverança: em segundo lugar, desenvolve o domínio do próprio organismo e o comando da saúde; vem a seguir o domínio do Bem sobre o mal, e a partir daí nada mais realizará sem o exa­me antecipado da conseqüência de seus atos; segue-se a conquista do controle da mente e do pensamento, já passando a desenvolver uma certa autoridade sobre os Espíritos pequeninos ou atrasados.
É indispensável não esquecer a importância do desenvolvimento da humildade, vacina especial contra os germens da vaidade e do personalismo.
Não é por acaso que o Espiritismo está no Mundo. Ele atende ao cumprimento de uma promessa. O momento é propício. E não podemos perder tempo uma vez que o tempo urge. Eduquemo- nos, pois, porquanto educar, à luz do Espiritismo, é agilizar o processo de nossa reforma interior com vistas à perfeição e conquista dos valores essenciais do Espírito que se liberta das cadeias de si mesmo para atender àquele mandamento contido no Versículo 12 do Capítulo 15 de João:
“O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como vos amei.”

Fonte: Reformador – agosto, 1989


PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 18:23

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Sábado, 8 de Outubro de 2011

OBSESSÃO - O Livro dos Médiuns


Dá-se o nome de obsessão ao “domínio que alguns Espíritos exercem sobre certas pessoas”.1 Com estas palavras Allan Kardec inicia o capítulo XXIII, segunda parte, de O Livro dos Médiuns, antecedidas pelo esclarecimento de que a obsessão encontra-se na primeira linha das dificuldades da prática espírita.1
 Mais comum do que imaginamos, a obsessão não se manifesta somente entre desencarnados e encarnados, enfoque dado na referida obra, mas em ambos os planos da vida, o físico e o espiritual, em razão de um fator primordial: a imposição da vontade. Esta é a forma de agir do obsessor, que gosta de dar ordens e de ser obedecido.
 [...] É praticada unicamente pelos Espíritos inferiores, que procuram dominar, pois os Espíritos bons não impõem nenhum constrangimento. Aconselham, combatem a influência dos maus e, se não são ouvidos, retiram-se. Os maus, ao contrário, agarram-se àqueles a quem podem aprisionar. Se chegam a dominar alguém, identificam-se com o Espírito deste e o conduzem como se fora verdadeira criança.1
O domínio obsessivo pode estar associado a muitos fatores: mágoa, revolta, ciúme, inveja, orgulho, fraqueza de caráter etc., sobretudo, à incapacidade de perdoar ou relevar ofensas. Daí a obsessão apresentar diferentes características: desde uma simples influência sem perceptíveis sinais exteriores, até a perturbação completa do organismo e das faculdades mentais, “que é preciso distinguir e que resultam do grau do constrangimento e da natureza dos efeitos que produz”.1
Dessa forma, “a palavra obsessão é, de certo modo, um termo genérico, pelo qual se designa esta espécie de fenômeno, cujas principais variedades são: a obsessão simples, a fascinação e a subjugação”.1 As causas da obsessão, portanto,
[...] variam de acordo com o caráter do Espírito. Às vezes é uma vingança que ele exerce sobre a pessoa que o magoou nesta vida ou em existências anteriores. Muitas vezes, é o simples desejo de fazer o mal; como o Espírito sofre, quer fazer que os outros também sofram; encontra uma espécie de prazer em atormentá-los, em humilhá-los, e a impaciência que a vítima demonstra o exacerba mais ainda, porque é esse o objetivo que o obsessor tem  em vista, enquanto a paciência acaba por cansá-lo. Ao irritar-se e mostrar-se despeitado, o perseguido faz exatamente o que o perseguidor deseja. Esses Espíritos agem, não raras vezes, por ódio e por inveja do bem, o que os leva a lançarem suas vistas malfazejas sobre as pessoas mais honestas. [...]2
Na Obsessão simples, também conhecida como influência espiritual, a ação da entidade desencarnada se manifesta de forma episódica, inoportuna e desagradável, produzindo mal-estar generalizado e inquietações ao obsidiado. Na prática mediúnica, a obsessão simples ocorre “quando um Espírito malfazejo se impõe a um médium, intromete-se contra a sua vontade nas comunicações que ele recebe, impede-o de se comunicar com outros Espíritos”.3 Esta situação pode ser percebida pelo teor das comunicações que, usualmente, apresenta um mesmo tipo de ideias, variáveis apenas quanto à forma, mas não quanto ao conteúdo. O Espírito comunicante apresenta interpretações próprias a respeito de diferentes assuntos, nem sempre condizentes com a orientação espírita. Kardec, contudo, pondera:
Ninguém está obsidiado pelo simples fato de ser enganado por um Espírito mentiroso. O melhor médium se acha exposto a isso, principalmente no começo, quando ainda lhe falta a experiência necessária, do mesmo modo que entre nós as pessoas mais honestas podem ser enganadas por espertalhões. Pode-se, pois, ser enganado, sem estar obsidiado. A obsessão consiste na tenacidade de um Espírito, do qual a pessoa sobre quem ele atua não consegue desembaraçar-se.3
O Codificador considera também que na obsessão simples, o médium sabe muito bem que está lidando com um Espírito mentiroso e este não se disfarça, nem dissimula de forma alguma suas más intenções e seu propósito de contrariar. O médium reconhece a fraude sem dificuldade e, como se mantém vigilante, raramente é enganado. [...]3
A Fascinação é bem mais grave que a obsessão simples, caracterizando-se por “uma ilusão produzida pela ação direta do Espírito sobre o pensamento do médium e que de certa forma paralisa a sua capacidade de julgar as comunicações”.4 O obsessor age sobre a mente do obsidiado projetando imagens e pensamentos hipnotizantes, alimentadores de ideias fixas: o indivíduo fascinado “não acredita que esteja sendo enganado; o Espírito tem a arte de lhe inspirar confiança cega, que o impede de ver o embuste e de compreender o absurdo do que escreve [ou do que faz], ainda quando esse absurdo salte aos olhos de todo mundo”.4
Não é fácil lidar com a fascinação. “[...] Para chegar a tais fins, é preciso que o Espírito seja muito esperto, astucioso e profundamente hipócrita, porque só pode enganar e se impor à vítima por meio da máscara que toma e de uma falsa aparência de virtude.”4
Já dissemos que as consequências da fascinação são muito mais graves. Com efeito, graças à ilusão que dela resulta, o Espírito dirige a pessoa que ele conseguiu dominar, como faria com um cego, podendo levá-la a aceitar as doutrinas mais estranhas, as teorias mais falsas, como se fossem a única expressão da verdade. Mais ainda: pode arrastá-la a situações ridículas, comprometedoras e até perigosas.4
Para auxiliar a pessoa que se encontra sob fascinação espiritual é preciso tato, paciência e compaixão, pois “o que o fascinador mais teme são as pessoas que veem as coisas com clareza, de modo que a tática deles, quase sempre, consiste em inspirar ao seu intérprete [obsidiado] o afastamento de quem quer que lhe possa abrir os olhos”.4
A Subjugação é grau mais aprofundado da obsessão, manifestada como constrição ou opressão, moral ou corpórea, “que paralisa a vontade daquele que a sofre e o faz agir contra a sua vontade. Numa palavra, o paciente fica sob um verdadeiro jugo”.5 Nestas condições, a assistência médica especializada é requisitada, e deve ser associada ao apoio espiritual, uma vez que a pessoa já não tem domínio sobre si mesma. Na subjugação moral, “o subjugado é constrangido a tomar decisões muitas vezes absurdas e comprometedoras que, por uma espécie de ilusão, ele julga sensatas”.5 Na subjugação corpórea, “o Espírito atua sobre os órgãos materiais e provoca movimentos involuntários. [...]
Algumas vezes, a subjugação corpórea vai mais longe, podendo levar a vítima aos atos mais ridículos”.5
O médium obsidiado não deve participar das reuniões mediúnicas enquanto durar o processo obsessivo porque “toda comunicação dada por um médium obsidiado é de origem suspeita e não merece nenhuma confiança”.6 Entretanto, não lhe deve faltar o amparo do passe, da prece, da conversa fraterna, do Evangelho no lar, da água magnetizada, do estudo, do trabalho no bem.
“Os meios de se combater a obsessão variam de acordo com o caráter que ela reveste”7 e a capacidade do obsidiado em se libertar do jugo, o que não é fácil, porque “as imperfeições morais do obsidiado constituem, quase sempre, um obstáculo à sua libertação”.8
Na obsessão simples depende do esforço do obsidiado, que deve “provar ao Espírito que não está iludido por ele e que não lhe será possível enganar; depois, cansar a sua paciência, mostrando-se mais paciente que ele”.7
Na fascinação, “a única coisa a fazer-se com a vítima é convencê-la de que está sendo ludibriada e reverter a sua obsessão ao nível de obsessão simples. Isto, porém, nem sempre é fácil, para não dizer impossível, algumas vezes”.9
Na subjugação, “se torna necessária a intervenção de outra pessoa, que atue pelo magnetismo ou pela força da sua própria vontade. Em falta do concurso do obsidiado, essa pessoa deve ter predomínio sobre o Espírito; porém [...] só poderá ser exercido por um ser moralmente superior ao Espírito [...]. É por isso que Jesus tinha grande poder para expulsar os que, naquela época, se chamavam demônios, isto é, os Espíritos maus obsessores”.10

Reformador Nov.2011

Referências:
1KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 23, it. 237.
2______. ______. It. 245.
3______. ______. It. 238.
4______. ______. It. 239.
5______. ______. It. 240.
6______. ______. It. 242.
7______. ______. It. 249.
8______. ______. It. 252.
9______. ______. It. 250.
10______. ______. It. 251.
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 14:55

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Sábado, 1 de Outubro de 2011

A ISSO FOMOS CHAMADOS


 Amanhece... O céu ainda coberto por tênue nevoeiro deixa transparecer tons de azul esvanecidos pela sombra da noite, que aos poucos desaparece dispersada pelo nascimento do Sol que desponta no horizonte... A lua minguante, recurvada como um barquinho de brinquedo,  segue seu rumo calmo, com seu brilho menos intenso, a nos indicar que com serenidade poderemos vislumbrar a vida que acorda neste novo dia cheio de promessas e expectativas... Há dentro de mim um turbilhão de idéias, de planos para este alvorecer, todavia procuro me acalmar meditando e orando a Jesus para que eu não me perca na pressa nem me acomode na indiferença ao iniciar mais um dia.

Quando somos alvo de problemas que causam desencanto e perplexidade, devemos procurar entender a causa de tudo e acalmar nosso mundo íntimo; buscar nas mensagens do Evangelho de Jesus as lições e diretrizes para desanuviar nossa mente diante dos testemunhos que, certamente, devem auferir se melhoramos nossas atitudes ou se ainda deixamos o orgulho obscurecer nossos melhores sentimentos.

Pois para isto é que fostes chamados, porque também o Cristo padeceu por vós, deixando-vos exemplo para que lhe sigais as pegadas (I Pedro, 2:21).

Passamos a refletir em torno dos problemas que vivenciamos. Sabemos que irão passar e que soluções chegarão para superá-los. Não estamos na Terra para viver somente de prazeres e ilusões, mas sim para os testemunhos diante das aflições que nos procuram em diferentes formas e nos levam a sofrer, muitas vezes, injustamente, se analisarmos apenas nossos atos do presente...

Em sua caminhada evolutiva o ser humano se defronta com situações nas quais são analisadas suas reações e analisados seus comportamentos diante do poder, do dinheiro e da beleza física. Poucos sabem lidar com estes atributos sem ferir o próximo, sem se deixar levar pelas paixões perturbadoras... Dos três, considero o poder o mais perigoso. As pessoas mudam quando dispõem de autoridade material. Tornam-se arbitrárias, prepotentes, insensíveis, usam máscaras procurando ocultar seus conflitos, sua realidade interior...

Muitas o fazem sem perceber que estão causando sofrimentos e prejuízos aos outros...

Julgam-se corretas em suas decisões, não analisam seus gestos e se perdem ante a bajulação dos que as cercam enquanto estão no topo das decisões... Esquecem-se de que tudo é transitório e de que, pela lei de causa e efeito, estão semeando o que colherão no futuro...

Suas atitudes exteriores revelam seu “eu” mais profundo.

Nem o aconselhamento dos mais experientes consegue demovê-las de atitudes impensadas e prejudiciais ao grupo social onde atuam.

Infelizmente, no meio espírita, surgem também pessoas assim, despreparadas para cargos diretivos, iludidas com o poder transitório.

Deveria ser diferente, porque como espíritas desejosos de abraçar a causa do Espiritismo e vivenciar os ensinamentos de Jesus em quaisquer situações da vida, mesmo enfrentando muitas dificuldades, não poderíamos nos deixar levar pelas perigosas tentações do poder...

Todavia, nos verdadeiros espíritas há um grau de discernimento que os torna mais fortes e imune às arbitrariedades, porque se sentem fortalecidos quando a luz do Evangelho se aloja em seu coração, iluminando sua mente.

Alterações profundas acontecem em seu mundo íntimo:

Não se envaidecem ao ocupar posições de destaque; afastam o egoísmo de seu mundo íntimo; evitam dissensões, maledicências e comentários levianos; defendem os mais fracos e não abusam do poder para ferir a quem quer que seja; são simples e humildes, buscando sempre entender o outro, mesmo que discordem de suas opiniões; não impõem sua vontade e buscam sempre o equilíbrio íntimo e a convivência harmoniosa com os que estão caminhando ao seu lado.

São almas livres, sem as algemas do preconceito, da vaidade e das ilusórias conquistas materiais, sabendo que são transitórias as posições, as glórias e o poder...

Quando os ensinamentos de Jesus iluminam nossa consciência para acertarmos nossos passos na senda do progresso moral, nossa sensibilidade aumenta e começamos a perceber nuanças que antes nos eram desconhecidas... Sentimo-nos mais suscetíveis de entender o outro em suas dores e aflições...

Todo crescimento e toda mudança causam sofrimento e desconforto íntimo.

Por estarem mais sensíveis, aguçam suas percepções e padecem incompreensões e distanciamento dos que antes se acercavam deles com objetivo de receber ajuda ou obter alguma vantagem.

Na hora do testemunho geralmente estamos sozinhos...

Mesmo rodeados dos que são verdadeiramente amigos e querem nos ajudar, nos sentimos isolados do mundo... É quando buscamos na fé e no amor de Deus a coragem para prosseguir...

Em nossas fileiras espíritas, quando somos defrontados por problemas e sofremos incompreensões dos que deveriam nos estender as mãos, temos que vigiar as nascentes do coração e ouvir as lições de Jesus que enriquecem nosso mundo íntimo, convidando-nos à reflexão em torno dos valores reais da vida, da aceitação da lei divina, e buscar no recôndito de nossas almas o conforto espiritual para vencermos, os desafios do caminho.

Emmanuel nos diz que:

Se nos encontrarmos, pois, em extremos desajustes na vida íntima, em face dos problemas suscitados pela fé, saibamos superar corajosamente os conflitos da senda, optando sempre pelo sacrifício de nós mesmos, em favor do bem geral, de vez que não fomos trazidos à comunhão com Jesus, simplesmente para o ato de crer, mas para contribuir na extensão do Reino de Deus, ao preço de nossa própria renovação.

E enfatiza que não podemos desistir da luta, nem recuar diante do sofrimento, mas sim aprender a usá-lo na concretização de nossos ideais de amor e crescimento espiritual por meio da fraternidade, da compreensão, do ânimo e da alegria, prosseguindo corajosos e livres.

Jesus nos deixou o roteiro, e se fomos chamados a servir, caminhando ao seu encontro, teremos que alijar de nosso coração a mágoa, o desencanto, o desânimo, buscando sempre evidenciar que já estamos seguindo seus ensinamentos e já conhecemos o quanto ainda nos falta crescer para chegarmos até Ele.



“A isso fomos chamados”...


Lucy Dias Ramos
REFORMADOR SET.2010
PUBLICADO POR SÉRGIO RIBEIRO às 00:01

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